domingo, 28 de junho de 2015

" Branco na Igreja primitiva , era marca de alegrias .... "


ROBERTO ROMANO



O branco, na Igreja primitiva, era marca de alegria, paz e ressurreição. Na modernidade, a cor era o distintivo dos protestantes, que o adotaram “para marcar a clara consciência e cumprir seus fins, manter a honra divina e pública” (La Popelerière). Os batalhões huguenotes usavam lenços brancos no pescoço, colorido da fé pura. A cor da roupa é um traço importante na vida humana, sobretudo na esfera cultural.

No cristianismo, o culto se interioriza, muito por obra de Paulo. A marca do crente não está apenas nas vestes e nas cores, mas reside na consciência. Deus é adorado “em espírito e verdade”(João, 4:23). Na versão grega do Evangelho, o verbo é grafado como “zeteo”, que significa “pesquisar”, não em sentido filosófico, mundano. Na Primeira carta aos Coríntios, os judeus são indicados como povo “semiótico” e os gregos são ditos “zetéticos”: “Os judeus procuram sinais, os gregos sapiência”.

Mas Paulo interroga: “Onde está o sapiente? Onde o gramático? Onde o inquiridor do tempo? Não fez Deus loucura da sabedoria mundana?”. Os querelantes orgulhosos são condenados pelo apóstolo.

O ensino evangélico não é sábio, mas louco segundo “o mundo” (1 Coríntios). O veto às lutas fica bem claro em Romanos, 14:1: “Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas”.

Todo o trecho é um hino de respeito ao próximo, mesmo que ele faça e pense coisas reprováveis aos nossos olhos: “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo”.

Uma palavra chave em Paulo é “syneidesis”, a via interior rumo a Deus, da qual a consciência é fonte. O termo encontra-se 30 vezes no Novo Testamento, mas não aparece nos Evangelhos. Cristo usa a língua judaica para nomear a consciência. Esta tem como sede o “coração”, lugar onde lutam a luz divina e as trevas do remorso. “Bem aventurados os que têm o coração puro, porque verão a Deus”(Mateus, 5:8). Quem obedece à syneidesis sabe que é pecador e não condena o próximo, não é orgulhoso de sua verdade nem de sua prática religiosa, política, cultural.

A Igreja cristã, mais ampla do que a católica e a reformada, tem como tesouro ético comum a doutrina da syneidesis. Não raro, no entanto, a consciência é violada pela arrogância dos que, nos corpos eclesiásticos, mantêm postura farisaica. As fogueiras da Inquisição, as guerras religiosas, violências dos que se diziam cristãos e agiram como feras, foram pecados graves.

No seu saber louco, só eles eram bons e salvos, só eles mereciam o Reino. Os inimigos religiosos falavam como se estivessem no trono divino. Basta ler um poeta protestante magnífico, Paraíso Perdido, de John Milton (1667), para ver que tal atitude é própria de Satã, não dos tomados pela graça.

Dias atrás, uma criança de 11 anos foi apedrejada no Rio, por usar o branco e o azul da Umbanda. Os apedrejadores, Bíblia sob o braço, quase a mataram porque, disseram, a menina e seus pais iriam para o inferno. A eles, e a seus açuladores, vale a leitura de Paulo e dos Evangelhos, sem mistura de sinais e lucros ou dízimos que lembram Johann Tetzel, jamais Lutero.


Nos próximos dias, vestirei roupas brancas, cor da paz, cristã ou da umbanda, em apoio aos feridos pelo demoníaco orgulho de quem se julga superior e imagina ter o direito de ferir e matar o próximo. “E como podes dizer a teu irmão: Permite-me remover o cisco do teu olho, quando há uma viga no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão”(Mateus, 7: 4-5). Os que atiraram as pedras se dizem evangélicos. Mentira. Eles são herdeiros de Caim, malditos como ele.

sábado, 27 de junho de 2015

" `A sombra do delator "

26/06/2015
 às 18:37 \ BrasilCultura

Dilma e Lula: R$ 9,9 milhões. Veja a lista de quem recebeu dinheiro sujo de Pessoa, conforme sua denúncia

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A VEJA desta semana traz a lista completa de quem recebeu dinheiro sujo de Ricardo Pessoa, conforme sua denúncia.

A revista teve acesso aos termos do acerto da delação premiada e revela:
“O conteúdo é demolidor. As confissões do empreiteiro deram origem a 40 anexos recheados de planilhas e documentos que registram o caminho do dinheiro sujo. 

Em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília, Pessoa descreveu como financiou campanhas à margem da lei e distribuiu propinas. Ele disse que usou dinheiro do petrolão para bancar despesas de 18 figuras coroadas da República. Foi com a verba desviada da estatal que a UTC doou dinheiro para as campanhas de Lula em 2006 e de Dilma em 2014. Foi com ela também que garantiu o repasse de 3,2 milhões de reais a José Dirceu, uma ajudinha providencial para que o mensaleiro pagasse suas despesas pessoais.

 A UTC ascendeu ao panteão das grandes empreiteiras nacionais nos governos do PT. Ao Ministério Público, Pessoa fez questão de registrar que essa caminhada foi pavimentada com propinas. Altas somas.

