segunda-feira, 2 de março de 2015

" Haters gonna hate "


Gregorio Duvivier

A internet é uma escola de ódio –basta ler a sessão de comentários, abaixo desse texto. Comentar em portais dá trabalho, quem já tentou sabe. E é um trabalho não remunerado, obviamente. Sempre desisto no meio, em geral quando pedem o CPF. "Ah, deixa, não era importante mesmo". 

No entanto, quem odeia de verdade tem toda a paciência do mundo. Sempre fico espantado com a quantidade de pessoas que gastam minutos preciosos da vida na expressão do ódio não remunerado.
Quando pequeno (de idade, já que continuo pequeno de tamanho) não gostava da cor verde –e nem de cenoura, feijão, orégano, salsinha, peixe cru, arroz, beterraba ou berinjela. Também não gostava de palhaços, do Flamengo, da Xuxa ou do Power Ranger verde (sim, pouca gente se lembra dele, mas ele existia). Não gostava de ir à escola, nem à natação, nem à terapia, nem à ginástica olímpica (não me perguntem o porquê, mas eu fazia ginástica olímpica). Não gostava de dormir e menos ainda de acordar. Não gostava de ter que falar com pessoas que eu não conhecia. Não gostava de Carnaval.

Não-gostar era um esporte –o único que eu praticava com disciplina e fervor. E teria continuado não-gostando pro resto da vida não fosse a minha mãe –pós-doutora na arte de gostar do mundo. Toda vez que eu dizia um peremptório "não gosto", ela soltava, na lata: "aprende a gostar" e me empurrava a salsinha goela adentro. Eu espumava de ódio –para mim, era óbvio que não-gostar era um traço imutável da personalidade, assim como a timidez, que, quando eu usava como desculpa, ela rebatia: "timidez é falta de educação".

Com o tempo, vi pessoas mudarem de time, de sexo e até de cor dos olhos (no Panamá) e deduzi que gostar ou não gostar de salsinha não podia ser uma questão tão séria –e seria muito melhor para mim que não fosse.

Imagine duas vidas paralelas. Em uma delas, você gosta da Anitta –ou, pelo menos, a existência dela não te incomoda. Na outra, toda vez que você vê a cara da Anitta você tem engulhos, quando ouve a voz da Anitta o estômago revira, você evita ir a festas porque sabe que vai tocar Anitta. O objeto não-gostado acaba ocupando um espaço gigantesco do seu tempo –muito maior do que os objetos gostados. Aprender a gostar é, sobretudo, perceber que não vale a pena perder tempo com o que você não pode mudar.

A matemática é simples: sua vida vai ser melhor se você gostar –não só da salsinha, mas gostar de gostar. Ou melhor: gostar de gostar de gostar. Obrigado, mãe.

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* Gregorio Duvivier é ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.
Fonte: Folha online, 02/03/2015

" Riscos do Radicalismo "

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Editorial Zero Hora

A crise econômica e política, as investigações sobre a corrupção na Petrobras e a insatisfação crescente da população com suas lideranças evidenciam os riscos de uma convulsão social que o país precisa evitar. Os sinais de radicalismo são claros, tendo nos seus extremos a inoportuna convocação do protesto pelo impeachment, dia 15, e a manifestação irresponsável do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugerindo que “o exército do Stédile” saia às ruas em defesa do governo. A alusão a João Pedro Stédile, associado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), conhecido pelo radicalismo, só serviu para gerar mais apreensão entre quem se opõe à violência.
No cotidiano brasileiro, multiplicam-se sinais cada vez mais preocupantes de aumento de um sectarismo que só contribui para acirrar ainda mais as tensões em diferentes pontos do país. Foi o que se viu recentemente quando o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi hostilizado num hospital particular em São Paulo por um grupo que o aconselhou a ir para o SUS e para Cuba. No Rio, no polêmico ato de apoio à Petrobras, defensores do governo federal e do impeachment da presidente Dilma Rousseff partiram para o confronto. Os próprios transportadores de carga reforçaram esse ânimo beligerante ao ignorarem seus próprios líderes, insistindo na paralisação das atividades, e até a lei, ao constranger colegas e resistir à operação de desbloqueio das rodovias.
O ânimo beligerante tende a se acirrar a partir desta semana, devido a uma série de protestos, com motivações diversas, programados por centrais sindicais. As manifestações antecedem a prevista em defesa de um extemporâneo pedido de impeachment, no momento em que as atenções deveriam estar concentradas no que o Planalto precisa fazer, com o aval do Congresso, para contornar as dificuldades econômicas legadas pelo mau gerenciamento político-administrativo.
As insatisfações crescentes são indícios claros de que o país pode descambar para a desordem se governo e setores representativos da sociedade não buscarem soluções civilizadas para as demandas nacionais. As saídas são as que a democracia oferece diante de um impasse dessas dimensões: a valorização do diálogo e das instituições, para que o país se livre de corruptos e corruptores e possa retomar o crescimento num cenário de estabilidade econômica.

