segunda-feira, 29 de julho de 2013

Entrevista com o papa Francisco: “Quem sou eu para julgar os gays”


Sem tabus, pontífice respondeu por mais de uma hora perguntas de jornalistas durante o voo entre Rio e Roma

ROMA – A Igreja não pode julgar os gays por sua opção sexual e nem marginalizá-los. O alerta é do papa Francisco que, quebrando um verdadeiro tabu, deixa claro que estende sua mão a esse segmento da sociedade. “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo”, declarou. “O catecismo da Igreja explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser marginalizados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade”, insistiu.

As declarações foram dadas em uma entrevista concedida pelo papa aos jornalistas que o acompanharam no avião, entre eles a reportagem do Estado. Na conversa, a garantia do argentino de que o Vaticano tem como papa uma “pessoa normal”, um “pecador” e que vive junto com os demais religiosos porque morar no Palácio Apostólico geraria problemas psicológicos para ele.

Trinta minutos depois de o voo decolar do Rio, o papa deixou sua primeira classe e cumpriu uma promessa que havia feito no voo de ida de Roma ao Brasil: responderia a perguntas dos jornalistas. Mas poucos imaginaram que a conversa duraria quase uma hora e meia.

Para o papa, o problema não é a existência do “lobby gay” dentro da Igreja, mas de qualquer lobby. “O problema não é ter essa tendência. Devemos ser como irmãos. O problema é o lobby dessas tendências de pessoas gananciosas, lobby político, maçons e tantos outros lobbies. Esse é o principal problema”, disse.

Pela primeira vez, Francisco ainda deixa claro que, para ele, abusos sexuais contra menores por parte de religiosos não são apenas pecados, mas crimes que devem ser julgados.
Mas se a posição sobre os gays e sobre o abuso sexual pode representar uma mudança, Francisco deixa claro que não haverá uma nova opinião do Vaticano sobre a presença das mulheres na Igreja, sobre o aborto ou sobre o casamento homossexual.

O papa aproveitou a conversa para anunciar que vai exigir transparência e honestidade no Vaticano e garantiu que sua reforma vai continuar. “Esses escândalos fazem muito mal”, disse.
Antes de responder às perguntas, ele elogiou o “grande coração dos brasileiros”, disse que a viagem “fez bem para sua espiritualidade” e ainda disse que a organização do evento foi excelente. “Parecia um cronômetro”. Eis os principais trechos da entrevista:

Nestes quatro meses de pontificado, o senhor criou várias comissões. Que tipo de reforma do Vaticano o sr. tem em mente? O sr. quer suprimir o Banco do Vaticano?
Papa Francisco – Os passos que eu fui dando nestes quatro meses e meio vão em duas vertentes. O conteúdo do que quero fazer vem da congregação dos cardeais. Me lembro que os cardeais pediam muitas coisas para o novo papa, antes do conclave. Lembro-me que tinha muita coisa. Por exemplo, a comissão de oito cardeais, a importância de ter uma consulta de alguém de fora, e não uma consulta apenas interna. Isso vai na linha do amadurecimento da sinonalidade e do primado. Os vários episcopados do mundo vão se expressando e muitas propostas foram feitas, como a reforma da secretaria dos sínodos, para que a comissão sinodal tenha característica consultativa, como o consistório cardinalício com temáticas específicas, como a canonização. A vertente dos conteúdos vem daí. A segunda é a oportunidade. A formação da primeira comissão não me custou mais de um mês. Já a parte econômica, eu pensava em tratar no ano que vem, porque não é a mais importante. Mas a agenda mudou devido a circunstâncias que vocês conhecem que são domínio público. O primeiro é o problema do Ior (Banco do Vaticano), como encaminhá-lo, como reformá-lo, como sanear o que há de ser sanado. E essa foi então a primeira comissão. Depois tivemos a comissão dos 15 cardeais que se ocupam dos assuntos econômicos da Santa Sé. E por isso decidimos fazer uma comissão para toda a economia da Santa Sé, uma única comissão de referência. Se notou que o problema econômico estava fora da agenda. Mas estas coisas acontecem. Quando estamos no governo, vamos por um lado, mas se chutam e fazem um golaço por outro lado, temos que atacar. A vida é assim. Eu não sei como o Ior vai ficar. Alguns acham melhor que seja um banco, outros que deveria ser um fundo, uma instituição de ajuda. Eu não sei. Eu confio no trabalho das pessoas que estão trabalhando sobre isso. O presidente do Ior permanece, o tesoureiro também, enquanto o diretor e o vice-diretor pediram demissão. Não sei como vai terminar essa história. E isso é bom. Não somos máquinas. Temos que achar o melhor. Mas o fato é que, seja o que for, tem que ser feita com transparência e honestidade.

Uma fotografia do sr. deu a volta ao mundo, quando o sr. desceu as escadas do helicóptero em Roma para embarcar para o Brasil carregando sua mala preta. Reportagens levantaram hipóteses também sobre o conteúdo da mala. Porque o sr. saiu carregando a maleta preta e não um de seus colaboradores? E o sr. poderia dizer o que tinha dentro?
Papa Francisco – Não tinha a chave da bomba atômica. Eu sempre fiz isso. Quando viajo, levo minhas coisas. E dentro o que tem? Um barbeador, um breviário (livro de liturgia), uma agenda, tinha um livro para ler, sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre levei eu mesmo minha maleta. É normal. Nós temos que ser normais. É um pouco estranho isso que você me diz que a foto deu a volta ao mundo. Mas temos de nos habituar a sermos normais, à normalidade da vida.

Por que o senhor pede tanto para que rezem pelo senhor ? Não é habitual ouvir de um papa que peça que rezem por ele.
Papa Francisco – Sempre pedi isso. Quando era padre pedia, mas nem tanto e nem tão frequentemente. Comecei a pedir mais frequentemente quando passei a ser bispo. Porque eu sinto que se o Senhor não ajuda nesse trabalho de ajudar aos outros, não se pode realizá-lo. Preciso da ajuda do Senhor. Eu de verdade me sinto com tantos limites, tantos problemas, e também pecador. Peço à Nossa Senhora que reze por mim. É um hábito, mas que vem da necessidade. Eu sinto que devo pedir. Não sei…

Na busca por fazer as mudanças no Vaticano, o sr. disse que existem muitos santos que trabalham e outros um pouco menos santos. O sr. enfrenta resistências a essa sua vontade de mudar as coisas no Vaticano? O sr. vive num ambiente muito austero, de Santa Marta. Os seus colaboradores também vivem essa austeridade? Isso é algo apenas do sr. ou da comunidade?
Papa Francisco – As mudanças vêm de duas vertentes: do que pediram os cardeais e também o que vem da minha personalidade. Você falou que eu fico na Santa Marta. Eu não poderia viver sozinho no Palácio, que não é luxuoso. O apartamento pontifício é grande, mas não é luxuoso. Mas eu não posso viver sozinho. Preciso de gente, falar com gente, trabalhar com as pessoas. Porque é que quando os meninos da escola jesuíta me perguntaram se eu estava aqui pela austeridade e pobreza, eu respondi: não, não. É por motivos psiquiátricos. Psicologicamente, não posso. Cada um deve levar adiante sua vida, seguir seu modo de vida. Os cardeais que trabalham na Cúria não vivem como ricos. Têm apartamentos pequenos. São austeros. Os que eu conheço têm apartamentos pequenos. Cada um tem que viver como o senhor disse que tem que viver. A austeridade é necessária para todos. Trabalhamos a serviço da Igreja. É verdade que há sacerdotes e padres santos, gente que prega, que trabalha tanto, que trabalha e vai aos pobres, se preocupam em garantir que os pobres comam. Tem santos na Cúria. Também tem alguns que não são muito santos. E são estes que fazem mais barulho. Faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que nasce. Isso me dói. Porque são alguns que causam escândalos. Temos o monsenhor que foi para a cadeia (por lavagem de dinheiro). São escândalos que fazem mal. Uma coisa que nunca disse : a Cúria deveria ter o nível que tinham os velhos padres, pessoas que trabalham. Os velhos membros da Cúria. Precisamos deles. Precisamos do perfil do velho da Cúria. Sobre a resistência, se tem, eu ainda não vi. É verdade que aconteceram muitas coisas. Mas eu preciso dizer: eu encontrei ajuda, encontrei pessoas leais. Por exemplo, eu gosto quando alguém me diz: “eu não estou de acordo”. Esse é um verdadeiro colaborador. Mas quando vejo alguém que diz: “ah, que belo, que belo”, e depois dizem o contrário por trás, isso não ajuda.

