domingo, 13 de novembro de 2011



'É recomendável não reconhecer
todos os segredos.'











'Ah, mas tudo bem.
Em seguida todo mundo se acostuma.
As pessoas esquecem umas das outra
com tanta facilidade.
Como é mesmo que minha mãe dizia?
- Quem não é visto não é lembrado.
Longe dos olhos, longe do coração. Pois é. [Caio F.]

'Deitada na grama, o céu empoeirado de estrelas...
Passei o dedo e - curioso - algumas vieram grudadas na ponta.
Olhei para cima e assoprei...
Foi tanta estrela caindo que agora
eu mal consigo enxergar de tanta esperança...'[Apoena]


" aprendendo a manha do reinventar "

"Gosto muito do meu mundinho.
Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas.
As vezes tem um céu azul, outras tempestade.
Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos.
Mas não cabe muita gente.
Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso.
São necessárias..."
[Caio F.]







'Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto… até que amanheça'.[Rita Apoena]

'O tempo, de vento em vento,
desmanchou o penteado arrumadinho
de várias certezas que eu tinha,
e algumas vezes descabelou
completamente a minha alma.
Mesmo que isso tenha me assustado
muito aqui e ali,
no somatório de tudo,
foi graça, alívio e abertura.
A gente não precisa de certezas estáticas.
A gente precisa é aprender a manha
de saber se reinventar.'[Ana Jácomo]





sábado, 12 de novembro de 2011

Médico cirurgião e diretor,a vida e morte sem mistificações



Morremos Tal Qual Vivemos


J.J.Camargo *


Excetuadas as perdas extemporâneas - quando o sentimento dominante é de pasmo desesperado- as mortes ditas naturais representam o fim de um ciclo vital e o comportamento das pessoas envolvidas reflete o jeito com que se relacionaram enquanto o ciclo durou.

E,tudo porque morremos como vivemos,sem mistificações.

A serenidade neste transe,que por ser natural não deixa de ser doloroso, identifica o filho carinhoso que amou e foi amado,e vê a perda do pai como um legado de saudades que se eternizará no cortejo de exemplos a serem repassados aos seus próprios filhos,que amarão e serão amados,porque aprenderam com o estoque carinhoso do avô, que partiu,e seguirá presente no modelo vivo do pai reciclado no mesmo afeto.

Invariavelmente o mais agressivo e inconformado pela perda eminente,é o mau filho.

O mau filho atormentado pelos afetos não correspondidos,pelas chances desperdiçadas de ternura incompreendida,e pelos amores nunca confessados.

E o médico no caminho desse tornado de emoções é tratado com gratidão e respeito pelos bem amados, enquanto que os desgarrados o responsabilizam pela morte,por mais inevitável que ela possa ter sido,porque perceberam tarde demais que essa chance única de intercambio afetivo,uma vez perdida,nunca mais será resgatada.E, claro, precisam transferir esta culpa insuportável.

É reconfortante o exercício do luto por uma família com vida,afeto,herança e saudade bem resolvidos.E deprimente o jogo de culpa dos que só se deram conta depois da perda,que o vazio da falta será sempre e nada mais do que isso: um imento vazio.


* cirurgião e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre RS

" O Ego do Escritor " de Claudia Laitano






O ego do escritor

[ Cláudia Laitano ]

Em uma das atividades da Jornada Literária de Passo Fundo deste ano, o escritor português Gonçalo Tavares, um dos grandes autores contemporâneos do nosso idioma (premiado esta semana com o segundo lugar no prestigiado Portugal Telecom, pelo livro Uma Viagem à Índia), foi convidado a falar na Praça de Alimentação do centro de convivência da UPF.

Era um fim de tarde, e as mesas estavam lotadas de estudantes aparentemente com mais fome de lanche do que de literatura. Acostumado a plateias reverentes e silenciosas, o escritor foi acolhido com aquela espécie de desinteresse ruidoso com o qual cantores de churrascaria e professores de Ensino Médio estão tragicamente acostumados.

Ao cabo do tempo protocolar, Gonçalo despediu-se gentilmente dos poucos que ainda prestavam atenção. Lamentou a escolha inadequada do local para aquele tipo de conversa, mas reconheceu que o inesperado choque de indiferença teve lá sua serventia: “É bom para diminuir o ego”.

Na psicanálise freudiana, o ego é a nossa cidadela, a fortaleza de mecanismos de defesa que nos protege da angústia e do caos do inconsciente. Na linguagem cotidiana, o termo ego costuma ser usado para designar a nossa autoimagem. Podemos ter o ego “lá em cima” ou “lá embaixo”, dependendo da opinião que temos de nós mesmos e de como somos vistos pelos outros.

O sujeito pode estar com o ego tão lá embaixo, que força a barra para parecer que não. Ou o contrário: sentir-se tão acima de tudo, que se obriga a afetar certa humildade. Neste jogo aparentemente simples, e até um pouco tolo, gastamos boa parte da nossa energia social, tentando não apenas decifrar as mensagens ocultas no comportamento alheio, mas sofisticando nossa própria mise-en-scène de forma a tornar o espetáculo da nossa existência minimamente atraente para quem nos assiste.

O problema é que a percepção do nosso desempenho é fortemente influenciada pela reação da plateia, como notou Gonçalo Tavares na UPF. Um público interessado faz a gente se sentir importante, bacana, cheio da razão. Um interlocutor distraído ou hostil nos joga na vala da insegurança – ali onde o que falamos e pensamos já não nos parece tão sensato ou adequado assim.

Os adultos gostam de pensar que apenas os adolescentes são assim tão voláteis e submissos à opinião alheia, mas é preciso ser muito imaturo para acreditar na maturidade compacta e inabalável.

Já conheci um bom número de escritores. Muitos deles não são tão interessantes quanto suas obras – o que não chega a ser um problema se o seu plano não é se casar ou tornar-se amigo de infância do seu autor favorito. O que eu nunca encontrei foi um escritor convencido da própria importância que tenha conseguido manter uma obra humanamente rica e literariamente provocante.

Para escrever, é preciso levar o ego para passear na planície de vez em quando, variar a perspectiva e desconfiar da posse de tudo aquilo que parece definitivamente conquistado, inclusive a própria autoimagem. Porque é dessa inquietação íntima que a literatura se alimenta – e a vida interior das pessoas comuns também.

Este sorriso é o teu








O último sorriso
[ Nilson Souza ]

Sei que foi uma coincidência, mas não pude evitar também eu um risinho nervoso: os três mortos da página estavam rindo, aparentemente às gargalhadas. Exatamente, naquela rápida passada de olhos que todos nós, leitores, damos pela página do obituário, só para conferir se algum conhecido não bateu as botas sem avisar, deparei com três rostos sorridentes. Claro que minha primeira reação foi de espanto, considerando a natureza do conteúdo:

– Ué, estão rindo de quê? – pensei.

