sábado, 7 de janeiro de 2012

De Diana Corso[ não teremos tempo de SER e TER TUDO ]







" a consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de SER e TER TUDO "...

texto: Diana Corso

Bilbo tem 13 anos.Para humanos é o fim da infância,na sua trajetória canina é o fim da vida.Mas,isso não é novidade para ele,nem para nós.Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida.Alegavam,o que deve ser verdade,pois apareceu nos exames da época,que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa toráxica , e 30% da função renal.A não ser que um milagre tenha acontecido,isso só pode ter piorado.Na ocasião lhe receitaram remédios,ração especial, uma vida de velho. Ele detestou, é próprio da sua raça a infância eterna.Nenhum buldogue francês amadurece,eles só ficam mais lentos. Os tratamentos o tornaram magro e deprimido.Ficava de mau humor cada vez que lhe dávamos uma pastilha .Por isso decidimos deixá-lo em paz; que durasse pouco ,mas fosse feliz!

Cortamos os remédios,a ração insossa.Livre da existência terminal,voltou a brincar e correr.Hoje,se fosse gente,teria uns 80 anos.Se fosse humano talvez já estivesse morto,de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança,achamos que a vida ,se não for infinita,não adianta que dure.
A religião tampouco consola,pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto.Mesmo com saúde,é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas décadas nos restam.Aliás o envelhecimento é exorcizado principalmente,porque informa do tempo que´já gastamos.
Velhice é folha corrida.
A fantasia de ser eterno e intacto,como os belos vampiros contemporâneos,faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades.A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e de ter tudo.Mas entre a ignorância animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.

Convivi com amigos,que,em vez de morrer de véspera,fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria.
Há duas décadas o diagnóstico da contaminação pelo HIV,era um prenúncio de morte.Felizmente,não foi assim para todos,mesmo antes da descoberta do coquetel.Em alguns casos,a ameaça da morte os livrou das dúvidas pueris,da adolescência eterna.Agarraram-se à vida com vontade,viabilizaram escolhas profissionais,relacionamentos estáveis.Pressionados ,efetivaram-se no emprego da existência.A medicação que lhes devolveu a imunidade , já os encontrou de bem com a vida.
Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era :" Benigno "!Há duas décadas o diagnóstico da contaminação pelo HIV,era um prenúncio de morte.Felizmente,não foi assim para todos,mesmo antes da descoberta do coquetel.Em alguns casos,a ameaça da morte os livrou das dúvidas pueris,da adolescência eterna.Agarraram-se à vida com vontade,viabilizaram escolhas profissionais,relacionamentos estáveis.Pressionados ,efetivaram-se no emprego da existência.A medicação que lhes devolveu a imunidade , já os encontrou de bem com a vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente?


Como meu velho cão.

Heróis Anônimos....pais e mães que abdicam de suas próprias vidas.







De : NILSON SOUZA

Heróis invisíveis

Somos um povo carente de heróis. Por isso, rotulamos de semideuses nossos ídolos esportivos, nossos artistas mais talentosos e até mesmo figuras caricatas que, por algum motivo, alcançaram projeção. O heroísmo, na sua origem, caracteriza-se por ser um ato moralmente justificável, mas este aspecto nem sempre é levado em conta na avaliação popular. Na maioria das vezes, o que conta é a visibilidade.

O primeiro herói de 2012 foi um pedreiro de Belo Horizonte que encarou duas vezes a fúria da enchente na capital mineira para tirar pessoas presas em carros arrastados pela água. Neste caso, o homem mereceu a louvação, pois mostrou coragem e determinação para salvar a vida de pessoas desconhecidas.

Ainda assim, só recebeu reconhecimento porque alguém filmou o seu ato e as imagens foram reproduzidas na televisão – ainda a principal vitrine das mais notáveis aventuras humanas. A tevê consagra, mas também deforma. Basta lembrar Pedro Bial chamando os participantes do Big Brother de “nossos heróis”.

Herói, diz a definição, é aquele que reúne virtudes como fé, coragem, força de vontade, determinação e paciência – e as utiliza por uma causa nobre. O pedreiro Charles, naquele momento de tensão do aguaceiro de Belzonte, cumpriu alguns desses pré-requisitos. Também tiro o meu chapéu simbólico para ele. Mas gostaria de lembrar que o país tem muitos outros heróis invisíveis, que raramente recebem reconhecimento porque praticam suas ações longe das câmeras e dos holofotes.

A lista é grande e poderia, sem qualquer demagogia, começar pelos trabalhadores que ralam para ganhar a vida honestamente, muitas vezes tendo que sustentar famílias numerosas. Mas não é a eles que quero homenagear neste texto. Meus heróis anônimos são os casais que adotam crianças doentes, muitas delas enjeitadas por serem portadoras de deficiência.

Meus heróis anônimos são os pais e mães que abdicam de suas próprias vidas para cuidar de filhos que vieram ao mundo sem todas as ferramentas de sobrevivência. Meus heróis anônimos são os médicos, enfermeiras e cuidadores que dedicam o melhor de sua habilidade e muito do seu tempo para amenizar o sofrimento de pacientes que sequer conhecem.

Meus heróis anônimos são os professores e professoras que vão além da obrigação do ofício, lançando sobre os alunos um olhar de humanidade para ajudá-los a se tornarem pessoas dignas e íntegras. Meus heróis anônimos são todos os brasileiros que se preocupam com os seus semelhantes, tanto ou mais do que consigo mesmo, sem esperar reconhecimento.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Bordados da Alma



Eu sou apaixonado por textos que interrogam, não que dão certezas ou fórmulas. Textos que permitem a gente se duvidar um pouco mais do que o necessário, enlouquecer um pouco mais do que a dosagem normal, vibrar um pouco mais do que o permitido por lei.








(Fabrício Carpinejar)





'Não é que o mundo seja só ruim e triste.
É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais.
Quando uma pena flutua no ar por oito segundos,
ou a menina abraça o seu melhor amigo,
nenhum jornalista escreve a respeito.
Só os poetas o fazem.'









"Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas."

[Rita Apoena]

Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.

[Charles Bukowski]



Sobre a Tonalidade


"Tem gente que passa só algumas horas na nossa vida e já faz um bem imenso.
Tem outras pessoas que chegam só pra fazer um estrago e ir embora sem ao menos prestar socorro.
Tem pessoas que nos enchem de sorrisos e de boas recordações e fazem um dia valer por mil.
Tem gente que só serve pra nos fazer enxergar que a maldade existe.
Tem gente linda querendo entrar no nosso coração, enquanto a gente insiste em prender as pessoas feias de alma lá dentro.
Libera espaço pro que vale a pena, babe!
Se liberta do que te faz mal. Deixa a felicidade entrar pra ficar."