domingo, 1 de março de 2015

" Mudanças e Consequências "

 Dr J.J.Camargo -
Danos colaterais dos mais imprevistos surgiram nos EUA após reforma na saúde

Foto: Edu Oliveira / Agência RBS
J.J. Camargo: mudanças e consequências Edu Oliveira/Agência RBS

 
As mudanças de comportamento social se processam lenta e, no mais das vezes, imperceptivelmente. E quase sempre as consequências da mudança não são inicialmente dimensionáveis.
Quando começaram as demandas judiciais contra médicos e hospitais nos EUA há cerca de 30 anos, tudo era visto como um adequado exercício da cidadania e, portanto, a vitória de um direito que significava desenvolvimento social.

Para não parecer politicamente correto, ninguém se arriscava em delatar objetivos escusos como, por exemplo, o interesse das seguradoras em criar um ambiente profissional tão adverso e temerário, que nenhum médico se arriscasse a trabalhar sem seguro profissional.
Se alguém denunciasse que jornalistas ligados à imprensa marrom eram pagos pelas seguradoras para manter o denuncismo ativo, era imediatamente acusado de corporativismo, e ninguém se interessava em investigar o quanto havia de verdade, posto que as razões do protesto eram, ao juízo apressado, evidentes.
 
A medicina americana há décadas já era a melhor do mundo, de modo que ninguém poderá, de sã consciência, atribuir a este mecanismo purificador a excelência alcançada.
 
O tempo se encarregou de revelar danos colaterais imprevistos de um processo que aparentemente devia beneficiar a sociedade.
 
A primeira consequência foi o aumento estratosférico do custo do serviço médico, encarecido pela prática da medicina defensiva, em nome da qual são solicitados exames que o bom senso dispensaria se não houvesse a pressão dos advogados que passaram a funcionar como consultores diretos, recomendando aos médicos que seguissem protocolos que os tornassem mais defensáveis em caso de alguma complicação.
 
Por outro lado, como a confiança mútua ruiu, a relação médico-paciente esfriou e, quanto mais intelectualizado é o paciente, mais será tratado como um eventual contestador e merecedor de termos de consentimento informado, que descreve as intercorrências mais inusitadas.
 
Depois de três décadas, os planos de saúde começaram a estimular o turismo médico, porque ficou evidente que era mais barato pagar a viagem do paciente e acompanhante para ser operado em algum centro de excelência no Exterior, fugindo dos preços exorbitantes da medicina americana. Finalmente, os jovens médicos americanos passaram a fugir das especialidades de maior risco, delegando a alta complexidade aos imigrantes, selecionados na origem por inteligência, desembaraço, ambição e brilhantismo.
 
 
A Roberta foi a melhor aluna da turma, e o entusiasmo que irradiava no ambulatório era tão contagiante que ninguém mais se surpreendia se as mães pedissem, nas reconsultas, que só queriam ser atendidas por ela.
 
A entrada daquele pai na emergência do hospital com uma criança pequena enrolada numa manta pareceria normal, não fosse o anúncio: "Se disserem que não tem vaga na UTI, vou direto para o jornal e amanhã vocês vão dar explicações na TV". Quando a Roberta se aproximou para examinar a criança, foi repelida com um empurrão: "Cai fora. Não quero uma estudantezinha cuidando do meu filho".
 
