domingo, 2 de fevereiro de 2014

" Milagres existem " , diz rabino autor de best - seller "


"Milagres existem", diz rabino autor de best-seller  Angelo Duarte/Divulgação
"Vejo um ser humano com os mesmos dramas",
afirma, sobre judeus homossexuais
Porto-alegrense radicado no Rio desde os seis anos, Nilton Bonder, 57, não é o típico rabino que se imaginaria. Primeiramente, ele não tem barba longa - aliás, não tem qualquer barba. Costuma aparecer em veículos de imprensa e em programas de TV falando sobre os mais diferentes tópicos, de religião a moral. Como se não bastasse, é um best-seller. Estima que já vendeu 1,5 milhão de exemplares de seus 21 livros (a editora Rocco, que o publica, não divulga números). Entre eles, está A Alma Imoral (1998), que inspirou uma bem-sucedida peça de teatro homônima com a atriz Clarice Niskier, estreada em 2006 e apresentada no Rio Grande do Sul diversas vezes, a última em 2013. Bonder também escreveu obras sobre a Cabala, o misticismo judaico, área que tem simpatizantes famosos como Madonna. A Cabala do Dinheiro (1999) está entre seus livros mais vendidos. Além disso, tem diversos títulos traduzidos no Exterior.

Engenheiro mecânico que trocou as ciências exatas pelos estudos religiosos, Bonder é um líder espiritual do século 21: sabe que sua missão vai além do próprio rebanho. Seus interlocutores são pessoas das mais diferentes crenças. Não é por acaso que tem um forte trabalho inter-religioso.
 

 
Tudo isso pode fazer parecer que ele é um rabino liberal. Não é bem assim. Considera-se conservador, um meio-termo entre reformista e ortodoxo. Acredita que não se deve abrir mão de princípios coletivos em prol de opiniões individuais. Para ele, há algo de sagrado na tradição que deve ser preservado.

Casado há 24 anos com Esther, arquiteta com quem tem três filhos, Bonder é rabino da Congregação Judaica do Brasil e atua no centro cultural Midrash, no Rio, onde recebeu ZH para uma hora de conversa.

Zero Hora - O que a religião tem para oferecer às pessoas hoje?
Nilton Bonder - Nosso mundo quer um produto de consumo imediato. Mas o mundo da fé é uma construção. Se você me disser que está sem condição física e quer ficar bem com seu corpo, vou te mandar fazer uma série de coisas que são uma construção. Você vai ter que construir uma relação com seu corpo para poder ter uma melhor condição física. Da mesma forma, as religiões não têm qualquer resposta (pronta). Quando uma religião começa a querer responder por que aconteceu uma tragédia, ela provavelmente irá para um lugar obscuro, porque ninguém sabe por que as coisas acontecem. Um religioso não é uma pessoa que detém uma informação que um psicanalista ou qualquer outra pessoa da sociedade não detenha. O que faz o mundo espiritual? Ajuda as pessoas a construir uma relação com a vida em que elas possam ter esse condicionamento de ser consoladas.

Zero Hora - O que é o consolo?
Bonder - Existem duas palavras envolvidas aqui, o conforto e o consolo. Quando uma pessoa fica enlutada, você nunca vai conseguir consolá-la. Porque o luto é o inconsolo. Querer tirar a pessoa desse inconsolo é tirá-la desse lugar que é próprio a ela, em que ela está em um momento traumático, se defendendo da vida. Estar inconsolável é o lugar natural para uma pessoa que está passando por um sofrimento muito grande. Qualquer um que tente forçosamente consolar essa pessoa vai estar, provavelmente, sendo grosseira. O que você pode oferecer, nesse momento, é um conforto. Pode ser um abraço, uma presença ou palavras que confortam. Elas não consolam. Você vai ter que passar o luto para poder ser consolado. É um processo.

Zero Hora - O senhor fez uma relação entre a religião e o exercício físico. Em ambos, não haveria milagre?
Bonder - Milagres existem. Até no mundo das coisas físicas. Posso chutar uma bola e acertar em um ângulo exato, o que é um milagre. A vida oferece surpresas. Mas ninguém pode viver de milagre, ficar esperando milagre. Se eu quiser que Deus me ajude sem eu trabalhar, esse milagre não vai acontecer. Posso ser uma pessoa que identifica algo como um presente da vida? Sim. Mas não existe milagre para você ficar com um bom condicionamento físico, existe trabalho. No mundo espiritual, também. Você não vai encontrar as respostas para a vida em um livro, em um segredo de um rabino escondido em algum lugar.

Zero Hora - O filme Um Homem Sério (2009), dos irmãos Coen, ilustra bem essa ideia de uma pessoa que busca um ensinamento secreto com um rabino de difícil acesso.
Bonder - Isso é baseado em várias histórias da tradição judaica. Se o sábio tem a resposta, ele fica em um lugar patético. Porque é patético ter a resposta. Você acha que o rabino tem a resposta pronta, customizada, preparada para você em um pacotinho, como um produto? Não. Mas isso é o que as pessoas buscam. E não só na tradição judaica. Na tradição budista, há milhões de historinhas do carinha que vai até o alto do Himalaia e chega no eremita dormindo em cima de uma cama de prego. É um pouco o que acontece naquele filme. Mas a expectativa da resposta é equivocada. Isso é muito difícil para as pessoas.

Zero Hora - As pessoas também têm expectativas equivocadas sobre Deus?
Bonder - A questão de Deus e da espiritualidade é muito parecida com o processo de desenvolvimento de uma criança. Tem o desenvolvimento intelectual, o desenvolvimento moral e o espiritual. O primeiro estágio do desenvolvimento espiritual é o Papai Noel: "Quero muito uma bicicleta". E o que o Papai Noel faz? Ele fica lá pegando todos os bilhetinhos de todas as criancinhas sobre o que elas mais querem. E ele dá. Muita gente para nesse primeiro estágio de relação com Deus. O segundo estágio é descobrir que você vai querer muita coisa que não vai vir. E isso é um choque. Ou descobrir que o Papai Noel é seu avô, seu pai. A vida vai obrigando as pessoas a irem para outro estágio de relação com esse criador, que não é mais o cara que te dá presente toda hora. Está cheio de presente que você deixou na lista e que não veio. Teve presente que foi tirado de você. Há pessoas que têm perdas grandes na vida, fora de hora, crianças pequenas que perdem a mãe. A vida começa a se mostrar em sua complexidade. Não é mais um criador que garante que tudo o que vai acontecer no mundo é justo aos seus olhos.

Zero Hora - A propósito disso, há um best-seller do rabino Harold Kushner, Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas. As pessoas também lhe perguntam por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?
Bonder - Sim. É uma pergunta muito legítima, porque é o que as pessoas veem. Esse livro tenta responder de uma maneira que incomoda muita gente. Diz que Deus não é responsável por tudo que acontece. Se você é atropelado, não foi porque Deus quis. E, para muita gente, isso é uma coisa que, do ponto de vista lógico, significa que Ele não é onipotente. Ou que não está interessado nessa pessoa ou, ainda, não tem condições de lidar com tanta coisa. E o livro vem confortar as pessoas, porque coloca as coisas de uma maneira humana e responsável. Mas não consegue responder à pergunta.