                                           Veja a lista dos acusados:
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" Tensão no Planalto "

Adeus, Dilma!
 Ricardo Pessoa confessa ter repassado R$ 3,6 milhões de caixa 2 às campanhas de 2010 e 2014

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É hora do impeachment. É hora da cassação.

O Estadão soltou a bomba do dia:
“Ricardo Pessoa detalhou em depoimento de delação premiada que repassou R$ 3,6 milhões de caixa dois para o ex-tesoureiro da campanha da presidente Dilma Rousseff em 2010, José de Filippi, e o ex-tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, entre 2010 e 2014.”
[* Atualização: segundo a VEJA, o valor total para a campanha de Dilma de 2014 foi, na verdade, de 7,4 milhões de reais.]
Segue o jornal:
“Ele entregou aos investigadores uma planilha intitulada ‘pagamentos ao PT por caixa dois’ que relaciona os ex-tesoureiros a valores”.
(* Atualização: a VEJA teve acesso à delação e o valor repassado à Dilma é, na verdade, de 7,4
Na planilha, o delator relacionou o pagamento de 2,9 milhões de reais a Vaccari.
Dinheiro sujo do petrolão.
Em fevereiro de 2011, Ricardo Pessoa deu:
- 500 mil reais para o PT;
Em março de 2011:
- outros 500 mil reais;
Em março de 2012:
- 220 mil reais;
Em 2013, foram quatro pagamentos:
- 350 mil reais em abril;
- 350 mil e 500 mil reais em dois pagamentos em julho;
- 500 mil reais em agosto.
Acabou, Dilma Rousseff!
Obrigado, Ricardo Pessoa! Viva Sérgio Moro!
É tetra! É tetra! Brasiiiiiiilllll!

" Fala Lula " .... Falaaaaaa ....


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Avança Brazil carregou um novo vídeo.
FALA LULA!!!! DIGA QUE ESSA SITUAÇÃO QUE VIVEMOS FOI A IMPRENSA FACISTA QUE CRIOU! FALA QUE É TUDO CULPA DAS ELITES! FALA DESGRAÇADO!!!!
O PT quebrou o Brasil
Com base numa política populista apoiada na farta distribuição de crédito e incentivo ao consumo no curto prazo, os governos do PT de Lula e Dilma facilitaram o acesso dos brasileiros a bens pessoais, mas não ao bem estar social duradouro.
Se vamos a um barraco de favela, lá tem TV a cores, micro-ondas, máquina de lavar e muitos outros bens de consumo. Porém, essa família continua no barraco, endividada, sem saneamento, em um emprego precário, sem acesso à saúde, educação, transporte público e segurança de qualidade.
Essa evidência se confirma com o testemunho de um ilustre desiludido com o PT, o jurista Hélio Bicudo, que em 2003 relatou, em entrevista gravada a um programa de televisão, o seguinte episódio:
Numa reunião de membros do governo sobre a implantação do Bolsa Família, questionado sobre os objetivos e benefícios do programa, o então ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil, respondeu sem pestanejar: "40 milhões de votos".
Dá para entender por que o PT é uma farsa e vem sendo progressivamente desmascarado, até mesmo para muitos antigos e fiéis militantes e apoiadores.
A irresponsabilidade na gastança sem controle, a incompetência injustificável de 12 anos sem reformas estruturais e a corrupção em níveis nunca antes vistos na história deste pais, levaram à falta absoluta de credibilidade, ao fim da confiança e do ciclo de investimentos no pais.
O PT quebrou o Brasil.

" Crise da Lava Jato faz Mercadante Cancelar IDA AOS EUA" TENSÃO NO PALÁCIO ...


Fernando Rodrigues
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Mercadante-Foto-JoseCruz-AgenciaBrasil-01abr2015
O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que cancelou ida aos EUA
Chefe da Casa Civil foi citado na delação de Ricardo Pessoa, da UTC
O ministro chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, desistiu de viajar hoje (27.jun.2015) para os Estados Unidos com a presidente Dilma Rousseff e colegas de ministério. O cancelamento ocorreu um dia após a revelação parcial do teor da delação premiada de Ricardo Pessoa, dono da UTC, à Procuradoria-Geral da República.
No depoimento prestado no âmbito da Operação Lava Jato, Pessoa afirmou que foram feitos repasses irregulares de dinheiro a campanhas do PT, entre as quais, a de Mercadante ao governo de São Paulo, em 2010. O ministro da Casa Civil negou ter recebido dinheiro de forma irregular.
O tesoureiro da campanha de Mercadante em 2010, Eduardo Tadeu Pereira, disse que não conhece pessoalmente o dono da UTC. “Não o conheço. Nunca conversei com ele. Não tenho como saber por que ele teria citado a campanha de Mercadante como alvo de caixa 2”, afirmou. Pereira confirmou que a empreiteira doou dinheiro para a campanha, mas disse que o repasse foi informado na prestação de contas.
Diante da crise provocada pelo teor do depoimento de Pessoa, a presidente Dilma Rousseff convocou hoje Mercadante e os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Edinho Silva (Comunicação Social) para uma reunião emergencial no Palácio da Alvorada, nesta manhã (27.jun.2015).
A reunião atrasou o embarque da comitiva presidencial para os Estados Unidos, que estava agendado para as 9h. A decolagem ocorreu perto de 10h45. Dilma tem uma agenda extensa nos próximos dias. A presidente vai se reunir com o presidente Barack Obama e com empresários para tentar atrair investimentos para o país.
Além de Mercadante, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não embarcou no avião presidencial. Na sexta-feira, ele foi internado em um hospital em Brasília com suspeita de embolia pulmonar. Apesar da gravidade do problema de saúde, o Planalto tem a expectativa de que Levy embarque hoje (27.jun.2015) ou amanhã (28.jun.2015) para os EUA, possivelmente em um voo comercial.
Enquanto Dilma permanece no exterior, a crise política será administrada, dentro do Palácio do Planalto, pelos ministros Aloizio Mercadante e Edinho Silva. Hoje ainda (27.jun.2015), os ministro José Eduardo Cardozo e Edinho Silva devem conceder uma entrevista coletiva para falar sobre as citações ao governo no âmbito da Operação Lava Jato.