Riam da minha curiosidade recém despertada, provavelmente. Tanto que fui ler a história de cada um – e todas justificavam aquele último sorriso congelado para a eternidade. O primeiro era um motorista de táxi aposentado que fez sua derradeira corrida aos 93 anos, o que talvez já fosse motivo suficiente para uma despedida alegre. Mas tinha mais na sua sintética biografia: apaixonado pelo acordeão, que aprendeu a tocar por conta própria, passou a maior parte da vida animando bailes de Carnaval e Kerb. Estava mais do que explicado o sorrisão.

O outro até que se mandou cedo deste vale de lágrimas, aos 59 anos, mas também parece ter se divertido bastante por aqui. Era Rei Momo nos Carnavais, amava música sertaneja, gostava de cantar e dançar. Só por aí já dá para entender o sorriso póstumo.

O terceiro sorriso bonito da página fúnebre pertencia a uma senhora que só parou de fazer tricô, palavras cruzadas e de cuidar do seu jardim aos 79 anos. Segundo o registro da sua passagem pelo planeta, era muito religiosa e não perdia jogo do seu time do coração. Educou três filhos e conviveu com quatro netos. Deve ter tido mesmo muitos motivos para rir.

Os mortos sorridentes alegraram o meu dia nas primeiras horas da manhã, que é quando debulho as páginas coloridas do jornal, nem sempre com a tranquilidade necessária para curtir histórias interessantes que emergem das entrelinhas. Raramente me detenho no obituário, mas naquele dia não pude resistir ao apelo dos dentes à mostra.

O sorriso, realmente, tem uma força insuspeitada. Já li em algum lugar o que repito a seguir, sem a exatidão do texto original: existe um sorriso capaz de te fazer forte, de serenar o teu coração, de te fazer superar obstáculos aparentemente intransponíveis e, principalmente, de atrair outros sorrisos.

Este sorriso é o teu.

E, como aprendi naquele dia de surpresas
, funciona mesmo depois da vida.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011


Bruno Fialho Braga*

As chances de cada um

A doença pode nos surpreender a qualquer momento. Desde o nascimento, estamos sujeitos aos azares das ocasionalidades peculiares a cada etapa da vida. Não é de sur-preender que as crianças sejam mais suscetíveis às infecções e infestações; que os jovens se acidentem mais; que os maduros venham a sofrer as consequências dos excessos dietéticos e físicos cometidos nas etapas anteriores; que os idosos tenham doenças degenerativas ou maior incidência de câncer.

A medicina tem se ocupado, primordialmente, com o ato de curar, ou seja: uma vez constatada a doença, se aplicam as medidas possíveis e necessárias à sua erradicação. Com a identificação de fatores nocivos à saúde, passou-se a dar mais atenção à prevenção, que pode ser primária (antes do aparecimento da doença), secundária (afastamento das complicações e/ou agravamento) ou terciária (reabilitação).

Mais modernamente, a prática médica foi instrumentalizada no sentido de predizer acontecimentos vindouros na vida do indivíduo, baseada – primordialmente – em alterações genéticas. É a chamada medicina preditiva.

Diversas doenças, embora com um substrato genético identificado, são multifatoriais em suas causas e, portanto, com baixos índices de previsibilidade (hipertensão, obesidade, diabetes), enquanto outras são altamente previsíveis por apresentarem modificações com alta herdabilidade (Down, fibrose cística, anemia falciforme, hemofilia, por exemplo).

Num sentido amplo, porém, convém registrar que a prevenção tem a ver com medidas relativas a toda a população: as pessoas devem evitar o fumo, as gorduras, o álcool, comportamentos de risco no esporte, no trânsito etc., porque – a médio ou longo prazo – produzirão graves consequências para o organismo. Já a preditividade se relaciona ao indivíduo e às características familiares.

Nem o melhor genoma, porém, conseguiria evitar que a máquina humana resistisse aos impactos a que, muitas vezes, a submetemos, tanto do ponto de vista psicológico quanto orgânico. Assim, convém que a prevenção individual seja acionada sempre que os limites impostos pelo bom senso sejam ultrapassados.

Atletas e esportistas de fim de semana devem se relacionar com ortopedistas e cardiologistas; gulosos e esganados com os gastroenterologistas e nutricionistas; praianos com os dermatologistas; cantores, locutores e políticos com os otorrinolaringologistas – em visitas periódicas.

Aos médicos clínicos, cabe a tarefa de orientar, baseados em premissas epidemiológicas, a que exames de maior frequência seus pacientes devem se submeter, caso não consigam ou não possam modificar seus modos de vida. A previsibilidade em medicina, portanto, não é um ato de adivinhação para a maioria das pessoas. Basta que o médico dê mais atenção à vida que cada um leva. Mesmo em doenças sem etiologia definida, é possível vislumbrarem-se indícios de causalidade, embora tênues e aparentemente pouco relevantes.

BRUNO FIALHO BRAGA* *Médico


Nossa República é GURIA!!! com 122 anos!!!





Jaime Cimenti

Nossa República é guria, com seus 122 anos.

Nossa história tropical é jovem, só tem 511 aninhos. Então, calma gente, tipo assim, enfim, vamos com calma, na manha do ganso, pois 511 anos é pouco. Não vamos nos estressar e nos cobrar tanto, tão rápido, mas também nada de ficar parado, achando que o maná vai cair do céu. A pressa sempre foi inimiga da refeição. A vida é breve, a arte é longa, todo mundo sabe, há milênios, desde os vovôs dos gregos.

Ainda não temos grandes fatos históricos ou personagens mais definitivos e a altura dos nossos oito milhões e meio de quilômetros quadrados para comemorar. E daí? Qual o problema? Alguém tem, realmente, pressa? Bom, tá bem, fato histórico legal foi a vitória do povo contra a inflação, via Plano Real. Leia o livro da Miriam Leitão, se não leu ainda, e lembre nossa maior saga, comemore, ao menos enquanto dona inflação não volta. Tomara que não, né? Fato histórico importante mesmo aconteceu na República Livre de Ipanema-Copacabana.

Óbvio que estou falando da bossa nova, do Tom Jobim, do Vinicius, do João Gilberto e daquela pá de gente que revelou um Brasil elegante, jazzístico, poético, competente e com reconhecimento universal. Sim, sei, anos JK também criaram Brasília, montes de dívidas, problemas e polêmicas para sempre. Fazer o quê?