Zero Hora - Haveria resposta a essa pergunta?
Bonder - A resposta, que seria o consolo, só pode vir em um esforço. Como o bom sofre e o mau se dá bem? Há um paradoxo. A pessoa pode resolver que não é assim, que, no final da história, o bom vai se dar bem, e o mau vai se dar mal. Porque aí eu fico feliz, fico consolado. Muitas vezes, a religião vai por esse lugar - que, no mundo vindouro, o cara vai para o inferno, por exemplo. Mas não acho que essa seja uma resposta espiritual de qualidade. Eu estaria tentando consolar a pessoa, quando a única coisa que eu poderia fazer é confortá-la. Posso dizer: "Você pode não estar enxergando as coisas". Ninguém sabe como é a experiência do outro. Você acha que o outro se deu bem, mas de onde você está tirando essa conclusão? É porque ele ganhou dinheiro? Mas está cheio de gente com dinheiro que vive no inferno. Onde você leu que ele se deu bem? Será que o cara que eu chamo de mau é tão mau? Talvez, em um plano totalmente diferente da minha visão, ele seja bom, talvez melhor do que o outro cara que eu achava bom.

Zero Hora - Trata-se de um paradoxo.
Bonder - Você tem que ficar muito curioso quando acha um bom paradoxo. É nessa hora que você tem que ter fé: "Peraí, tem outro olhar para isso". Sempre ter a desconfiança de que existe outro olhar é sábio. E sempre acreditar que tem outro olhar é da ordem da fé.

Zero Hora - Nos últimos anos, o chamado novo ateísmo ganhou força com autores como Christopher Hitchens, Richard Dawkins e Sam Harris. O ateísmo representa uma ameaça à religião?
Bonder - Quando se começa a pensar na vida e a traduzir isso em uma filosofia, acho que é um movimento religioso. Mesmo que esse movimento diga que não tem Deus. O budismo funciona sem Deus e é uma dimensão religiosa. O que é religião? É a filosofia profunda do ser humano. No passado, inclusive, era a ciência. Com o passar do tempo, a ciência ganha seus recursos da lógica que fazem com que a pessoa pense sobre o universo dentro dos limites daquilo que é racional. Mas se você vai na fronteira da ciência, do físico, vai ver elementos religiosos. A fala de todos esses megacientistas tem um certo teor religioso. Religioso não no sentido dogmático, mas no sentido de tentar religar. Einstein tinha esse desejo da unicidade e de uma metafilosofia. A religião que se sente ameaçada pela ciência é porque tenta ser um consolo ao invés de ser uma construção processual para ajudar as pessoas a encontrar os seus consolos.

Zero Hora - Muitos reclamam da correria da vida, do excesso de trabalho, do trânsito caótico. Em meio a isso, as pessoas estão sem tempo para amar?
Bonder - As pessoas estão tentando se adaptar a um mundo mais competitivo. O mundo se individualizou, e isso apresenta certos desafios. O que é amar em um mundo individualizado? A gente casa e separa, casa e separa. Quer dizer que as pessoas estão amando pior? Não tenho certeza. Você podia ter um casamento de vida inteira em que a qualidade não era necessariamente boa. Externamente, viveram felizes para sempre, mas você não dormia na mesma cama para saber o que acontecia. O individualismo produz um vínculo com o outro que, às vezes, não é tão fácil. O ser humano é o mesmo, tem os mesmos recursos para amar que no passado. Mas os desafios são outros.

Zero Hora - E quais seriam esses desafios?
Bonder - Há desafios na comunicação de um casal. A nossa atenção está dividida. Aprendemos a fazer duas, três coisas ao mesmo tempo. Há uma evolução da espécie. Lá atrás, nossa espécie sequer pensava. E aprendemos a pensar. Provavelmente, quando começamos a pensar, pensávamos calmamente em uma coisa só. Hoje, pensar em apenas uma coisa é, às vezes, um pouco tedioso. Por um lado, pode ser uma maneira de você querer ocupar a vida para não pensar em nada mais profundo. Em outra medida, o ser humano pensa em duas ou três coisas ao mesmo tempo como um ato evolutivo. Podemos criticar esse entupimento de coisas que fazemos. Ao mesmo tempo, você tem que reconhecer que as pessoas têm certo prazer em fazer isso. É o exercício de uma capacidade que elas têm. Amar hoje é amar de maneira diferente do que no passado. Mas existem os mesmos recursos afetivos no ser humano, e deve ter gente nesse mundo de hoje que ama tão bem quanto pessoas que amavam em outros tempos.

Zero Hora - Como se deve lidar com a relação entre a religião e as conquistas sociais das mulheres?
Bonder - As religiões têm que se modificar. Mas, quando falam da questão da mulher, acentuam a diferença. Talvez hoje, no século 21, eu não tenha como proibir mulheres de estarem lá na frente, conduzindo um serviço religioso como um homem. Mas a religião não quer que as pessoas percam uma certa sabedoria sobre a diferença entre homem e mulher. São dois instrumentos distintos, que compreendem a realidade de maneira um pouco diferente, mas essa diferença é uma riqueza. Então, se você olhar por outro lado, a distinção entre homem e mulher é um reconhecimento da diversidade. Depois que as mulheres ganham os direitos, muito merecidos, e espaço no mercado de trabalho, elas também pensam: "Não quero ser como um homem, tenho certas especificidades".

Zero Hora - Essas especificidades se confrontam com os direitos conquistados?
Bonder - Sim. A relação com a maternidade é diferente da paternidade. Hoje, tem um monte de pai que cuida de criança e mãe que trabalha o dia inteiro. Sim, é verdade, são direitos conquistados. Mas, se você olhar com muito cuidado, existe um lugar que é das diferenças, e há um lugar privilegiado e diferenciado para a mulher e para o homem. As tradições ficam, muitas vezes, em um lugar retrógrado. Mas elas têm um pouco a obrigação de ficar como um contraponto daquilo que é consenso. Normalmente, a sabedoria é aquilo que não fica no consenso. Sou super a favor da liberdade, do direito do indivíduo, mas todos os indivíduos vivem de deveres, e não de direitos. As religiões, muitas vezes, ficam no lugar da culpa, com o freio de mão puxado, não deixam as coisas acontecerem, questionam experiências que podem ajudar a trazer cura para as pessoas. Existem questionamentos que, à luz da discussão dos valores do século 21, são retrógrados, mas talvez eles contenham bons elementos para pensar melhor.

Zero Hora - Muitas pessoas o veem como um rabino liberal, mas o senhor já se declarou conservador.
Bonder - Sou liberal no que diz respeito à vida. Sou conservador no sentido de que existem instâncias que as pessoas, às vezes, não enxergam. Posso ter minha opinião em relação aos gays, então sou liberal. Só que a minha tradição é um coletivo, não representa apenas o que o Nilton Bonder pensa. Na minha tradição, mantenho vivo o debate. Se me botar com um rabino ortodoxo, ele vai dizer: "Gay não pode, é proibido ser homossexual".

Zero Hora - E o que Nilton Bonder diria?
Bonder - Ele diria: "Acho que não. Tem outra leitura". Isso é dentro do coletivo. Só que o coletivo tem suas normas. Debato dentro do coletivo com a mesma opinião liberal que tenho em relação à vida. Mas eu acato o coletivo para não me separar dele. Posso ser voto vencido. Nesse sentido, quando o coletivo se apresenta, ele é conservador. Ele deve ser conservador. Conservador significa, nesse momento, que você tem deveres com esse coletivo. Me vejo com todas as minhas opiniões, que acho que me qualifica como rabino liberal. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa que reconhece que a identidade e o patrimônio de uma cultura, uma tradição, são o coletivo. Então, eu me submeto de forma conservadora a essa dimensão coletiva.

Zero Hora - Há judeus gays que frequentam sua sinagoga?
Bonder - Na minha prática, acolho-os igualmente. Aconselho sobre a vida matrimonial ou amorosa como faço com qualquer outra pessoa. Vejo um ser humano com os mesmos dramas. O acolhimento, na dimensão individual, é idêntico.