" Tensão "

Tensão


 

Ministros se encontraram com a presidente na noite de sexta-feira no Palácio da Alvorada

Por: Estadão Conteúdo
27/06/2015 - 10h39min | Atualizada em 27/06/2015 - 10h3
Dilma Rousseff faz reunião de emergência após delação do dono da UTC EVARISTO SA/AFP
Foto: EVARISTO SA / AFP
A presidente Dilma Rousseff convocou nesta sexta-feira uma reunião de emergência com ministros, no Palácio da Alvorada, e preparou a estratégia de defesa política para o agravamento da crise após a delação premiada do dono da UTC, Ricardo Pessoa.

O governo avalia que perdeu totalmente o controle da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, e teme que a delação de Pessoa acirre o clima de confronto, mas guarda como munição os nomes de adversários citados pelo empresário.
Em nota, PT diz que todas as doações recebidas pelo partido são legais
Lava-Jato pede condenação de 30 anos para executivos da Engevix 

Dilma cobrou respostas rápidas dos ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo — que estava em agenda no Rio quando o escândalo veio à tona —, da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e da Comunicação Social, Edinho Silva. À noite, os três e o assessor especial Giles Azevedo foram chamados por ela para a reunião no Alvorada, que durou duas horas.

No diagnóstico do governo, o depoimento de Pessoa é mais uma pedra no caminho de Dilma, joga luz sobre o financiamento das campanhas do PT e pode ressuscitar a bandeira do impeachment.
Justiça nega habeas corpus a dois executivos da Odebrecht
Membros do Sindicato dos bancários defendem Vaccari em reunião do PT

Se isso ocorrer, porém, o Palácio do Planalto já tem o roteiro traçado para o contra-ataque. Ministros vão lembrar que o empresário apresentou uma lista "suprapartidária" de doações. De acordo com reportagem da revista Veja, Pessoa disse que também repassou recursos para campanhas dos senadores Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), Fernando Collor (PTB), Gim Argello (PTB), Edison Lobão (PMDB), Ciro Nogueira (PP) e Benedito de Lira (PP), além de dinheiro para deputados de outros partidos.
Em vídeo, Youssef lista deputados gaúchos que receberiam mesada
Aloizio Mercadante é, hoje, o ministro mais forte de Dilma e Edinho foi o tesoureiro do comitê da reeleição da presidente, no ano passado. Os dois garantem que as doações recebidas foram legais e registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas o governo admite não saber o que vem pela frente nas investigações.
A nova turbulência ocorre num momento delicado, no auge do distanciamento entre Dilma, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. Além disso, o executivo Marcelo Odebrecht, dono da construtora Odebrecht e também preso, tem ligações com Lula, o que provoca ainda mais apreensão no Planalto.

"Você acha que ele ia se contentar com R$ 150 mil?", questiona Youssef sobre Maluf
— Não há saída individual. O problema não é o PT, não é a Dilma. O problema é que querem criminalizar o Lula e nos destruir — disse o ex-presidente, falando na terceira pessoa. Lula estará na segunda-feira em Brasília, para se reunir com deputados e senadores do PT.
O depoimento de Pessoa causou tanta tensão no Planalto que, ao longo do dia, Dilma acionou várias vezes ministros e advogados. Pediu também para emissários conversarem com a equipe do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, que homologou a delação premiada de Pessoa.

Deputado Afonso Hamm nega envolvimento em caso de corrupção
Nos bastidores, interlocutores da presidente compararam a nova crise a uma batalha sem fim. "ê como se estivéssemos numa guerra e não conseguíssemos nem contabilizar os mortos para enterrar", disse um ministro ao Estado, sob a condição de anonimato.

" O Possível e o Absurdo "