Agora, tem de administrar. A coisa tá aí, não tem volta. Tem de controlar os malandros. Tá demais. Melhor dividir melhor a grana, o poder, antes que seja tarde. Especialmente dividir a grana gigante do futebol, que vem do povo e deve voltar para ele, ao menos em parte, em forma de hospitais, escolas etc.

Para que tanta moleza para a Fifa? Investimentos públicos, lucros privados? Que lance é esse, que jogada é essa? Pois é, no Dia da República, vamos pensar em uma nação e não simplesmente em um país de consumidores. Vamos pensar que precisamos ir adiante, envelhecer com dignidade, pensando com mais cuidado na coisa pública. Melhor deixar de lado a ideia que não temos jeito, que vai ser sempre assim, com aquele bando terrível sempre de dono do campinho, botando a mão forever na bufunfa.

As coisas têm de mudar. Chega! Basta! Outro Brasil é possível. É sim! Não vem que não tem. E nem precisa ser tão caro como alguns querem cobrar! Todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido, já dizia o dr. Sobral Pinto no comício das Diretas Já citando o artigo primeiro da Constituição Federal. Mais não precisa ser dito. Que se cumpram as leis, as boas. Feliz República! Feliz Brasil!

Vamos adiante!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Educação no Admirável Mundo de Tecnologia





Nylza Osório Jorgens Bertoldi*

A educação no admirável mundo digital

Afinal, a visão educativa dos novos tempos altamente inovadora e complexa possibilita a reflexão e a compreensão da realidade que o mundo virtual oferece?

Na era da informação, dos apelos visuais, das relações virtuais, a inclusão digital na educação ainda é um fato polêmico e um pouco distante daquilo que se concebe como insofismável paradigma a serviço dos fins pedagógicos. Tudo leva a crer que não será a curto prazo um recurso para reverter o analfabetismo e a qualidade do ensino em nosso país.

O mundo planetário que escancarou suas portas às redes sociais produzindo cultura e informação num alcance geográfico sem dimensões ainda encontra entraves em países com altíssima difusão das tecnologias digitais, como por exemplo, nos Estados Unidos onde não há um consenso para o uso em fins pedagógicos por conta da regulamentação específica a programas educativos.

A idolatria à internet, em efervescência no universo escolar, não possui uma legislação própria para o uso consciente da rede. E isso se deve ao excessivo e diversificado acesso disponível para fins não didáticos.

Virando a página do fantástico mundo novo, a educação pede passagem. Repensar, pois, a escola, para lidar com as novas ferramentas digitais e o perfil do aluno que recebe é imposição imediata. Leve-se em consideração que a criança desde muito cedo explora o computador, o mais novo brinquedo da infância precocemente induzida a esta convivência perversa pelos efeitos que produz: individualismo, sedentarismo, déficit de atenção. São os “nativos digitais” com domínio absoluto das novas linguagens e das informações obtidas pela internet sem o adequado controle que agregue conhecimentos positivos.

A capacitação dos docentes para competir com “esses gênios digitais” é árdua tarefa para a universidade. Além de laboratórios de informática, a escola necessita disponibilizar mais tempo para o preparo de aulas e, aos professores, um contínuo apoio pedagógico. Educar não é um ato efêmero e como tal pressupõe competências: conhecimento, informação e inclusão digital, ética, habilidades, compreensão, limites e afetos.

Na verdade, a educação foi atingida em suas competências pelo poder das redes sociais que agregam conhecimento e informação, mas o valor educacional não é consensual admitindo-se que pode causar danos éticos contrastando com a finalidade humana da educação. Para tanto não se pode menosprezar o jeito tradicional de ensinar nem o jeito moderno de aprender. Nenhum computador na sala de aula substitui a presença insubstituível do professor.

O Brasil, que é pródigo em importar modelos educacionais de outros países, poderia espelhar-se na China, que valoriza e remunera os docentes da educação básica acima dos docentes universitários, porque, se a base for sólida, a qualificação dos níveis superiores será diferenciada.

É fácil contemplar o admirável mundo novo com o olhar de quem vê a luz no fim do túnel; difícil é direcionar este olhar para aqueles que cavam o túnel à luz de velas.
*Escritora e educadora emérita do Rio Grande do Sul

Escrever para Crianças
Letícia Wierzchowski










Sempre me achei meio incapaz de escrever para crianças. Criança não respira nas vírgulas, criança mergulha. Criança não gosta, ela adora. E quando desgosta, criança chora. Enfim, passei anos rondando esse medo. Até que um dia tive um filho. Filho a gente vai tendo, dia após dia.

Pelos lados de um ventre onde cresce uma criança, também cresce uma mãe. E, quando a gente é mãe, tudo fica mais fácil. Ou melhor, a gente é que aprende a separar o fácil do difícil. O medo da falta de coragem. Então, um dia, quando o meu filho mais velho já era sábio o suficiente para me questionar, ele perguntou: “Ô, mãe, se você escreve histórias, por que não escreve uma história pra criança?” . Mais do que um desafio, foi um incentivo.

Escrever Todas as Coisas Querem Ser Outras Coisas foi divertido como passar uma tarde na praia. Uma tarde onde eu reencontrei aquela Leticia de maria-chiquinha que gostava de transformar tudo em outra coisa. Depois desse livro, não parei mais. E tem sido cada vez mais alegre, mais inspirador.

Até sobre coisa ruim já escrevemos aqui em casa – e foi uma aventura restauradora. Falo de O Menino Paciente, livro que nasceu de uma difícil estadia no hospital. No meu último infantil, eu contei história e bordei. Convidei uma amiga especial, e juntas bordamos e bordamos. Nasceu O Menino e seu Irmão. Fiquei muito feliz com esse livro, como fiquei com os outros. E juro que não há nada mais especial do que contar para os meninos as minhas próprias histórias antes de deitar.

E quando eu penso em crianças, quando eu penso em tudo que uma criança pode fazer na vida da gente, logo me vem um texto do Manoel de Barros. Um poema que é mais ou menos assim: “Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso…” . Nunca escrevi um livro sobre águas e meninos.

Já escrevi sobre meninos e irmãos, meninos e sementes, doenças e meninos, bruxas e meninos. Agora, carregar água numa peneira, isso eu faço muito com o Tobias na beira da praia. A gente não vai longe… Mas, como muito bem sabem as crianças, o que vale é o caminho.