A chegada do segurança acalmou os ânimos, o pai recendendo a álcool foi afastado e pôde ser constatado que não havia necessidade de UTI, o menino estava morto. Há algumas horas. Ter sido chamada pelo diretor, um burocrata abjeto que lhe ordenou que evitasse confusões com pacientes que pudessem denegrir a imagem do hospital, foi a gota d'água.
 
Ao encontrá-la no aeroporto, com passaporte na mão, ela estava cheia de medo pelo desconhecido, mas movida por uma indignação que nos tem faltado: "Não importa o quanto seja difícil lá fora, vou em busca de dignidade profissional. Por aqui, parece que o estoque acabou. E, por favor, não pense que desisti por covardia. Preciso criar meus filhos em um lugar onde o respeito seja espontâneo".
 
Triste admitir que perdemos um grande talento e que partiu cheio de razão. Mau sinal perceber o quanto os medíocres se sentem confortáveis com o país que estamos construindo.
 

" O Slogan do Governo está virando " Brasil" o País da Mentira "!!! "


domingo, março 01, 2015

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


Aécio Neves (PSDB-MG) sobre arrocho que desdiz promessas de Dilma na campanha



EUA: DILMA IMPEDIU UMA LEI ANTITERROR NO BRASIL

Embaixador americano em Brasília Clifford Sobel endereçou em 2008 mensagem secreta ao Departamento de Estado dos EUA, “vazado” pelo site WikiLeaks, criticando a lentidão do governo brasileiro na aprovação da lei antiterrorismo. O governo alegava haver risco de enquadrar o Movimento dos Sem-Terra (MST) como grupo terrorista. Sobel não tinha dúvida: Dilma Rousseff foi quem sepultou o projeto.

                                   COMPROMISSO

Adotar legislação antiterror foi compromisso assumido pelo Brasil e uma centena de países, a partir do terrível 11 de setembro de 2001.

                              PARA INGLÊS VER

No e-mail, especialistas em antiterrorismo dizem que o trabalho do Planalto foi “cortina de fumaça” para fingir que levava o assunto a sério.

                               SÓ NA PRÁTICA

Sobel citou fonte do governo brasileiro para quem um ataque ao País é “tão improvável” que “o governo é incapaz de dar atenção ao assunto”.

                                     ESCALADA

O ex-embaixador americano conclui: os esforços dos EUA para colocar a lei de volta na agenda do Brasil será um caminho “ladeira acima”.

            ODEBRECHT VIROU DESDOBRAMENTO DA LAVA JATO

O depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que confessou ter recebido da Odebrecht ao menos R$ 59,8 milhões em propina, motivou apuração especial da força-tarefa da Lava Jato contra a empreiteira baiana. E os resultados estariam na iminência de aparecer, segundo se acredita no Congresso, com devassa e prisão dos principais executivos, incluindo seu presidente, Marcelo Odebrecht.

                                      AZEITADO

Segundo Paulo Roberto Costa, a propina rendeu a Odebrecht, em consórcio com a OAS, um contrato de R$1,5 bilhão, em Abreu e Lima.

                                  CAIXA CHEIO

A Odebrecht foi a empreiteira que mais faturou na era Lula-Dilma: cerca de 53% dos R$ 71 bilhões gastos nos governos petistas.

                                 LÁ VEM BOMBA

A eventual prisão de Marcelo Odebrecht preocupa Dilma, que antes o detestava e depois se ligou a ele. É o empreiteiro mais ligado a Lula.

                                            ALÔ

O senador Agripino Maia (DEM-RN), enrolado na Operação Sinal Fechado, ligou para colegas – da oposição e do governo, à exceção do PT – para dar sua versão sobre a confusão. Negou tudo, claro.

                                           AMIZADES

As facilidades que Val Marchiori teve no Banco do Brasil viraram piada no Congresso: “A perua era amiga íntima de Aldemir Bendine. “Assim como Rose Noronha era do ex-presidente Lula”, lembra um tucano.

                                  TÁ FEIA A COISA

Só se comentava a aparência de Dilma no lançamento do programa Bem Mais Simples. Nada a ver com a dieta Ravenna, que a fez perder uma dezena de quilos. Parecia ter saído de uma cirurgia.

