sábado, 3 de junho de 2017

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, participa de seminário sobre a reforma da Previdência, em Brasília (DF), nesta segunda

03/06/2017 02H00 -
 
JULIANNA SOFIA

BC teme efeito da crise e destoa de euforia do Planalto
Mateus Bonomi/Agif/Folhapress


BRASÍLIA - Todo o enlevo do presidente Michel Temer e do ministro Henrique Meirelles (Fazenda) com o desempenho da economia no primeiro trimestre, assim como os ares de normalidade que falseiam respirar nas últimas semanas, contrasta com a decisão do Banco Central de acionar o freio na queda dos juros.

O BC indicou que o ritmo de distensão da política monetária foi afetado pela crise política que sorve o Palácio do Planalto. Já no próximo mês poderá limitar uma nova redução da taxa a 0,75 ponto percentual. Foi a primeira reação enfática da área econômica ao cenário caótico derivado da delação da JBS, a despeito da troca de comando no BNDES com o intuito de abrir a torneira do crédito para o empresariado.

Diante das incertezas (citadas cinco vezes no comunicado do BC da última quarta), o ciclo de afrouxamento dos juros pode até mesmo ser interrompido mais cedo do que o esperado. Sem as reformas, aumentam as chances de a Selic encerrar o ano acima dos 8,5% almejados.

Nesta semana, a base governista se viu obrigada a adiar a votação da reforma trabalhista em comissão do Senado por falta de segurança nos votos. A nova Previdência está parada, com previsão pouco realista de ser votada na Câmara na próxima semana, quando haverá o julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE; ou na seguinte, quando haverá feriado.

Como bem resumiu o ministro Gilmar Mendes (STF), reinam no Planalto ramos das Organizações Tabajara, que não cuidam de seus ofícios, mas palpitam e buscam influenciar atribuições de outrem. O pito de Gilmar (jogo combinado com Temer?) referia-se a pressões do governo para postergar a decisão do TSE.

A mão firme do atual Banco Central —que devolveu credibilidade ao combate à inflação e, junto com a recessão, derrubou os preços— desagradou agora muita gente por sua reação anti-Tabajara.



Zanone Fraissat/Folhapress
 Droga e livre-arbítrio
SAO PAULO/ SP, BRASIL, 02-06-2017 : Movimentacao na Praca Princesa Isabel, a nova cracolandia no centro da cidade. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress, COTIDIANO) - ESPECIAL***EXCLUSIVO****
Movimentação na praça Princesa Isabel, que se tornou a nova cracolândia no centro de São Paulo
 Vários leitores escreveram para criticar minha posição contra as internações compulsórias de dependentes de drogas. Para eles, o vício oblitera o livre-arbítrio dos usuários, tornando-os incapazes de tomar as decisões que melhor atendem a seus interesses. Levá-los para uma clínica, mesmo que contra a sua vontade, seria assim não apenas uma possibilidade lógica como também um dever moral. 

Receio que o problema seja mais complexo e nuançado do que pinta essa narrativa. É claro que o dependente tem, em algum grau, sua capacidade para resistir à droga diminuída. Se não tivesse, não estaríamos diante de um quadro patológico. Só que diminuição não é o mesmo que anulação. 

A literatura mostra que mesmo pacientes cujo grau de dependência seja classificado como severo ainda conseguem tomar decisões racionais em relação à continuidade do uso da droga.

Vários estudos sugerem que, quando o preço da substância sobe, cresce também a procura por tratamento. Um trabalho australiano de 1997 revelou que dois terços dos viciados em heroína que procuraram o programa de substituição por metadona citaram o preço como uma das razões. Carl Hart, de Columbia, foi ainda mais longe e, manipulando a qualidade da droga oferecida, fez com que dependentes trocassem doses "ruins" por uma recompensa futura. Se o bolso e a pureza pesam nesse tipo de decisão, é razoável supor que outros circuitos cerebrais também possam influir.

É justamente aí que se abre uma janela para a atuação do poder público. Se houver níveis razoáveis de confiança entre os pacientes e as equipes de saúde, elas têm uma boa chance de convencê-los a aceitar o tratamento, hipótese em que o prognóstico melhora significativamente. O problema de ações destrambelhadas como a da prefeitura é que elas acabam com qualquer confiança que possa existir.

Homem de Confiança e da Confiança de Temer foi preso hoje,em brasília.



 Michel Temer, o dia 31 de maio.
Os terroristas têm uma distorção do juízo moral. Está confirmado    Os grupos de terrorismo paramilitar da Colômbia representam organizações de direita REUTERS/Jose Miguel Gomez Cientistas submeteram 66 terroristas paramilitares da Colômbia a vários testes e comparam os resultados com um grupo de homicidas e com outro de não criminosos.

 Andrea Cunha Freita   Dito assim parece tudo menos surpreendente. Uma equipa de investigadores da área das neurociências e psicologia avaliou um grupo de terroristas paramilitares da Colômbia e concluiu que têm o juízo moral distorcido. 

Submetidos a vários testes, estes terroristas que estiveram presos e revelaram que consideram, por exemplo, que fazer mal a alguém com um propósito é mais admissível do que ferir alguém acidentalmente. Para eles, concluem os autores o artigo publicado na revista Nature Human Behaviour, “os fins justificam os meios”.

A conclusão de que os terroristas têm um julgamento moral distorcido parece algo óbvia para o comum dos mortais, sobretudo nos dias que correm. Porém, essa é apenas a diferença mais evidente e significativa da investigação que comparou um grupo de terroristas com pessoas que nunca praticaram um acto criminoso e mesmo com homicidas condenados, e que envolveu outras variáveis.