* Hoje na Feira: às 16h, no Pavilhão Infantil, Alessandra Lago e eu estaremos autografando O Menino e seu Irmão. Aqui o convite pra quem quiser roubar um vento lá do Guaíba...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Descubra aquilo que há de bom em ti

Charles Chaplin



Ei! Sorria... Mas não se esconda atrás desse sorriso...
Mostre aquilo que você é, sem medo.
Existem pessoas que sonham com o seu sorriso, assim como eu.
Viva! Tente! A vida não passa de uma tentativa.
Ei! Ame acima de tudo, ame a tudo e a todos.
Não feche os olhos para a sujeira do mundo, não ignore a fome!
Esqueça a bomba, mas antes, faça algo para combatê-la, mesmo que se sinta incapaz.
Procure o que há de bom em tudo e em todos.
Não faça dos defeitos uma distancia, e sim, uma aproximação.
Aceite! A vida, as pessoas, faça delas a sua razão de viver.
Entenda! Entenda as pessoas que pensam diferente de você, não as reprove.
Ei! Olhe... Olhe a sua volta, quantos amigos...
Você já tornou alguém feliz hoje?
Ou fez alguém sofrer com o seu egoísmo?
Ei! Não corra. Para que tanta pressa? Corra apenas para dentro de você.
Sonhe! Mas não prejudique ninguém e não transforme seu sonho em fuga.
Acredite! Espere! Sempre haverá uma saída, sempre brilhará uma estrela.
Chore! Lute! Faça aquilo que gosta, sinta o que há dentro de você.
Ei! Ouça... Escute o que as outras pessoas têm a dizer, é importante.
Suba... faça dos obstáculos degraus para aquilo que você acha supremo,
Mas não esqueça daqueles que não conseguem subir a escada da vida.
Ei! Descubra! Descubra aquilo que há de bom dentro de você.
(Charles Chaplin)

O Curso invertido da vida... !

Morrer como Bebês
< Paulo Sant´Ana





O psicanalista Paulo Sérgio Guedes é uma pessoa brilhante. E eu tenho um respeito enorme pelas pessoas brilhantes.

Aprendo a respeitar até o que discordo nas pessoas brilhantes.

Pois o Paulo Guedes sempre apregoou uma coisa que aparentemente é absurda: ele diz que Deus o livre de viver 80 anos.

Quis dizer que não quer encher de transtornos e incômodos sua mulher ou seus filhos com sua velhice.

Ele não está muito longe dos 80 anos, o que torna sua frase muito corajosa.

Sendo assim, o psiquiatra em referência fez um verso monumental no seu último livro: “É preciso morrer antes que termine a vida”.

Examine bem esse verso. O que ele quis dizer, em última análise, é que de nada adianta continuar vivendo se já se está morto.

Ou, então, que é necessário morrer, por mais absurdo que isso pareça, quando ainda se está vivo.

Eu entendo o Paulo Sérgio, espero que meus leitores também o façam.

Porque uma coisa é a vida útil, outra coisa é a vida vegetativa, alvo de doenças muito conhecidas que tiram do homem a memória e a consciência, por exemplo.

Há pessoas, a maioria delas, que dizem querer viver até os 90 anos. Não imaginam, passados os 85 anos, que se tornarão uns trambolhos, que só atrapalharão a vida dos outros.

É preciso, além de pensar em nós mesmos, pensar nos outros.

Nada mais somos nesta vida do que nós em relação aos outros.

Muito bom que atinjamos os 90 anos, que continuemos comendo, bebendo e indo passear no parque.

Mas e os outros, que terão de colocar comida e bebida em nossa boca e terão de nos carregar para o parque e nos trazer de volta após o passeio?

E os outros?

Acho mais lícito o seguinte sonho: “Deus me dê vida útil até os 80 anos!”.

Ou seja, que, se eu tiver de ser um ancião, que o seja, mas que não incomode com isso os outros.

Em última análise, temos o direito lícito de sermos felizes na velhice, desde que isso não custe a aflição dos que nos rodeiam.

Por isso é que, certa vez, eu escrevi que a vida está errada, nós tínhamos que nascer com 80 anos e ir diminuindo de idade, até virarmos crianças e morrermos como bebês.

Porque aos 40 anos estaríamos, enfim, ricos ou com vida econômica estável, prontos para desfrutarmos nossa poupança na juventude.

E, na juventude, não teríamos nenhum receio de ter de ser crianças em seguida.

E acabaríamos morrendo docemente, sem um gemido, assim como um carneiro, como bebês.

Está errado o curso invertido da vida.

As instâncias de superação de crises,necessitam novas referências






Até a próxima crise

* Afonso Mota

A crise mundial é financeira, para conter os efeitos negativos da dívida soberana na zona do euro, países europeus tidos como desenvolvidos, mas também envolve a realidade da recessão econômica que atinge os americanos e os demais quadrantes do mundo.

O crescimento econômico é pequeno ou inexistente e, por via de consequência, influi para a falta de empregos e diminuição da atividade econômica, alcançando todos os empreendimentos na suas relações domésticas e os Estados no comércio global.

Por isso, o novo acordo é direcionado essencialmente para os bancos. Mais uma vez. A dívida grega, que o cidadão comum sequer imagina o que significa, sofrerá um corte “voluntário”, para enganar o cliente, como se diz, de 100 bilhões de euros. É muita grana que vai pelo ralo. É um calote de 50% do valor.

A indagação que todos devem fazer é para onde foi essa dinheirama toda. Os especuladores ganharam mais uma vez. Além do mais, os países europeus vão entregar mais outros 100 bilhões de euros para capitalizar os bancos. Ou seja, é o atestado de que está faltando toda essa quantia para as instituições funcionarem. Não é tudo, ainda vão juntar 1 trilhão de euros para capitalizar um fundo que possuem para cobrir eventuais desequilíbrios futuros dos países.

Cansa falar em tanto dinheiro. Essas cifras não existem para as pessoas comuns. Parece que não nos dizem respeito. Mas é evidente que têm tudo a ver. É o dinheiro do contribuinte que vai todo para o pagamento da dívida soberana impagável. Nada se traduz no atendimento das demandas essenciais do cidadão. Pouco para a saúde, segurança ou educação por exemplo.

Mas o pior, dito por especialistas, é que os recursos agora destinados são insuficientes e o movimento cíclico da próxima crise, podem estar certos, já se avizinha, se é que a presente situação vai ser superada com essas medidas. O foco é um só, resolver o problema dos bancos e dar sobrevida aos especuladores.

É bem assim, as bolsas de valores de todo o mundo subiram, o dólar e outras moedas caíram e vice-versa, como se esta síntese fosse a razão de tudo. Neste contexto, o capital para investimento, de longo prazo, que deveria contemplar a solução dos grandes temas de interesse da humanidade, como as obras de infraestrutura e mobilidade urbana, o meio ambiente e a sustentabilidade ficam à margem. Falta capital.

É um paradoxo que os governos, abandonando os seus fundamentos e a sua sustentação política se deixam dominar. É o determinismo que logo ali vai se mostrar mais negativo ainda, em prejuízo de toda a humanidade. Enfim, é a “empurrada de barriga” até a próxima crise.