[Karla Tabalipa]

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Qual é o filme da sua vida?
texto: André Gravatá





Uma parte da família da jornalista Eliane Brum mora na zona rural.Quando criança, ela passava os fins de semana por lá.A pequena Eliane brincava o dia inteiro de ser escutadeira e olhadeira:ela se sentava num banquinho e ouvia as histórias dos adultos por horas e horas,sem se cansar.Infiltrava seus ouvidos nas conversas e varria os olhares alheios com suas pestanas.Ela amava- e ainda ama - se deixar preencher pelo extraordinário que habita as pessoas.Que habita gente como você,sim,não só a vida das pessoas ao seu redor,mas também a sua vale uma espiada atenta.Do momento em que você nasceu até hoje,passou-se uma trama complexa,cheia de idas e de vdas.A amálgama das suas diferentes lembranças é um tesouro , um argumento para um filme nunca feito,de múltiplos enredos.

Uma narrativa única,articulada com os registros que resistiram ao esquecimento.
Observar a vida com um olhar generoso é perceber a singularidade da própria história.

É exercitar um olhar insubordinado ,ressignificar o que usualmente é tachado de banal " nada é mais transformador que nós percebermos extraordinários -e não ordinários como toda a miopia do mundo nos leva a creer"! ... afirma Eliane Brum, em seu livro " A Vida que Ninguém Vê ",da Arquipélago Editorial.

A partir do momento em que desconfiamos da banalidade ,começamos a perceber que a vida real é tão interessante quanto a ficção.


LETICIA WIERZCHOWSKI

Dos cachorros perdidos

Quando eu era pequena, tive um cãozinho chamado Wisky. Um dia, o Wisky desapareceu. Passou um dia inteiro sumido, e achamos que tinha fugido do pátio. Fiquei tristíssima.

Na manhã seguinte, encontramos o Wisky dentro do forno do meu fogãozinho de brincadeira – era um fogão de metal colorido, com um forno com portas de mola, e o Wisky, pequenino e curioso, ao espiar lá para dentro, acionou a mola e foi catapultado para o interior forno, lá permanecendo até que a minha mãe o encontrou, com fome e sede, mas perfeitamente intacto.

Depois foi a vez do Peter, e esse foi um sumiço espetacular. O Peter era um cocker spaniel negro, inteligentíssimo, que tinha fugido de uma outra casa, e um dia entrou no nosso carro, agregando-se assim à família.

Pois, certa vez, tínhamos ido às dunas em Cidreira, costumávamos passar algumas tardes na beira da lagoa, e era uma alegria. Naquela vez, o Peter foi conosco e, ao descer do carro, fascinado pela imensidão de areia, aquele cocker maluco saiu correndo e desapareceu.

Passamos a tarde inteira chamando por ele, e nada. Meu padrinho voltou à lagoa por mais duas tardes (era um virginiano teimoso), até que, na terceira tarde de buscas, viu uma manchinha preta na imensidão de areia branca: era o Peter que, com insolação e desidratado, estava caído no alto de um cômoro. O Peter recuperou-se galhardamente, mas nunca deixou de dar as suas escapadinhas, até que, um dia, escapou-nos de vez...

Agora a Nana, nossa cachorrinha, resolveu entrar 2012 causando sustos, e fugiu, cavando um buraco sob o portão. Explico-me: a Nana, que já é uma senhora de 12 anos, vive conosco desde pequena e, depois de nove anos, quando nosso filho caçula nasceu, a Nana foi morar uns tempos na casa da minha irmã, onde vive feliz até hoje.

Assim, nesses dias de verão, ela estava conosco de férias. E fugiu. Todos os vizinhos já sabem, e, oxalá, a Nana vai aparecer. Mas me bateu uma tristeza quase infantil – por mim, pela minha irmã, pelos meus meninos. Qual foi a criança que nunca chorou por um seu cãozinho?

Volta Nana, volta logo. Volta, nossa Nana Caymmi peluda. Mas, se não voltar, que estejas feliz com alguma família legal... Afinal, o Peter pulou pra dentro do nosso carro num domingo, sem avisos, e foi um grande amigo que eu tive









quarta-feira, 4 de janeiro de 2012








LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Ano: 2012

Qual a importância de uma passagem de ano, senão um simples enter na agenda eletrônica? O decurso dos anos, com sua implacável inexorabilidade astronômica, é que importa. Todos sabemos que esse decurso nos aproxima da morte, e no entanto o celebramos, anestesiados por uma vertigem.

Na verdade, não acreditamos em nossa morte pessoal, como diz Heidegger, e, no entanto, acreditamos numa morte abstrata e geral: “morre-se”, pronto – mas isso não vale para mim; talvez eu seja uma exceção.

Essa tolice foi contestada por dois grandes pensadores: Sartre, ao ser perguntado se não tinha medo da morte, respondeu que, vivo, não existia a morte; morto, ele não saberia que estava morto. Saramago foi mais direto, à boa moda lusa: “A morte? Simples: ora se está, ora não se está mais”.

Claro que o assunto é perturbador, especialmente quando um novo ano se inicia e não temos nenhuma certeza de que chegaremos ao fim dele. Quem sabe aí está a razão da vertigem, já anunciada por Horácio: carpe diem quam minimum credula postero, o que quer dizer, mais ou menos: colhe o dia presente e desconfia do futuro.

Veja-se: não se trata apenas de aproveitar o momento, mas desconfiar do futuro. Desconfiar do futuro radica no sentimento de sua total imprevisibilidade, exceto para os adivinhos e mágicos de feira. O futuro é tão inquietante quanto o passado, o qual nada possui de objetivo, pois vem sempre transfigurado por nossa imaginação.

A celebração da passagem do ano é, portanto, uma celebração do presente, um abismar-se no hic et nunc, no aqui e agora – mas não só. Significa, também, atribuir um valor absoluto ao minuto que passa, o qual nada deve ao futuro ou ao passado.

É a mesma celebração do astronauta quando sai da nave e flutua no espaço. Todos os relatos desses viajantes coincidem na falta de referências. É a mesma ausência, também, da descoberta de Humboldt que, com a bússola na mão em pleno equador terrestre, descobriu o ponto nulo em que os polos positivo e negativo da Terra se anulam mutuamente, e a agulha desorienta-se por completo.