O estudo que se baseou em vários testes realizados a 66 terroristas paramilitares da Colômbia que cumpriram pena de prisão (em média cada um deles causou 33 vítimas mortais), avaliou também as capacidades intelectuais e motoras, o comportamento agressivo e o reconhecimento emocional, entre outros traços. Segundo este estudo, o que separa estes terroristas e um grupo de 13 assassinos condenados e um outro grupo de 66 pessoas (das mesmas idades, formação académica e género) que nunca cometeram um acto criminoso é claramente o a diferença no que chama de “cognição moral”. Perante cenários que exigiam que julgassem uma determinada acção praticada, com uma intenção ou de forma acidental, e das suas consequências, os terroristas mostraram que estão focados sobretudo nos resultados. “Para eles, os fins justificam os meios”, referem os autores do estudo. Entre muitas outras comparações feitas no estudo, os autores notam que o grupo de não criminosos considerou que fazer mal a alguém de forma acidental era mais admissível do que um dano intencional, com um propósito. A diferença de “pontuação” dada a estas situações foi a mesma no grupo dos terroristas mas de forma inversa, mostrando que consideravam “um dano intencional como mais permissível do que um acidental”, refere o artigo. Os resultados sugerem que a distorção da cognição moral será mesmo um traço distintivo, um marcador, da mentalidade de um terrorista. Os testes revelaram outras diferenças. 

Por exemplo, nas escalas que servem para avaliar a agressividade, os terroristas conseguiram valores mais elevados em todos os parâmetros e sobretudo na agressividade proactiva. No que se refere aos testes sobre o reconhecimento emocional, os resultados também mostram diferenças: com os terroristas a obter valores mais baixos em todas as emoções a que foram expostos, desde o medo, a raiva, a tristeza, surpresa e a repugnância. Porém, sublinha-se, os investigadores concluíram que é a diferença na cognição moral que mais claramente distingue o grupo de terroristas dos outros grupos. No que se refere a outras variáveis avaliadas, como a inteligência verbal e fluida (que serve para resolver problemas imediatos), memória verbal e espacial, controlo da inibição verbal ou conflito de instruções, entre outras, a “classificação” obtida pelo grupo dos terroristas e do grupo de controlo foi muito semelhante. Os investigadores asseguram que os terroristas paramilitares avaliados neste estudo não sofrem de qualquer perturbação psiquiátrica ou neurológica nem são consumidores de drogas ou álcool, factores que teriam uma influência nos resultados. Por outro lado, o tempo de cumprimento de pena também foi tido em conta para perceber se este poderia ter afectado o juízo moral destas pessoas. “Não encontrámos nenhuma associação significativa entre o padrão moral específico revelado pelos terroristas e o tempo que passaram na prisão”, referem os autores. A equipa estudou elementos de grupos de terrorismo paramilitar da Colômbia que representam organizações de direita inicialmente formadas para responder aos movimentos das guerrilhas. “As suas práticas violentas aumentaram de forma tão abrupta que a Colômbia tem hoje dos mais altos níveis de terrorismo em todo o mundo”, refere o artigo, que adianta ainda que a Amnistia Internacional estima que, nas últimas duas décadas, pelo menos 70 mil pessoas foram mortas por terroristas neste país. Milhares de pessoas desapareceram, foram raptadas e torturadas. Porquê? Em nome de quê? “Paradoxalmente, os terroristas justificam as suas acções por imperativos morais. De facto, eles invocam a necessidade de uma ‘limpeza social’, matando milhares de toxicodependentes, criminosos, prostitutas, homossexuais e sem-abrigo em nome de uma campanha de ‘purificação moral’.” E os terroristas que matam a Europa? O que separa estes terroristas dos autores dos atentados que temos tido na Europa? “Não nos parece que o terrorismo paramilitar e outras formas de terrorismo sejam diferentes no que diz respeito ao recurso a práticas desumanizantes, ao abuso de inocentes e à consequente condenação moral que merecem. No entanto, pode haver diferenças nas origens e traços psicológicos de diferentes formas de terrorismo”, referem ao PÚBLICO, por email, Agustín Ibáñez e Adolfo Garcia, dois dos principais autores do estudo. Mas, notam, há diferenças. Na população que estudaram a religião não é relevante, por exemplo. E mesmo a questão ideológica apenas terá um impacto parcial. “Grande parte dos ex-combatentes na Colômbia aderiu a grupos paramilitares por razões económicas, uma vez que lhes era pago um salário. Apenas aproximadamente 13% dos ex-combatentes tinha uma motivação ideológica para se juntarem ao grupo paramilitar”, explicam os investigadores. Assim, os actos terroristas dificilmente terão sido praticados apenas por convicções ideológicas. “Consistentemente, as teorias das ciências sociais sugerem que ideologia e acção estão ligadas às vezes, mas nem sempre. Muitos terroristas não são ideólogos ou crentes profundos de uma doutrina extremista”, explicam os autores do artigo. Mas, para além desses factores, Agustín Ibáñez e Adolfo Garcia defendem que, se olharmos com mais detalhe para todo o contexto, o conflito colombiano parece ser único. “A luta tripartida entre militares, paramilitares e guerrilheiros, a mistura de posições políticas liberais e conservadoras envolvidas no conflito, e a mistura da população civil, bem como narcotraficantes nesses conflitos fizeram do cenário colombiano um fenómeno único e muito complexo”, argumentam. Porém, apesar da especificidade colombiana e quando questionados pelo PÚBLICO sobre o mais recente ataque na Europa, ocorrido na última segunda-feira em Manchester (Reino Unido), os investigadores não hesitam em considerar que esta acção confirma as conclusões do estudo que fizeram: para os terroristas, os fins justificam os meios. Mas, adiantam, “se este padrão anormal de cognição moral pode ser observado entre outros grupos terroristas (ISIS e Al-Queda) é uma questão empírica e ainda sem resposta”. Quando somos confrontados com vítimas inocentes tão jovens (crianças e adolescentes foram mortas e feridas em Manchester), será caso para nos questionarmos se os terroristas (estes ou outros) têm limites. “Claro que pessoalmente percebemos que não têm limites para alcançar os seus objectivos. Porém, como cientistas não nos sentimos autorizados a dar opiniões sobre os traços psicológicos destes terroristas, simplesmente porque não temos acesso a dados sobre os seus perfis cognitivos, afectivos e sociais. No entanto, as suas acções parecem claramente organizadas e delimitadas, sugerindo que são capazes de ir demasiado longe para cumprir os seus objectivos”, respondem.  A equipa internacional que elaborou o estudo reúne neurocientistas, psicólogos e outros especialistas de várias instituições na Argentina (Fundação Ineco, Universidade Favaloro e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), na Colômbia (Universidade Autónoma do Caribe, Universidade dos Andes e Universidade ICESI), no Chile (Universidade Adolfo Ibáñez) e nos EUA (Boston College). O próximo passo da investigação ainda não é na direcção dos terroristas islâmicos ou outros, mas vai manter-se em terreno colombiano. “Estamos agora a estudar as vítimas do conflito armado. Além disso, estamos a começar a avaliar crianças sob condições violentas na guerrilha. Por outro lado, também estamos a estudar os perfis sociais e cognitivos dos paramilitares, comparando-os com pessoas da guerrilha. Por fim, também lançámos (em colaboração com agências nacionais da Colômbia) alguns programas de intervenção em populações desmobilizadas e ex-combatentes, com base nos quais estamos a realizar estudos longitudinais.” Assim, na Colômbia, há várias frentes de ataque científico que pretendem explorar e desmascarar o inimigo terrorista. É uma forma de luta.