As instâncias de superação de crises também precisam de novas referências e de um processo adequado de representação e legitimação para os seus respectivos encaminhamentos.

Não podemos aceitar que a contribuição brasileira para solução dos graves problemas financeiros mundiais se traduza pura e simplesmente na destinação de recursos para o FMI. Devemos almejar mais, garantir a titularidade dos nossos recursos naturais e receber tratamento isonômico no comércio global e na regulação dos grandes temas de interesse da humanidade. Esta é a oportunidade.

*Advogado, produtor rural e secretário de Estado

Os livros são lugares mágicos...







Professores de leitura
< Diana Corso>
Mara, professora aposentada de português, sente saudade de procurar textos para seus alunos. Adorava ler com a perspectiva de indicar trechos aos jovens. Recorda com particular carinho do trabalho com um texto de Cecília Meireles, O Anjo da Noite, sobre o guarda noturno, hoje figura extinta. Nas palavras finais dessa obra, que narra as belezas da noite, aparece o outro lado, seu mistério assustador:

“O guarda noturno está tomando conta da noite, a vagar pelas ruas, anjo sem asas, porém armado”. A escuridão, onde cada um se entrega à inconsciência, requer providências de segurança.

No lugar da vigília, a presença vigilante de um anjo da guarda que nos proteja dos precipícios interiores, afastando os monstros que moram nas trevas íntimas. Imagino o prazer da professora ao fazer reverberar essas metáforas nos alunos, para quem a literatura era ainda uma experiência quase virgem.

No livro Borges Oral & Sete Noites, o escritor argentino reflete sobre o encontro do texto com a voz. Após ficar cego, foi obrigado a passar à narrativa oral, mas suas conferências e referências nunca abandonam o livro como habitat, lugar de onde emana uma presença.

Era leitor apegado, voltava inúmeras vezes aos seus clássicos prediletos como quem vai a uma praça ou uma praia em busca de um estado de espírito. Mesmo sem visão comprou uma enciclopédia: “Lá estavam os vinte e tantos volumes impressos numa letra gótica que não tenho condições de ler, com os mapas que não tenho condições de ver; o fato era que os livros estavam lá. Eu sentia uma espécie de gravitação amistosa que vinha deles.

Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que nós, homens, temos”. Ele precisou dos olhos de outros leitores, mas aos que lhe emprestavam a voz ele acabava contando histórias sobre o que estavam lendo, guiava-os pelos labirintos imaginários de sua Biblioteca de Babel. Diziam que suas aulas de literatura eram de fato de leitura.

Os livros são lugares mágicos aos quais nos entregamos sem medo, porque a voz do autor nos conduz com segurança pela trama que ele fantasiou e organizou para nós. Se tivermos sorte, como os alunos de Borges e da professora Mara, contamos com a voz de outros leitores mais experientes, que nos acompanham ou orientam, pais e mestres que partilharam suas leituras. O livro é um sonho ou um pesadelo seguro, como uma noite vigiada por um anjo. Armado, é claro, pois não somos bobos.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

" o cão grego..."







LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

O cão grego

Quando a inteligência brasileira falava do absurdo do atual modelo econômico e financeiro escolhido pelas nações proeminentes do Hemisfério Norte, era tachada de retrógrada, ou pior; mas todos os indícios levavam à catástrofe, ora representada pelo desordenado endividamento público e pela ampliação abissal das desigualdades entre os cidadãos.

Eram indícios, mas absolutamente visíveis, e o noticiário logo comprovou suas consequências: desemprego em massa, falências em cascata, vulnerabilidade social de todas as classes e, no geral, desalento e ausência de esperanças. Os “indignados” enchem as praças e dão muito que fazer às autoridades. Islândia, Irlanda, Grécia, entre tantos: eis um rol de países que não encontram rumo.

A comunidade europeia, na tentativa de salvar os dedos, perde seus anéis em empréstimos e perdões de dívidas, mesmo sabendo que isso não resolverá a questão central, que é o modelo escolhido. A situação da Grécia, à beira do precipício, ou já em queda livre, é o exemplo vivo.

Até os cães sabem disso, e seu símbolo é o célebre vira-latas Loukânikos, junto aos manifestantes, latindo furiosamente para a repressão policial. Veja no YouTube.

Já as nações proeminentes não previram o sucesso do modelo brasileiro que, segundo a lógica dessas mesmas nações, tinha tudo para dar errado: era impossível, inadmissível, conjugar o crescimento econômico com justiça social. E assim ficamos: o errado era o certo, e o certo era o errado, numa dessas espetaculares lições que nos dá a História.

Complementarmente, cabe dizer que a mesma História nos ensina que todo império, mais cedo, ou mais tarde, entra em colapso, num processo autofágico decorrente da singular visão míope que, via de regra, tem dos seus vizinhos.

O quadro de tensão política que vivem aqueles países, entretanto, não é causa, mas resultado, e traz consigo algo mais grave: a possibilidade do esgotamento institucional, de decorrências imprevisíveis.

O momento é grave, muito mais do que possamos pensar; mas em termos de pensamento, a Europa tem muito a dar e ensinar, inclusive acerca da esperança; nações que criaram D. Quixote, Hamlet, o Iluminismo, Camões, São Tomás, e Goethe, têm razões de sobra para concentrar-se em seu papel perante o mundo e encontrar soluções, pois recusamo-nos a pensar que se perderam nas contas.

Quanto à Grécia, bem: esta produziu Homero, Ésquilo, Sócrates, Platão e Aristóteles, mestres do bom senso e da sã razão mas, ao que parece, neste momento Loukânikos está falando [digo, latindo] mais forte.

O intelecto agrega valor aos produtos...intangíveis.







Daniel Skowronsky*

Uma Semana Criativa

O talento e a criatividade são os motores do desenvolvimento em tempos de conhecimento e conectividade. Acompanhando as mudanças do mercado é possível perceber que a riqueza de um lugar está nas pessoas. As empresas não se restringem mais apenas à produção de bens materiais, serviços e tecnologias, mas também a processos, modelos de negócios e de gestão.

A chamada economia criativa, um conceito que coloca os indivíduos no centro estratégico das corporações, vem ganhando destaque e alcançando níveis maiores de desenvolvimento. O setor da indústria criativa é atualmente o terceiro maior em nível mundial, atrás do petróleo e de armamentos, paga melhor que a indústria tradicional e já integra a pauta de muitas empresas que querem crescer com qualidade.

As esferas que mais se beneficiam da criatividade hoje são as da comunicação, design, artes, arquitetura, computação, música, cinema e moda. Mundialmente, as exportações de serviços e produtos criativos cresceram 76% em uma década, movimentando US$ 1,8 trilhão por ano.