O mundo mudou, os jovens mudaram. Temos no Brasil muitos jovens, mas o senhor não falou de aborto, sobre a posição do Vaticano sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil foram aprovadas leis que ampliam os direitos para estes casamentos, também em relação ao aborto. Por que o senhor não falou sobre isso?
Papa Francisco – A Igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Eu não queria voltar sobre isso. Não era necessário, como também não falei sobre outros assuntos. Eu também não falei sobre o roubo, sobre a mentira. Para isso, a Igreja tem um doutrina clara. Queria falar de coisas positivas, que abrem caminho aos jovens. Além disso, os jovens sabem perfeitamente qual a posição da igreja.

E qual é a do papa?
Papa Francisco – É a da Igreja, sou filho da Igreja.

Qual o sentido mais profundo de se apresentar como o bispo de Roma?
Papa Francisco – Não se deve andar mais adiante do que o que se fala. O papa é bispo de Roma e por isso é papa, que é sucessor de Pedro. Pensar que isso quer dizer que é o primeiro, não é o caso. Não é esse o sentido. O primeiro sentido do papa é ser o bispo de Roma.

O sr. teve sua primeira experiência de massas no Rio. Como o sr. se sente como papa? É muito trabalho ?
Papa Francisco – Ser bispo é lindo. O problema é quando um pessoa busca ter esse trabalho. Assim não é tão belo. Mas quando um senhor chama para ser bispo, isso é belo. Tem sempre o perigo e pecado de pensar com superioridade, como ser um príncipe. Mas o trabalho é belo. Ajudar o irmão a ir adiante. Têm o filtro da estrada. O bispo tem que indicar o caminho. Eu gosto de ser bispo. Em Buenos Aires, eu era tão feliz. Como padre eu era feliz. Como bispo, eu era feliz e isso me faz bem.

E como papa?
Papa Francisco – Se você faz o que o Senhor quer, é feliz. Isso é meu sentimento.

Vimos o sr. cheio de energia e, agora, enquanto o avião se mexe muito, vemos agora com muita tranquilidade de pé. Fala-se muito das próximas viagens. O sr. já tem um calendário?
Papa Francisco – Definido, definido não há nada. Mas posso dizer algumas coisas que estamos pensando. No dia 22 de setembro, Cagliari. Depois, em 4 de outubro, para Assis. Tenho em mente dentro da Itália ir ver minha família. Pegar um avião pela manhã e voltar com outro à noite. Meus familiares, pobres, me ligam. Temos una boa relação com eles. Fora da Itália o patriarca Bartolomeu I quer fazer um encontro para comemorar os 50 anos do encontro Atenágoras e Paulo VI em Jerusalém. O governo israelense nos deu um convite especial. O governo da Autoridade Palestina acredito que fez o mesmo. Isso está sendo pensado. Na América Latina, acredito que há possibilidades de voltar, porque o papa latino-americano, que acaba de fazer sua primeira viagem à América Latina….Adeus! Devemos esperar um pouco. Acredito que se possa ir à Ásia, mas está tudo no ar. Tive convites para ir ao Sri Lanka e Filipinas. Para a Ásia precisamos ir. Bento XVI não teve tempo.

E para a Argentina?
Papa Francisco – Isso pode esperar um pouco. As outras viagens têm prioridade.

No encontro com os argentinos, o sr. disse que se sentia enjaulado. Por que?
Papa Francisco – Vocês sabem que eu tenho vontade de passear pelas ruas de Roma? Adoro andar pelas ruas. E por isso me sinto um pouco enjaulado. Mas tenho que dizer que a Gendarmeria vaticana é boa. Agora me deixam fazer algumas coisas mais. Mas seu dever é garantir minha segurança. Enjaulado nesse sentido, de que gostaria de estar nas ruas. Mas entendo que não é possível. Em Buenos Aires, eu era um sacerdote das ruas.

A Igreja no Brasil está perdendo fiéis. A Renovação Carismática é uma possibilidade para evitar que eles sigam para as igrejas pentecostais?
Papa Francisco – É verdade, as estatísticas mostram. Falamos sobre isso ontem com os bispos brasileiros. E isso é um problema que incomoda os bispos brasileiros. Eu vou dizer uma coisa: nos anos 1970, início dos 1980, eu não podia nem vê-los. Uma vez, falando sobre eles, disse a seguinte frase: eles confundem uma celebração musical com uma escola de samba. Eu me arrependi. Vi que os movimentos bem assessorados trilharam um bom caminho. Agora, vejo que esse movimento faz muito bem à Igreja em geral. Em Buenos Aires, eu fazia uma missa com eles uma vez por ano, na catedral. Vi o bem que eles faziam. Neste momento da Igreja, creio que os movimentos são necessários. Esses movimentos são uma graça para a Igreja. A Renovação Carismática não serve apenas para evitar que alguns sigam os pentecostais. Eles são importantes para a própria Igreja, a Igreja que se renova.

O senhor disse que está cansado. Há algum tratamento especial neste voo?
Papa Francisco – Sim, estou cansado. Não há nenhum tratamento especial neste voo. Na frente, tem uma bela poltrona. Escrevi para dizer que não queria tratamento especial.

A Igreja sem a mulher perde a fecundidade? Quais as medidas concretas?
Papa Francisco – Uma Igreja sem as mulheres é como o colégio apostólico sem Maria. O papal da mulher na igreja não é só maternidade, a mãe da família. É muito mais forte. A mulher ajuda a Igreja a crescer. E pensar que a Nossa Senhora é mais importante do que os apóstolos! A Igreja é feminina, esposa, mãe. O papel da mulher na Igreja não deve ser só o de mãe e com um trabalho limitado. Não, tem outra coisa. O papa Paulo VI escreveu uma coisa belíssima sobre as mulheres. Creio que se deva ir adiante esse papel. Não se pode entender uma Igreja sem uma mulher ativa. Um exemplo histórico: para mim, as mulheres paraguaias são as mais gloriosas da América Latina. Sobraram, depois da guerra (1864-1870), oito mulheres para cada homem. E essas mulheres fizeram uma escolha um pouco difícil. A escolha de ter filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé, a língua. Na Igreja, se deve pensar nas mulheres sob essa perspectiva. Escolhas de risco, mas como mulher. Acredito que, até agora, não fizemos uma profunda teologia sobre a mulher. Somente um pouco aqui, um pouco lá. Tem a que faz a leitura, a presidente da Cáritas, mas há mais o que fazer. É necessário fazer uma profunda teologia da mulher. Isso é o que eu penso.

O que sr. pensa sobre a ordenação das mulheres?
Papa Francisco – Sobre a ordenação, a Igreja já falou e disse que não. João Paulo II disse com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada. Nossa Senhora, Maria, é mais importante que os apóstolos. A mulher na Igreja é mais importante que os bispos e os padres. Acredito que falte uma especificação teológica.

Queremos saber qual a sua relação de trabalho com Bento XVI, não a amistosa, a de colaboração. Não houve antes uma circunstância assim. Os contatos são frequentes?
Papa Francisco – A última vez que houve dois ou três papas, eles não se falavam. Estavam brigando entre si, para ver quem era o verdadeiro. Eu fiquei muito feliz quando se tornou papa. Também, quando renunciou, foi, pra mim, um exemplo muito grande. É um homem de Deus, de reza. Hoje, ele mora no Vaticano. Alguns me perguntam: como dois papas podem viver no Vaticano? Eu achei uma frase para explicar isso. É como ter um avô em casa. Um avô sábio. Na família, um avô é amado, admirado. Ele é um homem com prudência. Eu o convidei para vir comigo em algumas ocasiões. Ele prefere ficar reservado. Se eu tenho alguma dificuldade, não entendo alguma coisa, posso ir até ele. Sobre o problema grave do Vatileaks [vazamento de documentos secretos], ele me disse tudo com simplicidade. Tem uma coisa que não sei se vocês sabem: em 8 de fevereiro, no discurso, ele falou: “Entre vocês está o próximo papa. Eu prometo obediência”. Isso é grande.

Nesta viagem, o sr. falou de misericórdia. Sobre o acesso aos sacramentos dos divorciados, existe a possibilidade de mudar alguma coisa na disciplina da Igreja?
Papa Francisco – Essa é uma pergunta que sempre se faz. A misericórdia é maior do que o exemplo que você deu. Essa mudança de época e também tantos problemas na Igreja, como alguns testemunhos de alguns padres, problemas de corrupção, do clericalismo… A Igreja é mãe. Ela cura os feridos. Ela não se cansa de perdoar. Os divorciados podem fazer a comunhão. Não podem quando estão na segunda união. Esse problema deve ser estudado pela pastoral matrimonial. Há 15 dias, esteve comigo o secretário do sínodo dos bispos, para discutir o tema do próximo sínodo. E posso dizer que estamos a caminho de uma pastoral matrimonial mais profunda. O cardeal Guarantino disse ao meu antecessor que a metade dos matrimônios é nula. Porque as pessoas se casam sem maturidade ou porque socialmente devem se casar. Isso também entra na Pastoral do Matrimônio. A questão da anulação do casamento deve ser revisada. Também é preciso analisar os problemas judiciais de anular um matrimônio. Porque os…eclesiásticos não bastam para isso. É complexo o problema da anulação do matrimônio.