Comemoremos, portanto, essa passagem, esse ponto nulo em que não devemos nada à vida e nem ela deve a nós. Mas que não nos falte a solidariedade, para dizer que amanhã seremos os mesmos, preocupados não apenas com nossa vida individual, mas com o destino comum da Humanidade, que vive no Tempo e na História.

Momento de Reflexão...










Novo ano, novos hábitos

A chegada de 2012 é um bom momento para rever práticas e adotar atitudes que possam melhorar as relações pessoais e profissionais

Se a virada do ano o inspira a resoluções que enfatizam cuidar de si, investir na profissão ou se dedicar à família e aos amigos, esqueça a tendência de compartimentar cada um desses três tópicos, listando-os de forma alternada. São itens cumulativos e interdependentes. A ideia dos especialistas é simples: junte tudo em um mesmo projeto para melhorar a qualidade de vida tanto pessoal quanto profissional.

Pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Lisete Barlach, especialista em criatividade e inovação nas empresas, defende a ideia segundo a qual as vidas pessoal e profissional têm complementariedade.

– Seria sábio manter uma vida mais equilibrada. Uma vida voltada só ao trabalho pode gerar consequências sérias – ponderou.

Lisete elaborou a frase acima, silenciou por alguns segundos e estabeleceu sua “resolução ideal”:

– Uma boa resolução seria não fazer só o que é urgente. Nossa cultura é a da urgência. Vivemos resolvendo problemas urgentes e pouco cuidando de nós e de assuntos familiares. Isso tem consequências graves. O desequilíbrio pode afetar a saúde e até a capacidade profissional. Passamos a vida apagando incêndios.

Mais que a urgência impregnada em nossa cultura, Lisete alerta as pessoas para a tendência de “enfatizar apenas um dos lados da vida, o lado profissional, de trabalho”. Se há quem dê atenção excessiva a esse aspecto, outros vivem o drama de relaxar e, com isso, perder espaço e relevância profissional. O segredo, portanto, é estar sempre alerta e disposto – nem que seja preciso mudar de comportamento.

A pesquisadora faz uma analogia com a situação do esportista que usa doping para ter um efeito imediato, mas vê sua trajetória comprometida. Trata-se de buscar a sustentabilidade do que ela classifica como um tripé incentivado acertadamente por algumas empresas: as vidas pessoal, familiar e no trabalho.

Um ponto importante está na interligação de trabalho e vida pessoal. Conforme André D’Angelo, especialista em consumo na Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), o trabalho estafante por vezes é fruto do consumo em excesso – ou pode ser um meio para sustentá-lo.

– Muitas vezes, manter rotinas estafantes de trabalho só se justifica se a pessoa quiser manter padrões de consumo elevados. A redução nos parâmetros do que venha a ser conforto e bem-estar material pode significar igual redução na necessidade de trabalho – e, consequentemente, mais tempo livre para outras atividades mais prazerosas – sustenta.

D’Angelo acrescenta o impulso de comprar como um hábito a ser revisto. Explica que praticar o exercício mental de pensar duas vezes (ou quantas forem necessárias) antes de se tomar uma decisão não só afasta compras desnecessárias, como fortalece a sensação de autocontrole, de comando da própria vida. Faz bem, portanto:

– Quando se quer comprar algum supérfluo, aguarde um mês antes de ceder ao impulso. O desejo de consumo é como qualquer outro: vem e passa. Se permanecer depois de 30 dias, ok, permita-se comprar numa boa. É um sinal de que não há por que se privar daquilo e que a aquisição não vai trazer culpa.

Exercitar o desapego a bens materiais, segundo ele, também é uma boa resolução:

– Ver o que há em excesso em casa – roupas, livros, enfeites – e descartar alguns itens pode não ser fácil num primeiro momento, mas costuma compensar no longo prazo. Geralmente, menos coisas significa menos poluição visual e mais organização, o que traz bem-estar.

Pelo menos no imaginário, o momento é de reflexão, e as pessoas tendem a buscar novos hábitos, seja em termos alimentares ou de dedicação à comunidade.

– É um momento de reflexão, em que se celebra o fim de um ciclo, que é um ano, e o começo de outro ciclo. A pessoa reflete e revisa hábitos. Pode funcionar ou não – diz o consultor de novos negócios Igor Oliveira.

leo.gerchmann@zerohora.com.br;

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um ano está partindo ,outro ano está chegando...

Chegadas e Partidas
de Martha Medeiros





Quem se queixa de que não há mais afeto no mundo precisa dar uma espiada no programa Chegadas e Partidas, que vai ao ar às quartas (hoje!), pelo canal GNT. Mais que merecido o prêmio que levou de Melhor Programa de Televisão em 2011, dado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

A apresentadora Astrid Fontenelle grava o programa dentro de um aeroporto, onde colhe depoimentos de pessoas que estão esperando alguém ou se despedindo de alguém. As histórias são simples e comoventes, provando que nossos dramas e alegrias particulares ainda são o que há de mais rico e raro por aí (sem falar que a trilha sonora é de primeira).

Na quarta passada, Astrid mostrou duas irmãs se despedindo de uma senhora de 80 anos que estava embarcando para Rondônia, sua terra natal. As duas irmãs conheciam essa senhora havia apenas três meses, quando se ofereceram em uma instituição de idosos para cuidar dela por um dia, como voluntárias.

Porém, se apegaram à senhora e a levaram para casa até que ficasse curada. A hóspede tinha um aneurisma e sofrera um AVC, apenas isso. Essas garotas são filhas de um motorista de ônibus, que também estava no aeroporto para acompanhar pessoalmente o retorno da senhora ao lar. Seria o primeiro voo de ambos – passagem paga através de uma cotização de vizinhos.

Esse pai e suas duas filhas se mobilizaram por uma senhora que não conheciam e choraram sua partida como se fosse alguém com quem tivessem convivido desde a infância. Como disse Astrid, tem gente que não cuida de uma mãe ou de um irmão doente, e no entanto essa família humilde assumiu a responsabilidade de cuidar de uma estranha, dando-lhe remédios e algo ainda mais terapêutico: amor.

Credo, escrever essa palavra – amor – me fez sentir um Tiranossauro rex. Constranger-se em falar de amor é um mau sintoma.

Chegadas e partidas. Um filho que nasce, um filho que morre. Uma paixão que brota na quinta-feira, uma paixão que termina no domingo. Desconhecidos que viram amigos de uma hora para outra, e amigos que somem no mundo sem dar mais notícias. Nossa vida é uma espécie de rodoviária – ou aeroporto, hoje dá no mesmo.