Por: J.J. Camargo
27/06/2015 - 05h01min | Atualizada em 27/06/2015 - 05h01min
J.J. Camargo: o possível e o absurdo Edu Oliveira/Arte ZH
Foto: Edu Oliveira / Arte ZH
A conferência do doutor Shaf Keshavjee, de Toronto, no Congresso Americano de Cirurgia Torácica, mais do que o reconhecimento internacional à importância desse grupo no universo do transplante de pulmão, foi uma apologia à medicina moderna, com suas conquistas tecnológicas deslumbrantes, mas, principalmente, com a ufanista determinação de não permitir limites ao esforço de salvar vidas.
Duas façanhas do canadense e sua equipe impactaram os envolvidos com esta especialidade nos últimos tempos:
1) Há uns dois anos, um paciente idoso recebeu pulmões jovens na tentativa de retirá-lo da respiração artificial a qual estava atrelado havia quatro semanas. Cinco dias depois, com os órgãos transplantados funcionando esplendidamente, o paciente teve um acidente vascular cerebral hemorrágico devastador, que lhe provocou morte encefálica. Diante do infortúnio, os pulmões foram removidos e transplantados em outro paciente da longa lista de espera. Depois de um estágio rápido e mal- sucedido no tórax do primeiro candidato, não havia que esmorecer: outra vida estava a caminho de ser salva. E foi.
2) Na mesma conferência, Shaf descreveu a experiência de sua instituição com um método moderno, que estamos prestes a empregar aqui, e que utiliza uma solução desenvolvida na Suécia para remover o excesso de líquido de pulmões que não poderiam ser aproveitados por estarem muito inchados.
Os pulmões são retirados do doador e colocados numa redoma esterilizada, onde se simula a condição de ventilação e circulação de sangue e se remove, ao longo de algumas horas, o excesso de líquido, permitindo que os pulmões sejam utilizados.
Antes da popularização dessa técnica, aquele grupo usava apenas 15% dos pulmões dos doadores disponíveis. Atualmente, o percentual de aproveitamento ultrapassa 45%.
Para dar ênfase a essa conquista tecnológica, Shaf relatou o caso de um paciente de 52 anos, moribundo na lista de espera de Chicago, nos EUA, e colocado em prioridade nacional. Cinco dias depois, uma comunicação dava conta de um potencial doador compatível, em Seattle, mas com os pulmões muito inchados. Os órgãos foram removidos, transportados de avião a Toronto, onde foram recondicionados e levados a Chicago para o transplante salvador.
Quando terminou a conferência, aquela sensação maravilhosa de que quem salva uma vida começa a salvar o mundo encheu o salão e, na indisfarçável euforia, muitos se abraçaram, todos se comoveram.
Depois, houve um silêncio que interpretei como a pausa para que cada transplantador do planeta fizesse uma introspecção a respeito do seu cantinho particular. E, então, desconfortável e constrangido, pensei:
“O mundo da ponta de baixo deve ter enlouquecido o suficiente para permitir, sem gritar, que morram, num só feriadão, em estúpidos acidentes de trânsito, mais jovens do que conseguimos transplantar num ano inteiro de trabalho insano. Como único consolo, a convicção de que nunca alguém dirá que desistimos de fazer a nossa parte!”.
                           Mas isso é mesmo o limite do que podemos?
                            Porque, francamente, parece muito pouco...

" Papo de pulador de cerca "

    CELSO MING

     O ESTADÃO - 27/06

Neste momento, mais importante do que estreitar as bandas da meta de inflação é obter a derrubada dela 

O Conselho Monetário Nacional, também conhecido pela sigla Cemenê - assim, com sotaque do sertão -, decidiu quinta-feira que o intervalo de escape da política de metas de inflação ficou mais estreito. A partir de 2017, não será mais de 2 pontos porcentuais para cima e para baixo, mas sim de, 1,5 ponto.

Esse não é um assunto tão chato quanto para alguns possa parecer. Mexe fortemente com os juros e é fator importante na vida econômica de qualquer pessoa. Por isso, convém esmiuçá-lo. A meta de inflação, sempre determinada pelo governo, no caso pelo Cemenê, é o ponto para onde têm de embicar os efeitos da política de controle de inflação.

O instrumento para isso é a política monetária (política de juros), que é o sistema de válvulas que regulam o volume de dinheiro na economia. Se a inflação se afasta da meta, o Banco Central tem de retirar dinheiro até o nível em que o jogo da oferta e da procura de moeda pratique os juros predeterminados pelo Copom. Neste momento, são de 13,75% ao ano. Se a inflação reflui, o Banco Central pode injetar moeda e, com mais dinheiro na praça, os juros caem.

No momento, a meta de inflação é de 4,5% ao ano e tem de ser atingida a cada fim de ano. Como nem sempre é possível essa precisão, a cada 31 de dezembro o sistema brasileiro admite intervalos de tolerância. No momento, são de 2 pontos porcentuais acima ou abaixo desses 4,5%, portanto, de 2,5% a 6,5%.

Essa área de escape é uma característica do regime de metas do Brasil. Outras economias não operam nem precisam desse molejo, porque também não têm data prefixada para o cumprimento da meta. Os bancos centrais dos Estados Unidos (Federal Reserve) e da Inglaterra (Bank of England), por exemplo, miram sempre nos 2% em 12 meses - e não no fim do ano-calendário. Por isso, não criam vagalhões no mercado se, episodicamente, em consequência dos imponderáveis de sempre, acusarem certo desvio do objetivo.

O problema do Brasil, no momento, não é só o descumprimento da meta, mas o enorme desvio do tiro. Apontou para o Pico do Jaraguá e acertou o alto da Freguesia do Ó. A inflação está disparando para a altura dos 9,0% ao ano, o que dá o dobro da meta. Nessas condições, o mais importante do ponto de vista das diretrizes de política monetária não é reduzir a área de escape da meta, mas acertar pelo menos a placa do alvo.