Como Papa, o senhor ainda pensa que é um jesuíta?
Papa Francisco – É uma pergunta teológica. Os jesuítas fazem votos de obedecer ao papa. Mas se o papa se torna um jesuíta, talvez devem fazer votos gerais dos jesuítas. Eu me sinto jesuíta na minha espiritualidade, a que tenho no coração. Não mudei de espiritualidade. Sou Francisco franciscano. Me sinto jesuíta e penso como jesuíta.

Em quatro meses de pontificado, pode nos fazer um pequeno balanço e dizer o que foi o pior e o melhor de ser papa? O que mais o surpreendeu neste período?
Papa Francisco – Não sei como responder isso, de verdade. Coisas ruins, ruins, não aconteceram. Coisas belas, sim. Por exemplo, o encontro com os bispos italianos, que foi tão bonito. Como bispo da capital da Itália, me senti em casa com eles. Uma coisa dolorosa foi a visita a Lampedusa, me fez chorar. Me fez bem. Quando chegam estes barcos (com imigrantes), e que os deixam a algumas milhas de distância da costa e eles têm que chegar (à costa) sozinhos, isso me dói porque penso que estas pessoas são vítimas do sistema socioeconômico mundial. Mas a coisa pior é uma ciática, é verdade, tive isso no primeiro mês. É verdade! Para uma entrevista, tive que me acomodar numa poltrona e isso me fez mal, doía muito, não desejo isso a ninguém. O encontro com os seminaristas religiosos foi belíssimo. Também o encontro com os alunos do colégio jesuíta foi belíssimo. As pessoas…conheci tantas pessoas boas no Vaticano. Isso é verdade, eu faço justiça. Tantas pessoas boas, mas boas, boas, boas.

O senhor se assustou quando viu o informe sobre o Vatileaks?
Papa Francisco – Não. Vou contar uma anedota sobre o informe do Vatileaks. Quando fui ver o papa Bento, ele disse: aqui está uma caixa com tudo o que disseram as testemunhas. Havia ainda um envelope com o resumo. E ele sabia tudo de memória. Mas não, não me assustei. São problemas grandes, mas não me assustei.

O sr. tem a esperança de que esta viagem ao Brasil contribua para trazer de volta os fiéis?
Papa Francisco – Uma viagem do papa sempre faz bem. E creio que a viagem ao Brasil fará bem, não apenas a presença do papa. Esta Jornada da Juventude, eles (os brasileiros) se mobilizaram e vão ajudar muito a Igreja. Tantos fiéis que foram se sentem felizes (por terem ido). Acho que vai ser positivo não só pela viagem, mas pela Jornada, que foi um evento maravilhoso.

Os argentinos se perguntam: o sr. não sente falta de estar em Buenos Aires, pegar um ônibus?
Papa Francisco – Buenos Aires, sim, sinto falta. Mas é uma saudade serena.

Hoje os ortodoxos festejam mil anos do cristianismo. Seu comentário?
Papa Francisco – As igrejas ortodoxas conservaram a liturgia tão bem, no sentido da adoração. Eles louvam Deus, adoram Deus, cantam Deus. O tempo não conta. O centro é Deus e isso é uma riqueza. Luz é oriente. E o ocidente, luxos. O consumismo nos faz tão mal. Quando se lê Dostoievski, que acho que todos nós devemos ler, precisamos deste ar fresco do Oriente, desta luz do Oriente.

O que o senhor pretende fazer em relação ao monsenhor Ricca (acusado de ter amantes) e como o sr. pretende enfrentar toda esta questão do lobby gay?
Papa Francisco – Sobre monsenhor Ricca, fiz o que o direito canônico manda fazer, que é a investigação prévia. E nesta investigação não tem nada do que o acusam. Não achamos nada. É a minha resposta. Mas eu gostaria de dizer outra coisa sobre isso. Vejo que muitas vezes na Igreja se busca os pecados de juventude, por exemplo. Abuso de menores é diferente. Mas, se uma pessoa, seja laica ou padre ou freira, pecou e esconde, o Senhor perdoa. Quando o Senhor perdoa, o Senhor esquece. E isso é importante para a nossa vida. Quando vamos confessar e nós dizemos que pecamos, o Senhor esquece e nós não temos o direito de não esquecer. Isso é um perigo. O que é importante é uma teologia do pecado. Tantas vezes penso em São Pedro, que cometeu tantos pecados e venerava Cristo. E este pecador foi transformado em papa. Neste caso, nós tivemos uma rápida investigação e não encontramos nada.
Vocês vêm muita coisa escrita sobre o lobby gay. Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com uma carteira de identidade do Vaticano dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que quando alguém se vê com uma pessoa assim devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay e fazer um lobby gay, porque todos os lobbies não são bons. Isso é o que é ruim. Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, pra julgá-la ? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby, o lobby dos avaros, o lobby dos políticos, o lobby dos maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema.
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Reportagem por Jamir Chade
Fonte: http://blogs.estadao.com.br/jamil-chade/

domingo, 28 de julho de 2013

" A marca humana "


O arquiteto que quer ver as cidades a pé

RESUMO Às vésperas da publicação de "Cidades para Pessoas" no Brasil, o dinamarquês Jan Gehl advoga um planejamento urbano guiado pela escala humana, em oposição às "torres que caem como falésias sobre a calçada" e aos carros. Ele tece críticas ao ideário modernista e aponta como modelos as medievais Veneza e Siena.

Há algo de vagamente quixotesco nas propostas de Jan Gehl. Mas há que admitir a hipótese de que alguns dos moinhos contra os quais o arquiteto dinamarquês vem se batendo sejam, de fato, gigantes a ponto de ruir.

Autor de "Cidades para Pessoas" [ed. Perspectiva, trad. Anita Di Marco, com colaboração de Anita Natividade, 280 págs., R$ 90], a sair no início de agosto, Gehl combate conceitos modernistas --que ao longo de meio século foram vistos quase como dogmas por seus colegas em todo o mundo-- com ideias simples, que contrariam a cultura do carro particular e a insensibilidade dos projetos urbanísticos para a escala humana.

Seu ideário, pleno de exemplos convincentes, não é futurista; em vez disso, volta-se para o passado. Em seu livro, cujo grande mote é a humanização das cidades, a utopia de Brasília é tratada como uma síndrome, ao passo que a vetusta Veneza é mencionada algumas vezes como modelo para uma nova arquitetura e urbanismo.

Falando à Folha por telefone, Gehl, professor emérito de desenho urbano na Escola de Arquitetura de Copenhague, demonstra otimismo. "Meu livro foi lançado em 2010 e já foi traduzido para cerca de 20 línguas. A ideia de um planejamento orientado para as pessoas, e não para os carros, tem se espalhado pelo mundo. Isso me deixa contente, pois meu objetivo no trabalho sempre foi conseguir criar ou inspirar espaços melhores para viver nas cidades, independentemente de o país ser grande ou pequeno, rico ou pobre."

Para ele não é surpresa, por exemplo, a notícia de que o número de jovens motoristas nos Estados Unidos caiu pela metade em 30 anos. "A era do carro está morrendo. Você consegue pensar em algo menos inteligente do que o uso obsessivo do carro? É muito custoso, ocupa demasiado espaço, polui e é causa de muitos acidentes."

Não à toa, todos os seus projetos, entre os quais se contam inúmeras mudanças em Copenhague, onde as áreas para carros foram bastante reduzidas, e Melbourne, com seu centro renovado, contemplam melhorias para transporte público, pedestres e ciclistas.

Como mostra em seu livro, com didatismo incomum e muitas ilustrações, uma das chaves para cidades humanizadas é a criação de áreas de uso comum diversificado. Entre os bons exemplos que Gehl destaca está a New Road, em Brighton, no litoral da Inglaterra.

Bem sinalizada e com mobiliário adequado, a rua tornou-se uma referência para pedestres, mas também serve a carros, ciclistas e ainda tem a função de praça, com bancos nas calçadas alargadas. As mudanças ampliaram a permanência das pessoas em 600%.

O mesmo aconteceu em Aahrus, na Dinamarca, em que um rio canalizado foi reaberto, e os espaços ao longo de seu curso, transformados em áreas de recreação. Com isso, o que era uma área cinzenta e abandonada tornou-se a mais visitada da cidade.

O uso de bicicletas como meio de transporte nos grandes centros, tema de debate crescente, é um dos tópicos contemplados por Gehl em seu livro. Em Copenhague, onde cerca de 40% do transporte pessoal é feito por bicicleta, utilizada por mais da metade da população local, as ciclovias são colocadas entre as calçadas e uma faixa para estacionamento de carros, que acaba servindo de proteção do fluxo de automóveis.