Todos esperando alguém que virá matar a saudade, que irá preencher um vazio, ou então se despedindo de alguém que buscará a felicidade em outro lugar, que irá trabalhar longe de casa.

Pouco temos nos comovido no dia a dia, atucanados em ganhar tempo e em cumprir metas, então nosso afeto só tem transbordado, pra valer, no momento crucial de uma separação ou de um reencontro.

Um ano está partindo, outro ano está chegando. Eu, dentro da minha “rodoviária”, fico com os olhos marejados tanto pelo que deixo para trás quanto pelo que aguardo. Ou virei um merengue, ou estou ficando velha. Que seja. A boa notícia é que ainda me emociono.






terça-feira, 27 de dezembro de 2011





Moscas, tigres e dinossauros
David Coimbra

Para que existem moscas? Francamente.

Uma amiga minha, depois de três anos vivendo entre Escócia e Inglaterra, teve de voltar ao Brasil. Quando pisou em solo pátrio, o primeiro ser vivo que a tocou foi uma mosca. Desatou a chorar. A mosca, para ela, era um símbolo do nosso atraso tropical e católico.

Moscas. Os ecologistas dizem que tudo na Natureza tem a sua lógica e a sua função, que tudo está encadeado. Assim, as aranhas serviriam para comer as moscas. Não fossem as aranhas, haveria superpopulações de moscas, as moscas tomariam conta da Terra.

Mas e se não existissem moscas? Se elas simplesmente desaparecessem, como desapareceram as mulheres que sabem fazer nhoque? Neste caso, não precisaríamos de aranhas, que amiúde são peçonhentas. Estaríamos livres de dois inconvenientes ao mesmo tempo: as chatíssimas moscas e as ameaçadoras aranhas. Perfeito.

Esse negócio de que a Natureza é sábia e deve ser preservada eternamente como está é uma balela. Milhares, milhões de espécies foram extintas e não fazem a menor falta. A minha curiosidade em conhecer um pássaro dodô é a mesma de conhecer um chester: nenhuma. Agora, se há 65 milhões de anos existissem ecologistas, eles estariam tentando preservar os dinossauros e os pterodátilos.

Imagine os gastos de uma reserva para dinossauros. Rondônia já é quase toda dos índios, teríamos de deixar uns dois Matos Grossos para os dinossauros. E vez em quando eles escapariam para as cidades e fariam estragos de um Godzilla em Tóquio, amassando carros, derrubando prédios, mastigando pessoas. Não. Muito melhor os dinossauros estarem bem extintos.

Além do mais, quem garante que não foi melhor para os dinossauros aquele fim nobre, um meteoro caindo sobre o México, fazendo o eixo do planeta se deslocar e abatendo-os todos rapidamente num grande cataclismo? Talvez tenha sido mais digno do que a decrepitude inevitável por que passam os seres longevos.

Schopenhauer defendia a extinção da espécie humana como a única forma de escapar ao sofrimento existencial. A extinção como salvamento. O ideal, para ele, era que cessássemos com nossa ilógica ânsia reprodutiva. Parássemos de ter filhos.

Em pouco tempo, a Humanidade atingiria um fim suave e, com o fim da Humanidade, findaria a dor. Um ótimo plano. Mas, enquanto não é levado a cabo, por que continuar a conviver com moscas? Vamos acabar com elas! Danem-se os ecologistas.

Que herdem o planeta apenas os que o merecem, aqueles que são elegantes, como os felinos em geral, e em especial os tigres, com sua independência feroz e altaneira; os tipos alegres, que não se levam a sério, como os macacos de quaisquer tamanhos, sobretudo os chimpanzés; os emotivos cachorros, principalmente os de grande porte; os cavalos e sua fidalguia orgulhosa; os passarinhos chilreantes; os peixes silenciosos, com destaque para o saboroso bacalhau; e até uma ou outra baleia, desde que não se aproxime muito da costa.

Quanto aos insetos, míseros bichos de seis pernas, livremo-nos deles.

“Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”, proclamava Saint-Hilaire no século retrasado. Hoje seria vilipendiado pelas redes sociais. Sabia, Saint-Hilaire, que alguns não merecem sobreviver. A saúva. A mosca. E os técnicos mal-educados.

Não servem para nada, os técnicos de futebol grosseiros, que mal sabem se expressar na última flor do Lácio inculta e bela, que estão sempre emburrados e que ganham centenas de milhares de reais por mês. Que sejam extintos todos, junto com as moscas, até que enfim realizemos o plano de Schopenhauer.

Solidão cósmica é bela como uma ópera!

Saudades de Deus
De:Luis Felipe Pondé





O ateísmo me parece, entre todas as hipóteses sobre o universo, a mais fácil e simples

Tem coisa mais monótona do que discutir sobre a existência ou não de Deus? Ninguém crê em Deus "por razões lógicas". Isso é papo furado. Ninguém "decide" ter fé.

Tentar provar que Deus existe porque ele seria "uma necessidade da razão" me parece um engodo.

Primeiro porque a razão é risível em suas necessidades, como diria o cético Michel de Montaigne (século 16). A pergunta pela origem de tudo que existe (como numa espécie de aristotelismo aguado) não prova nada. Temos inúmeras necessidades que não são autoevidentes -por exemplo, que o bem deva vencer ao final das coisas.

Muitas vezes o mal vence e pronto. Quase sempre. Por outro lado, é interessante se pensar de onde veio a matéria que explodiu um dia e o lugar onde ela explodiu.

Mas isso nada prova acerca do Deus ocidental. O princípio pode ser uma mecânica estúpida.

Aliás, o chamado "argument from evil" (argumento a partir do mal) do ateísmo é famoso. Autores grandes como Dostoiévski e Kafka, entre outros, já o frequentaram de forma brilhante.

O argumento basicamente é o seguinte: se Deus é bom, por que o mundo é mau? Alguns já chegaram a supor que Deus seria mesmo mau, como o próprio Kafka.

Duas questões são importantes apontar nesse debate, uma com relação aos crentes, outra aos ateus.

Primeiro os crentes. Uma falácia comum por parte dos crentes é supor que seria impossível você ser uma pessoa razoavelmente moral sem alguma forma de religião. A história prova que ateus e crentes dividem o mesmo lote de miséria moral. Pouco importa ser ou não crente.