A explicação oficial é a de que o estreitamento do intervalo entre as bandas poderá facilitar o esforço do presidente Alexandre Tombini a recuperar a credibilidade do Banco Central, corroída por três anos de irresponsabilidade monetária e muito discurso vazio.

Isso parece papo de pulador de cerca. Já que não pode ou não quer ser fiel, o sujeito jura que voltará meia hora mais cedo para casa. Não é propriamente garantia de fidelidade, mas pode ser entendido como reafirmação de bons propósitos.

Neste momento, mais importante do que estreitar as bandas da meta é obter a derrubada da inflação. As apostas gerais são de que, depois de enterrados os mortos e tratados os feridos, lá por meados de 2017 a inflação pode, finalmente, voltar para os trilhos dos 4,5% ao ano. Ou seja, não está ganha nem a batalha contra a alta de preços nem a da reconquista das expectativas.

CONFIRA: 

Apesar da crise, a Bolsa não está despencando. Ao contrário, neste ano até essa sexta-feira, o Ibovespa avançou 8,02%.

Regime de urgência

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), garantiu nesta sexta-feira que, uma vez aprovada pelo Senado a proposta de eliminar a exigência de participação da Petrobrás em qualquer consórcio do pré-sal, a Câmara votará a matéria em regime de urgência. A forte adesão dos políticos à correção do marco regulatório do pré-sal é consequência da ameaça de redução do pagamento de royalties.

" Hino a Lula "

 DEMÉTRIO MAGNOLI

                    FOLHA DE SP - 27/06
 
Luiz Inácio Lula da Silva, nosso querido Lula, é uma das raras e fantásticas lideranças que conseguem transcender os limites de sua origem social, de sua cultura e de seu tempo histórico. Obrigado, Stálin. Obrigado, pois estou jubilante.

O culto a Stálin, deflagrado em meados dos anos 1930, acompanhou a ascensão do líder à condição de ditador inquestionável da URSS. O culto a Lula, expresso pela nota da bancada de senadores do PT, acompanha o declínio do ex-presidente, exposto como lobista do alto empresariado associado ao Estado.

Lula se fez contra os terríveis limites históricos, sociais e políticos que lhe foram impostos. É aquela criança pobre do sertão nordestino que deveria ter morrido antes dos cinco anos, mas que sobreviveu. É aquele miserável retirante que veio para São Paulo buscar, contra todas as probabilidades, emprego e melhores condições de vida, e conseguiu. Lula é, sobretudo, esse fantástico novo Brasil que ele próprio ajudou a construir. Obrigado, Stálin, pois estou bem. Séculos transcorrerão e as gerações futuras nos venerarão como os mais afortunados dos mortais porque tivemos o privilégio de ver Stálin.

O culto a Stálin tinha a finalidade de legitimar a eliminação física de toda a liderança bolchevique dos tempos da revolução de 1917, que se faria por meio dos Processos de Moscou. O culto a Lula tem, apenas, as finalidades de conservar o status quo no PT, evitando a crítica e a mudança, de impulsionar uma candidatura presidencial fragilizada e de tentar esterilizar as investigações da Lava Jato.

No cenário mundial, ninguém põe em dúvida a liderança de Lula no combate à pobreza, à fome e às desigualdades. Lula é o grande inspirador internacional das atuais políticas de inclusão social, reconhecido por inúmeros governos de diferentes matizes políticos e ideológicos. Lula é o rosto do Brasil no mundo. Os homens de todas as épocas chamarão teu nome, que é forte, formoso, sábio e maravilhoso.

O culto a Stálin atravessou duas fases. Na primeira, quando os ecos da revolução ainda reverberavam, o líder foi descrito como a imagem viva do proletariado internacional. Na segunda, marcada pela guerra mundial e associada à propaganda patriótica, Stálin tornou-se a personificação do povo soviético. O culto a Lula assemelha-se, nesse particular, à fase derradeira do culto a Stálin: o PT almeja ser igual ao Brasil.

Lula está muito acima da mesquinhez eleitoreira. Todas as vezes que me vi em sua presença, fui subjugado por sua força, seu charme, sua grandeza –e experimentei um desejo irreprimível de cantar, de gritar de alegria e felicidade. Lula é tão grande quanto o Brasil. Lula carrega em si a solidariedade, a generosidade e a beleza do povo brasileiro. Para esse povo e por esse povo, Lula fez, faz e fará história.

O culto a Stálin, uma engrenagem da propaganda de massas do totalitarismo, era a face midiática de um Estado-Partido que abolira a política, extinguindo por completo o fogo da divergência. O culto a Lula, ensaiado por políticos de terceira numa democracia representativa, é uma farsa patética: o sinal distintivo da degradação da linguagem petista. Atrás do culto ao líder soviético, desenrolava-se uma tragédia histórica. Atrás do culto ao chefão petista, descortina-se somente o vazio de ideias de um partido desnorteado, precocemente envelhecido.

Lula é uma afronta às elites que sempre apostaram num Brasil para poucos, num Brasil de exclusão e de desigualdades. Ó grande Lula, ó líder do povo/Tu que trazes os homens à vida/Tu que frutificas a terra/Tu que fazes a primavera florescer/Tu que vibras as cordas da música/Todas as coisas pertencem a ti, chefe do nosso grande país. E, quando a mulher que amo me presentear com um filho, a primeira palavra que ele deve proferir é: Lula.