                                 CONSTRANGIMENTO

O governo da Espanha deixou claro que não se sente confortável com a designação de Antônio Simões para embaixador em Madri: teme que ele represente o elo de ligação entre a semi-ditadura venezuelana com o partido político espanhol Podemos, de inspiração fascista bolivariana.

                            COMBATE À VIOLÊNCIA

O ministro George Hilton (Esporte) discutiu com o chefe da Autoridade de Controle de Dopagem, Marco Klein, formas de coibir a violência nos estádios de futebol. A ideia é unir estados, Ministério Público e Justiça.

                           ‘CONTRAMOBILIZAÇÃO’

No Twitter, internautas alertam para uma “contramobilização” planejada por partidos aliados do governo Dilma para esvaziar a manifestação contra a presidente, marcada para o dia 15. Deve ter confusão.

                            SOLIDARIEDADE

O presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Coêlho, explicou que sua posição é de solidariedade aos colegas, que, para ele, têm direito e de procurar qualquer autoridade, no exercício do seu trabalho.

                               SEM CONTROLE

A Controladoria-Geral da União não atualiza desde dezembro gastos do governo Dilma; despesas com cartões corporativos, Bolsa Família e diárias de servidores e comissionados não são atualizadas há 2 meses.

BIU SE RECUPERA

Após dois picos de pressão baixa, na quinta-feira (26), o senador Benedito de Lira (PP-AL) foi hospitalizado, mas logo se recuperou. Deve receber alta neste domingo.


PODER SEM PUDOR

NÃO É A MAMÃE

Carlos Lacerda fazia mais um discurso devastador, na Câmara dos Deputados, contra o "mar de lama" do governo Getúlio Vargas.

A deputada Ivete Vargas, sobrinha do presidente, pedia - em vão - um aparte. Cansada da insistência e muito irritada, Ivete perdeu a paciência:

- F.D.P! - gritou ao microfone.

Com sua estonteante rapidez de raciocínio, Lacerda respondeu na bucha:

- Vossa Excelência é muito nova para ser minha mãe!

" Dilma , a energia e o vento : ela não aprende nada nem esquece nada !!!



                    Análises políticas em um dos blogs mais acessados do Brasil





No dia em que se anuncia um reajuste médio na energia de 23,4% — 60% em um ano —, a presidente Dilma afirmou, durante a inauguração do Parque Eólico de Geribatu, que o aumento da tarifa é necessário, mas passageiro. E — ela nem aprende nada nem esquece nada — aproveitou para atacar o… governo FHC.

Afirmou:



“Quando a água falta no Brasil, e todo mundo tem que saber disso, aumenta o preço da energia sim, porque você passa a pagar por aquilo que não pagava, que é a água e o vento. Qualquer outra forma de energia tem que pagar. Ela funciona como uma espécie de reserva, que você só vai usar quando precisar. Nós estamos precisando. Então, eu quero explicar a vocês que os aumentos de preços da energia são passageiros.

Eles estão em função do fato de que o país enfrenta a maior falta de água dos últimos cem anos. Isso não significa que nós vamos ter qualquer problema sério ou mais sério na área de energia elétrica. Não iremos ter porque temos todo um sistema de segurança. Mas isso também não significa que vamos sair por aí jogando energia pela janela e não consumindo de forma racional”.

Ah, bom! Ao menos a governanta assumiu que pode haver alguns probleminhas, né? Fez alusão ao racionamento de 2001, afirmando que, naquele caso, faltavam redes de transmissão. É verdade. Hoje, falta é energia mesmo. Dilma prefere ignorar que, quando veio o apagão de 2001, o país vinha de um crescimento de 4,2% em 2000. Mesmo com o apagão, cresceu 1,4% em 2001 e 2,7% em 2002, ano em que o PSDB perdeu a eleição. Se a economia brasileira estivesse crescendo 1,4% hoje, a energia já teria ido para o pau.

Dilma afirmou ainda que o país enfrenta a pior seca em 100 anos. Na campanha eleitoral de há quatro meses, ela afirmou que o PSDB atribuir a crise hídrica em São Paulo à falta de chuva era conversa mole. Segundo a soberana, o que falta a seus adversários era planejamento.