Pessoalmente, acho que o acaso decide: o temperamento (o acaso de você ter nascido "assim ou assado") é quase sempre o juiz do comportamento humano e não "valores" religiosos ou éticos seculares (não religiosos).

Portanto, a tentativa de afirmar que, se você é ateu você necessariamente não é "bom", é pura falácia. Tampouco penso que uma religião faça falta para todas as pessoas. Muita gente vive sem crise sem acreditar em coisa nenhuma "do outro mundo". Isso não significa que ela seja sempre feliz (tampouco os religiosos o são), a (in)felicidade depende de inúmeros fatores.

E mais: "crer ou não crer" não é algo que você escolhe, "acontece". Grandes teólogos como Santo Agostinho, Lutero e Calvino diziam que a "fé é uma graça" (simplificando a coisa), alguns receberam o dom e outros não (portanto, ela "acontece", como eu dizia acima, não é você quem escolhe ter ou não). Acho essa ideia bem mais elegante do que esse papo furado acerca das necessidades racionais, sociais, morais ou psíquicas da crença.

Quanto aos ateus, acho risível a ideia de que o ateísmo seja uma "conquista" da razão ou de alguma forma de rigor moral ou "coragem cosmológica".

Nada disso, como já disse antes, e repito, até golfinhos conseguem ser ateus em sua maravilhosa vida aquática. Fiquei ateu quando tinha oito anos.

O ateísmo me parece, entre todas as hipóteses sobre o universo, a mais fácil, simples, rápida e quase "fast food theory" (teoria fast food).

Não precisamos nos esforçar muito para perceber que podemos talvez um dia descobrir a causa

"natural" do universo, ou acabarmos como espécie antes de descobrir qualquer coisa. E "who cares" se sumirmos um dia?

E mais: é quase evidente que somos uma raça abandonada na face da Terra e a indiferença dos elementos naturais para conosco (sejam eles externos ou internos ao nosso corpo) salta aos olhos.

E mais: a possibilidade de estarmos sozinhos é sempre mais fácil do que acompanhados por um ser maravilhoso, dono do universo e que sabe cada fio do cabelo que você tem na cabeça.

Não há nenhuma evidencia definitiva de que Deus ou que qualquer outra entidade divina exista. O ônus da prova é de quem crê. Além do fato de que os japoneses, caras bem inteligentes, não creem em Jesus na maioria das vezes.

Acho Deus uma hipótese acerca da origem das coisas mais elegante do que a dos golfinhos. Mas, por outro lado, a ideia de que um dia o pó tomou consciência de si mesmo e constatou sua dolorosa solidão cósmica é bela como uma ópera.

ponde.folha@uol.com.br ;







Aglomerados subnormais...

Onze Milhões , Em FAVELAS
11 milhões





Submoradias não são sinônimo de miséria, mas sua perpetuação expõe incapacidade do país de resolver seus problemas

O Censo Demográfico do IBGE contou cerca de 11,4 milhões de pessoas vivendo em "aglomerados subnormais", o termo técnico que designa favelas, mocambos, palafitas, grotas e outros conjuntos de ao menos 51 moradias estabelecidas em assentamentos irregulares e carentes de serviços públicos. Trata-se de 6% da população.

Embora as condições socioeconômicas médias nos "aglomerados subnormais" sejam inferiores às das áreas urbanas regulares, observe-se que a "favelização" em si mesma não diz muito sobre o nível de renda, escolaridade ou saúde.

Cerca de 8,5% da população brasileira vive em extrema pobreza, com renda familiar per capita inferior a R$ 70 mensais.

Quase metade dessas pessoas vive em áreas rurais. Mas 88% das casas dos "aglomerados subnormais" estão em regiões metropolitanas com mais de um milhão de habitantes. Cerca de metade dos brasileiros "favelizados" vive em São Paulo, no Rio e em Belém.

Assim, a permanência das favelas diz mais a respeito de perversões do desenvolvimento brasileiro do que sobre níveis de pobreza.

O inchaço das favelas ocorreu na grande migração do final dos anos 1960 e 1970. O crescimento econômico rápido atraiu brasileiros de zonas rurais e de pequenas cidades, desamparados no que diz respeito a posse de terra, emprego, educação e outros serviços sociais.

As atuais cidades repletas de favelas são resultado do descaso com a brutal desigualdade do Brasil "antigo" e do crescimento econômico desigual do Brasil "novo".

A falta de instrução, de acesso a trabalho e de reforma agrária no passado provocou a migração em massa. O crescimento inflacionário e a ausência de reforma urbana concentraram os migrantes nas favelas e assemelhados.

A quase inexistência de políticas de regularização das propriedades urbanas, o descaso com o planejamento das cidades, seu inchaço e a degradação dos antigos centros, a falta de transporte adequado, tudo isso contribui para a perenização desse tipo de ajuntamento, a favela -algo tão característico do Brasil que o termo em português é conhecido de cidadãos mais informados de outros países.

É preciso acelerar a regularização dos imóveis urbanos e instalar infraestrutura de serviços sociais e de segurança nesses bairros marginalizados. Criar programas habitacionais que transformem a vida do ajuntamento "subnormal" em parte comum da cidade, sem que seus moradores sejam expulsos para bairros distantes.

Os "aglomerados subnormais" decerto degradam a vida e as perspectivas dos brasileiros aí residentes, embora não caracterizem por si só a pobreza. Dão conta, isso sim, da incapacidade do país de planejar e executar a tardia integração de todos os seus habitantes à vida civilizada.

IBGE
BRASIL

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Cristo e Noel coexistem,cada um seu espaço...





Cláudio Brito*

Um dia depois

O Natal já passou, hoje é segunda-feira e uma pergunta gostaria de ver respondida, com clareza e sinceridade: quem foi o personagem principal, Cristo ou o Papai Noel?

Não vale dizer que seu protagonista reuniu um pouco de cada um. Dizer nenhum também não vale. Não creio que exista alguém tão refratário ou insensível que seja neutro ou frio ante as comemorações de fim de ano. Aceito até que se diga não gostar dessa época, por tristeza, solidão ou mau humor, mas não é verdade que o Natal seja apenas mais um dia no calendário.

Um padre me disse que a Páscoa é maior, mexe mais com os sentimentos dos cristãos. O Natal teria a marca da esperança, a Páscoa tem o timbre da vitória sobre a morte.

Um psiquiatra afirmou que o período é de fantasia e euforia, faz voltarmos à infância e isso pode trazer alguma frustração posterior.