Stálin matava de verdade; Lula mata de tédio.

" Natureza da Crise "

 MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 27/06

Uma semana depois da prisão de Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, o balanço possível é que, por mais emblemático que seja prender os presidentes das duas maiores empreiteiras do país, não é só isso que vai nos livrar da corrupção. O que pode mudar é todo o processo, simbolizado pela Lava-Jato, de combate às práticas de relações viciadas entre políticos e empresas no Brasil.



Não há uma única operação de combate à corrupção. Há várias em curso. Elas têm a mesma natureza e nasceram da urgência que o país deu a este assunto, e o fez porque houve uma escalada dessa relação promíscua entre o público e o privado nos últimos anos. A Lava-Jato representa a melhor oportunidade que surgiu de o país pôr um limite ao descalabro e começar a estabelecer novas formas, transparentes e seguras, da relação entre empresas que prestam serviços aos órgãos e empresas públicas.

Toda prisão preventiva é, por sua natureza, temporária. É decretada para proteger o processo contra riscos específicos, como fuga do suspeito ou destruição de provas. O primeiro perigo não havia. Marcelo Odebrecht estava em local certo e sabido. Sobre o segundo risco, os temores aumentaram pelo próprio punho do investigado, em um bilhete em que, no mínimo, a palavra "destruir" foi escrita de forma impensada. O importante na prisão de Odebrecht e do presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, é provar que não há intocáveis. Havendo indícios, a lei recai sobre qualquer cidadão.

O governo quer retomar os investimentos e, com a maioria das grandes empreiteiras sendo investigadas, propõe a saída mais rápida: fazer acordo de leniência para as empresas continuarem operando. A palavra "leniência" já contamina a ideia, com a sensação de que vai ser aceito o inaceitável. Há duas visões em conflito. A primeira é que a economia precisa recuperar seu ritmo e, se a empresa não foi condenada, não pode ser punida. A segunda é que empresas suspeitas de práticas de delitos, que estão sendo investigadas, não deveriam voltar a fazer contratos com o setor público, sob pena de repetição da prática delituosa. O governo defende a primeira ideia; o juiz Sérgio Moro sustenta a segunda. É um impasse difícil de resolver, mas o que faz a balança pender para o juiz é que, mesmo diante de todas as evidências, delações, provas materiais, algumas dessas grandes empresas não admitem ter feito algo de errado. Como é mesmo que a elas se daria a "leniência"? É uma contradição: se, como alegam, não cometeram delitos, por que precisariam de perdão prévio?

A economia está mal por vários motivos. Mesmo se não houvesse operação Lava-Jato, é certo que os erros na administração da política econômica teriam levado o país à recessão e à crise de confiança. As incertezas em torno da gestão das principais empreiteiras aumentam, sem dúvida, o clima recessivo e têm efeitos concretos em vários negócios. Mas há projetos de investimento recentemente anunciados cujas preliminares nem foram feitas. Em qualquer cenário, não poderiam ser deslanchados, por falta de coisas, como estudo de viabilidade.

O financiamento do investimento continuaria sendo um problema, havendo ou não Lava-Jato, porque ele estava sendo garantido pelos repasses bilionários do Tesouro ao BNDES, que foram interrompidos, por serem insustentáveis. Chegaram a R$ 500 bilhões. O corte nos investimentos públicos ocorreria de qualquer maneira porque o governo não está conseguindo cumprir suas metas fiscais, não tem cortado o suficiente em despesas não obrigatórias, e as obrigatórias têm crescido.

Portanto, não é a Lava-Jato que está provocando a crise, apesar de a operação de combate à corrupção, pela sua magnitude e pelas empresas investigadas, ter de fato um impacto na economia. É equivocado tentar resolver de outra forma, que não o devido processo legal, sob o argumento de que a economia precisa andar. Seria temerário encobrir, em nome da economia, todas as dúvidas que surgiram nestas 14 fases da operação. A prisão de um específico empresário, por mais poderoso que seja, não imuniza o país contra a corrupção. O processo como um todo é que fará a diferença. E, infelizmente, ele não pode ser abreviado.

" Sigam o Dinheiro "

 MERVAL PEREIRA

              O GLOBO - 27/06
 

Chapa de Dilma pode vir a ser impugnada. 


A famosa frase "Follow the money" ("Sigam o dinheiro") nunca foi dita por Mark Felt, o vice-diretor do FBI que ficou famoso como o informante Deep Throat do Watergate, para os repórteres do "Washington Post" Bob Woodward e Carl Bernstein. Foi inventada pelo diretor do filme, Alan J. Pakula, mas entrou para a história. 

Assim como em Watergate, a orientação de seguir a trilha do dinheiro é o caminho que o Ministério Público tem para validar a delação premiada do chefe do "Clube das Empreiteiras", Ricardo Pessoa da UTC. 

Em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília, Pessoa descreveu minuciosamente como financiou campanhas com o dinheiro desviado da Petrobras, confirmando a prática de lavar dinheiro fruto da corrupção em doações registradas legalmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), inclusive para as campanhas de Lula em 2006 e de Dilma em 2014. 

A denúncia de Ricardo Pessoa confirma outra delação premiada, a do vice-presidente da empreiteira Camargo Corrêa, Eduardo Leite, que acusou o tesoureiro do PT João Vaccari de tê-lo coagido a fazer o pagamento de propinas como doações legais. 