No Brasil, a indústria criativa já conta com projetos federais, que pretendem ampliar o número de linhas de crédito oficiais para fomentar novos empreendimentos. Com essas iniciativas, novas empresas, empregos e qualificação são gerados.

Acreditando que o desenvolvimento da criatividade no Rio Grande do Sul possa transformá-lo em um polo dessa indústria, a Associação Riograndense de Propaganda aposta num debate mais amplo sobre o assunto.

Por isso, a Indústria Criativa é o tema da Semana ARP da Comunicação 2011 e será apresentada por nomes de peso na área. O consultor inglês e autor do livro The Creative Economy, John Howkins, fará a palestra de abertura oficial, seguido de figuras importantes como Edna Santos, Fábio Coelho, Jonathan Mildenhall, Angela Hirata, entre outros.

A ideia da ARP é impulsionar o debate nos próximos dias sobre a economia e trazer mais atrativos para o Estado, sejam públicos ou privados. O intelecto do ser humano agrega valor a produtos intangíveis, gera riqueza e alavanca as áreas que mais crescem no mundo: as criativas.

*Presidente da Associação Riograndense de Propaganda (ARP)

domingo, 6 de novembro de 2011



POR UMA EDUCAÇÃO AMOROSA
Marcelo Barros*




Nos últimos dias, alguns jornais de TV têm divulgado estudos de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) sobre a evasão de jovens de salas de aula. A pesquisa aponta que a incidência de jovens que abandonam a escola ainda é muito alta. 43% destes jovens declaram que fazem isso por não ter motivação para estudar. Evidentemente, os fatores que levam a isso são diversos, mas uma constatação inevitável é a de que a escola ainda se mantém um tanto rígida e separada do cotidiano da vida, além de presa a conteúdos nocionais e métodos superados em um mundo no qual a juventude está envolvida em internet, orkut e jogos eletrônicos.

A realidade da educação tem mudado em toda a América Latina. Agora, além de Cuba, mais dois países foram reconhecidos pela UNESCO como territórios livres do analfabetismo: Venezuela e Bolívia. Outros estão no caminho. No nosso país, o programa “Brasil Alfabetizado” visa universalizar a alfabetização dos maiores de 15 anos. Já conseguiu alfabetizar mais de nove mil adultos. Apesar disso, ainda temos uma taxa de 16% de analfabetos. E o mais doloroso é que as pesquisas mostram: a maior parte das pessoas analfabetas no Brasil já passaram por alguma escola e saíram sem aprender a ler, ou como dizia Paulo Freire, a reinterpretar o mundo.

Não se pode negar que a atual gestão do Ministério da Educação esteja fazendo, em todos os níveis, um trabalho positivo pela transformação das estruturas da educação. Está havendo um aprimoramento das estruturas da educação infantil, integrando creche e escola e formando pedagogicamente as professoras encarregadas da primeira educação. Os exames que comprovam o rendimento educacional de cada classe e de cada escola expõem a competência e opção das professoras. Uma escola de periferia recebe uma avaliação positiva, enquanto outra, no mesmo bairro, com as mesmas condições e lidando com crianças da mesma classe social, recebe avaliação negativa. Isso revela que as condições sociais não explicam tudo e as professoras precisam sempre rever sua dedicação e cuidado. De fato, a criança dos primeiros anos aprende, não por alguma opção intelectual ou ambição pessoal, mas para agradar e receber aprovação e amor da pessoa adulta que a acompanha. Também no nível da escola média e universidade, vários programas cuidam de melhorar a universidade. A “escola aberta” e “a conexão de saberes” aprofundam a relação da escola e da universidade com movimentos e comunidades populares.

Todos sonhamos com uma escola que parta da realidade da juventude, se construa de amor e ofereça a uma juventude muitas vezes sem perspectivas e sem rumos na vida, motivos não só para viver, mas para ser pessoas boas e solidárias.

Gandhi dizia: “A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer com que desabroche o melhor de uma pessoa”. Toda educação deveria levar a pessoa a assumir a consciência de sua dignidade humana e do seu papel de sujeito e não de objeto na construção da sociedade. É certo que vivemos em um mundo no qual os governos são incapazes de acabar com a fome e a miséria de multidões, mas empregam milhões do dinheiro público para salvar bancos falidos e grandes empresas, vítimas de esquemas desonestos. Entretanto, apesar de tudo, as políticas públicas existem e são fundamentais. Elas têm sido aprimoradas, mas não bastam. A escola precisa ser assumida por todos os cidadãos, como algo que pertence a todos e não somente ao governo ou ao/à diretor/a do estabelecimento. Este processo de apropriação da escola por parte de toda a comunidade local é essencial para a educação da juventude, integrando-a na realidade. É este processo que possibilita a escola assumir e até promover a educação a partir de uma verdadeira diversidade cultural. As tantas escolas que, por todo o Brasil, são bilíngües (ensinam em português e na língua indígena da comunidade), assim como as que se inserem nas culturas afro-descendentes e ensinam a história da África e das comunidades negras no Brasil mostram a riqueza a que se pode chegar. Mais dificilmente, a evasão escolar se dá nestes estabelecimentos.

Para quem tem fé e vive uma busca espiritual, o compromisso com a educação faz parte da missão de testemunhar o amor de Deus por todos os seus filhos e filhas. assim como o de colaborar para que todos, jovens e adultos, participem da ação criadora de Deus, ao transformar este mundo em uma sociedade mais justa e em comunhão de respeito e amor com todo o universo.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.





O dono do livro


Li outro dia um fato real narrado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado.

Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto. Esse livro é seu? perguntou o menino. Sim, respondeu o escritor. Vim devolver. O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor.

O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: Esse livro é do Mia Couto?. Ela respondeu: É. E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.

Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com os livros – aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta: “Quem escreveu o livro?”.

O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada – comprei, é meu. O livro é de quem lê mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça.

O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo o que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. É do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É do leitor o livro.

Dias atrás gravei um comercial de rádio em prol do Instituto Estadual do Livro em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve pra nada.

Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que é tiragem.

Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber.

Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de um amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada dono.

sábado, 5 de novembro de 2011

A Puberdade chega mais cedo...







A puberdade está chegando mais cedo. E há tratamentos para retardar o processo

Para a família

O mais importante é considerar se a menina – e os pais – está preparada para lidar com a mudança

Casos assim não são isolados. A puberdade, o processo de maturação sexual, está começando mais cedo. O fenômeno atinge principalmente as meninas e não se sabe ao certo por quê. A puberdade marca a transição da infância para a adolescência.