Recentemente, Gehl esteve em Moscou, uma das cidades para as quais realizou consultorias de vulto. Lá, diz, operaram-se grandes mudanças em um ano --como a proibição de estacionamento nas calçadas, a diminuição do limite de velocidade e a criação de vias peatonais e de praças onde havia estacionamentos, além do plantio de árvores, "para amenizar o ar melancólico" e a retirada de propaganda nas ruas e prédios.

"Provavelmente os problemas de Moscou são parecidos com os de São Paulo. A diferença é que eles são menos democráticos", comenta o arquiteto, que elaborou, em 2006, um estudo para a renovação do centro da capital paulista.

ESCALA HUMANA Bastante influenciado pela jornalista e ativista Jane Jacobs, autora de "Morte e Vida de Grandes Cidades" (1961), até hoje um marco das teorias de urbanismo, Gehl insiste muito na importância da escala humana --o que se traduz também numa preocupação com a arquitetura dos andares térreos dos edifícios, espaços de transição entre espaço privado e espaço público. "As grandes torres que caem como falésias sobre a calçada viram as costas para as pessoas; é preciso um convite à interatividade."

A seu ver, a "síndrome de Brasília" é uma das origens desse problema. Gehl, 76, recorda-se de ouvir, quando estava na universidade, "que Brasília era a cidade mais planejada do mundo".

"Mas quando fui lá, fiquei bastante desapontado ao ver que ninguém havia se preocupado com as pessoas. É uma cidade 100% pensada como máquina, como nos preceitos modernistas do início do século passado. A única preocupação parecia ser a aparência do alto, como se vista de um helicóptero. Assim, a cidade é linda. No nível dos olhos, porém, a paisagem é tediosa, não há espaços para o pedestre, e as praças são impossíveis de usar. É um tipo de arquitetura cujo paradigma ficou para trás."

Inaugurada em 1960, porém, Brasília é um retrato de seu tempo, quando o futuro era o automóvel. Portanto, é compreensível que cidades cujo traçado é eminentemente medieval, como Siena e Veneza, criadas quando carros não eram nem mesmo um delírio, sejam modelares para Gehl.

Em contraposição, Gehl aponta Dubai, nos Emirados Árabes; Lagos, na Nigéria; Ho Chi Minh, no Vietnã; Dakar, no Senegal; e Jacarta, na Indonésia, como exemplos do que chama de arquitetura rápida. "São cidades afogadas no trânsito, em que os ricos têm a mobilidade facilitada, e os pobres, muitas dificuldades para se deslocar", explica. Seu livro, no entanto, se concentra mais em cidades onde a distribuição de renda não é tão desigual. Ainda assim, reserva elogios para Curitiba e Bogotá, especialmente no que tange ao transporte público.

Muito embora grande parte das iniciativas encabeçadas por Gehl se relacione à mobilidade urbana --ele já falava em pedágio urbano e rodízio desde que se formou, em 1960--, o arquiteto pratica, em seu escritório, a noção de que o ofício é multidisciplinar. Em sua equipe, há sociólogos, antropólogos e teóricos de cultura trabalhando lado a lado com profissionais de arquitetura, design e urbanismo.

"Todas as cidades no mundo têm departamentos de trânsito, mas quase nenhuma tem um departamento para pedestres e ciclistas ou para a qualidade de vida. Às vezes, tenho a impressão de que sabemos mais sobre o hábitat de leões e gorilas do que sobre o de humanos."
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Reportagem por DANIEL BENEVIDES
Fonte: Folha on line, 28/07/2013

" Entrevista com Dilma Rousseff "

'Lula não vai voltar porque ele não saiu', afirma Dilma
 

Presidente diz que comparações com
o seu antecessor não a incomodam

Evitando comentar queda na popularidade,
petista prefere brincar: 'Tudo o que sobe desce,
e tudo o que desce sobe'

Gabinete tem quatro imagens de Nossa Senhora

FERNANDA ODILLADE BRASÍLIA
Uma caixa de chá inglês com o nome de "Dilmah" e pelo menos quatro imagens de Nossa Senhora espalhadas pelas mesas.

O gabinete presidencial do Planalto revela que Dilma Rousseff guarda curiosidades em seu local de trabalho, além de flores, muitos lenços de papel em caixas e pelo menos três umidificadores de ar para resistir à seca na capital.

Todos os domingos o Planalto abre as portas para que os turistas conheçam os salões e entrem na porta do gabinete de Dilma. Anteontem, numa mesinha de canto, havia uma caixa do chá "Dilmah English Breakfast", cujo fabricante diz tratar-se de "um presente da natureza para a humanidade", além de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Dilma tem outras duas imagens da padroeira do Brasil na mesa principal de trabalho, ao lado do computador, e uma de Nossa Senhora Auxiliadora próxima ao relógio de parede.

A única foto da mesa é a do neto Gabriel abraçando uma bola e vestindo camisa do Internacional.

Dilma havia deixado sobre a mesa dois livros: "Antes de que se me olvide [Antes que eu esqueça]" do diplomata venezuelano Alí Rodriguez Araque, e "Curso de Direito Administrativo" de Lucas Rocha Furtado, procurador do Ministério Público junto ao TCU.Furtado ficou surpreso: "Que orgulho. Se ela seguir as regras não vai ter problema com o TCU", brinca.
MÔNICA BERGAMO COLUNISTA DA FOLHA
O encontro da presidente Dilma Rousseff com a Folha, na sexta, no Palácio do Planalto, começou tenso. "Minha querida, você tem que desligar o ar-condicionado", dizia ela a uma assessora.

Com febre e faringite, medicada com antibiótico, corticóide e Tylenol, e com "o estômago lascado", ela estava também rouca. Em pouco tempo, relaxou. E passou quase três horas falando sobre manifestações, inflação, PIB e a possibilidade de Lula ser candidato a presidente. Leia abaixo os principais trechos:

Folha - As manifestações deixaram jornalistas, sociólogos e governantes perplexos. E a senhora, ficou espantada?
Dilma Rousseff - No discurso que fiz na comemoração dos dez anos do PT, em SP [em maio], eu já dizia que ninguém, ninguém, quando conquista direitos, quer voltar para trás. Democracia gera desejo de mais democracia. Inclusão social exige mais inclusão. Quando a gente, nesses dez anos [de governo do PT], cria condições para milhões de brasileiros ascenderem, eles vão exigir mais. Tivemos uma inclusão quantitativa. Esta aceleração não se deu na qualidade dos serviços públicos. Agora temos de responder também aceleradamente a essas questões.

Mas a senhora não ficou assustada com os protestos?
Não. Como as coisas aconteceram de forma muito rápida, eu acho que todo mundo teve inicialmente uma reação emocional muito forte com a violência [policial], principalmente com a imagem daquela jornalista da Folha [Giuliana Vallone] com o olho furado [por uma bala de borracha]. Foi chocante. Eu tenho neurose com olho. Já aguentei várias coisas na vida. Não sei se aguentaria a cegueira.

Se não fosse presidente, teria ido numa passeata?
Com 65 anos, eu não iria [risos]. Fui a muita passeata, até os 30, 40 anos. Depois disso, você olha o mundo de outro jeito. Sabe que manifestações são muito importantes, mas cada um dá a sua contribuição onde é mais capaz.

O prefeito Fernando Haddad diz que, conhecendo o perfil conservador do Brasil, muitos se preocupam com o rumo que tudo pode tomar.
Eu não acho que o Brasil tem perfil conservador. O povo é lúcido e faz as mudanças de forma constante e cautelosa. Tem um lado de avanço e um lado de conservação. Já me deram o seguinte exemplo: é como um elefante, que vai levantando uma perna de cada vez [risos]. Mas é uma pernona que vai e "poing", coloca lá na frente. Aí levanta a outra. Não galopa como um cavalo. Aí uma pessoa disse: "É, mas tem hora em que ele vira um urso bailarino". Você pode achar que contém a mudança em limites conservadores. Não é verdade. Tem hora em que o povo brasileiro aposta. E aposta pesado.

A senhora teve uma queda grande nas pesquisas.
Não comento pesquisa. Nem quando sobe nem quando desce [puxa a pálpebra inferior com o dedo]. Eu presto atenção. E sei perfeitamente que tudo o que sobe desce, e tudo o que desce sobe.

Mas isso fez ressurgir o movimento "Volta, Lula" em 2014.
Querida, olha, vou te falar uma coisa: eu e o Lula somos indissociáveis. Então esse tipo de coisa, entre nós, não gruda, não cola. Agora, falar volta Lula e tal... Eu acho que o Lula não vai voltar porque ele não foi. Ele não saiu. Ele disse outro dia: "Vou morrer fazendo política. Podem fazer o que quiser. Vou estar velhinho e fazendo política".

Para a Presidência ele não volta nunca mais?
Isso eu não sei, querida. Isso eu não sei.

Ao menos não em 2014.
Esses problemas de sucessão, eu não discuto. Quem não é presidente é que tem que ficar discutindo isso. Agora, eu sou presidente, vou discutir? Eu, não.