Zero Hora - Quando é que o coletivo se impõe?
Bonder - Se um casal gay quer se casar. Então, a opinião do Nilton Bonder agora tem que se voltar para o coletivo, porque isso (o casamento) é uma norma, uma prática do espaço coletivo. Não é que eu não queira fazer esse casamento ou não deva brigar por ele. Mas tenho que entrar no espaço coletivo e ver os espaços que tenho para realizar isso.

Zero Hora - Ou seja, há uma negociação difícil.
Bonder - Temos três movimentos (no judaísmo religioso): ortodoxo, conservador e reformista. O reformista tem muito esse olhar individualizado. É liberal do ponto de vista pessoal, e o coletivo tem menos peso. O conservador é um liberal que fica preocupado com o coletivo. Por exemplo: como os judeus vão continuar sendo judeus se eu tomar certas decisões individuais que os mais ortodoxos não acompanham? Qual é o jogo que tenho que fazer? Do que tenho que abrir mão para que certas características do coletivo não sejam perdidas? E o ortodoxo é um sujeito do coletivo, acompanha a lei. Sou conservador nisso. Às vezes, sou mais liberal do que os reformistas no sentido do indivíduo, mas, nas questões que envolvem o coletivo, tenho que abrir mão de certas coisas. Mas não de maneira passiva. Continuo brigando com as opiniões e tentando trazer uma compreensão. São dois instrumentos diferentes. Um é a minha relação de indivíduo com as coisas, e outro é minha relação enquanto parte de um coletivo.

Zero Hora - Fala-se muito na infidelidade religiosa do brasileiro. Judeus que vão a centros espíritas, católicos que frequentam casas de religiões afro-brasileiras, por exemplo. O que o senhor acha disso?
Bonder - Há duas características muito interessantes no brasileiro. Ele é sincrético, não deixa de ser (da religião a que pertence) porque vai ao centro espírita ou frequenta uma religião afro-brasileira. O segundo fenômeno é que as pessoas fazem um certo shopping pelas tradições. É muito comum as pessoas contarem: "Eu era católico, depois fui evangélico e agora sou isso". Não é parte da nossa cultura valorizar as raízes. Se você perguntar a uma pessoa na rua, ela sabe dizer de onde o pai veio, mas vai ter dificuldade de dizer de onde veio o avô. Claro que, nos grupos de elite, isso acontece menos. Quando as pessoas estão indo de religião em religião para ver quem tem a melhor resposta, estão indo em busca do consolo. É preciso persistir e suportar os paradoxos, ter um pouquinho mais de profundidade. As dimensões coletivas são fundamentais para um mundo que seja melhor de verdade. Não basta a gente se globalizar. Eu preciso te respeitar, entender a diferença, crescer nessa direção para que o mundo seja melhor.
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REPORTAGEM POR Fábio Prikladnicki
Foto: Angelo Duarte / Divulgação
Fonte: ZH online, 02/02/2014

" Porto Alegre à pé "


FABRÍCIO CARPINEJAR*
"Já os sonhos precisam de solidão.
É um trajeto isolado,
por mais que tenhamos
bons amigos."

Eu voltava das festas a pé com os amigos.

Não tinha nem dinheiro para bebida, muito menos para o táxi.

Não interessava a distância. A ausência de opção resolvia a vida.

Enfrentávamos o perigo com o destemor da cumplicidade.

Ia caminhando com os amigos. Recapitulando as frustrações ou os namoros das reuniões dançantes.

Porto Alegre não é e nunca será uma cidade grande para o adolescente.

A distância se abreviava na conversa à toa, nas descobertas, na expectativa da opinião de meus confidentes.

Já caminhei de Ipanema a Petrópolis, de Cavalhada a Petrópolis. Se eu fosse um carro na juventude, ultrapassava os quinhentos mil quilômetros rodados.

Meus tênis cediam primeiro pelas solas, furavam nas pontas, marcas da herança dos paralelepípedos.

Era impressionante que não me cansava e não reclamava da lonjura. A amizade oferecia, além do fôlego extra, uma distração dos problemas.

Tomava carona nas vozes de meus amigos.

Avançava por ruelas escuras, por bairros apagados. A algazarra superava o medo do assalto. Quem estava perdido por ali é que ficava com medo da gente.

Não há sensação mais agradável do que percorrer a própria cidade ao clarão da lua, acompanhado da turma de sua confiança.

Ouvia os nossos passos nas calçadas, e os pássaros madrugando com seus piares.

A claridade chegava aos poucos, a fome pedia passagem, a felicidade era esperançosa e aguardava o futuro com cheiro de almoço pronto.

Falávamos sem parar, até entrar em nosso bairro.

Naquele momento, estranhamente nos calávamos.

Quatro quarteirões antes do portão de casa, fechávamos a matraca.

Bastava dobrar na rua Carazinho, que não trocávamos mais nenhuma mensagem.

A avenida representava o marco de nosso laconismo.

Sumiam as palavras. Como um código. Como um princípio ético.

Não é que faltava assunto, ou que acabara o filão dos segredos e dos espantos amorosos para serem repartidos.

O silêncio nos preparava para a despedida.

O silêncio, desde aquela época, diminui a angústia da separação.

O silêncio é quando a cumplicidade vira pensamento. É um respeito pela importância do que foi escutado.

É quando começamos a dormir devagar e atravessar a pé os nossos sonhos.

Já os sonhos precisam de solidão. É um trajeto isolado, por mais que tenhamos bons amigos.
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* Poeta. Escritor. Colunista da ZH
Fonte: ZH online, 01/02/2014

sábado, 1 de fevereiro de 2014

" Conheça o homem mais feliz do mundo "


Folha Social


Por muitos apelidado de “o homem mais feliz do mundo”, Matthieu Ricard (foto) brindou a comunidade com a sua palestra sobre os Hábitos da Felicidade numa TEDtalk de grande importância para todos os que acreditam que é importante ser feliz.

Era para ser cientista mas acabou monge budista. Filho do filósofo Jean-François Revel e da pintora Yahne Le Toumelin, o francês Matthieu Ricard, 65 anos, cresceu no meio intelectual de Paris e doutorou-se em genética molecular. Aos 38 anos abandonou a carreira para ir viver nos Himalaias e tornar-se monge budista, mas o interesse pela ciência permaneceu.

Desde 2000 que ele é membro do Mind and Life Institute, que promove o diálogo e a investigação entre cientistas e budistas, e participa em estudos sobre a consciência e o treino da mente com investigadores de vanguarda. Numa das mais recentes, os cientistas ligaram 256 sensores ao seu cérebro enquanto meditava e as imagens mostraram o mais alto nível de atividade alguma vez registado no córtex pré-frontal esquerdo, associado às emoções positivas. A escala variava entre +0.3 a -0.3 (beatífico) e os resultados de Matthieu Ricard situaram-se fora da escala por mais de -0.45. Foi a primeira vez no mundo que isto aconteceu.

É conhecido por ser o homem mais feliz do mundo. Porquê?
Receio que isso não seja culpa minha. Um jornalista lembrou-se de usar essa expressão, mas não corresponde à verdade. Surgiu no contexto das investigações científicas sobre os efeitos da meditação feitas pelo Instituto Mind and Life Institute, nos EUA. Fui um dos participantes, mas houve outros e, de resto, os resultados são relevantes precisamente porque não se resumem a uma pessoa.