“Na próxima terça-feira (…) vou ter o prazer de anunciar a mais forte redução de que se tem notícia, neste país, nas tarifas de energia elétrica dasindústrias e dos consumidores domésticos. A medida vai entrar em vigor no início de 2013. A partir daí todos os consumidores terão sua tarifa de energia elétrica reduzida, ou seja, sua conta de luz vai ficar mais barata. Os consumidores residenciais terão uma redução média de 16,2%. A redução para o setor produtivo vai chegar a 28%, porque neste setor os custos de distribuição são menores, já que opera na alta tensão.

Esta queda no custo da energia elétrica tornará o setor produtivo ainda mais competitivo. Os ganhos, sem dúvida, serão usados tanto para redução de preços para o consumidor brasileiro como para os produtos de exportação, o que vai abrir mais mercados, dentro e fora do país. A redução da tarifa de energia elétrica vai ajudar também, de forma especial, as indústrias que estejam em dificuldades, evitando as demissões de empregados.”

Encerro


Faz apenas dois anos e meio. Isso é que é um governo que sabe planejar! A propósito: a soberana anunciava ali o início de uma nova fase de desenvolvimento. Não deixa de ser. A nova fase é marcada por dois anos seguidos de recessão! Não pensem ser essa uma obra corriqueira.

" Comportamento os 40 DE OUTRAS ÉPOCAS " - OS NOVOS SESSENTÕES !


01 de março de 2015




A cada ano, cerca de 650 mil brasileiros chegam aos 60 anos. Para a Organização Mundial da Saúde, é aí que começa a terceira idade, quando, oficialmente, eles podem ser chamados de idosos. Na prática, a palavra gera desconforto.



Conhecidos como baby boomers (nascidos entre 1945 e 1960), os sessentões de hoje estão longe da ideia de aposentados que encaram a fase como o fim das atividades úteis. Alguns se preparam para encerrar o ciclo do trabalho formal, mas descansar não é um plano viável: para eles, chegar aos 60 significa abandonar a idade cronológica e aproveitar o momento para realizar sonhos que tinham ficado para trás. É chegada a hora de conquistar a vida que queriam ter. E o que define a vida dos sessentões são liberdade e autonomia: 65% das mulheres nessa faixa etária vivem sozinhas – eles são apenas 31% –, e 71% dos idosos brasileiros têm independência financeira.

– Há alguns anos, pensar na velhice era algo que acontecia só dentro das famílias, era algo privado. Hoje, há uma atenção cada vez maior para a qualidade do envelhecimento. Finalmente, o idoso é considerado um ator político, um importante consumidor com espaço maior na sociedade – afirma Guita Grin Debert, professora de antropologia na Universidade Estadual de Campinas.

Hoje, há 23 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil. Esse número é 50% maior do que na década passada. Proporcionalmente, as regiões Sul e Sudeste concentram a maior parte dessa população. De acordo com o último Censo, das 20 cidades com maior proporção de pessoas com mais de 60 anos, 18 são gaúchas.

– Os 60 são os novos 40. A OMS encara esse grupo como idosos e isso tem suas vantagens e desvantagens. É bom porque garante direitos a um público que não era muito assistido. Ao mesmo tempo, é ruim porque eles enfrentam preconceito. São vistos como velhos, mas estão mais preocupados com a saúde, mudaram o estilo de vida porque querem viver mais e ainda têm pique para continuar trabalhando – explica Newton Terra, diretor do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS.

Segundo o IBGE, 27% dos idosos brasileiros continuam trabalhando – e isso inclui os setentões e os longevos (pessoas com mais de 80 anos). A “cronologização” da vida mudou. Para Guita, a idade é um sistema que padroniza a hora de iniciar a escola e de se aposentar, por exemplo, mas que hoje exige flexibilização.

– Estou com 63 anos e me preparando para a aposentadoria. Não é o fim da vida útil, apenas quero ter mais tempo, depois de tantos anos de produção intensa, para aproveitar outras experiências. Antigamente, a idade tinha conotação de perda, de declínio. Hoje, são os ganhos que têm destaque na vida das pessoas mais velhas – comenta a antropóloga.