Mas o Lula lançou a senhora.
Ele pode lançar, uai.

O fato de usarem o Lula para criticá-la não a incomoda?
Querida, não me incomoda nem um pouquinho. Eu tenho uma relação com o Lula que tá por cima de todas essas pessoas. Não passa por elas, entendeu? Eu tô misturada com o governo dele total. Nós ficamos juntos todos os santos dias, do dia 21 de junho de 2005 [quando ela assumiu a Casa Civil] até ele sair do governo. Temos uma relação de compreensão imediata sobre uma porção de coisas.

Mas ele teria criticado suas reações às manifestações.
Minha querida, ele vivia me criticando. Isso não é novo [risos]. E eu criticava ele. Quer dizer, ele era presidente. Eu não criticava. Eu me queixava, lamentava [risos].

Como a senhora vê um empresário como Emílio Odebrecht falar que quer que o Lula volte com Eduardo Campos de vice?
Uai, ótimo para ele. Vivemos numa democracia. Se ele disse isso, é porque ele quer isso.

Leia o trecho em que Dilma Rousseff fala de plebiscito, reforma política e Mais Médicos.
Sua principal proposta em reação às manifestações foi a realização de um plebiscito para fazer a reforma política. A crítica à senhora é que ninguém nas passeatas pedia isso.
Pois acho que tá todo mundo pedindo reforma política. As manifestações podiam não ter ainda um amadurecimento político, mas uma parte tem a ver com representatividade, valores, o que diz respeito ao sistema político. Ao fato de que os interesses se movem conforme o financiamento das campanhas. Não dá para cuidar de transparência sem discutir o sistema. "O gigante despertou", diziam nos protestos --o que mostra o inconformismo com a nossa forma de representação.

O Congresso Nacional fará reforma contra ele mesmo?
Querida, por isso que eu queria um plebiscito. A consulta popular era a baliza que daria legitimidade à reforma.

Mas a senhora concorda que o plebiscito não sai?
Eu não concordo com nada, minha querida. Eu penso que é importante sair. E não sei ainda se não sai. Eu acho que é inexorável. Se você não escutar a voz das ruas, terá novos problemas.

E a saúde? Os profissionais da área dizem que o Mais Médicos é uma maquiagem porque o país tem uma estrutura precária de atendimento.
É? Pois é. Acontece que botamos dinheiro em estrutura. Jornais e TVs mostram que há equipamentos sem uso. Como você explica que 700 municípios não têm nenhum médico? E que 1.900 têm menos de um médico por 3.000 habitantes? Uma coisa é certa: eu, com médico, me viro. Sem médico, eu não me viro.

Folha - O PMDB engrossou o coro dos que defendem o enxugamento de ministérios.
Dilma Rousseff - Não estou cogitando isso. Não acho que reduza custos. As medidas de redução de custeio, nós tomamos. Todas. E sabe o que acontece? Vão querer cortar os de Direitos Humanos, Igualdade Racial, Política para as Mulheres. São pastas sem a máquina de outros. Mas são fundamentais. Política de cotas, por exemplo: só fizemos porque tem gente que fica ali, ó, exigindo.

A senhora sabe falar o nome de seus 39 ministros?
De todos. E todos eles ficam atrás de mim [risos]. Eu acho fantástico vocês [jornalistas] acharem que, nesse mundo de mídias, o despacho seja apenas presencial. Os ministros passam o tempo inteirinho me mandando e-mail, telefonando, conversando.

O ministro Guido Mantega está garantido no cargo?
O Guido está onde sempre esteve: no Ministério da Fazenda. E vocês podem me matar, mas eu não vou falar de reforma ministerial.

O desemprego em junho subiu pela primeira vez em quatro anos, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Querida, o desemprego... [Consulta papéis.] Olha aqui, ó. É fantástico. Tem dó de mim, né? Como não podem falar de inflação, porque o IPCA-15 [prévia do índice oficial] deu 0,07% neste mês... E nós temos acompanhamento diário da inflação, tá? Hoje deu menos 0,02%. Tá? Ela [inflação] é cadente, assim, ó [aponta o braço para baixo].

E o emprego?
Houve uma variação. Foi de 5,9% para 6%. É a margem da margem da margem. Foram gerados 123.836 empregos celetistas. Em todo o primeiro mandato do Fernando Henrique Cardoso foram gerados 824.394 empregos. Eu, em 30 meses, gerei 4,4 milhões. Você vai me desculpar.
Com a inflação, também... Alguém já disse quanto é que caiu o preço do tomate? Ou só comentaram quando o tomate aumentou? [Pede para uma assessora checar os números. Ela informa que o tomate está custando R$ 4,50 o quilo.]
Eu não sou dona de casa, não posso mais ir no supermercado e não sei o preço do tomate hoje. Mas sei a estatística do tomate. Teve uma queda, se não me engano, de 16%. Eu ia naquele supermercado ali, ó [aponta a janela]. Não posso mais.

A senhora acha que os críticos do governo exageram?
Eu propus cinco pactos [depois das manifestações]. E eu tenho um sexto, sabe? Que é o pacto com a verdade. Não é admissível o que se faz hoje no Brasil. Você tem uma situação internacional extremamente delicada. Os EUA se recuperam, mas lentamente. Nós temos um ajuste visível na China. O Fed [Banco Central dos EUA] indicou que deixaria o expansionismo monetário, o que provocou a desvalorização de moedas em todo o mundo. E o país, nessa conjuntura, mantém a estabilidade. Cumpriremos a meta de inflação pelo décimo ano consecutivo. Sabe em quantos anos o Fernando Henrique não cumpriu a meta? Em três dos quatro anos dele [em que a meta vigorou].

A inflação subiu por vários meses no período de um ano.
Nós tivemos a quebra na produção agrícola americana, que afetou os mercados de commodities alimentares. Tivemos uma seca forte no Nordeste e também no sul.

A crítica é que a senhora relaxou no controle da inflação para manter o crescimento.
Ah, é? Tá bom. E como é que ela tá negativa agora?

Há dúvidas também em relação à política fiscal.
A relação dívida líquida sobre PIB nunca foi tão baixa. A dívida bruta está caindo. O deficit da Previdência é 1% do PIB. As despesas com pessoal, de 4,2%, as menores em dez anos. Como é que afrouxei o fiscal? Quero falar do futuro. De agosto até o início do ano que vem, faremos várias concessões, rodovias, ferrovias, aeroportos e portos, o que vai contribuir para a ampliação dos investimentos e para melhorar a competitividade da economia.

Mas o Brasil cresce pouco.
O mundo cresce pouco. Nós não somos uma ilha. Você não está com aquele vento a favor que estava, não. Nós estamos crescendo com vendaval na nossa cara.

O modelo de crescimento pelo consumo não se esgotou?
É uma tolice meridiana falar que o país não cresce puxado pelo consumo. Os EUA crescem puxados pelo consumo e pelo investimento. Nós temos que aumentar a taxa de investimento no Brasil. Aí eu concordo. Tanto que tomamos medidas fundamentais para que isso ocorra. Reduzimos os juros. Desoneramos as folhas de pagamento. Reduzimos a tarifa de energia. E fizemos um programa ousado de formação profissional, o Pronatec.

Os investimentos estão lentos e isso é creditado ao governo. Os empresários reclamam que a senhora não tem diálogo.
Eu? Veja a agenda de qualquer tempo da minha vida. Participei de todos os leilões, do período Lula e do meu. Entendo que eles [empresários] queiram conversar comigo, como faziam sistematicamente. Mas sou presidente. Eu não posso mais discutir taxa interna de retorno.

É outra crítica: o governo interfere, quer definir até a taxa.
É da vida o empresário pedir mais, o governo pedir menos. Aí ganha no meio. O Tribunal de Contas da União exige a definição de uma taxa de retorno. E o governo tem de ter sensibilidade para perceber quando está errado.

A senhora teria características que não contribuiriam para que projetos deslanchem. Seria centralizadora, autoritária.
Não, eu não sou isso, não. Agora, eu sei, como toda mulher, que, se você não acompanha as coisas prioritárias, tem um risco grande de elas não saírem. É que nem filho. Você ajuda até um momento, depois deixa voar.

A senhora já fez ministros chorarem com suas broncas?
Ah, que ministros choram o quê! Aquela história do [ex-presidente da Petrobras José Sergio] Gabrielli? Um dia escreveram que ele era pretensioso e autoritário. No dia seguinte, que eu tinha brigado e que ele chorou no banheiro. A gente ligava pra ele: "Eu queria falar com o autoritário chorão". Ô, querida, você conhece o Gabrielli? Ah, pelo amor de Deus.

A senhora não é dura demais?
Ah, querida, eu exijo bastante. O que exijo de mim, exijo de todo mundo.