Em que consistiram essas experiências?
Basicamente no estudo do cérebro de monges experientes em meditação. Pegamos num conjunto de pessoas que nunca tinham meditado e ensinamos-lhes técnicas de meditação budista, que praticaram por um mês. Depois usamos eletroencefalogramas e ressonâncias magnéticas para comparar a atividade do cérebro dos monges e dos meditadores recentes durante a meditação. Nos recentes havia poucas diferenças, mas nos monges a meditação sobre a compaixão ativou de forma poderosa o lobo frontal esquerdo, que é a zona do cérebro associada às emoções positivas.

Quais são as implicações dessas experiências?
Mostram que é possível modificar padrões cerebrais – aquilo a que se chama neuroplasticidade – neste caso com o objetivo de sermos mais felizes. Já sabíamos que o treino modificava o cérebro em músicos ou nos taxistas londrinos obrigados a memorizar milhares de ruas. Agora sabemos que pode desenvolver zonas associadas à felicidade e ao bem-estar.

Podemos treinar a felicidade, é isso?
Sim. A felicidade é uma habilidade e pode ser cultivada. Eu não caí em nenhuma poção mágica quando era pequeno. O que conquistei foi graças a um caminho – o Budismo – que me permitiu aprender estas técnicas. Fui um adolescente perfeitamente normal, com todas as incertezas e angústias da idade. Não tive grandes dramas, mas estava confuso e, nesse sentido, não me considerava feliz. Na altura, a minha motivação era tornar-me um ser humano melhor.

Não encontrou respostas nas tradições ocidentais?
Não digo que não existam mas não as encontrei de forma satisfatória. Uma das razões foi porque as pessoas que via a ensinar não me transmitiam a coerência que vim a encontrar no Oriente. Não é que fossem más pessoas, mas não eram especialmente boas, por isso tornar-me iguais a elas não fazia sentido. Quando conheci o Dalai lama foi diferente. Pensei ‘Como é que ele se tornou assim?’. Aquilo interessou-me, porque ele era um exemplo vivo de que os ensinamentos budistas funcionavam.

O que é que temos de aprender exatamente?
A felicidade é uma forma de ser. Se não somos particularmente felizes temos de aprender a cultivar essa forma de ser. Tudo começa por eliminar as toxinas mentais, como o ódio, a obsessão, o ciúme, a arrogância, o orgulho o desejo, enfim, tudo o que nos torna seres disfuncionais, e cultivar as qualidades positivas que integram a felicidade, como o altruísmo, o amor, a compaixão ou a criatividade. Isto faz-se trabalhando a mente. Aos poucos alguns desses venenos mais grosseiros começam a esbater-se e o resultado é uma espécie de liberdade grande ou felicidade.

Esses sentimentos não são o que nos torna humanos?
A questão não é negá-los. Quando falamos de emoções positivas ou negativas não é no sentido de virtudes ou defeitos, não há aqui julgamento moral. É no sentido de que cada uma destas qualidades contribui para um sentimento de florescimento e bem-estar. Uma emoção é má se nos provoca sofrimento.

Hoje em dia nunca sente emoções negativas?
Seria arrogante dizer isso, mas posso dizer que não sinto as mais negativas como ódio. Irritação sim. Mas sinto-as com muito menos intensidade e assim que surgem estou completamente consciente delas e possuo uma serie de métodos para lidar com isso. Não as nego. Por exemplo, quando vim para aqui atrasei-me devido ao trânsito e fiquei com receio de perder o comboio, o que iria deixar várias pessoas à minha espera…

O que podemos fazer em situações dessas?
Primeiro, perceber que a ansiedade é inútil. No meu caso, não me ia deixar menos atrasado. Depois, perceber que se deixar a ansiedade encher a minha mente vou ficar num estado miserável. Uma das principais qualidades da mente é a capacidade de permanecer consciente de si mesma. Isso permite-nos tomar consciência das nossas emoções. O que é isso de estar consciente da ansiedade? É algo diferente de estar ansioso, certo? Uma mente consciente da ansiedade já não é uma mente completamente ansiosa, está ansiosa e ao mesmo tempo consciente da ansiedade, logo, já não está completamente cheia de ansiedade, há uma parte dela livre disso. Se continuarmos a a tornar a mente mais consciente, a ansiedade vai perdendo força porque deixamos de alimentá-la. Não a bloqueámos, deixámos só que se desvanecesse. Quando ficamos familiarizados com este processo, as emoções continuam a aparecer mas com menos força e gradualmente levaremos cada vez menos tempo a dissolve-las.

Cultiva-se uma espécie de desapego em relação às emoções más?
Às más e às boas. Mas é preciso ter atenção: as pessoas confundem o desapego com a indiferença e acham que se trata de não ter sentimentos, não é isso. Suponha que tem uma experiência fantástica. Isso é ótimo, não há nada de errado com o prazer, mas se começamos a agarrar-nos a ele e a transformá-lo numa necessidade, converte-se num tormento. O que acontece quando temos condições interiores para o bem-estar, é que ganhos e perdas, prazer e dor, sucessos e falhanços perdem relevância. Então, é fantástico se as coisas correm bem, mas não é um drama se correrem mal. O nosso controlo das circunstâncias exteriores é mínimo e no fim estamos sempre à mercê das nossas mentes.

Vive num mosteiro no Nepal. Trabalhar das 9 às 5 num escritório é mais ou menos desafiante?
Claro que podem dizer que é mais fácil sendo monge, mas eu trabalho sete dias por semana no mosteiro. Gosto do que faço, não sei o que significa férias e ninguém me paga. Quando vou para a minha cela o meu trabalho é meditar, não é um emprego, mas é a minha ocupação.

Fez uma mudança de vida radical…
Foi uma escolha. Antes de ser monge fazia investigação científica e gostava mas fui à Índia, senti-me melhor do que nunca e perguntei-me ‘Onde quero passar o resto da vida?’. Se estamos a fazer o que queremos está tudo bem. Hoje vivo numa cela de 2,5x por 2x9m, com uma vista fantástica sobre os Himalaias. Não tenho água quente, só uma malga e duas colheres, não sinto falta de nada. Consigo apreciar quando estou numa casa confortável, mas se não estiver também estou bem. Vivi 10 anos no Butão. O meu professor ensinava a rainha-mãe e um dia ela insistiu para ir no carro dela, um carro fantástico. Então lá ia eu de carro com a rainha-mae do Butão. No dia seguinte o meu professor mandou-me de volta ao mosteiro e tive de ir nas traseiras de um camião. Eram circunstâncias diferentes mas eu não sentia ‘Uau vou num Mercedes’ num dia para me sentir infeliz por ter de ir num camião no outro. Era divertido.

Há condicionamentos biológicos para a infelicidade?
Há predisposições que, numa pequena percentagem, podem ser genéticas, mas a epigenética ensina que os genes podem ser expressos ou não, ou seja, o facto de haver um master plan, o genoma, não significa que ele seja executado. É como ter um projeto de uma casa. Quando a construímos podemos fazer alterações. Também temos de contar com o ambiente: se crescemos sem amor, com abusos, é dramático porque somos logo forçados ao sofrimento. Mas ainda assim chega um tempo em que podemos lidar com isso. Existe sempre um potencial para a mudança.

Nas pessoas habituadas a ser infelizes esse desafio é maior?
O essencial é perceber que é sempre possível cultivar condições que nos ajudem a ser melhores. Quando estive a estudar na Universidade de Montreal havia um professor que costumava correr quando era novo. Começou a treinar novamente e o ano passado participou na maratona. A ciência demonstrou que a neuroplasticidade cerebral – a capacidade de mudar a estrutura do cérebro – é independente da idade. As pessoas mais velhas são perfeitamente capazes de mudar os seus cérebros com o treino. No Tibete há imensas histórias de pessoas que começaram a meditar aos 80 anos com ótimos resultados.