Nas próximas páginas, você vai conhecer as histórias de Maria Odete, Nanete, Sergio e Milton (nas fotos, da esq. para a dir.), representantes dos novos sessentões gaúchos.


GREYCE VARGAS | ESPECIAL

" Os Exterminadores "


01 de março de 2015 




A   economia foi a desculpa pública para a formação da União Europeia. Mas o que os europeus queriam mesmo era livrar-se das guerras e salvar suas almas. A UE era a tentativa de cura dos horrores do nazismo e do holocausto.

O sociólogo alemão Ulrich Beck lida com os tropeços desse esforço em A Europa Alemã (Paz & Terra, 126 páginas), publicado originalmente em 2012 e só agora editado no Brasil.

Beck é o teórico da sociedade de risco, que vê o mundo sob ameaças permanentes. Valores (inclusive os da família) são fragmentados ou perdem importância. Sob a hegemonia do individualismo, o mundo estaria sempre em espasmos ou à espera de crises econômica, social, ambiental, terrorista.

A Europa Alemã trata da crise do euro e do endividamento de Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha, que transformaram a Alemanha em guardiã moral da ideia de unidade. É a isso, à Alemanha como consciência econômica e ética da Europa, que Beck se dedica.

O país que saiu de duas guerras abatido militar e moralmente passa a se impor, pelo poderio econômico, como orientador das vidas dos vizinhos arruinados. A receita é a austeridade, rejeitada pelos gregos, que recentemente elegeram um governo de esquerda.

Austeridade é cortar gastos, inclusive sociais, em nome de um equilíbrio contábil que favoreça a União. A subtração de benefícios e o empobrecimento das populações, mostra Beck, tem, na mesma medida, o favorecimento do sistema financeiro. Austeridade significa fortalecer os bancos e impor mais miséria aos que já não têm quase nada.

A Alemanha é a fiadora da tática do arrocho. O país que meio século atrás emergia de escombros impõe-se como tutor da Europa que não soube se comportar. Os alemães são “os pregadores morais de uma Europa alemã”, cercados por “um bando de países preguiçosos”, que devem ser convencidos de que precisam se reeducar, cortar despesas e restabelecer responsabilidades.

A tutela que protege credores e massacra devedores, em nome do socorro financeiro aos endividados, faz com que a própria Alemanha se reapresente involuntariamente como “a imagem do inimigo”, da qual os alemães e a UE pretendiam se livrar.

Todos são acossados, não pela Alemanha bélica, mas pela nação mais poderosa do continente, avalista de qualquer gesto feito em nome da União.

O moralismo econômico produz a indignação dos que se sentem usurpados em seus direitos. Salvar a União Europeia deveria ser preservar os sonhos e os empregos dos jovens, diz Beck, que escreveu: “Está na hora de virar o jogo, não precisamos de mais bailouts (injeção de dinheiro) para os bancos, e sim de um mecanismo de salvação social para a Europa das pessoas, dos indivíduos”.

O sistema financeiro que suga os europeus tem seus equivalentes em todo o mundo. No Brasil da estagnação, seus lucros aumentam até 25% ao ano.

Beck morreu em janeiro. Testemunhamos por ele a resposta que os gregos começaram a dar, pela democracia, ao sistema que finge socorrê-los e os deixa ainda mais miseráveis.


A Europa livrou-se do nazismo, mas ainda não sabe se um dia poderá livrar-se do que o sociólogo definiu como as catedrais sagradas e intocáveis do sistema financeiro global. As aberrações da sociedade de risco do século 21 também sabem produzir extermínios.

" Superpoder "


01 de março de 2015 



Todo mundo é super-herói. Todo mundo tem um poder especial. Uma característica que transforma a existência.

Pode ser uma virtude disfarçada de defeito. Pode ser algo de que você não gosta em si.

Quando conheço alguém, sei que estou desvendando um superpoder por detrás da aparência e da normalidade, uma vida multiplicada por um talento.

No jardim de infância, tinha a Bárbara, que odiava sua boca carnuda. Recebeu o apelido de flor carnívora. Mas foram justamente os lábios desenhados com volúpia que fizeram com que virasse modelo de sucesso. Recordo também de Daniel, na adolescência, com dificuldade de se expressar em público. Abominava sua timidez, gaguejava quando pressionado. Pois sua retração fascinava as mulheres, que o rodeavam e falavam por ele. Não existiu um garanhão igual na faculdade.