 ----------- Fonte:  https://www.publico.pt/2017/05/27/ciencia/noticia/os-terroristas-tem-uma-distorcao-do-juizo-moral-esta-confirmado-1773563clique aqui
Uma instigante explicação da violência 

 Leonardo Boff*   


"A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Filósofos, cientistas e sábios tentaram fornecer-nos algum esclarecimento sem, entretanto, fechar a questão". Vivemos no nível nacional e mundial situações de violência que desafiam nosso entendimento. 

Não apenas de seres humanos contra outros seres humanos, especialmente no Norte da África, no Sudão e no Oriente Médio, mas também contra a natureza e a Mãe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica ecológica, Cuidando da Casa Comum chega a afirmar que “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos”(n.53). Não sem razão que está se impondo a ideia de que inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno segundo o qual o grande meteoro rasante ameaçador da vida no planeta é o próprio ser humano. 

Ele se fez o Satã da Terra quando foi chamado a ser o anjo bom e cuidador do Jardim do Éden. A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Filósofos, cientistas e sábios tentaram fornecer-nos algum esclarecimento sem, entretanto, fechar a questão. Quero apresentar, sumariamente, a proposta de notável pensador francês que viveu muitos anos nos EUA e que faleceu em 2015: René Girard (1923-2015). Apreciava a Teologia da Libertação a ponto de ele mesmo ter organizado em Piracicaba-SP um encontro (25-29 de junho de 1990) com vários teólogos e teólogas, pois via nos propósitos deste tipo de teologia a realização de sua visão da violência e um caminho de sua superação. De sua vasta obra destaco duas principais: “O sagrado e a violência” (Rio 1990) e “Coisas escondidas desde o princípio do mundo”(Rio 2005). Dedicou toda sua vida no esforço de entender o mecanismo avassalador da violência. Qual é a singularidade de Girard? Ele parte da tradição filosófico-psicanalítica que afirma ser o desejo uma das forças mais estruturantes do ser humano. Somos seres de desejo. Este não conhece limites e deseja à totalidade dos objetos.

Por ser indeterminado, o ser humano, não sabe como desejar. Aprende a desejar, imitando o desejo dos outros (“desejo mimético” na linguagem de Girard). Isso se vê claro na criança. Não obstante os muitos brinquedos que possua, o que mais ela quer é o brinquedo da outra criança. E ai surge a rivalidade entre elas. Uma quer o brinquedo só para si, excluindo a outra. Ocorre que outras crianças ou outros também concorrem com ela, desejando também o mesmo objeto. Origina-se daí um conflito de todos contra todos. Esse mecanismo, afirma Girard, é paradigmático para toda sociedade. Supera-se a situação de rivalidade-exclusão, quando todos se unem contra um, fazendo-o bode expiatório. Ele é feito culpado de querer só para si o objeto. Ao se unirem contra ele, esquecem a violência entre eles e convivem com um mínimo de paz. 

Com efeito, as sociedades vivem criando bodes expiatórios. Culpados são sempre os outros: o Estado, o PT, os políticos, a polícia, os corruptos, os pobres, os terroristas, os anti-globalização e por ai vai. Importa não esquecer que o bode expiatório apenas oculta a violência social, pois todos continuam rivalizando entre si.

 Por isso, a sociedade goza de um equilíbrio frágil. De tempos em tempos, com ou sem sem bode expiatório explícito, a violência se manifesta especialmente naqueles que se sentem prejudicados e buscam compensações.  "A publicidade apresenta os produtos como sacramentos produtores da graça da felicidade completa.  Ela enfatiza que alguém é mais alguém  quando consome um produto exclusivo  que os outros não têm. Cria-se um fator de inveja,  de desejo mimético de se apossar do bem do outro.  Enquanto perdurar esta lógica   perdura a violência." Bem o expressou Rubem Fonseca em seu livro “O Cobrador”. Um jovem de classe média empobrecida, por força das circunstâncias, pratica atos ilícitos. Sente-se roubado pela sociedade dominante e confessa: “Estão me devendo colégio…sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol…estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”. Aqui busca-se uma solução individual para um problema social. Na medida em que permanece individual não causa grande medo. Pelo contrário, os causadores principais da violência estrutural são as classes dominantes que acumulam para si à custa da marginalização dos outros. Quanto mais duramente se aplicam as leis contra os marginais, mais seguras se sentem. Destarte, conseguem ocultar o fato de serem elas as principais causadoras de uma situação permanente de violência. Mais ainda, vivemos num tipo de sociedade cujo eixo estruturador é a magnificação do consumo individualista. A publicidade apresenta os produtos como sacramentos produtores da graça da felicidade completa. Ela enfatiza que alguém é mais alguém quando consome um produto exclusivo que os outros não têm. 