Isso não inibe ministros?
Não tenho visto eles inibidos, não. Nenhum projeto de governo sai da cabeça de uma pessoa só. Não funciona assim. Se funcionasse, eu tava feita. Não trabalharia tanto.

Uma das questões que Lula encaminhou no fim do governo foi o da regulamentação da radiodifusão no país. A senhora enterrou esse assunto?
Não. Agora, o que eu e Lula jamais aceitaremos é que se mexa na liberdade de expressão. Vou te dizer o seguinte: não sou a favor da regulação do conteúdo. Sou a favor da regulação do negócio.

O que acha de o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, ser chamado por críticos de "ministro do Plim-Plim"?
É um equívoco, uma incompreensão. Essa discussão [da regulação] está sempre posta. O [ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social] Franklin [Martins] deixou um legado importante. E agora vai ter mais discussão. A regulação em algum momento terá de ser feita. Mas ela não é igual ao que se pensou há três anos. É algo complexo, até o que deve ser regulado terá de ser discutido.

Por quê?
Hoje o que está em questão não é mais empresa jornalística versus telecomunicações, TV versus jornais. Hoje tem a internet. Tem um problema sério, nos EUA, no Brasil, para jornais escritos, revistas. Vai haver problema de concorrência da internet, da plataforma IP, em TV.
Temos de discutir. Eu não tenho todas as respostas. Todo mundo terá de participar. O Google hoje atrai mais publicidade que mídias que até há pouco eram as segundas colocadas. A vida é dura. E não é só para o governo. [Dilma pede que a conversa seja encerrada, alegando cansaço]. Gente, preciso ir. Estou tontinha da silva [risos]

Ia perguntar sobre seus prováveis adversários em 2014, Aécio Neves e Marina Silva.
[Em tom de brincadeira] Não fica triste, mas sobre isso eu não ia responder, não.
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Fonte: Folha on line, 28/07/2013

" Encare seus demônios " < por Jeanne Callegari >

Por mais que negue ou finja que não é com você, não adianta: as emoções negativas continuam existindo. A melhor forma de lidar com isso é olhá-las de frente, reconhecê-las. Só assim elas perdem força - e você se torna uma pessoa mais completa






Boneco de Fernanda Simionato


O Dr. Bruce Banner é um cara legal. Cientista brilhante, é um dos maiores especialistas do mundo em física nuclear. É normalmente afável e simpático. Mas Banner tem um probleminha que o diferencia das outras pessoas: quando fica com raiva, transforma-se em uma gigantesca criatura verde, irada, que sai quebrando tudo que vê pela frente. Ele se torna o Incrível Hulk, das histórias em quadrinhos e dos filmes.

Banner é um personagem de ficção, mas todos têm algo em comum com ele. Carregamos, dentro de nossa psique, emoções e pensamentos negativos, coisas das quais temos vergonha e que podem ser muito destrutivas, se não tomarmos cuidado. O psicanalista Carl G. Jung chamou essa área de "sombra". São nossos demônios, monstros internos. Eles podem não ser verdes nem sair por aí destruindo bairros inteiros, mas têm potencial para sabotar nossos sonhos, melar relacionamentos, nos deixar confusos e isolados.

Do mais cruel assassino à pessoa mais iluminada, somos todos capazes de raiva, inveja, preconceito, medo, ciúme, ganância. "O ser humano nasce com um lado claro e um lado sombrio", diz a psiquiatra e analista junguiana Iraci Galiás, uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Não há razão para se envergonhar desses impulsos e sentimentos: é simplesmente o normal, parte do que é ser humano. A mesma pessoa capaz de generosidade e amor pode sentir ciúme, inveja e preconceito.

Acontece que nossa consciência não sabe disso. Ela não lida muito bem com alguns dos nossos pensamentos e impulsos. Alguns são tão assustadores e traumáticos que a gente varre para debaixo do tapete, ou seja, para o inconsciente. E para um lugar específico dele: a sombra. Isso acontece por meio de um processo chamado de "dissociação", em que os fragmentos que não conseguimos aceitar se separam do resto da nossa psique e ficam isolados. E nós nos sentimos fragmentados, divididos.
A sombra é como uma gaveta onde jogamos o que não queremos que os outros saibam sobre nós. É um porão da psique, um depósito das coisas que consideramos inaceitáveis, vergonhosas, difíceis de admitir até para nós mesmos. Tudo começa na infância, com algum trauma que sofremos, alguma repressão, humilhação, ressentimento ou culpa. "Nosso `demônio interior¿ nasce a partir da falta de amor que você vivenciou ou sentiu ter vivenciado", diz a psicóloga Letícia França de Carvalho, que ministra, em Belo Horizonte, o workshop (Re)Conhecendo nossos demônios. Como forma de defesa contra o sofrimento, a criança varre aquela experiência para a sombra.


Ao contrário de emoções como generosidade, compaixão, bondade, que nos deixam mais leves, expansivos, tranquilos, as emoções negativas são extremamente desconfortáveis. "Elas são aflitivas, nos machucam. Quando as sentimos, a mente fica incomodada, não está em paz", diz Tenzin Palmo, uma das mais respeitadas monjas do budismo tibetano, da linhagem Drukpa. Quando você fica enraivecido com alguém que roubou sua vaga no estacionamento, quem é que sofre com isso? O espertinho que entrou na sua frente? Ou você mesmo, que fica remoendo aquela sensação?

E aí vem outro problema. Muitas vezes, ao não sabermos o que fazer com nossa raiva, preconceito, inveja ou ciúme, podemos, além de machucar a nós mesmos, machucar os outros. Para impedir que nossos demônios internos saiam desgovernados por aí, como o Hulk, só tem um jeito. Prestar atenção neles.


Fácil não é. Como a gente não costuma mexer no porão da psique, ele é escuro, empoeirado, assustador. Tem teias de aranha, ratos, baratas, o cheiro é tóxico e viciado. Mas negar nossos demônios por medo de enfrentá-los é como não ir ao médico por medo do diagnóstico. A doença não vai desaparecer só porque você não compareceu à consulta.

Da mesma forma, os símbolos e emoções guardados no porão da psique não irão embora. E eles não gostam nada de ficar lá abandonados. Assim como as crianças choram quando querem atenção, a sombra faz um barulho enorme para que a gente preste atenção nela. E dá um jeito então de sair de vez em quando e se infiltrar em nossas ações. É aquele dia em que você, normalmente calmo e equilibrado, se pega gritando com os funcionários. Ou o pai que, num dia de raiva, bate no filho. A pessoa que se orgulha de não ser preconceituosa mas solta uma piada homofóbica, ou um comentário machista, porque afinal "é só uma brincadeira". A sombra também pode se traduzir em sintomas, como ansiedade, depressão, manias diversas. Pode sabotar nossos planos, ao fazer com que comamos ou bebamos demais, por exemplo.

E como a gente faz, então, para lidar com o lado sombrio? O primeiro passo talvez seja o mais difícil: olhar para ele. Como costumamos negar os demônios, muitas vezes nem sabemos que estão lá. Por isso, para conseguir enxergá-los, vale prestar atenção no que dizem colegas, amigos, companheiros. Se muita gente já falou sobre seu mau humor ou arrogância, talvez haja um tiquinho de verdade nos comentários.

Existem outras maneiras de ver a sombra. Uma dica é prestar atenção nos seus sentimentos algumas vezes ao dia. Toda vez que tocar o telefone, por exemplo. Analise como está se sentindo: está bem? Feliz? Em paz? Sua mente está instável, ou aflita, ansiosa, confusa, raivosa? Você ficará surpreso ao perceber o quanto os pensamentos negativos são frequentes.

Outra forma de exercitar o olhar é: a cada vez que perceber que sentiu raiva, inveja, maledicência ou qualquer outro sentimento negativo, permaneça com ele. A monja budista Pema Chödrön fala sobre isso em sua obra Os Lugares que nos Assustam (Sextante). Uma de suas sugestões é agir no momento em que o sentimento ocorre: inspire e expire com ele, tentando deixar as explicações de lado e ficar apenas com a energia subjacente. Não foque nas razões de sua raiva, por exemplo, mas na raiva em si. Permita-se sentir a raiva, ver como ela pulsa, o que ela o faz sentir, como ela afeta seu corpo; deixe que a raiva 0 suavize e não que o torne mais rígido e amedrontado. "Quando estamos dispostos a permanecer, ainda que por apenas um momento, com uma energia desconfortável, aprendemos gradualmente a não ter medo dela", escreve Pema Chödrön. Aos poucos, desenvolvemos mais aceitação e abertura para qualquer situação, emoção ou pessoa que apareça.

A irritação pode ser uma das melhores armas para reconhecer nossos demônios. Isso porque, incapazes de olhar para nossos próprios defeitos, costumamos vê-los nos outros. É o que em psicanálise se chama "projeção". É como um espelho: se no fundo eu me acho invejoso, mas não tenho coragem de admitir, vou acabar enxergando a inveja em todas as outras pessoas. É provável que, de todos os possíveis defeitos que as pessoas têm, nenhum me irrite mais que a inveja, pois ela é o reflexo daquilo que não consigo ver em mim. O mesmo acontece com a raiva, o medo, a ansiedade, o ciúme... É sempre bom prestar atenção nas coisas que nos tiram do sério, pois em geral dizem algo sobre nós mesmos.