Assim como o ex-gerente Pedro Barusco, subordinado de Duque na Petrobras, Ricardo Pessoa também forneceu detalhes que possibilitam verificar suas acusações, como as planilhas de distribuição de propinas com as datas. Cabe ao Ministério Público comparar os dias de desembolso de verbas para as obras da Petrobras e a chegada de dinheiro na conta do PT. 

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, já havia prorrogado por mais um ano o prazo para que as contas eleitorais da presidente Dilma permaneçam disponíveis na internet. A decisão foi motivada por suspeitas de outras irregularidades, que ele considera "gravíssimas", como o pagamento de R$ 20 milhões a uma gráfica fantasma ou a uma firma, a Focal, para montar palanques presidenciais, no valor de R$ 25 milhões. 

Há além disso outros dois processos no Tribunal Superior Eleitoral contra a campanha do PT e 2014, a partir de denúncias do PSDB, um com a ministra Maria Teresa, e outro com o ministro João Noronha, ambos do STJ. Paulo Roberto Costa e o doleiro Youssef já foram ouvidos sobre outras denúncias de uso de dinheiro desviado da Petrobras na campanha de 2014. 

A impugnação da chapa por "abuso de poder político e econômico" pode ser uma das consequências da denúncia, o que provocaria uma nova eleição se o caso for resolvido na Justiça Eleitoral nos dois primeiros anos de mandato, isto é, até o final de 2016. 

Caso ocorra uma decisão a partir do terceiro ano, haveria uma eleição indireta pelo Congresso, para o término do mandato. A gravidade de usar o TSE para "lavar" o dinheiro da corrupção pode gerar uma reação mais dura da Justiça Eleitoral, pois fere a credibilidade do tribunal, como já escrevi aqui. 

O processo no TSE pode gerar também o de impeachment, por crime de responsabilidade, além do questionamento do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre os crimes contra o Orçamento cometidos no último ano do primeiro mandato da presidente Dilma. 


Aos poucos vai se formando um cenário difícil de ser ignorado, tantas são as irregularidades cometidas durante o primeiro mandato, culminando com a eleição presidencial em 2014. Como as denúncias se referem a fatos ocorridos quando Dilma já era presidente da República, cabe o processo, ao contrário das denúncias rejeitadas pelo procurador geral da República, Rodrigo Janot, que se referiam à eleição de 2010, quando Dilma era ministra e candidata a presidente. As "pedaladas" fiscais e demais crimes contra o Orçamento pegam apenas a presidente Dilma, o que permitiria ao vice Michel Temer assumir o cargo em caso de impeachment. O financiamento eleitoral com o uso de dinheiro desviado do petrolão leva à impugnação da chapa.

" Transexual crucificada na Parada Gay : ofensa ao símbolo cristão ou questão de gênero ??? "



Performance de Viviany Beledoni, durante a Parada Gay de São Paulo deste ano. Foto: Reprodução.

"Será mesmo que Jesus foi desrespeitado por ela ou foram as ‘referências religiosas’ de políticos, de pregadores e de uma parte da população cristã que se sentiu ameaçada?”. Quem lança a pergunta é a teóloga feminista brasileira Ivone Gebara, discutindo o porquê de tamanha repercussão em torno da performance da atriz transexual Viviany Beledoni, durante a Parada Gay de São Paulo, no último dia 07 de junho. A ativista desfilou no maior evento de resistência LGBT do mundo, crucificada tal como Jesus Cristo e outros tantos de seu tempo, que eram penalizados pelo Império Romano. A pretensão foi simbolizar a perseguição e o sofrimento por que passa a população LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais].

Em entrevista à Adital, a também filósofa e freira católica questiona se, em vez de uma suposta ofensa às religiões cristãs, por meio de uma blasfêmia ao símbolo de Cristo crucificado, não seria a relação de gênero o centro da questão. Não seria a conexão entre essas doutrinas e a exibição de um corpo feminino seminu, atuando como liderança de resistência e proposição na representação do martírio do líder maior do Cristianismo, o grande ponto de incômodo entre os setores conservadores?
"Creio que, no fundo, há uma resistência em aceitar não apenas a liderança feminina nas igrejas e na sociedade, mas, sobretudo, que o corpo feminino nu signifique mais do que o ‘corpo objeto’ usado e abusado pelos homens de todos os tempos”, discute Ivone. "Não se aceita que o INRI, ‘Jesus rei dos judeus’ em latim, se transforme em grito de alerta contra a servidão feminina ou contra a homofobia LGBT ou contra a exploração dos camponeses. Há muito mais coisas escondidas em nosso aparente puritanismo do que ousamos revelar”, provoca a teóloga.

Ainda que foque na questão de gênero, Ivone amplia o debate e afirma que o repúdio de parte da população a essa manifestação de resistência pode ser compreendido de diferentes maneiras. Ela sugere três pontos de reflexão relacionados à cultura cristã que nos circunda e ao uso que se faz dela. O primeiro deles remete a uma "concentração da sexualidade” e dos papéis de gênero como tendo de seguir regras pré-estabelecidas por "Deus” ou pela natureza.