Porque resistimos à mudança?
É um grande mistério. Acho que temos um tipo de hesitação em olhar para dentro. Conheci gente nova que me disse ‘Não quero olhar para dentro, tenho medo do que vou encontrar’. É surpreendente. Não sei o que é que têm medo, mas contei isto ao Dalai Lama e ele disse ‘Há tantas coisas interessantes lá dentro. É melhor do que ir ao cinema!’. Há um fator determinante: a inspiração. Se temos uma razão para mudar é mais fácil. Pelo contrário, o maior perigo é desistir. Por um lado, as pessoas pensam sempre que podiam estar pior, por outro admitem que há coisas que gostavam de alterar mas acham que não é possível porque já são assim há muito tempo ou é muito difícil. Por isso é que a primeira coisa a fazer é reconhecer o potencial de mudar. Porque a verdade é que qualquer treino tem sempre um efeito. Sempre. Há um bocadinho de inércia, esse é o principal obstáculo. Depois precisamos de algum interesse, e este só aparece se virmos um benefício. No meu caso, foi conhecer um professor especial, porque vi os resultados do treino à minha frente, não tive de acreditar porque alguém me disse.

Como reverter o paradigma do ‘não sou capaz de mudar’?
Primeiro temos que refletir nos aspetos que nos mostram que é possível mudar. Dizemos que a raiva ou inveja são parte da natureza humana. Mas há muitas maneiras de ‘fazer parte’. Se algo faz parte da natureza intrínseca de outra coisa é impossível alterar isso. Mas se não fizer parte intrínseca posso fazer alterações. Por exemplo, em essência a água é H2O. Se lhe adicionar plantas fica medicinal, se juntar cianeto torna-se mortal, mas continua a ser H2O, o que lhe acrescentei não faz parte da sua essência e posso removê-lo. Há algo parecido na mente. As emoções negativas são como o cianeto e as positivas como as plantas medicinais, mas existe uma qualidade da mente independente disso que se chama Consciência Essencial ou Luz Clara da Mente. Esta qualidade essencial é o que nos permite ter consciência das nossas emoções.

"Há um estudo de Michael T. Kasser que mediu os níveis de consumismo de centenas de pessoas por 20 anos
e concluiu que quanto mais alto menos felizes somos.
Não se trata de um julgamento moral
mas de uma constatação."

Temos de encher a mente de ‘emoções medicinais’?
Sim. Por exemplo, se a raiva é o meu principal problema, qual é o oposto da raiva? Benevolência. Se eu cultivar a benevolência, enchendo a minha mente com este sentimento, talvez ele se torne mais forte e neutralize a raiva, porque os dois são mutuamente incompatíveis.

Não é possível ter emoções ambivalentes?
Não, o que chamamos emoções ambivalentes são de facto emoções contraditórias, mas não ocorrem ao mesmo tempo embora a oscilação possa ser muito rápida. Sempre que sentimos, nem que seja por um segundo, amor e simpatia, não podemos querer fazer mal. O que há a fazer, é aumentar o tempo em que nos concentramos nas emoções positivas e isso é uma questão de treino.

A meditação tem efeitos sobre o sofrimento físico?
Há um filósofo suíço chamado Alexandre Jollien que fala disso. É uma pessoa fantástica, fabuloso filósofo, mas incapacitado fisicamente. Hoje é um orador inspirador mas conta que todos os dias nos transportes alguém o ridiculariza. Não é fácil, ele odeia o seu corpo de certa maneira, apesar de ter ganho paz acerca disso. Nos problemas mentais pode ser mais difícil, mas a depressão é um campo onde a meditação pode ser muito poderosa. Há muitos estudos sobre isso. Obviamente é difícil começar a meditar quando se está no pico de uma depressão porque não se tem vontade, mas nas pessoas que já tiveram pelo menos dois episódios e estão realmente fartas daquilo os programas de meditação baseada na atenção plena reduziram em 40% o risco de recaída.

Se deixamos de meditar os efeitos perduram?
Perduram porque mudaram a nossa maneira de Ser. É como andar de bicicleta. Sempre que dominamos uma nova capacidade ela fica adquirida, ainda que o treino melhore o desempenho. Para aprender a andar de bicicleta tivemos de alterar circuitos neuronais, o mesmo acontece quando meditamos. No fundo, meditar é aprender uma forma diferente de experienciar o mundo. Quando estou a trabalhar não estou a meditar, mas em quase todos os momentos uso capacidades que adquiri na meditação e assim continuo a reforçá-las. Fazendo isso a vida torna-se parte da meditação.

Muitos começam a meditar e desistem. A felicidade dá trabalho?
Sim, mas é um esforço gratificante. A meditação inicialmente pode não ser divertida. Há uma expressão de tibetana que diz “No início nada vem, no meio nada fica, no fim nada vai embora”, ou seja, no início não vemos os benefícios, é quando podemos desistir; no meio vemos alguns, mas depois deixamos de ver outra vez; no fim atingimos o objetivo e nunca mais o perdemos. O tempo destas fases varia de pessoas para pessoa, mas só o facto de começar a meditar já é raro nos dias que correm.

A felicidade faz parte da natureza humana ou foi uma conquista evolutiva?
Pessoas infelizes têm menos iniciativa e até menos interesse em reproduzir-se pelo que em termos evolutivos ser infeliz não é uma vantagem para a espécie. É um facto que em termos gerais, as pessoas dizem que, apesar de tudo, estão mais satisfeitas do que não satisfeitas com a sua vida. Não estamos sempre deprimidos porque isso não seria bom para a espécie. É o que dizem os evolucionistas.

Essa satisfação mediana não é o conceito de felicidade budista…
O meu conceito de felicidade não se limita a uma satisfação mediana nem se confunde com o conceito de prazer. O prazer depende das circunstâncias, pode contribuir para a felicidade ou ir contra ela. Adoro música clássica, mas ouvir 48 horas de chopin non stop é um pesadelo. Também podemos sentir prazer a torturar pessoas. A felicidade é quase o oposto. É algo que está ali, independentemente do sofrimento ou dos prazeres passageiros. Quanto mais nos confrontamos com os altos e baixos da vida, mais a reforçamos porque ficamos menos vulneráveis às circunstâncias exteriores.

Podemos ser felizes sabendo que outros sofrem?
A tristeza é incompatível com o prazer mas não com a felicidade. Podemos estar tristes sabendo que há pessoas a morrer à fome mas não temos de estar desesperados e podemos ficar determinados a ajudar. Neste sentido a determinação em fazer algo para acabar com o sofrimento faz parte da minha felicidade.

E é possível ser feliz quando somos vítimas de violência?
Para a felicidade é muito pior fazer mal aos outros do que nos fazerem mal a nós. Não quer dizer que temos de ser passivos se nos agredirem, mas se não pudermos evitar só temos de lidar com isso. No fundo, felicidade é usar todas as circunstâncias de forma construtiva.

Então ser infeliz é uma escolha?
É uma escolha a longo prazo, não agora. Se algo mau acontece e não estamos treinados para lidar com isso, não temos escolha senão ficar angustiados. Podemos, a longo prazo, aprender a lidar com isso. Não temos que nos sentir cupados. A escolha que temos é começar um processo de mudança.

Vivemos em sociedades que nos fazem infelizes?
Há um estudo de Michael T. Kasser que mediu os níveis de consumismo de centenas de pessoas por 20 anos e concluiu que quanto mais alto menos felizes somos. Não se trata de um julgamento moral mas de uma constatação. A mentalidade consumista leva à procura dos prazeres imediatos, o que não traz felicidade. Atualmente os miúdos de dois anos já são inundados de anúncios. Isto é eticamente errado e um começo tortuoso para a felicidade.