Um jornalista indagou-me sobre o rumo a seguir neste escrito e a meta pretendida com minha reflexão. Um sociólogo abordou o tema pelo viés dos fenômenos de massa e construiu a tese de que muita gente embarca no turbilhão natalino sem muito pensar, vai de roldão.

O querer bem, sem olhar a quem e o bem pensar, sem maldade ou reticências, eis as recomendações de um psicólogo para um bom e produtivo Natal.

Um senhor já avançado na idade me disse que o Natal deste ano foi o maior e melhor de sua vida. Maior, porque durou quase uma semana. Melhor, porque foi o que lhe trouxe mais alegria. Contou-me que, carregando bolas de futebol e bonecas em seu carro, percorreu a Avenida Ipiranga três dias e duas noites.

Onde encontrou crianças, nos cruzamentos, calçadas e perto de outros cantos usados como abrigo, deu bolas para os guris e bonecas para as gurias. Jura que viu os sorrisos mais lindos de sua vida.

E chorou ao lembrar da menina que abraçou a boneca sem expressar qualquer emoção. Apenas olhou para aquele homem bondoso, apertou junto ao peito o presente e retirou-se. Meu amigo ainda pensa a respeito e me ajuda na conclusão. Não importa quem tenha sido o destaque do Natal de cada um. Cristo ou Papai Noel?

Há lugar para os dois em seu coração e em seu comportamento?

Já disse que não vale combiná-los para uma resposta em fuga, mas é claro que Cristo e Noel coexistem, tem cada um seu espaço e momento. O que vale é percebermos quanto um gesto e um olhar representam e nos bastam.

Então saberemos que Cristo e o bispo São Nicolau, que inspirou a criação da figura de Noel, foram homens como nós. A dimensão humana do divino, ou a divindade do homem? O que importa? Um dia depois é mesmo possível dizer que foi um grande Natal, de pensamento e de atitude.

*Jornalista

tomara que as previsões estejam erradas...

2012 – O fim do mundo
Kledir Ramil









Segundo as leituras que andam fazendo do calendário Maia, em 2012 estaremos chegando ao fim do mundo. Gostaria de aproveitar a oportunidade e me despedir de todos. Foi um prazer ter vocês como companheiros de viagem durante esses anos em que estivemos nos equilibrando sobre essa bola simpática, que gira pelo céu a uma velocidade espantosa de 1.674 km/h.

Isso mesmo, é mais que a velocidade do som. Nunca consegui entender como é que a gente não cai e nem perde o equilíbrio, o que, a essas alturas, já não importa mais.

Eu achava que iria acabar antes do mundo e já estava me preparando para receber a recompensa que me foi prometida. Todas as religiões afirmam que a gente vai sair dessa pra outra melhor, desde que se comporte direito.

Fiz meu dever como um aluno aplicado e abri mão de tudo que era proibido. Me dediquei à prática das virtudes e, com enorme esforço, evitei os pecados. Alguns bem interessantes. Levei uma vida de santo, com o objetivo claro de alcançar a vida eterna, num quarto com vista pro infinito, um mínimo de conforto e regalias, sem ter que me preocupar com contas para pagar.

Agora, comecei a ficar preocupado. Caso se confirmem essas previsões de uma grande catástrofe definitiva, não sei se as promessas das igrejas serão cumpridas. Sim, porque uma coisa é morrer sozinho e ser recebido no céu com carinho e atenção.

Outra coisa é chegar um bando de 7 bilhões de almas querendo entrar no portão. Quem vai organizar isso? Será que tem lugar pra todo mundo? Será que o pessoal está preparado? Se em um teatro com lotação esgotada já é difícil segurar o público que ficou sem ingresso, imagina uma situação dessas.

Estou começando a me sentir como aquele cara que apostou na bolsa tudo o que tinha e saiu lesado. Tenho um patrimônio de vida que me daria direito a uma série de privilégios para todo o sempre. Mas se a coisa sair do controle, quem me garante? Mesmo que consigam organizar o engarrafamento do registro de entrada, periga eu ficar numa fila interminável com gente exaltada gritando “Isso é o fim do mundo!”. O que não deixaria de ser verdade.

Era só o que me faltava. Acho uma maldade com um cara que teve uma vida exemplar. Não era isso que eu esperava da vida eterna.

Tomara que as previsões estejam erradas.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Corações puros.Crianças Alegre,É noite de Natal.





A LIÇÃO DA INOCÊNCIA

A leitura de uma graciosa carta de criança sobre Papai Noel e da resposta que lhe foi dirigida, constitui salutar refrigério para nosso século tão materializado

Numa manhã de setembro do ano de 1897, o redator-chefe do jornal nova-iorquino “The Sun” encontrou sobre sua mesa de trabalho a seguinte carta de uma menina de oito anos:

Prezado Sr. Redator:

Tenho oito anos de idade. Algumas de minhas amigas sempre me dizem que não existe o Papai Noel. Porém, meu pai afirma que se essa existência o “The Sun” confirmar, então é certo que existe o Papai Noel. Por favor, diga-me a verdade: existe mesmo o Papai Noel?

Virginia O'Hanlon

Francis Church, redator do “The Sun”, com relutância e hesitação tomou a si a tarefa de responder à carta de Virginia. Contudo, tendo começado a escrever, as palavras saltaram rápidas sobre o papel, e assim surgiu a seguinte carta:

“Virginia:

Tuas amigas não têm razão. Elas sofrem de uma doença péssima e que mais tarde trar-lhes-á ainda muitas dores. Toma cuidado para que essa doença não te pegue. Trata-se de uma doença de alma. Nós, os adultos, chamamo-la de incredulidade, espírito de crítica, falta de inocência. Tuas amigas e outras pessoas que tentaram te convencer pensam que são sábias e espertas, porque só admitem como real aquilo que podem ver com os olhos e tocar com as mãos. Contudo, elas não sabem quão pouco é isso!

Ora, pequena Virginia, imagina todo este imenso Globo terrestre com seus lagos e montanhas, com seus rios e mares, e, pairando sobre nossas cabeças, o céu infinito com suas miríades e miríades de estrelas. Imagine quantas espécies de seres existem no mar, nos ares e sobre a terra.

O homem é apenas um entre milhares de seres, e ademais quão pequeno! Diante das imensidões do universo, ele é pouco mais do que um besouro ou uma formiga. Como então pode o homem ver tudo o que existe e com seu pequeno entendimento querer explicar todas as coisas?