A ideia de projeção costuma gerar protestos. "Eu não sou NADA parecida com fulano", você pode dizer. Mas será mesmo? Talvez você manifeste a característica que odeie de maneira diferente. Se reclama da mãe bagunceira, talvez você também tenha tendência a acumular coisas. A pessoa viciada em chocolate, que nunca consegue seguir a dieta, pode ser a primeira a apontar que o companheiro bebe demais, por exemplo. Ou então o medo de ser como alguém que reprovamos é tão grande que reprimimos aquela característica completamente, mesmo nas doses que seriam consideradas positivas. Uma pessoa que acha os pais egoístas pode ter decidido, muito cedo, não ser egoísta. E aí ela se pega, 40 anos mais tarde, soterrada de tarefas, pois é incapaz de dizer não para os inúmeros pedidos que lhe fazem. No caso dessa hipotética pessoa, um pouco de egoísmo não faria mal nenhum.


E de repente você admite: sim, sou preconceituoso. Sim, fiquei vermelho de raiva. Sim, passei dos limites com meu companheiro. E agora, o que fazer? Um dos primeiros impulsos é ficar bravo consigo mesmo, decepcionado. Puxa, logo eu, que me achava uma pessoa tão legal... É aí que entra a compaixão. Você precisa aceitar sua sombra. Perdoar-se por ela. Você não tem culpa de se sentir assim. Eram as defesas que você tinha na época, e você as usou da melhor forma que pôde. "É preciso ser amigo de si mesmo", diz a monja Tenzin Palmo. "Senão, como poderemos ser amigos dos outros?" A compaixão começa, em primeiro lugar, com a gente mesmo, ao olharmos para as coisas que não gostamos em nós e nos perdoarmos por elas. Elas são nossas feridas, resultado de nosso sofrimento. E não faz sentido brigar com alguém por estar ferido, faz?

Se pudermos ser gentis com nós mesmos, fica mais fácil ser assim com os outros. Pois entendemos que eles também têm suas sombras, também estão feridos. "Com uma pequena mudança de perspectiva, podemos perceber que as pessoas falam coisas maldosas pelas mesmas razões que nós. Com senso de humor, podemos perceber que nossas irmãs e irmãos, parceiros, crianças, colegas de trabalho nos deixam loucos da mesma maneira que nós deixamos os outros loucos", escreve Pema Chödrön.

A partir do reconhecimento e da aceitação, a gente lida com o problema. Se o que pega é a raiva, há livros, técnicas e terapias para aprender a viver com ela. Se é a ansiedade, a mesma coisa: procuramos um médico, um psicólogo ou alguma espécie de terapia que nos ajude a aliviar a tensão. "É como ir à academia. Nós exercitamos mais as partes que mais necessitam. Se meus braços estão OK, eu trabalho um pouco com eles, mas vou dar mais atenção às pernas, que estão precisando mais", diz Tenzin Palmo. É assim que a gente cresce.

Nós não fomos treinados para lidar com a sombra; por isso é tão difícil reconhecê-la, aceitá-la. "Fomos condicionados a temer o lado obscuro da vida, assim como o nosso", diz a psicóloga Letícia França de Carvalho. Dizemos para as crianças que é errado sentir raiva, medo, ansiedade, desejo. E aí crescemos sem ferramentas internas para lidar com essas situações. A analista Iraci Galiás conta que, quando sua filha era pequena e chorava por alguma razão, ela dizia: "Chore, filha, pode chorar". Afinal, a tristeza da criança é legítima, é preciso legitimá-la. Mas o que costumam fazer os adultos? Com a melhor das intenções, pedem: "Não chore!" Numa ocasião, a filha de Iraci, então com 7 ou 8 anos, colocou as mãozinhas na cintura e disse: "Eu tenho o direito de chorar". Estava certíssima.


É preciso lembrar: nenhum sentimento, nenhuma emoção, nenhum impulso que possamos sentir é errado. Da inveja do colega às fantasias sexuais mais impraticáveis, não é errado sentir ou pensar coisa alguma. Afinal, como qualquer pessoa que já tentou meditar sabe, não temos nenhum controle sobre o que sentimos ou pensamos. Nossa mente fica sempre à deriva, à mercê de todo tipo de impulso ou emoção.

O problema não são esses pensamentos, mas o que fazemos com eles. É isso que deveríamos ensinar às crianças: tudo bem estar com raiva da irmãzinha, afinal, ela tomou seu brinquedo. Mas isso não quer dizer que pode ir lá e bater nela. Tudo bem ter preguiça de ir para a escola. Mas mesmo assim você tem que levantar e ir. Quando dois irmãos brigam e os adultos pedem que eles se abracem e "façam as pazes", estão cometendo, de certa forma, uma violência. Não é hora de as crianças se abraçarem: elas estão com raiva! Isso pode acontecer depois, quando os ânimos estiverem mais calmos.

Naquele estado tenso ou alterado, pensamos que mandar um e-mail desaforado, colocar aquele comentário desagradável no Facebook ou até mesmo comer um chocolate extra nos trará algum alívio. É aí que devemos nos perguntar: eu irei de fato me sentir melhor quando isso acabar? Podemos fazer um experimento e tentar interromper a reação em cadeia da raiva ou da ansiedade; não precisamos culpar outra pessoa, nem precisamos culpar a nós mesmos.


A sombra é parte de nós, o resultado de nossas feridas. Mas ela não nos define, assim como uma dor de dente ou uma coceira na perna não nos define. Quando passarmos a não nos julgar com tanta severidade, poderemos aos poucos reconhecer nossos demônios, sejam eles verdes como o Hulk, murchos como o medo ou famintos como a inveja.

Nossa tarefa, em relação à sombra, é tirá-la do porão fétido em que se esconde e incorporá-la ao nosso self. É o que se chama, na psicologia analítica, de "integração": voltar a ser uma pessoa inteira, não mais dissociada, não mais dividida. No budismo, é o equivalente ao despertar: o momento em que a ilusão do ego não mais nos confunde, e podemos ver as coisas como elas são, sem véus, para além da dualidade.

Podemos encarar nossos demônios como professores, que estão em nosso caminho para mostrar onde precisamos melhorar. Assim como a fome aponta que se deve comer e a dor, que há algo errado no corpo, as emoções negativas servem de alerta para as questões que nos afetam de maneira mais profunda. Se passarmos a enxergar nossos impulsos inconfessáveis como professores - Jung os chamava de "sparring", o parceiro do treino de boxe -, poderemos transcendê-los e aí, e só aí, eles perderão força. Ficarão menos assustadores, menos asquerosos. E abrir aquele porão cheio de demônios ficará cada vez mais fácil.

"A livrerie Hillé Puonto "

A livreira Hillé Puonto tem um blog sobre o dia a dia em uma livraria. Os textos, pincelados de bom humor e ironia, traduzem um pouco da nossa cultura. Ela conta, aqui, algumas de suas histórias


POR Hillé Puonto*

 


Ilustração Thales Molina
Pelo menos uma vez por semana escuto alguém dizer que gostaria de morar no meu local de trabalho. É compreensível (só que não), afinal, o cenário chega a ser cinematográfico: lugar amplo, com poltronas confortáveis, estantes entupidas de livros, funcionários lindos, superplugados e com a higiene bucal em dia. O que a maioria das pessoas esquece é que a freguesia alucinada (ou a clientela, como preferirem) faz parte da rotina e é praticamente impossível deixá-la de fora da brincadeira. E, se você costuma visitar livrarias com certa frequência, já deve ter escutado alguma conversa surreal: gente que quer indicação de um "lançamento novo", ou que está à procura de um livro de que não sabe o título e tampouco o autor. Também é comum encontrar alguém roncando com uma revista no rosto, ou aquele casal que resolve deixar os filhos no setor infantil para poder dar um rolê e ver o mundo girar. Sim, trabalhar em livrarias é uma delícia, mas, tal como a rapadura, não é nada mole. Na tentativa de melhorar a qualidade de vida do livreiro e nossa relação com a freguesia, preparei uma lista com os dez comportamentos que deveriam ser evitados pela clientela. Porém, a gente sabe que tudo na vida é melhor quando é ilegal, imoral ou irrita livreiros. 1 - Fazer perguntas desnecessárias
"Oi, você trabalha aqui?" Tudo bem, às vezes não dá pra ver o crachá laranja no pescoço do funcionário. Sim, também pode ser só uma forma de se iniciar uma conversa, mas vocês concordam que é um jeito muito errado? Gente, por que alguém estaria às 10 da manhã de um domingo arrumando estante de livraria? Reza a lenda que um livreiro, certa vez, já cansado de ouvir sempre a mesma pergunta, respondeu: "Não, minha senhora, eu não trabalho aqui. Eu faço parte de uma ONG que carrega livros". Sem contar os inúmeros casos de fregueses que entram na livraria para perguntar se os livros estão à venda. Alô? Poderia ser outra lenda, mas em uma das ocasiões eu realmente respondi: "Vendemos estantes, senhora. os livros são de isopor".
2 - Não conhecer a pessoa para quem quer dar um livro Rapidinho, se você não tem o hábito de ler e não conhece o presenteado (não sabe se a pessoa gosta de ler ou não), sério, chega aqui no meu ouvido direito e me responda: por que raios você decide comprar livros para dar de presente? Sim, o incentivo é válido, é lindo, é amor, mas o assunto começa a ficar complicado quando a freguesia pede sugestão e: "É para uma senhora de 89 anos". "E ela gosta de ler o quê?" "Não sei." "Você sabe qual foi o último livro que ela leu?" "Também não." "Você conhece a pessoa?" "então, na verdade, ela é sogra de um amigo do primo do meu marido e nós nunca nos encontramos pessoalmente. Sei lá, moça, me indica um presente genérico?" Indico: meias.