Cria-se um fator de inveja, de desejo mimético de se apossar do bem do outro. Enquanto perdurar esta lógica perdura a violência. Mas o desejo não é só concorrencial, diz Girard. Ele pode ser cooperativo. Todos se unem para compartilhar do mesmo objeto. De concorrentes se fazem aliados. Tal propósito supõe outro tipo de sociedade, mais cooperativa que competitiva, com democracia participativa e não apenas delegatícia. Aqui Girard via o sentido político da Teologia da Libertação.

 O caminho mais curto e seguro para tal propósito é a educação crítica, acessível a todos. Por ela as pessoas se civilizam, socializam valores e aprendem a não criar bodes expiatórios mas a assumirem elas mesmas a tarefa de construção de uma sociedade mais igualitária e justa. Então sim haverá mais paz que violência. 


* Teólogo. Filósofo. Escritor. Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/568225-uma-instigante-explicacao-da-violenciaclique aqui
A transição religiosa na América Latina e no Brasil 

José Eustáquio Diniz Alves    Redação - 31/05/20170 [EcoDebate] 


A colonização da América, abaixo do Rio Grande, foi marcada pela força do catolicismo que acompanhou o domínio espanhol e português no continente. A América Latina e Caribe (ALC) é a casa de cerca de 425 milhões de católicos – aproximadamente 40% de todos os católicos do mundo. Pela primeira, a Santa Sé tem um Papa de origem latino-americana. Mas a ALC está passando por uma grande transição religiosa que se manifesta em 4 aspectos: 1) 

Declínio absoluto e relativo das filiações católicas; 2) Aumento acelerado das filiações evangélicas (com diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados); 3) Crescimento do percentual das religiões não cristãs; 4) Aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião; De maneira mais resumida e muito generalizada, pode-se dizer que a ALC está passando por duas grandes transformações agregadas, que devem se prolongar ao longo do século XXI: 1) Mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (protestantes); 2) Aumento da pluralidade religiosa, com queda no percentual de filiações cristãs (católicas + evangélicas), aumento de outras religiões e aceleração do processo de secularização. O gráfico acima, do Instituto PEW, mostra que, na média da América Latina e Caribe, os católicos representavam mais de 90% da população antes de 1970 e caíram para 69% em 2014. Os protestantes (evangélicos) representavam somente 1% em 1910, 3% em 1950, 4% em 1970 e deram um salto para 19% em 2014. As pessoas que se declaram sem religião (unaffiliated) eram menos de 1% até 1970 e pularam para 8% em 2014. Os países que estão mais adiantados no primeiro aspecto da transição religiosa (alternância de hegemonia entre católicos e evangélicos) na ALC são Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador. O país mais adiantado no segundo aspecto da transição religiosa (aumento da pluralidade e secularização) é o Uruguai. 


O número de uruguaios que se declaram sem religião está próximo de 40% O país mais resiliente à transição é o Paraguai, onde os católicos mantêm um percentual em torno de 90% da população. Os países Equador, México, Colômbia e Bolívia também estão numa fase inicial da transição religiosa. Enquanto o Chile e a Costa Rica estão em uma fase parecida com a do Brasil. O gráfico abaixo – com dados dos censos demográficos do IBGE – mostra que a transição religiosa brasileira é parecida com a transição da ALC, mas o Brasil está mais adiantado nesse processo do que a média da ALC, pois o percentual de católicos estava em 64,6% em 2010, o percentual de evangélicos em 22,2% e o percentual de sem religião estava em 8%. Infelizmente, não temos dados das pesquisas do IBGE desde o último censo de 2010. Mas dados do Instituto Datafolha, de dezembro de 2016, mostra que a transição religiosa no Brasil tem se acelerado na atual década (Alves, 18/01/2017). A última pesquisa do Datafolha mostra que houve um crescimento muito grande do número de pessoas que se declaram sem religião. O Brasil é o maior país católico do mundo e a ALC é o continente mais católico. Uma mudança no panorama religioso da região vai ter uma grande implicação para a correlação de forças internacionais entre as grandes religiões. Resta saber se o Papa Francisco, bastante conhecedor dos problemas da região, vai conseguir reverte essa situação de declínio relativo da influência da Igreja de Roma sobre os povos que foram colonizados e convertidos há cerca de 500 anos. Referências: ALVES, JED. Ventos secularizantes: ateus, agnósticos e pessoas sem religião no censo brasileiro de 2010, Ecodebate, RJ, 04/10/2017 http://www.ecodebate.com.br/2015/04/10/ventos-secularizantes-ateus-agnosticos-e-pessoas-sem-religiao-no-censo-brasileiro-de-2010-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ ALVES, JED. Chuí: a capital brasileira dos sem religião, Ecodebate, RJ, 06/02/2017 http://www.ecodebate.com.br/2013/02/06/chui-a-capital-brasileira-dos-sem-religiao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ ALVES, JED. A transição religiosa em ritmo acelerado no Brasil, Ecodebate, RJ, 18/01/2017 https://www.ecodebate.com.br/2017/01/18/transicao-religiosa-em-ritmo-acelerado-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/ PEW. Religion in Latin America. Widespread Change in a Historically Catholic Region, PEW, November 13, 2014 http://www.pewforum.org/2014/11/13/religion-in-latin-america/


 ----------------- * José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br Fonte: in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2017 "A transição religiosa na América Latina e no Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/05/31/transicao-religiosa-na-america-latina-e-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.teste copel
A SINA DE POBRES SOBRANTES 

José de Souza Martins* 



   "O caso brasileiro é claramente do tipo em que os agentes políticos dos problemas que temos sabem perfeitamente que esta sociedade é baseada na igualdade jurídica, que justamente faz de alguns mais iguais do que os muitos que são menos iguais, como diz George Orwell, em sua fábula sobre uma fazenda dominada pelos porcos." Um dos grandes problemas da sociedade contemporânea é o das populações sobrantes, as que não conseguem emprego permanente ou que não têm acesso aos direitos sociais supostamente garantidos a todos, as que não têm acesso aos benefícios da Previdência Social ou não o terão senão tardiamente, as que não têm onde morar, não têm terra para plantar, não têm acesso à assistência médica e hospitalar que lhes garanta a duração da vida no que a vida deve durar.