Uma cultura de meditação pode criar gerações mais felizes?
Pessoas com mentes treinadas poderão fazer nascer crianças mais propensas a serem felizes. A cultura e a educação têm uma influência determinante na forma como o cérebro se começa a moldar.

Um budista tem mais probabilidade de ser feliz do que um cristão ou ateu?
Se aplicarmos os valores do amor e da compaixão chegamos ao mesmo sítio. São Francisco de Assis encarna todos os princípios budistas. O Dalai Lama disse uma vez que no budismo não achamos que exista um criador mas quem acredita tem de amar os outros, que são também produtos de Deus. Quando foi a Montserrat, na Catalunha, ver um eremita numa gruta, perguntou-lhe ‘Sobre o que tem estado a meditar na sua vida toda?’. Ele respondeu ‘No Amor’. E emanava tanto amor que o Dalai Lama ficou realmente inspirado. No fundo não há assim tanta diferença.
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* Portugal Mundial com TEDtalk e www.matthieuricard.org

" O Graal de Tarso Genro "


Demétrio Magnoli*


Democracia é o regime no qual governantes não podem tudo --e aí está o problema do Brasil, na opinião dele
O Santo Graal dos comunistas foi a URSS e seu sistema de "repúblicas populares". As insurreições na Hungria (1956), na Tchecoslováquia (1968) e na Polônia (1980) secaram o poço do encantamento. A queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS quebraram o cálice sagrado. No último quarto de século, desorientados, os filhos do "socialismo real" empreendem a busca por um novo Graal. Como tantos outros, Tarso Genro encontrou-o na China (em "Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar", artigo escrito numa língua estranha, longinquamente aparentada com o português). As suas elucubrações teóricas não têm interesse intelectual, mas merecem um exame político.

O governador do Rio Grande do Sul enxerga na experiência recente da China uma inspiração para a marcha do Brasil rumo ao estatuto de potência mundial. O que a China tem de especial? Um "sujeito político (Partido-Estado)" que "cria o mercado e suas relações", num processo em que "estas relações novas recriam o sujeito (Partido-Estado), que será permanentemente outro". É isso, explica-nos, que falta ao Brasil: um ente de poder capaz de reinventar a sociedade e guiar o povo até o futuro.

Décadas atrás, um tanto tristonhos, incontáveis socialistas deploravam o poder totalitário do Partido Comunista da URSS, mas o justificavam como um mal necessário pois, no fim das contas, aquele era o motor político da economia socialista. Genro, pelo contrário, não apela ao socialismo (uma "fantasia histórica") para justificar o poder absoluto do Partido-Estado: basta-lhe um horizonte "chinês" de crescimento econômico e progresso social. E a democracia? A China triunfa graças a um "regime político não democrático para os nossos olhos", ensina o líder petista, reproduzindo os argumentos oficiais do Partido Comunista Chinês, que justifica a tirania pela invocação ritual da cultura e da tradição.

A democracia é o regime no qual os governantes não podem tudo --e aí está o problema do Brasil, na opinião de Genro. Na sua descrição, o "mercado" malvado sabota a redução dos juros, a abominável "grande imprensa" bloqueia o aumento do IPTU e os demoníacos "cronistas no neoliberalismo abrigados na grande mídia" manipulam a opinião pública. A expressão política de opiniões conflitantes e interesses divergentes que nos acostumamos a chamar de democracia representa, aos olhos de Genro, uma intolerável balbúrdia. É preciso, para libertar a "utopia concreta presa com âncoras pesadas no fundo real da sociedade capitalista", instaurar uma ordem nova na qual o sujeito da História (o "Partido-Estado") possa conduzir a nação até o futuro redentor.

O "levantar âncoras", propõe Genro, encontra-se na convocação de "uma nova Assembleia Nacional Constituinte no bojo de um amplo movimento político inspirado pelas jornadas de junho", mas "com partidos à frente". Esqueça, por um momento, que as "jornadas de junho" não seriam as "jornadas de junho" se tivessem "partidos à frente". Nosso pequeno, mas esperançoso, pretendente a Duce sonha com uma "marcha sobre Brasília" liderada pelo partido que exerce o poder.

"Penso que as esquerdas no país devem abordar programaticamente estas novas exigências para o futuro, já neste processo eleitoral". Genro sabe perfeitamente que sua "utopia concreta" terá impacto nulo sobre a campanha de Dilma, que continuará focada em firmar alianças com o PMDB, o PP e o PSD, renovar os compromissos com as altas finanças e reforçar a parceria com os "movimentos sociais" estatizados. O vinho de seu cálice sagrado destina-se, exclusivamente, ao consumo interno do PT e de sua área de influência militante: é um antídoto ideológico contra as imprecações lançadas por correntes esquerdistas inquietas com o "giro à direita" do lulismo. Mas serve, ainda, para iluminar o lado escuro da alma do partido que nos governa.
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* Jornalista. Escritor. Colunista da Folha
Fonte: Folha online, 01/02/2014

" Por que Cuba é pobre


Diogo Costa*


Uma dica: não é por causa do bloqueio americano

Como escreve João Pereira Coutinho: “O embargo americano existe, sem dúvida, e deve ser condenado pelo seu óbvio anacronismo [...]. Mas é preciso acrescentar a segunda parte da frase: só existe o embargo americano. Que o mesmo é dizer: todo mundo que é mundo mantém relações com Cuba e nem assim a ilha se converteu numa espécie de Suécia do Caribe”.

Antes de 1959, o problema de Cuba era a presença de relações econômicas com os Estados Unidos. Depois o problema se tornou a ausência de relações econômicas com os Estados Unidos.

O embargo americano é obsceno, mas não é a raiz da pobreza cubana. De fato, como indica Coutinho, os cubanos podem comprar produtos americanos pelo México. Podem comprar carros do Japão, eletrodomésticos da Alemanha, brinquedos da China ou até cosméticos do Brasil.

Por que não compram? Porque não têm com o que comprar. Não é um problema contábil ou monetário — o governo cubano emite moeda sem lastro nem vergonha. O que falta é oferta. Cuba oferece poucas coisas de valor para o resto do mundo. Cuba é pobre porque o trabalho dos cubanos não é produtivo.

A má notícia para os comunistas é que produtividade é coisa de empresário capitalista. Literalmente. É o capital que deixa o trabalho mais produtivo. E é pelo empreendedorismo que uma sociedade descobre e realiza o melhor emprego para o capital e o trabalho.

É pelo empreendedorismo que uma sociedade descobre e realiza o melhor emprego para o capital e o trabalho
Mesmo quando o governo cubano permite um pouco de empreendedorismo, ele restringe a entrada de capital. Desde que assumiu o poder em 2007, Raúl Castro já fez a concessão de quase 170.000 lotes de terra não cultivada para agricultores privados. Só que faltam ferramentas e máquinas para trabalhar a terra. A importação de bens de capital é restrita pelo governo. Faltam caminhões para transportar alimentos. Os poucos que existem estão velhos e passam grande parte do tempo sendo consertados. Em 2009, centenas de toneladas de tomate apodreceram por falta de transporte.

Campanhas internacionais contra a pobreza global se esquecem dos cubanos. Parece que o uniforme dos irmãos Castro tem o poder de camuflar a pobreza em meio a discursos de conquista social. Dizem que Cuba tem medicina e educação de ponta. Ainda que fosse verdade, isso seria bom apenas para o pesquisador de ponta. E triste para o resto da população que vive longe da ponta, sem acesso a informação aberta ou aos medicamentos mais básicos, como analgésicos e antitérmicos. É como na saudosa União Soviética. A engenharia era de ponta. Colocava gente no espaço e tanques na avenida. Só não era capaz de colocar carro nas garagens nem máquina de lavar nas casas.