Sim, Virginia, existe o Papai Noel! Tão certamente quanto existem o carinho e a alegria, o amor e a bondade, os quais, porém, não podemos ver com nossos olhos e apalpar com nossas mãos. Mas tudo isso existe. Tu mesmo já os experimentaste. E não trazem eles beleza e alegria em tua vida?

Ah, como seria triste o mundo sem o Papai Noel! Tão triste como se não houvesse mais Virginias, como se não houvesse mais os contos de fadas, os anjos, as canções, as histórias infantis escritas pelos poetas. Ou, pelo contrário, só houvesse gente que jamais se encanta com nada, que jamais sorri! Então estaríamos todos perdidos. E aquela luz eterna, que jamais se apaga, com a qual as crianças iluminam o mundo e que acompanha toda criancinha que nasce, esta apagar-se-ia para sempre.

Não acreditar no Papai Noel?! Então ninguém mais precisaria crer em fadas e anjos. Tu poderias convencer teu pai a colocar vigias diante de cada chaminé, na noite de Natal, para que eles pudessem agarrar o Papai Noel. O que ficaria então provado se eles não o vissem descer pela chaminé?

Ora, ninguém vê o Papai Noel! Isso porém não prova que ele não existe. As coisas que neste mundo são verdadeiramente reais, não as podem ver nem crianças nem adultos. Já viste alguma vez uma fada dançar sobre os prados floridos? O fato de não a teres visto não prova que a fada não dance na pradaria. Ninguém pode compreender todas as maravilhas invisíveis do universo.

Tu podes bem desmontar um chocalho de bebê, a fim de ver como se produz propriamente o ruído das pedrinhas que se chocam umas contra as outras. Porém, sobre o mundo invisível há um véu estendido, o qual não pode ser rasgado nem mesmo pelo homem mais forte da terra, e nem sequer pela força conjunta de todos os homens fortes de todas as épocas.

Somente a fé e a caridade podem levantar um pouquinho a ponta deste véu e assim contemplar a beleza e o esplendor sobrenaturais que se escondem atrás dele.

Será tudo isso realidade? Ó, Virginia, sobre a Terra não há nada de mais real, de mais verdadeiro do que isso! Graças a Deus que o Papai Noel vive e viverá eternamente! Nos próximos mil anos – oh! que digo, pequena Virginia --, nos próximos 10 mil anos multiplicados por outros tantos mil anos, o Papai Noel continuará a fazer com que os corações puros das crianças se alegrem e batam com mais força na abençoada noite de Natal

..nenhum natal tangível sobrevive à comparação daquelas manhãs da infância...

De Cláudia Laitano
Véspera






O cheiro que vem da cozinha é de uma alquimia imprecisa. Pêssegos e passas se confundem no ar com os aromas da carne sendo assada no forno, enquanto a nota suave das fatias de abacaxi dispostas na travessa enfeitada com cerejas e fios de ovos – estes fadados a permanecerem intocados, não importa quantas vezes a travessa vá e volte ao refrigerador nos dias e noites seguintes – espalha pela casa um inconfundível perfume festivo.

Algo sendo preparado na batedeira compõe uma sinfonia concreta com o laborioso liquidificador e com a enceradeira girando célere rumo ao anacronismo irrevogável que condena certos eletrodomésticos a se acumularem no ferro-velho da memória junto a brinquedos quebrados e vestidos que já não servem mais.

O movimento da casa sendo arrumada para as visitas da noite, a cozinha em ação continuada e diligente, brinquedos escondidos em algum canto do armário já revirado muitas vezes nos dias anteriores. O ritmo singular de um dia que não é de trabalho ou de estudo, mas tampouco lembra a modorra de um feriado ou a pausa rotineira de um fim de semana. É uma manhã de véspera de Natal, e para uma criança (esta criança) não existe maior espetáculo na Terra.

Haverá, com sorte, muitos outros Natais antes e depois daqueles em que você é o adulto com a chave do armário dos brinquedos escondidos. Natais burocráticos, Natais alegres, Natais em que novos membros da família fazem sua estreia no álbum de retratos, Natais sob o impacto de perdas recentes que, saberemos mais tarde, nunca perderão seu lugar permanente à mesa de todas as ceias.

Não importa se você adora ou se sente mortalmente deprimido durante as festas de fim de ano, se teve Natais de novela das oito ou de romances do Charles Dickens: o Natal do presente será sempre medido conforme alguma nostalgia da infância.

E não há ocasião mais pródiga em lições duradouras sobre expectativa e realidade. Ainda crianças, aprendemos que é preciso modular nossos sonhos para que eles caibam na realidade, material e afetiva, da família que temos. Mais tarde, aprendemos a aceitar nossa família para que ela continue cabendo nos sonhos de harmonia que o Natal, como nenhuma outra ocasião, parece cobrar indistintamente, como se fosse um imposto.

Mas nenhum Natal tangível sobrevive à comparação com aquelas manhãs de pura antecipação da infância. Essas horas em que a expectativa pelas surpresas da noite dava solenidade e significado a cada gesto banal dos adultos, e todos os presentes um dia desejados – um foguete que vai à Lua, uma boneca de pano que fala, um buggy que anda na rua de verdade – ainda são uma possibilidade tão concreta e factível quanto podem ser concretos e factíveis todos os desejos de quem ainda não aprendeu a sonhar apenas com o que é possível.

Fica decretado que todos tenham uma noite maravilhosa.



NILSON SOUZA

Decreto de Natal

Fica decretado, nesta noite encantada, que nenhuma criança passará fome, nem será maltratada ou negligenciada. E que todos os meninos e meninas do planeta dormirão sob um teto, receberão carinho, presentes e afeto.

Fica decretado, nesta noite de festas e serestas, que todos os homens e mulheres da Terra rejeitarão a guerra, andarão de braços e trocarão abraços. Todos, sem exceção, tratarão o próximo como irmão e não haverá mais qualquer distinção entre empregado e patrão.

Fica decretado, nesta noite em que a estrela-guia namora fogos de artifício, que o suplício, o sacrifício e o desperdício serão substituídos por vias lácteas de alegria.

Fica decretado, nesta noite de luzes, que carpinteiros, marceneiros e guerreiros estão impedidos de construir cruzes e de lançar obuses. E que, em contrapartida, todas as forças do universo serão usadas para preservar a vida.

Fica decretado, nesta noite tão especial, que o ser humano jamais renegará sua origem animal e tratará as demais espécies com respeito reverencial. Protegerá bichos, florestas, rios e as demais dádivas da natureza, e cuidará com carinho da limpeza desta casa única que nos serve de fortaleza.