Conservamos um trejeito em particular que revela nossa personalidade. Já vi muita gente simples com o superpoder da esperança, capaz de enfrentar diagnósticos terríveis e a morte próxima. Ou com o superpoder da paciência, desarmando brigas com uma voz mansa e calma, sem jamais levar o desaforo para o lado pessoal. Ou com o superpoder da fé, cumprindo quilômetros de joelhos em nome de uma promessa.

Há feirantes com o superpoder do grito, atraindo compradores à distância. Há ambulantes com o superpoder do tempo, farejam pela cor da nuvem ou pela arruaça dos pássaros se choverá dentro de quinze minutos e se devem levantar a barraca. Há quem tenha o superpoder de localização, de tanto andar de ônibus, e palmilham a cidade de olhos vendados.




Minha empregada Cleonice, por exemplo, tem o superpoder da risada. A casa está tensa, acabrunhada, e ela aparece cortando a atmosfera com seu bom-dia risonho. Abre as janelas e as portas ao arejar os humores. O filho Vicente mantém o superpoder dos cílios enormes. Observa de um modo tão misterioso, com aquele olhar de árvore, que logo precipita a eloquência dos familiares – sempre está em vantagem na captura de segredos. Já Mariana guarda o dom da irreverência: dramática, passional, intensa, ela sente o mundo duas vezes mais do que a média. Dela, receberá as mais bonitas, sinceras e corajosas declarações.

O ideal é que seja amado pelo seu superpoder. Descobrir alguém que identifique sua fraqueza, e a reconheça como estimulante, apesar de ser um empecilho no entendimento da maioria.


Se bem que o amor torna qualquer um poderoso

Fábulas Monterrosianas "

ANTONIO PRATA



O burro, a mula, o jegue e o jumento se reuniram numa assembleia para redigir um manifesto contra o cavalo. Era intolerável que eles trabalhassem tanto ou mais do que o nobre colega equino, mas só no nobre colega equino ficasse hypado. “Alguém aí já viu burro em propaganda de cigarro?”, “E mau aluno com chapéu de cavalo?”, “E por que nunca criam uma mula unicórnio?”. Redigiram um manifesto a oito cascos exigindo a imediata distribuição do sucesso cavalar para a totalidade da classe equestre e uma maior equanimidade (atenção: trocadilho) na divisão internacional do trabalho.

No dia seguinte, o burro, a mula, o jegue e o jumento foram ao pasto, entregar o manifesto. O cavalo os olhou, mal-humorado, mascando um capim, com sua pinta de Charles Bronson. “Que foi?”. “Nada, nada”, responderam, trêmulos, e desistiram de entregar o documento.

Voltando do encontro, o burro, a mula, o jegue e o jumento avistaram a zebra, bebendo água num lago. Correram até lá, a cercaram e lhe deram uma surra de coices e pinotes. “Zebra vagabunda!”. “Quem você pensa que é?!”, “Não trabalha! Não faz nada! Passa o dia de pijama!”, “Vergonha da classe equina!”.

Era uma vez um gato rajado, velho e gordo que fingia ser filhote de tigre. Ele chegava a uma cidade, entrava no primeiro bar e batia no balcão: “Barman, bourbon! Eu sou filhote de tigre! Se você não me der bourbon, eu volto aqui quando crescer e te como no café da manhã!”. Todo mundo caía na gargalhada. O poodle na mesa de sinuca tirava o cigarro da boca e provocava, “Eu sou filhote de urso!”, a mariposa do lustre gritava, “Eu sou um B-52!”, o macaco, jogando dardos, emendava, “Eu sou um bonsai de King Kong!”, e o gato rajado, velho e gordo seguia para a próxima cidade.

O vírus tinha inveja da bactéria, que tinha inveja do ácaro, que tinha inveja da pulga, que tinha inveja do besouro, que tinha inveja do rato, que tinha inveja do gato, que tinha inveja do puma, que tinha inveja do tigre, que tinha inveja do leão, que tinha inveja do leão mais jovem, que tinha inveja dos leões mais jovens de antigamente, que, dizem os leões mais velhos, eram muito mais fortes, mais livres e não tinham inveja de ninguém.