 As que morrem de doenças paras as quais há remédio e cura. Gente cujos carecimentos são descabidos. Temos, também, os descabimentos: em cidades como São Paulo, em que há tanta gente que passa fome, cujo lixo, porém, contém desperdícios alimentares suficientes para alimentar outra cidade do mesmo tamanho. Cidades em que animais de estimação já têm assistência médica que gente ainda não tem. 

Vivemos numa era de insuficiências programadas, apoiadas em técnicas econômicas e técnicas políticas de gestação de carências lucrativas. O conhecimento científico de que dispomos permite conhecer previamente no que vão dar certas medidas e certas decisões. O caso brasileiro é claramente do tipo em que os agentes políticos dos problemas que temos sabem perfeitamente que esta sociedade é baseada na igualdade jurídica, que justamente faz de alguns mais iguais do que os muitos que são menos iguais, como diz George Orwell, em sua fábula sobre uma fazenda dominada pelos porcos. 

A economia política da insuficiência, em países como o Brasil, decorre do contínuo revigoramento e modernização de técnicas de acumulação de capital derivadas do rentismo pré-capitalista, de quando a riqueza se baseava na renda da terra, que é exatamente o oposto do capital. A renda fundiária é tributo que o proprietário cobra de quem da terra precisa para trabalhar e viver, o que é possível porque a terra é um bem finito. Ele recebe pagamento pelo monopólio de um pedaço do planeta. Mesmo quando é um proprietário capitalista e produtivo, e não raro pequeno proprietário, embute no preço de seus produtos a parcela correspondente ao tributo da renda fundiária. Essa mentalidade é no Brasil transplantada para outros setores econômicos. 

É uma questão cultural, coisa de um empresariado em que muitos têm o capital, mas não conhecem a cultura capitalista, o que dela é próprio. Aqui as coisas e os serviços tendem a ser artificialmente insuficientes, menos do que o necessário a que todos se saciem. A consciência infeliz do nosso tempo é produto deliberado de insuficiências manipuladas para gerar o ser característico e necessário ao funcionamento do sistema, o sobrante. 

"Não há vaga" na porta de uma fábrica diz a quem bate com o nariz na porta que é uma pessoa além do necessário. No hospital lotado e sem vagas para novos enfermos, diz que é uma pessoa além da vida a que deveria ter direito. A compreensão dos problemas sociais brasileiros depende de que se compreenda os mecanismos que continuamente e cada vez mais expulsam das relações sociais estáveis parcelas crescentes da população. Estáveis são aquelas relações que justificam e motivam as pessoas a sentirem-se felizes porque por meio delas sabem que fazem parte da sociedade. As relações que lhes asseguram o trabalho e os meios para viver, comer, morar, sustentar a família, ouvir uma música de Ivan Vilela ou de Bach, ler um livro de Renata Pallottini ou de Mafra Carbonieri. Autores do encontro entre o pequeno mundo da vida cotidiana e o grande mundo da cultura. O encontro que nos liberta das banalidades e da vulgaridade. É isso que nos inclui, e não apenas as meras três refeições por dia do discurso populista. Alguns invertem a ordem lógica da história política para fazerem de conta que são estadistas lúcidos e competentes. Governam em nome do ontem, e não em nome de hoje e do amanhã, governam para vingar a infelicidade dos que já morreram e que não lhes delegaram o mandato da vingança. Um presidente da República, durante oito anos, encheu o vazio da política com o mantra "Nunca antes neste país...". Governou em nome dos mortos. No entanto, se apurarmos o olhar, veremos que as categorias de sobrantes se multiplicam. Sobrantes diz muito mais e de modo mais apropriado do que excluídos, designação fácil e  superficial sem validade explicativa. Uma categoria de sobrantes é a dos que já trabalhavam quando ainda não tinham acesso aos direitos trabalhistas.

 A lei dizia que não podiam trabalhar porque ainda crianças. Mas a lei fechava os olhos quando, para sobreviver, ingressavam no que os recenseamentos chamam de população economicamente ativa. Essa é apenas uma lasca na cruz da nossa existência, uma ruga e mais em nossa face cansada. -------------------- 

* José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de “A Sociologia como Aventura” teste copel
Ex-deputado Rocha Loures é preso em Brasília neste sábado
Bruno Santos - 19.mai.2017/Folhapress
SAO PAULO, SP, BRASIL, 19-05-2017: O deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) chega de Nova York no Aeroporto de Guarulhos, após ter seu citado na delação de executivos da JBS. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** FSP-PODER *** EXCLUSIVO FOLHA***
O deputado federal afastado Rodrigo Rocha Loures chega a São Paulo

O advogado do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, Cezar Bitencourt, informou à Folha na manhã deste sábado (3) que o ex-parlamentar foi preso. Ele teria sido avisado nesta manhã sobre a prisão pela mulher de Rocha Loures.

O ex-parlamentar foi preso em sua casa, em Brasília, informa ainda Bitencourt. O advogado está em Porto Alegre, pegando avião para se dirigir à capital federal.

A defesa diz que está "indignada", por entender que a Justiça sequer analisou os argumentos apresentados nesta sexta-feira (2) contra a detenção de Loures.

Nesta sexta, a defesa do ex-deputado afirmou ao ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, "quer a prisão [de Loures] apenas para forçar uma delação, como tem sido usual nos últimos tempos".

"Desde o momento em que o deputado Osmar Serraglio não aceitou o Ministério da Cultura e optou por reassumir sua cadeira de deputado na Câmara, a grande mídia tem insistido que a qualquer momento o recorrido Rodrigo Rocha pode ser preso. E, invariavelmente, acrescentam que se ele não for preso provavelmente não irá delatar. 