Fica decretado, nesta noite de inspiração divina, que está extinta a rotina, que a emoção é a melhor adrenalina e que, talvez, um grande amor esteja nos esperando na primeira esquina.

Fica decretado, finalmente e em definitivo, que este aditivo aparentemente autoritário pretende ser apenas um estímulo afetivo a quem sonha com um Natal mais solidário. E que este comentário singelo, que mistura desejo e presságio, não será confundido com um plágio do inimitável Thiago de Mello.

Fica decretado, nesta noite de sonhos misturados, que passa a valer como preceito o direito, o respeito e o escorreito, mas os erros, gafes e planos malfeitos serão tolerados, até mesmo porque ninguém é perfeito.

Fica decretado, sobretudo, que o leitor paciente e a leitora generosa, mesmo não concordando com tudo, acatarão as sugestões deste estudo, abrirão seus corações, unirão seus pensamentos e suas orações, para que todos tenhamos uma noite maravilhosa.





quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A Casa Azul



A Casa Azul

de :
LETICIA WIERZCHOWSKI









Certas coisas não acabam dentro da gente. A minha casa de verão, por exemplo. Passaram os anos e há muito ela se foi – antes que a derrubassem, foi vendida, outros viveram sob o seu teto os dias de um fevereiro qualquer, sem que eu nunca ousasse voltar até lá...

A casa, os donos novos botaram abaixo um belo dia: carpinteiros derrubaram as paredes que acolheram a minha infância, o quarto com os beliches, a varanda onde tantas vezes esperei passar o primeiro menino dos meus olhos, o porão onde guardava-se a manteiga no tempo da avó e onde eu acreditei que vivia uma bruxa – o fim de cada uma dessas coisas foi planejado e executado sem dó, já faz bastante tempo.

No entanto, essa casa azul continua em mim. Com ela sonho por noites seguidas, anos a fio – como sonhei ainda ontem, acordando dentro dela hoje pela manhã... Nessa casa azul penso quando recordo a minha infância; se fecho os olhos, reencontro em mim o toque, o som e o cheiro de cada coisa: o áspero da madeira das paredes, o odor de mofo dos armários quando chegávamos para o verão, o barulhinho das janelas se abrindo para a manhã...





Eu posso pegar a louça entre as minhas mãos, os copos, as xícaras, os pratos, eu sinto o cheiro da uva espremida para o suco e o gosto da limonada que a mãe servia na grande jarra azul dos almoços; eu posso sentar à mesa e entrar no quarto dos hóspedes; sob meus pés, ainda sinto o toque aveludado da madeira da varanda (era uma casa sobre pilotis, talvez porque naquelas paragens a areia vinha e tomava conta de tudo num único inverno).

Vive em mim, essa casa – e vive na minha ficção. Meu avô segurou nas suas mãos os tijolos daquelas paredes, e o seu riso forte ainda ecoa naquelas sala, nesse país imaginário, nessa praiazinha ventosa de sonhos que a casa habita até hoje.

Passado o Natal, íamos para lá. Era uma regra adorada: arrumar as malas, os presentes recém-recebidos, e tomar a estrada para o Litoral. Foi a casa da minha infância, a casa eleita pelos meus sonhos. E hoje, ao acordar pensando nela, abri um livro da Sophia de Mello Breyner e meus olhos leram, assim de chofre:

“A antiga casa que os ventos rodearam, com suas noites de espanto e de prodígio, onde os anjos vermelhos batalharam (...), permanece presente como um reino, e atravessa meus sonhos como um rio”. Ah, casa azul... Aqueles dezembros há muito se perderam, mas eu ainda te navego.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

No Bairro da Minha Infância

De: Fabrício Carpinejar



No bairro de minha infância, era obrigatória uma casa mal-assombrada. Com heras cobrindo os muros, portão enferrujado e som envenenado de vento e vidro partindo do quintal.

Se não havia uma candidata, a gente criava. Bastava uma residência estar abandonada, gemendo, fechada, ou para vender.

Assim que a imobiliária colocava a placa do negócio, o ponto passava a servir nossa especulação sobrenatural.

A construção tinha que atender alguns pré-requisitos. O maior deles: ser caminho da escola. Para facilitar o registro dos mínimos movimentos e gerar fofocas: vultos nos arbustos, janelas batendo e papéis voando. E também necessitava de gatos selvagens ou vira-latas raivosos em seu território, que avisariam da presença dos demônios com as pupilas mercúrio cromo. E alguém deveria ter morrido nela recentemente, por velhice ou fatalidade, para justificar a dívida com o além.

Nem sabe o que eu vi' costumava ser a senha de nossa chegada na escola. A curiosidade tomava a maior parte das conversas do recreio e provocava uma enxurrada de bilhetinhos por debaixo das mesas.

O coração acelerava só de passar perto do endereço, ou de tocar no assunto. Montávamos planos para a invasão. Durante a merenda, traçávamos rotas de entrada e de fuga usando pão, colheres e bolacha recheada. Havia uma coragem receosa, misto de excitação e dúvida.

Hoje a turma seria confundida com um bando de assaltantes, terminaria com a cabeça raspada na Fase, fichada na Polícia. Mas na época existia uma tolerância dos vizinhos; perdoavam nossa pouca idade: “ah, são apenas meninos!”. Pisávamos em território alheio com lanternas e mochilas. Invadíamos quartos e salas. Não foi uma casa que entrei sem permissão, mas várias, incontáveis. Ou pelas janelas ou pelos telhados. Com meu batimento na garganta, comum colega me dando cobertura do lado de fora.

Desse tempo, compreendi que adulto não soluciona o medo de criança, por querer terminar logo com o susto, dizer que não é nada, que é uma bobagem, que não vale sofrer à toa. Pai e mãe apenas aumentam o terror desprezando as perguntas e a cumplicidade.

As crianças pretendem curtir o medo primeiro, desenvolver o suspense. O medo não é uma ameaça, é um modo de fazer amizades.

Elas resolvem os pânicos falando deles. A terapia consiste em tão-somente partilhar medos. A gratuidade dos medos. O prazer dos medos. A delícia dos medos.

Um medo coletivo é melhor do que os medos individuais, castrados e reprimidos.

Exercitávamos a ansiedade com minúcia e fantasia. Às vezes contávamos histórias de terror à luz de velas somente para sair gritando. Às vezes alucinávamos em equipe.

Meu pavor sempre teve companhia para amadurecer.