É um momento que pode ser comemorado pelos pais, que a encaram como sinal inequívoco do desenvolvimento dos filhos, ou temido, porque a criança meiga e companheira está prestes a se tornar um adolescente briguento e sedento por independência. Diante da aceleração da puberdade entre as meninas, tanto pais quanto médicos avaliam quando é cedo demais para elas virarem mulheres. E se é necessário frear esse amadurecimento.

A chegada da puberdade é caracterizada, nas meninas, pelo aumento dos seios, pelo surgimento de pelos pubianos e nas axilas e pela menstruação. Nos meninos, o volume dos testículos aumenta e a voz engrossa. A idade parecia bem definida desde 1969, quando o pediatra britânico James Tanner concluiu que os sinais surgiam em média aos 11 anos. E que, antes dos 8 anos, era um distúrbio, a puberdade precoce.



NA INFÂNCIA As irmãs Isabela, de 11 anos, e Luiza Duarte, de 10. Elas fazem tratamento para deter a evolução da puberdade, que começou aos 8 anos (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)NA INFÂNCIA
As irmãs Isabela, de 11 anos, e Luiza Duarte, de 10. Elas fazem tratamento para deter a evolução da puberdade, que começou aos 8 anos (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

De lá para cá, novos estudos vêm sugerindo que a puberdade se adiantou. Em 1997, a médica americana Marcia Herman-Giddens, da Universidade da Carolina do Norte, investigou dados de 17 mil meninas americanas entre 3 e 12 anos e constatou que, em média, aos 9,7 anos começava o desenvolvimento dos seios e muitas já tinham pelos pubianos. Na Dinamarca, uma pesquisa mostrou que as meninas entravam na puberdade aos 9,8 anos. Na China, a idade média foi ainda menor: 9,2. No Brasil, estudos localizados comprovam a mesma tendência.

Com isso, alguns especialistas querem rever a definição de puberdade precoce. O pediatra americano Paul Kaplowitz, da Universidade George Washington, diz que frear a puberdade em algumas meninas de 8 anos seria interferir em algo natural. “A recomendação está baseada em estudos desatualizados”, escreveu Kaplowitz. Ele defende a mudança da referência para 7 anos em meninas de origem caucasiana e 6 anos em negras.

Na prática, está cada vez mais complicado determinar a precocidade. “Há mais casos de meninas em situação limítrofe”, diz a endocrinopediatra paranaense Myrna Campagnoli. “Elas apresentam sinais do início da puberdade precoce, mas o nível de hormônio no sangue não é alto o suficiente para recomendarmos o tratamento.”

No ano passado, Myrna fez um levantamento entre os exames de laboratório para detectar a puberdade precoce. Das 526 meninas analisadas, 89% tinham alguma elevação nos níveis de hormônios da puberdade. Mas, em 48% dos exames, os níveis ainda estavam abaixo do valor de referência para a puberdade precoce. Nesses casos, é difícil decidir se vale a pena interferir.

As causas da precocidade aparente ainda não são bem conhecidas. Existe um componente genético. Se a puberdade começou cedo na mãe, é provável que se repita nas filhas. As causas externas, provocadas por mudanças no ambiente em que as crianças vivem, também não estão totalmente compreendidas.

É provável que a melhora na nutrição ao longo dos séculos faça o corpo das meninas amadurecer mais cedo. Há evidências de que a quantidade de gordura no corpo influencia porque a leptina, um hormônio produzido pelas células de gordura, estimula a produção dos hormônios que desencadeiam a puberdade. Cada ponto a mais no Índice de Massa Corporal aumenta em 44% as chances de puberdade precoce.

Substâncias químicas presentes no plástico e em alguns produtos de beleza são outra causa provável. Compostos como o bisfenol A, que dá resistência do plástico, e ftalatos, que aumentam a maleabilidade, podem se desprender das embalagens e contaminar alimentos e cosméticos.

No corpo, eles podem ter um efeito semelhante a hormônios. Um estudo em Porto Rico concluiu que 68% das meninas com seios desenvolvidos tinham níveis elevados de ftalatos no organismo. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária limita, mas não proíbe os ftalatos. O bisfenol A em mamadeiras foi proibido em maio.

Como os compostos químicos fazem parte do nosso cotidiano, é improvável eliminá-los da vida das crianças.

CEDO DEMAIS A paulistana Evelin Cristina de Carvalho, de 34 anos. Ela foi a primeira entre as amigas a entrar na puberdade, aos 9 anos. Parou de crescer e teve de tomar hormônios para chegar a 1,61 metro (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA )CEDO DEMAIS

A paulistana Evelin Cristina de Carvalho, de 34 anos. Ela foi a primeira entre as amigas a entrar na puberdade, aos 9 anos. Parou de crescer e teve de tomar hormônios para chegar a 1,61 metro (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA )

O tratamento para deter a puberdade não tem grandes efeitos colaterais. São injeções mensais, bimestrais ou trimestrais de uma substância parecida com os hormônios do desenvolvimento, que desencadeiam a puberdade.

Saturado, o corpo para de produzi-los e estaciona a evolução do amadurecimento. O tratamento é caro. Pode passar de R$ 11 mil, embora exista a opção da rede pública.

A decisão depende de alguns fatores. Primeiro, é preciso avaliar quanto a puberdade precoce prejudicará a estatura final da menina. Durante essa fase, as meninas crescem, em média, 25 centímetros. Se o desenvolvimento começa mais cedo, a garota cresce rapidamente num primeiro momento, mas para de crescer antes do que devia e, depois do estirão, estaciona e fica baixinha. Foi o que aconteceu com a paulistana Evelin Cristina de Carvalho, hoje com 34 anos. Aos 9 anos, ela já menstruava.

Foi a primeira entre as amigas. “Eu era a mais alta e me aproximava das meninas mais velhas. Ficava amiga das repetentes.” Como já havia passado a fase em que a puberdade podia ser interrompida, a recomendação médica para Evelin foi um tratamento com hormônios do crescimento para garantir que não ficasse muito baixa.

Hoje, Evelin tem 1,61 metro. Sem o tratamento, não passaria de 1,50. “Se a criança já estiver no meio do processo, o ganho do tratamento pode ser pequeno e ele não é recomendável”, afirma Felipe Monti Lora, do Hospital Santa Catarina, de São Paulo.

NATURAL A psicóloga carioca Mônica Raouf El Bayeh e a filha Maria Clara, de 10 anos. A puberdade chegou cedo para a menina, mas, como ela já é alta, o tratamento foi desaconselhado (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA )NATURAL

A psicóloga carioca Mônica Raouf El Bayeh e a filha Maria Clara, de 10 anos. A puberdade chegou cedo para a menina, mas, como ela já é alta, o tratamento foi desaconselhado (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA )

O segundo critério são as condições psicológicas da criança para enfrentar as transformações da puberdade. As consequências relatadas por estudos internacionais soam assustadoras: diminuição da autoestima, problemas com a imagem corporal, distúrbios alimentares, depressão, tentativas de suicídio e antecipação da primeira relação sexual.