“Segundo a assessoria de imprensa do time dos macacos, o lateral direito Prego, 29, não descarta processar a torcida das hienas que, durante uma cobrança de escanteio, atirou relógios, óculos e escovas de dentes em sua direção”.

A cascavel entra a milhão no Pronto Socorro: “Mordi a língua! Mordi a língua!”.

Três lesmas muito machas se reunem pra brincar de roleta russa. No meio da roda, uma caixinha de Tic-Tac com seis balas dentro. Cinco, na verdade: a sexta, idêntica às outras, é uma pedra de sal.

Décadas atrás, era impensável um ouriço transgênero. Hoje, veja só, para todo lado que se olhe percebe-se – azuis, violetas, rosadas – a grande quantidade de anêmonas


ps. Estes textos são descaradamente inspirados no livro A Ovelha Negra e Outras Fábulas, de Augusto Monterroso, Cosac Naify, tradução de Millôr Fernandes.

" Os charmosos do contra "


01 de março de 2015



Todos vão para Machu Picchu? Eu embarco para Porto Príncipe. Todos estão lendo o novo livro do Chico Buarque? Nem abro. Show do Paul McCartney de novo? Ele pode vir 46 vezes ao Brasil que não vou. Prefiro o Guri de Uruguaiana.

O que? O Guri de Uruguaiana está lotando teatros? Desisti, não vou mais.

E assim ele vai sedimentando seu caráter. Ele, o homem que se recusa a fazer o que todos fazem. Ou ela, a que se recusa a seguir o rebanho. Pode ser tanto ele como ela. Os que formatam sua personalidade protestando contra o senso comum.

Fico dividida diante dessas criaturas. Por um lado, reconheço sua autenticidade como virtude e os admiro pela perseverança em sempre buscar aquilo que quase ninguém viu, quase ninguém leu, quase ninguém escutou falar a respeito. Eles sustentam os mercados independentes e de quebra atraem para si o charme dos aventureiros e desbravadores. São homens e mulheres únicos. Não foram produzidos em série.

Como não se apaixonar por uma criatura dessas? Criei aqui uma figura hipotética e já estou quase o convidando para jantar.

Por outro lado, acho que deve ser meio cansativo buscar sempre aquilo que é estranho, diferente, inédito, escondido, inabitado, marginal, esquisito. Ainda mais nesses tempos de conexão tecnológica, em que praticamente não existem mais segredos. O novo permanece novo por muito pouco tempo. O Mr. Autêntico tem que ser rápido.

Tem outra questão: o autêntico não quer conhecer o Rio de Janeiro, seria uma viagem óbvia. Não foi assistir a Birdman porque ganhou o Oscar. Nunca leu um livro que tenha ganhado segunda edição. Odeia ceviche sem nunca ter experimentado. Perdeu grandes festas. Valerá mesmo a pena ser um anti-herói?

Outro dia conversava com um exemplar dessa espécie e, mesmo extasiada com sua biografia de outsider, arrisquei uma perguntinha miúda: não dá para transitar entre lá e cá? Se você quer ir até a Groenlândia, pega mal fazer um pit stop em Ibiza? Não dá para infiltrar alguma literatura norte-americana em meio a sua coleção de poesia indígena? Posso pedir um filé com fritas em vez de sopa de capivara? Se eu for conhecer uma pousada no meio do mato que não está no Booking.com, encontrarei um vaso sanitário no banheiro ou isso é um luxo pequeno burguês?

Transitar entre lá e cá. Ser um pouco da urbe e um pouco da selva, um pouco curioso e um pouco rendido, ter histórias alucinantes para contar e outras bem triviais, é possível?

Então o milagre se deu. Ele disse que estaria disposto a conhecer o Rio de Janeiro (desde que pudesse dar uma passada antes em algum lugarejo com menos de 50 habitantes, sem luz elétrica). O convidei para jantar na mesma hora. Não pedi filé com fritas para não provocar. E ele não pediu sopa de capivara porque não tinha.

Ser um pouco da urbe e um pouco da selva, um pouco curioso e um pouco rendido, é possível