Ou seja, a própria mídia já encorpou a filosofia adotada na Lava Jato de prender, para humilhar, fragilizar e apavorar os investigados para optarem pela delação", afirma o advogado Cezar Bitencourt nos documentos que apresentou à corte para rebater o novo pedido de prisão feito por Janot.

Entre os argumentos apresentados, ele afirma que "não há uma conduta sequer" por parte do ex-deputado que recomende a prisão, já que a coleta de provas foi finalizada e Loures está "com sua família, recolhido e na mais estrita obediência à lei e ao Judiciário", cumprindo as cautelares que lhe foram impostas". Loures, diz ele, devolveu os R$ 500 mil que teria recebido da JBS numa mala e entregou o passaporte às autoridades.

O ex-deputado é investigado no STF em inquérito com o presidente Michel Temer no âmbito da delação da JBS.

Loures perdeu nesta semana o cargo de deputado federal após o retorno de Osmar Serraglio, 
exonerado do Ministério da Justiça, à Câmara.

Diretas Já (modo Venezuela)

 - GUILHERME FIUZA

O GLOBO - 03/06



Os gladiadores da democracia tomaram uma dose redobrada
da porção de mortadela e quebraram tudo


Essa sessão nostalgia da política brasileira foi uma grande sacada. O episódio das Diretas Já em Copacabana foi emocionante. Você se sente realmente no túnel do tempo, é muito bem feito.



Dizem que estão preparando o do comício da Central do Brasil, o da passeata contra a Guerra do Vietnã e um especial sobre o choro de Maria da Conceição Tavares no Plano Cruzado. Só épicos. Vamos aguardar.



O remake das Diretas foi lindo, só houve um mal-estar. Ao final do episódio — que teve o mesmo elenco das manifestações em defesa da quadrilha simpática de Dilma Rousseff — o cenário estava impecável. Isso não foi legal. Vitrines intactas, ônibus e orelhões idem. Falha elementar de produção, que precisará ser corrigida no próximo capítulo. A família revolucionária brasileira não aceitará essa afronta novamente.



Vida de black bloc não é fácil. Você passa uma existência sendo atiçado por freixos e caetanos, e na hora da festa deles não te deixam soltar um mísero rojão na cara de ninguém. Não é justo.



E não é só isso. A parte mais bacana, que é fustigar a boçalidade da polícia para descolar umas bombas de gás e brincar de “Os dias eram assim”, também foi cortada.



É duro ter o seu talento dramático cerceado a esse ponto, e terminar na praia dançando música de protesto. Mas um guerreiro tem que estar preparado para as provações mais duras. Caminhando e cantando e seguindo o cifrão.



O que ninguém pode negar é que, antes dessa genial sacada dramatúrgica, a vida nacional estava caminhando para o marasmo. Inflação e juros caindo, níveis de risco idem, Petrobras saindo das emocionantes páginas policiais para a entediante seção de economia, reformas sendo tocadas por aqueles nerds que fazem tudo certinho e não são candidatos a nada. Uma chatice.



Graças a Deus surgiram roteiros decentes, como a escapada espetacular dos bilionários irmãos Batista para Nova York, depois de uma conversa franca e patriótica com o companheiro Janot. A emoção está de volta.



Morreu mais um pintinho esta noite. A mensagem cheia de compaixão pode parecer linguagem cifrada, neste mundo mau. Mas é verdadeira, porque ainda existe gente com sentimentos, capaz de se importar com os animais. O mensageiro da dor, no caso, é o caseiro do sítio de Atibaia, que não é do Lula. Essas coisas o fascista Moro não vê.



A mensagem sobre a morte no galinheiro foi enviada ao Instituto Lula — e aí as lágrimas brotam: um homem que foi presidente da República se importar com a vida de um pintinho, num sítio que nem é dele... É de cortar o coração.



Hoje sabemos que Lula não se importava só com os pintinhos. Preocupava-se muito com as vaquinhas. Foi por isso que ele mandou o BNDES — um banco até então sem a mínima sensibilidade para com os animais — ajudar na causa, depositando alguns bilhões de reais nas boiadas certas.



Não se pode confiar na Justiça terrena (como se vê pela perseguição implacável a este homem bom), mas a justiça divina não falha: mesmo após a delação demolidora de João Santana (quem se lembra disso?), Lula e Dilma estão em paz, assistindo de camarote ao bombardeio ao inimigo. Deus ajuda quem ajuda os animais.



A falha imperdoável de produção no remake das Diretas Já em Copacabana, felizmente, não ocorreu em Brasília. Ali sim, o episódio da série foi perfeito.



Aqueles ministérios que passaram 13 anos emocionando o Brasil — num enredo eletrizante protagonizado por Erenice Guerra, José Dirceu, Paulo Bernardo, Gleisi Hoffmann e grande elenco — andavam às moscas. Ultimamente, viam-se servidores públicos administrando e até obtendo resultados socioeconômicos — praticamente uma morte em vida.



Aí os revolucionários do povo perderam a paciência que tiveram nesses 13 anos dourados e cercaram a Esplanada. A direção de cena dessa vez foi impecável: os gladiadores da democracia tomaram uma dose redobrada da porção de mortadela e quebraram tudo. Foi bonito de se ver.



O Verissimo até falou que o Exército na rua lembrou a vida em 64! Viram como não é difícil produzir direito?



Dizem que no sensacional episódio “Brasília em chamas” a técnica de produção foi toda venezuelana. É possível, sabendo-se que a junta democrática que está tentando tomar o poder na mão grande (mas sem perder a ternura) inclui simpatizantes de Nicolás Maduro, conhecido como Senhor Diretas (no queixo).



Aliás, se no próximo episódio o pessoal substituir a MPB pela guarda chavista, as Diretas Já passam na hora — não precisa nem de voto.



O Brasil está mudando para melhor. Na época da Dilma era um drama para o Supremo autorizar investigação dos mandatários — mesmo com as obras completas da Lava-Jato transbordando sobre as divinas togas. A denúncia já vinha amortecida, ficava lá estacionada na sombra, e o Brasil ainda tinha que ouvir o despachante Cardozo chorando inocência. Agora, não: Janot mandou, Fachin homologou. Primeiro mundo.