3 - Deixar de anotar o título do livro que pretende comprar
"Eu queria um livro." "Qual é o título?" "Não lembro." "E o autor, você sabe?" "Também não." "E sobre o que se trata?" "Não sei." "Você sabe alguma coisa do livro?" "Claro! A capa dele é azul." Ô gente, entendam, por mais experiência e conhecimento que o livreiro possa ter, ele não vai conseguir localizar aquele livro que você quer só pela cor ou estilo da capa. Sim, faz parte do nosso trabalho ajudar a freguesia, porém, a arte de ler mentes perigosas ainda não é totalmente dominada pela maioria de nós, acreditem.

4 - Causar na livraria só porque é escritor
Se você é escritor e não tem seu livro comercializado em determinada livraria, infelizmente, não é o livreiro que vai resolver seu problema. Portanto, guarde para as editoras sua bronca, sua dor de escritor subestimado, pois estamos na livraria somente para fornecer... amor. E, se você é escritor e tem seu livro vendido, não é de bom tom tirá-los da estante e colocá-los em lugar de destaque. Outra coisa: também enfraquece a amizade escritor que fica atrás de livreiro contando a história do seu livro para tentar impulsionar as vendas. Sério, gente da escrita, menos.

5 - Guardar livros em lugares aleatórios
Freguês que tira livros da estante não é nosso maior problema. A gente até gosta de ver a freguesia se atirando nos livros, achamos uma cena bonita de se ver. Problema mesmo, aquele que nos dá enxaqueca e nos faz querer ir para o ambulatório, é gente que pega um livro de culinária e coloca na seção de saúde. E por que alguém faria isso? Falta de amor? Talvez. "Talvez" porque a gente sabe que, algumas vezes, a freguesia está tentando ajudar (eu prefiro acreditar nisso antes de perder totalmente a fé na humanidade).

6 - Pedir informações para o livreiro que está ao telefone
Se não há limites para o delírio, não é uma conversa telefônica que vai impedir aquele freguês indelicado de abordar um atendente. Para algumas pessoas, livreiro no telefone é livreiro desocupado. "É só uma perguntinha, moço." Não, nunca é. e se o livreiro pede alguns minutos, enquanto finaliza o atendimento, o freguês geralmente faz cara feia, bufa, bate no terminal. Questão de lógica: se a pessoa está ao telefone, ela não vai conseguir dar atenção ou pegar o livro na estante. Então, vamos esperar o livreiro amigo desocupar.

7 - Entrar na livraria no fim do expediente
Chegou o comportamento que faz a serotonina do meu corpo baixar. O que faz alguém entrar em uma livraria faltando cinco minutos para o fim do expediente? Resposta: falta de peixes para alimentar. Sério. E quando o freguês chega com uma lista querida, com uns 30 livros?

8 - Deixar os filhos no setor infanto-juvenil
É simples: o setor infantil da livraria não é área de recreação e livreiro não é baby-sitter. E digo mais: como é que um pai consegue deixar seu filho com um livreiro e sair para curtir a vida adoidado? Sim, porque é visível que as empresas de RH das livrarias têm uma leve queda por gente desequilibrada. Ilustro com um causo: certa vez, um grupo de livreiros cogitou criar um código de barras para colar em uma das crianças que havia sido deixada ali. A ideia só não foi adiante porque ela era mais esperta e foi ver uns livros de xadrez.

9 - Deixar para comprar o livro na última hora
Freguês que deixa tudo para a última hora é caso recorrente: vestibulandos que querem os livros obrigatórios faltando duas semanas para a prova; pais que não compram os livros do semestre da garotada. Não seria um problema se o freguês, esse docinho de amendoim, entendesse que nós, livreiros, nada temos a ver com sua falta de organização. Não é porque a livraria é grande que irá ter todos os livros que já foram publicados mundo afora. Sendo assim, não tem o livro que você precisa?
Respire fundo, paciência e sorriso no rosto.

10 - Transformar a livraria na casa da mãe joana
É claro que é bacana ver a freguesia livre, leve e solta, mas tudo tem limite. Tirar os sapatos e circular sem eles pela livraria não é algo muito legal, entre outras coisas, como: largar lixo em qualquer canto, comer e beber em cima dos livros, remover as embalagens sem avisar ninguém, usar o computador dos terminais para ver site de namoro, pedir para o livreiro verificar a programação do cinema, enfim, essas coisinhas. Queremos que vocês se sintam em casa, nos amem, sejam amados, mas tudo de forma leve e lúcida, por favor.

" Meu padrasto Favorito " * << por Diana Lichtenstein Corso >>



Véspera de mais um, comercialmente exaltado, Dia dos Pais, estreia a sequência de Meu Malvado Favorito, filme de animação lançado em 2010. Trata-se da história de um vilão que encontra a redenção e o sentido da vida através da paternidade.

Como parte de um plano delirantemente maligno de sequestrar a lua em troca de resgate, Gru adota três meninas órfãs, que planeja usar para invadir a fortaleza de um vilão rival. Só que ele está mais para desprezível do que para mau, como sugere o título original: Despicable me. Na verdade é um tipo mal-humorado, um fracasso até mesmo entre os vilões. Somente um exército de Minions, pequenos e engraçados seres amarelos que trabalham para ele, o endeusa.
 
O convívio com as meninas o amolece e lhe faz viver experiências de felicidade inéditas. A menorzinha delas, pouco mais do que um bebê falante, é inocente a ponto de não ter medo dele e assim derrete o gelo do padrasto contrariado. Ele pretendia devolvê-las ao orfanato, o que obviamente não consegue fazer. O papel da pequena Agnes é similar ao de Boo, de "Monstros S.A.", que transforma tipos assustadores em protetores dedicados. O mesmo vale para o bebê extraviado de A Era do Gelo. Essas histórias são todas herdeiras da versão Disney de Mogli, de 1967, onde o garoto conta com a proteção paternal de dois animais machos e supostamente ferozes, uma pantera e um urso.
 
São tão recorrentes as histórias de pais vacilantes que precisamos perguntar-nos o que é tão assustador na experiência da paternidade, a ponto de que seja uma aventura chamar os homens ao papel. A resposta não é difícil: ser pai antigamente era simples e direto, hoje é tarefa de extrema complexidade e êxito duvidoso.
 
Em primeiro lugar, desapareceu a senhora do castelo montado em torno da figura do patriarca. A mãe está muito ocupada para intermediar a relação de pai e filhos. Ele que estabeleça um vínculo por conta própria. Quanto ao prestígio e poder do questionável chefe de família, bom, ele que o conquiste, se tiver cacife para tanto. Ela não o promoverá com nenhum tipo de submissão servil. Já os filhos, outrora súditos por excelência, hoje são um exército rebelde, anarquista, cujo respeito deverá ser obtido com muita lábia. Nenhum poder na família se estabelece sem uma ferrenha oposição. Deveríamos nos estranhar de que a ficção infantil relate o trabalho e a sedução necessários para convencer um homem a ser pai?
 
Em defesa da categoria dos pais, faço eco com o filme: aquele que aceitar o encargo tenderá a sentir-se muito menos desprezível aos próprios olhos. Antes de ajudar os filhos a crescer, será preciso aumentar a própria envergadura, necessária para prometer uma proteção na qual só se acredita sendo pai. Pouco podemos contra os tantos perigos e contratempos que ameaçam nossos filhos, mas faremos nosso melhor e com isso também nos tornamos maiores. Por isso, aqui vai minha homenagem a todos, pais, padrastos, padrinhos, homens e por vezes também mulheres que aceitam essa missão quase impossível.
 

 
 
                                    * fonte: Zero  Hora - Editorial