Para alívio dos pais, o que os especialistas veem nos consultórios é bem diferente. “Esses impactos são exagerados”, diz o sexólogo paulista Théo Lerner.

“Uma menina não fica mais vulnerável porque entra na puberdade. Não existe essa associação direta.” Os maiores impactos psicológicos envolvem a imaturidade para lidar com os sangramentos mensais e a vergonha de ser diferente das amigas, diz Ruth Clapauch, da Associação Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

“Mas isso acontece mais com crianças mais novas, de 6 anos. As de 8 até gostam da altura e do sutiã.

É preciso que os pais avaliem a capacidade de seus filhos – e sua própria – de lidar com a situação.”

A psicóloga Mônica Raouf El Bayeh, mãe de Maria Clara, de 10 anos, confiou na habilidade da filha. Maria Clara há três meses teve sua primeira menstruação. Ela apresenta sinais de puberdade precoce desde os 8 anos.

Mas, como já crescera bastante – tem 1,66 metro – e sempre se mostrou bem resolvida com a aparência, o tratamento não foi indicado. “Foi um processo tranquilo”, diz Mônica. “Ela é vaidosa, gosta de passar esmalte, faz escova no cabelo. Mas adora suas bonecas e só usa tênis. Continua uma molecona.”

Desinformação e Insensibilidade,de Erico Santos







Desinformação e insensibilidade

Quando estamos em época de bienais, emergem os comentários sobre a inteligibilidade das obras expostas. Normalmente, a reação do público é negativa. Não gostam e não entendem. Por parte de quem organiza ou atua nestes eventos, o argumento recorrente é o de que o grande público ainda não está preparado.

Será que a maioria das pessoas não entende e não aprecia a arte contemporânea por falta de instrução? Primeiro, devemos fazer uma distinção entre instrução e sensibilidade. Há gente instruída e até intelectuais que não têm a mínima sensibilidade para apreciar até mesmo uma obra-prima.

Então, o problema não está na cultura, e sim no dom natural de sentir a arte. Este dom não pertence a todos, infelizmente. Há os que passam pela vida sem notar um bonito dia, um detalhe sublime da natureza, uma poesia, uma música ou um belo quadro. Uma triste deficiência da alma.

Então, quem não gostou ou não se interessou por um monte de palha com um furinho, denominado Esconderijo, visto numa dessas bienais, mesmo depois de ouvir ou ler o recado do artista, é um deficiente sensitivo ou não está preparado para isso?

Nem uma coisa, nem outra: a arte contemporânea não existe para ser sentida ou contemplada. O que deveria ser admitido e esclarecido é que as bienais mostram outra arte, ou outra coisa, para os que não a aceitam como arte. A cisão dos contemporâneos com a arte tradicional foi tão grande, que deixaram de lado o prazer de desenhar e de pintar. O que fazem são lucubrações sociológicas, filosóficas ou políticas em forma de “metáforas” com objetos visuais.

Portanto, quem não entende a arte contemporânea não deve se sentir um desinformado. Afinal, quanto tempo se passou desde os primeiros dadaístas e desde quando Duchamp expôs um mictório? E, até hoje, apesar de tanta explicação, de tanta mídia e de tanto dinheiro gasto com cada bienal, o grande público ainda não entende e não gosta?

Enquanto alguns se arvoram nesta discussão, outros continuam praticando, aprimorando e aprendendo a pintura para que muitos outros, dotados de sensibilidade, continuem apreciando e sentindo. Coisas diferentes devem ser colocadas em contextos diferentes.

*Artista plástico

Os Fantasmas,de Cláudia Laitano







CLÁUDIA LAITANO

O fantasma

A forma como reagimos à notícia de uma doença, a nossa ou a dos outros, diz muito sobre quem somos, mas talvez mais ainda sobre o que nem sabemos que somos. A doença, em certo sentido, é a corporificação de um fantasma – e cada um reage à visita de uma assombração não apenas do jeito que sabe, mas do jeito que pode.

Quando o fantasma aparece diante de nós, o susto é tão grande, que pode abalar tudo que achávamos que sabíamos sobre nossa personalidade.

Quando aparece para os outros, podemos ser solidários ou indiferentes, cínicos ou compreensivos, e tudo isso vai depender tanto da nossa relação com o doente ou seus familiares quanto da nossa capacidade de sentir empatia pelo outro em abstrato.

As mensagens raivosas dos que usaram a doença de Lula como pretexto para extravasar opiniões políticas chocam não apenas porque barateiam o sofrimento de uma pessoa, mas porque banalizam uma dor que não é só a daquele doente específico, por acaso uma personalidade pública, mas de todos os que já tiveram um caso parecido na família – ou apenas compartilham o medo, mais do que concreto, de passar por esse drama.

Nada é mais universal do que o medo da morte, e nenhuma doença dá mais medo do que o câncer. Suas manifestações em diferentes partes do corpo, suas causas misteriosas, sua relação com estilo de vida, estado de ânimo, prazeres culpados, tudo contribui para essa aura maldita que a ciência mal e mal vem dando conta de esclarecer.

Nos últimos anos, muitas celebridades têm vindo a público falar da doença e expor o tratamento. O valor desses depoimentos é imenso, principalmente em um país como o Brasil, onde o sofrimento da doença é agravado pela precariedade da saúde pública e pela falta de informação.

Mas um efeito colateral visível da cultura do compartilhamento é essa sensação generalizada de que todo mundo em volta tem ou já teve câncer: não apenas amigos próximos e conhecidos, mas também atores famosos, políticos, escritores...

Há, sim, uma epidemia em curso, mas de hipocondria – um mal-estar generalizado causado por essa sensação de que estamos todos sob o constante ataque de inimigos invisíveis, comendo, bebendo e respirando substâncias silenciosamente assassinas.

Claro que já havia hipocondríacos mesmo em épocas em que as doenças eram menos compartilhadas. Alguns dos mais geniais deles foram reunidos no delicioso livro
Os Hipocondríacos – Vidas Atormentadas, de Brian Dillon. Marcel Proust, Charles Darwin e Michael Jackson, entre outros, tinham em comum, além do talento, a suspeita permanente de que suas vidas estavam em risco, traço que apareceu, em menor ou maior intensidade, em suas obras.

O que o livro sugere como reflexão para nossa época tão alarmada com tudo é que o medo permanente costuma provar-se muito mais letal do que as doenças, reais e imaginárias, que assombram nossa imaginação mesmo antes de atingir o nosso corpo.