Vai nessa, Brasil. Sem medo de ser feliz. Mas anda logo, que agora o país saiu da recessão (volta, Dilma!) e daqui a pouco vai ficar mais difícil ganhar no grito.

sábado, junho 03, 2017

Imperícias gerais e irrestritas 

- BOLÍVAR LAMOUNIER

ESTADÃO - 03/06

FHC é o único capaz de produzir uma resposta positiva imediata entre os agentes econômicos

Mais uma crise política se arrasta em Brasília, acompanhada de longe por 14 milhões de desempregados e suas famílias. Crise produzida e turbinada por uma inacreditável comédia de erros. Com o elenco de que hoje dispomos, a propalada “robustez” do nosso script institucional mais parece uma profunda anemia.

Nesse festival de imperícias, o primeiro ponto a destacar é o inacreditável indulto concedido pelo ministro Luís Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, aos irmãos Joesley e Wesley Batista. Como compreender que Marcelo Odebrecht esteja preso há quase dois anos em Curitiba enquanto os dois irmãos gozam as delícias de Nova York? A disparidade de tratamento é gritante, escandalosa, inexplicável. Lépida e fagueira, a dupla levou tudo. Até o barquinho se foi. Na perversa trama da crise que estamos vivendo, o que a Justiça sofre não é só um arranhão. É um dano considerável em sua imagem, uma perigosa perda de altitude, justamente quando o País mais precisa de sua autoridade arbitral.

Outro erro crasso de Fachin e Janot foi trazer a público o conteúdo da gravação de Michel Temer feita por Joesley sem antes submetê-la à perícia policial. Esse erro, agravado pela má qualidade da gravação e pela possibilidade de ter ela sofrido adulterações, passou a ser a viga mestra da linha de defesa do presidente Temer. Daí a avaliação aparentemente consensual de que ele, Temer, tenha ganho uma sobrevida. Para isso também contribuem, a julgar pelo noticiário, os indícios (tênues) de recuperação da economia e, com mais força, a falta de um nome de consenso – um candidato natural – para a eventualidade de a sucessão vir a ser decidida pelo Congresso, nos termos do artigo 81 da Constituição.

A questão, entretanto, é mais complexa. Desta vez, a nunca assaz louvada perspicácia política do presidente Temer parece havê-lo abandonado. Como explicar que um presidente da República receba na residência oficial, numa hora já avançada, sem testemunhas, um empresário de tão discutível reputação? Sem esquecer que Joesley Batista não se identificou na portaria nem passou pelos controles fotográficos ou eletrônicos atualmente rotineiros nas mais variadas organizações. Esses fatos tisnam em certa medida o estrito legalismo da defesa, ou seja, seu apego aos defeitos da gravação e à não realização da indispensável perícia. Essa contraposição entre a árvore (a fita não periciada) e o bosque (as circunstâncias do encontro no Palácio do Jaburu) poderá pesar na decisão sobre a chapa Dilma-Temer que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começará a discutir no dia 6 de junho.

Cabe, aqui, uma referência à chamada “sociedade civil”, e em particular aos empresários, grandes e pequenos. O saudoso Nelson Rodrigues certamente descreveria a manifestação deles sobre a tragicomédia que se desenrola em Brasília como “um silêncio de estourar os tímpanos”. Em 2010, como se recorda, quando a sra. Dilma Rousseff foi alçada à Presidência, a eleição foi decidida por três grandes eleitores, Lula, Marcelo Odebrecht e João Santana, donos da popularidade, do dinheiro e de uma notável capacidade de mentir por meio do que se conhece como marketing eleitoral. Embora os destinos da economia estejam em suas mãos, tudo leva a crer que os empresários se comportarão como em tantas outras oportunidades em nossa História: passarão pela cena sem dizer palavra.

Se Temer ganhar “limpamente” no TSE, a crise terá uma solução rápida, como é desejo de todos, e a recuperação econômica não será prejudicada. Mas se, para ganhar, o presidente tiver de recorrer a meios protelatórios (pedido de vista, recursos e mais recursos ao STF), o quadro será outro. A crise poderá estender-se por vários meses e o número de desempregados poderá bater em 15 milhões no começo de 2018, um ano eleitoral, e Temer terá sobre seus ombros uma parte da responsabilidade por tal desfecho.

Suponhamos, porém, que a decisão do TSE seja desfavorável ao presidente e ele aceite se afastar de imediato, abstendo-se de toda procrastinação. Iremos, então, para a eleição do sucessor pelo Congresso, como sabiamente estipula o artigo 81 da Constituição. Menciono, por dever de ofício, os artistas de esquerda que têm ido às ruas bradar por “diretas já”; esses estão em seu papel. São como os “suspeitos habituais” a que o capitão Renault, interpretado pelo ator Claude Rains, se referiu no filme Casablanca. Sem esquecer Lula e o 6.º Congresso do PT, imersos, como sempre, em seu característico ambiente de diretório acadêmico. Triste é constatar que políticos experientes como o senador Ronaldo Caiado e o deputado Miro Teixeira tenham emprestado seu prestígio a uma tese tão manifestamente extemporânea.

Ainda na hipótese de o TSE decidir contra Temer, chegamos, finalmente, ao Congresso Nacional. Uma das dificuldades desse insólito processo sucessório será, como assinalei, a inexistência de um “ungido” – um nome de consenso. Esse é outro aspecto patentemente surrealista da presente crise brasileira. Deve estar muito bem de líderes este Brasil que liminarmente descarta o nome de Fernando Henrique Cardoso. Que credenciais lhe faltam? Experiência, conhecimento dos problemas? Se os integrantes da presente legislatura tiverem ainda algum discernimento, haverão de concluir que o ex-presidente é o único nome capaz de produzir uma resposta positiva imediata entre os agentes econômicos, dentro e fora do País. Não sendo candidato em 2018 e tendo feito em 2002, quando da primeira eleição de Lula, uma transição de governo absolutamente exemplar, quem como ele poderá contribuir para a distensão dos ânimos e a normalização do processo político? Farol alto, senhores! Farol alto!