"A ‘transgressão’ a esta ordem afirmada como divina agride muitos espíritos. Muitos/as acreditam numa normatividade sexual presente na cultura, proveniente de ordens divinas ou de algo inscrito na natureza física, independentemente da vontade dos seres humanos”, debate Ivone.

"Como aceitar que uma transexual atrevida se aproprie de um símbolo tornado cristão para expressar seu sofrimento e os sofrimentos coletivos, assim como a urgência de direitos? Não apenas a cruz se tornou símbolo cristão, mas tornou-se materialmente símbolo da excelência do sofrimento masculino. Dessa forma, qualquer mudança pode ser vista como agressão e, consequentemente, repudiada”, assinala a estudiosa feminista.

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Atriz afirma que pretensão foi representar perseguição contra público LGBT. Foto: Reprodução.  

O segundo ponto levantado por Ivone se refere a um "reducionismo da moralidade social à sexual”. Neste aspecto, a teóloga aponta que a consideração e o respeito à diversidade dos seres humanos e a questão da urgência de justiça social e ecológica amplas acabam sendo tratadas como reivindicações menores. "A moralidade reduzida à sexualidade é sujeita ao controle de um grupo que se considera ‘eleito’ por Deus, representante e defensor das leis ‘ditas’ divinas”, explica.

"O reducionismo decorrente e suas nefastas consequências têm crescido assustadoramente, como forma de impor uma nova moralidade política através de um falacioso discurso moralizador dos costumes. Este tem rendido a eleição de muitos lobos vorazes vestidos de pele de cordeiro. O reducionismo tem sido liderado por grupos religiosos com amplo acesso aos meios de comunicação e a espaços políticos nacionais”, discorre Ivone. "Promovem uma guerra cultural contra a diversidade, confundem muitos adeptos e acabam tendo grande apoio popular. Os adeptos passam então a repudiar o que eles repudiam”.

O terceiro tópico tem a ver com uma produção desenfreada de violência, não só por organizações criminosas nacionais e internacionais, mas também por aqueles que encetam "guerras santas” contra os que são julgados "desviados” das "leis de Deus” e da natureza. "Leiam-se aqui também leis do capitalismo do mercado protecionista e individualista. Os ‘justiceiros’ são, na realidade, produtores de uma violência social incomensurável, visto que se disfarçam nos discursos religiosos, mostram-se pacíficos, pessoas de bem, mas iludem os mais simples, tornando-os partidários de suas interpretações da História e das intervenções divinas nela”, destaca a Ivone.

De acordo com a teóloga, tudo isso leva ao fundamentalismo religioso e à acentuação do repúdio a qualquer manifestação que fuja dos moldes do permitido. "O medo de reprimendas advindas das autoridades, representantes de Deus e dos possíveis castigos divinos também entram nessa pauta”, acrescenta.

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Ivone Gebara estuda teologia feminista. Foto: Reprodução.

Ressignificação do símbolo

A teóloga contrapõe a tese de que Viviany tenha insultado uma crença religiosa por meio de uma agressão ao seu maior símbolo. Ela explica: "no caso da atriz Viviany Beleboni, o uso da cruz como ela o fez, não foi para destruir um símbolo caro a um grupo. Ela apenas ressignificou a cruz a partir de sua experiência de rejeição e agressão pessoal, e de outras companheiras. Assumiu o significado da cruz de Jesus injustiçado pelos poderes de seu tempo como referência à sua cruz atual ou ao suplicio que muitos grupos da sociedade brasileira atual lhe impõem”, argumenta.

"A cruz, na realidade, pode ter vários significados, para além da crucifixão de Jesus de Nazaré. De uma maneira experiencial, chamamos de cruz as situações impostas, as situações em que não há escolha ou saídas imediatas. Da mesma forma, situações e relações difíceis que duram longo tempo são identificadas como ‘nossa ou minha cruz’”, afirma.

Nesse sentido, Ivone lembra que também se crucifica uns aos outros através da ganância, da incapacidade de enxergar a diversidade e o pluralismo do nosso mundo, do cultivo da violência. "Somos, na realidade, algozes uns dos outros, juízes corruptos uns dos outros, mas também podemos ser ‘próximos’ solidários uns dos outros”, assevera a filósofa.

Ivone rejeita, enfaticamente, que o ato de protesto seja considerado uma heresia. "No caso específico de Viviany, não há heresia! Ao contrário, através da cruz ela manifestou a humilhação vivida pelos novos crucificados de hoje, que ela estava representando”, justifica. "Nessa perspectiva, não podemos esquecer que a cruz imposta a Jesus era para humilhá-lo e matá-lo. Por isso, é a luta contra a humilhação que nós seres humanos impomos uns aos outros e às outras que se elabora o discurso da ressurreição, ou seja, o discurso sobre a dignidade da vida e a busca contínua dessa dignidade. Os crucificados clamam por vida digna, por direitos, anunciam a necessidade de libertar-se, de saírem da ignomínia do sofrimento imposto”, afirma.

"Se quisermos polemizar, poderíamos até dizer que heréticos em relação ao Evangelho são aqueles que, hoje, atiram pedras nas vítimas da fome, que deixam morrerem refugiados, que impõem pesados fardos à vida das mulheres, que viram o rosto para a violência cometida contra os homossexuais e transexuais”, provoca a teóloga.
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Reportagem  POR Marcela Belchior
Fonte: Adital