Cuba vai enriquecer quando a sua população se tornar mais produtiva para trabalhar e mais livre para empreender. Ou seja, quando houver capitalismo para os cubanos.
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Fonte: Instituto Mises Brasil
* É bacharel em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis, mestre em Ciência Política pela Universidade de Columbia e editor do site “OrdemLivre.org”. Foi um dos vencedores do primeiro prêmio Donald Stewart Jr. apresentado pelo Instituto Liberal por seu ensaio sobre Ludwig von Mises. Estagiou no Centro para Liberdade e Prosperidade Global no Cato Institute. Já escreveu para diversos jornais impressos, como “O Globo”, “O Dia”, “O Estado de São Paulo”, “Jornal do Commercio”, “Digesto Econômico”, “Buenos Aires Herald” (Argentina), “El Diario Exterior” (Espanha), “Mmegi” (Botswana), e “The Panama News” (Panamá).
Fonte: http://www.imil.org.br/artigos/por-cuba-pobre/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+org%2Fhetj+%28Instituto+Millenium%29

" Como não perder o foco "


Foco  (Foto: ÉPOCA)
Num mundo repleto de distrações digitais, emocionais e de carne e osso, superá-las é fundamental para fazer qualquer coisa. Por que é importante redescobrir
a importância da concentração

Mal começa o ano e tomamos as resoluções de vida nova. Ir à academia, estudar mais, comer direito. A disposição para se tornar uma pessoa melhor e mais disciplinada é infinita nessa época do ano. E a frustração quando quebramos a promessa logo nas primeiras semanas também. O que muitas vezes não percebemos é que para cumprir qualquer resolução de Ano-Novo é preciso uma característica básica: concentração. Sem ela, a preguiça vence a obrigação da ginástica. A internet se torna uma tentação na hora de estudar e o bolo de chocolate acaba com a dieta em segundos. Sem atenção e persistência, dificilmente se atinge qualquer objetivo.

Essa é a teoria do psicólogo americano Daniel Goleman. Em seu novo livro, Foco (Objetiva, 294 páginas, R$ 39,90), que chega em janeiro às livrarias brasileiras, ele discorre sobre os benefícios que a atenção concentrada traz. Para ele, a melhor promessa que alguém pode fazer no final do ano é ter foco, e apenas isso.
Quando se trata de emoções e de como elas nos afetam, Goleman está acostumado a perceber o que ninguém repara. Ele foi um dos primeiros autores a afirmar que a inteligência não é o suficiente para nos tornar felizes e bem-sucedidos. Essa é a tese defendida por ele em seu primeiro livro, o best-seller Inteligência emocional, lançado no começo dos anos 1990. Goleman popularizou a teoria de que o controle das emoções é tão fundamental quanto uma boa formação acadêmica e um raciocínio lógico afiado. O livro vendeu mais de 5 milhões de cópias pelo mundo todo e foi traduzido para 30 idiomas.

No começo dos anos 1990, quando Inteligência emocional foi lançado, a maioria das empresas ignorava as características pessoais dos candidatos a uma vaga de trabalho. Testes de raciocínio repletos de perguntas obscuras estavam na moda e as pessoas eram obcecadas pelo quociente de inteligência (Q.I.). O livro de Goleman causou mudanças significativas. Hoje, qualquer funcionário é submetido a testes que avaliam a personalidade. E não é preciso ser psicólogo para saber que o comportamento e as características emocionais são tão importantes quanto um bom currículo. Por mais que tenha uma ótima formação, um funcionário autoritário ou egoísta demais não trará bons resultados.

Foco também é lançado num momento oportuno. A possibilidade de estarmos conectados o tempo todo com nossos smartphones e tablets tem nos tornado mais dispersivos. Pare para pensar: quantas vezes você olhou para seu celular na última conversa que teve com um amigo? E quantas vezes parou o que estava fazendo no trabalho para checar o que acontece nas redes sociais?
Foco em si mesmo (Foto: ÉPOCA)
Para Goleman, esse comportamento é preocupante. “Hoje, todos nós, não apenas os jovens, nos sentimos invadidos por tecnologias digitais, por smartphones e e-mails”, disse Goleman a ÉPOCA. “Todos esses recursos degradam nossa capacidade de concentração.” Goleman afirma que a capacidade de manter a concentração é, nos tempos distraídos em que vivemos, tão importante quanto a inteligência emocional. Não cumprir promessas de Ano-Novo é apenas uma – e talvez a menor – das consequências que a falta de concentração nos traz. A desatenção é o cerne de problemas graves como a falta de autocontrole, insensibilidade e falta de força de vontade. Sem foco não se mantém a dieta, nem uma amizade ou um casamento. Até a escolha entre reciclar ou não o lixo está relacionada à falta de foco. Uma pessoa focada, segundo Goleman, tem consciência de que seus atos impactam o mundo todo.

Em sua tese, o autor afirma que existem três tipos de foco. O primeiro é o foco interno. Esse tipo de atenção nos permite entender – e controlar – nossos sentimentos e emoções. O segundo é o foco nos outros, que é o que nos faz ouvir o que as outras pessoas dizem e ter a capacidade de nos colocar no lugar delas, compreendendo o que estão sentindo. Essa empatia, que só é alcançada por meio da atenção no outro, é que nos leva a ter sentimentos nobres como a compaixão. O terceiro tipo de foco é a atenção que devemos dar ao que acontece a nossa volta e como nossas atitudes impactam o resto do mundo. Esse tipo de atenção gera consciência social e sensibilidade aos problemas que afetam o mundo todo, como o aquecimento global e a fome. Apesar de serem diferentes, esses três tipos de foco estão relacionados, e as técnicas para desenvolvê-los são semelhantes. “Quem não consegue prestar atenção nas próprias emoções dificilmente compreenderá os sentimentos de outra pessoa e muito menos se sensibilizará com os problemas do mundo”, diz.

Cada um de nós tem uma infinidade de razões para perder a concentração. Goleman divide as distrações em dois tipos: a sensorial e a emocional. A primeira diz respeito aos sons, sabores, cheiros e sensações que nos roubam a atenção enquanto fazemos algo. Um trabalho pode ser subitamente interrompido por um cheiro de comida ou por uma música muito alta. A distração emocional é aquela que vem de dentro de nós. O fim de um relacionamento ou a perda de uma pessoa próxima são suficientes para tirar qualquer pessoa concentrada do prumo. O bombardeio de informações a que somos submetidos por meio de redes sociais e pela internet também contribui para a falta de atenção. Checar notícias e o que os amigos publicam nas redes sociais é quase um vício para muitas pessoas. Com tantos acontecimentos a nosso redor e no mundo virtual, manter a atenção num relatório, num trabalho da faculdade ou nos próprios sentimentos é cada vez mais difícil.