*Sócio-dretor da Augurium Consultoria, é autor de ‘Lberais e Antiliberais – a Luta Ideológica de Nosso Tempo’ Companhia das Letras, 2016)
Danilo Verpa - 11.nov.2009/Folhapress
luz energia eletrica - ITABERÁ, SP, BRASIL, 11-11-2009: Torres de transmissão de energia elétrica em Itaberá (SP). Entre a noite de 10 de novembro e a madrugada de 11 de novembro de 2009, o blecaute mais abrangente na história do país deixou no escuro 70 milhões de pessoas em 18 Estados e no Distrito Federal. No blecaute, os Estados foram atingidos como parte de um efeito cascata provocado pelo desligamento da linha operada por Furnas que traz a eletricidade de Itaipu, no Paraná, até a subestação de Itaberá. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress, 1547, COTIDIANO)
Dos três projetos habilitados, dois são referentes a construção de linhas de transmissão de energia
DE BRASÍLIAluz energia eletrica - ITABERÁ, SP, BRASIL, 11-11-2009: Torres de transmissão de energia elétrica em Itaberá (SP). Entre a noite de 10 de novembro e a madrugada de 11 de novembro de 2009, o blecaute mais abrangente na história do país deixou no escuro 70 milhões de pessoas em 18 Estados e no Distrito Federal. No blecaute, os Estados foram atingidos como parte de um efeito cascata provocado pelo desligamento da linha operada por Furnas que traz a eletricidade de Itaipu, no Paraná, até a subestação de Itaberá. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress, 1547, COTIDIANO)


Apenas três projetos foram habilitados a receber empréstimos do FI-FGTS, fundo de investimentos formado com recursos do FGTS, na primeira convocação pública para atrair possíveis interessados nos recursos do fundo.

Haviam 34 projetos inscritos, que pleiteavam R$ 11,3 bilhões.

O FI-FGTS tinha separado R$ 7 bilhões para financiar obras de infraestrutura, mas apenas R$ 1,323 bilhão passou pelo primeiro crivo do comitê de investimentos do fundo e foi habilitado.

Dos três projetos habilitados, dois são para a construção de linhas de transmissão de energia elétrica e um para portos.

A Xingu Rio Transmissora de Energia deve receber R$ 1 bilhão para instalar uma linha que ligará a região Norte ao Rio de Janeiro.

A Empresa Sudeste de Transmissão de Energia foi contemplada com R$ 183 milhões para outra linha, ligando Minas Gerais ao Espírito Santo.

E o terceiro empreendimento atendido é a Porto Central Complexo Industrial Portuário, no Espírito Santo.

O desembolso ainda dependerá da estruturação financeira do negócio, que dependerá de outros agentes financiadores além do FI-FGTS. A taxa de juros também varia de acordo com o risco e com volume de empréstimos na formação do capital necessário para colocar de pé o empreendimento.

Os empreendimentos serão financiados por meio da compra de debêntures (títulos de dívida emitidos pelo empreendedor).

Segundo Marco Aurélio Queiroz, presidente do comitê de investimentos do fundo e secretário-executivo do Ministério das Cidades, os projetos preveem investimentos totais de cerca de R$ 5 bilhões. O FI-FGTS está emprestando entre 20% a 50% do valor total do empreendimento.

A convocação pública é uma iniciativa que passou a vigorar neste ano.
Com o desembolso inicial ao redor de 10% do volume pretendido pelos investidores, Queiroz afirmou que o momento é de aprendizagem.

Ele disse ainda que incertezas abateram o apetite por capital para investimento.
"No segundo semestre de 2016 não houve nenhum projeto apresentado. Isso tem a ver com a realidade econômica do país, que desacelerou e gerou incertezas para investimentos de longo prazo", disse.

Para liberar o restante da verba inicial de R$ 7 bilhões, o FI-FGTS abrirá novo edital em 12 de junho.

Candidatos que foram rejeitados nessa convocação poderão se candidatar novamente.

Segundo Ordiley Rios, gerente de investimentos estruturados da Caixa, a maior parte dos desclassificados deixou de apresentar documentos e por isso saíram da disputa.

Também foram descartados projetos que apresentaram propostas de financiamento superiores a 50% para o fundo. A regra da convocação é que o valor emprestado seja de até esse percentual. Quanto menor o empréstimo pedido, maior é a pontuação na seleção.

J&F

O FI-FGTS foi alvo de denúncias do empresário Joesley Batista, dono da JBS.
Em sua delação, ele disse que pagou R$ 90 milhões ao então deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para liberar recursos do fundo.

O ex-executivo da Caixa Fábio Cleto, ligado a Cunha, também denunciou que agia, sob comando de Cunha, em prol da empresa de Joesley.

Hoje, tanto o TCU (Tribunal de Contas da União) quanto a Polícia Federal investigam o caso.

Marco Aurélio Queiroz disse que o FI-FGTS tem uma exposição a ativos da J&F, controladora da JBS, no valor de R$ 940 milhões, referente a um empréstimo concedido para a construção da fábrica da Eldorado.

Segundo ele, os pagamentos estão sendo feitos com regularidade e, portanto, não há motivo para o fundo acionar provisionamento para eventuais perdas.

NOVA ADMINISTRAÇÃO

Em reunião nesta quarta (31), o comitê de investimento também deliberou sobre a escolha do novo presidente, que administrará o grupo por um ano.

Pelo rodízio no comando do comitê, agora é a vez de um representante dos trabalhadores assumir a presidência.

O escolhido é o jornalista Luiz Fernando Emediato, ligado à Força Sindical e dono da editora Geração Editorial.

O presidente do comitê tem o mesmo poder de voto dos demais integrantes. A pauta do FI-FGTS é definida pela administração do fundo.