As distrações existem para todos nós, mas prestar atenção numa planilha complicada ou manter-se acordado numa aula de faculdade parece ser mais fácil para algumas pessoas. Isso se explica porque uma parte da habilidade de concentração é genética. Filhos de pais com alto grau de atenção têm mais chances de nascer com a mesma característica. Mesmo assim, construir essa habilidade depende em grande parte de nossas experiências. A epigenética, ciência que estuda como o ambiente pode interferir em nossas características genéticas, afirma que herdar um aspecto do comportamento dos pais não é o suficiente para que ele se desenvolva. Se os genes nunca são acionados, é como se não existissem. Para os geneticamente distraídos, ainda há salvação. Com esforço, a atenção pode ser treinada e aprendida, mesmo se a genética não colaborar.
O foco nas pessoas (Foto: ÉPOCA)
A capacidade de concentrar-se em algo por vontade própria, ignorando distrações e controlando impulsos, surge aos 3 anos de idade e pode ter uma grande influência no sucesso profissional. Num estudo feito na Nova Zelândia, 1.037 crianças foram avaliadas para medir sua tolerância a frustração, impaciência, poder de concentração e persistência. Duas décadas depois, os pesquisadores voltaram a procurá-las para saber como estavam. Quanto melhor era a atenção e o autocontrole na infância, mais bem-sucedido e saudável era o adulto. O autocontrole se mostrou um fator mais importante para o sucesso do que o quociente de inteligência ou até mesmo a classe social da família de origem.

Por ser tão importante, a capacidade de concentração deve ser ensinada e estimulada desde os primeiros anos de vida. Algumas escolas já adotam programas de aprendizagem emocional e social. Nos Estados Unidos, uma análise comparou mais de 200 escolas que adotam programas de aprendizagem social e emocional com colégios do mesmo nível, mas sem esses programas. Os resultados: a bagunça e o mau comportamento eram 10% inferiores nas escolas que ensinam técnicas de atenção e controle de emoções. A assiduidade e outros comportamentos positivos são 10% maiores. E notas em testes são 11% mais altas.
Alguns exercícios usados nessas escolas são simples e eficazes e podem ser adotados em casa também. Numa escola em Nova York, os alunos são submetidos a um exercício de respiração uma vez ao dia. Todos deitam no chão e seguem as instruções de uma voz amistosa que os guia por exercícios de respiração abdominal profunda. “Isso ajuda o aluno a relaxar e a manter o foco. Quando não fazemos o exercício, a turma parece outra. Ficam muito mais agitados e é mais difícil controlá-los”, afirma uma das professoras do colégio, Emily Hoaldrige.

Nossas emoções são em boa parte controladas por nossa atenção. “É por isso que, quando um bebê chora, imediatamente mudamos o foco de sua atenção com um brinquedo ou outra coisa qualquer”, afirma Goleman. “Desviar a atenção do que o faz chorar é uma maneira de controlar essa emoção.” É por isso que os exercícios de respiração são eficientes. Eles nos acalmam e permitem que deixemos de pensar naquilo que nos incomoda. Quando nos concentramos em nossa respiração, automaticamente esvaziamos nossa mente dos problemas que nos causam sofrimento. Com a mente tranquila, crianças e adultos conseguem focar no que é preciso.

Parece contraditório, mas uma técnica fundamental para manter a concentração é saber mudar o foco na hora certa. Num estudo clássico realizado pelo psicólogo Walter Mischel na Universidade Stanford, na década de 1970, crianças de 4 anos foram colocadas sozinhas numa sala com um marshmallow. O pesquisador dava duas alternativas: comer o doce na hora ou esperar 15 minutos e ganhar duas guloseimas. De todas as crianças que participaram, apenas um terço conseguiu resistir à tentação de atacar o marshmallow. O resultado mostrou que as que conseguiram o feito usaram artimanhas para não prestar atenção ao doce, como cantar ou cobrir os olhos. As que ficaram com a atenção focada no marshmallow dificilmente conseguiram se controlar.

Nesse caso, mudar o foco ajudou as crianças a ter autocontrole. Conseguir mudar o foco quando nos convém é uma questão de treino e persistência. O importante é saber identificar situações em que essa estratégia pode nos ajudar. A tática usada intuitivamente pelas crianças é a mesma que precisamos colocar em prática para não sucumbir ao bolo de chocolate durante a dieta ou para resistir à tentação de parar o que estamos fazendo no trabalho e checar o que os amigos estão publicando nas redes sociais.

Essas técnicas usadas com crianças também servem para os adultos. Eles também podem tentar outras táticas. Uma delas é treinar a consciência de que a concentração foi perdida. Parece um exercício banal, mas muitos de nós só nos damos conta de que não estamos concentrados no que deveríamos depois de minutos ou horas de devaneio. Quanto mais tempo nossa mente divaga durante uma atividade que exige concentração, mais difícil é retornar ao que estava sendo feito. O exercício para combater a fuga de atenção é simples: assim que perceber que o foco foi perdido, traga-o de volta. Faça isso quantas vezes forem necessárias. A atenção equivale a um músculo mental que podemos fortalecer por meio de exercícios como esse. Quando mais se faz, mais forte o músculo fica.
O foco no mundo (Foto: ÉPOCA)
Outra maneira de treinar a atenção para vencer as distrações é se concentrar nas pequenas tarefas do dia a dia, que costumamos fazer no piloto automático. Quando for lavar a louça, por exemplo, fique atento em como a água cai sobre a sua mão, nos movimentos que faz com a esponja e na espuma que escorre pelo ralo. É uma maneira de treinar a atenção para o aqui e agora, evitando a divagação. Quando adotamos esse comportamento em momentos banais, sem pressão e sem grandes distrações, ele naturalmente se repete nas situações mais complexas, em que manter o foco teoricamente seria mais difícil – e mais recompensador.

No ambiente profissional, é importante ter em mente que é muito mais fácil ter concentração quando fazemos um trabalho que consideramos estimulante. Não é o que costuma acontecer. Pesquisas em empresas revelam que um grande número de pessoas se encontra num estado de atenção muito longe do ideal durante a jornada de trabalho. Um estudo conduzido pelas universidades Harvard, Stanford e Claremont constatou que na maior parte do tempo os profissionais estão estressados ou entediados. Apenas 20% das pessoas analisadas demonstraram momentos de satisfação plena no trabalho. O restante costuma passar tempo demais na internet ou pensando em outras coisas que não estão relacionadas às tarefas que precisam ser feitas.

As pessoas que gostam do que fazem sentem mais facilidade para manter a atenção. O ideal seria aproximar o trabalho de algo que proporcione prazer. Como nem sempre isso é possível, manter a motivação e encontrar um propósito para o que se faz pode ser uma saída para evitar o tédio e a consequente falta de atenção.

Outro ponto defendido por Goleman é que para manter a mente concentrada é preciso descalçá-la. Ou seja, para ter foco, é preciso perdê-lo por algum tempo, de vez em quando. Parece contraditório, mas exames cerebrais recentes revelaram que durante a divagação da mente duas regiões do cérebro se ativam. Com frequência, a nossa mente divaga para nossas preocupações e questões não resolvidas – coisas em que precisamos pensar mais. Embora a divagação da mente possa prejudicar nossa concentração imediata em alguma tarefa específica, ela funciona para resolver problemas importantes para nossa vida. Uma mente vagando permite que a criatividade flua. Além disso, existem outras funções positivas em deixar a mente divagar: autorreflexão, ponderação do que está sendo aprendido, organização das lembranças, ou a mera meditação sobre a vida. Mas os benefícios da falta de atenção não a tornam menos prejudicial. “Falta de foco nunca é bom”, afirma Renata Di Nizo, autora do livro Foco e criatividade. “Mesmo para desenvolver um trabalho criativo é preciso estar compenetrado.”

O segredo é saber quando a mente pode divagar. Durante um trabalho com prazo para ser cumprido ou enquanto um amigo desabafa sobre um problema pessoal, deixar a mente ir para onde quiser é uma péssima ideia. O ideal é deixar os momentos de divagação para as horas de relaxamento, como um passeio pelo parque ou o tempo que passamos assistindo a programas sem importância na televisão

Todas essas técnicas e exercícios ajudam a desenvolver a atenção concentrada. É por meio dela que alcançamos o autocontrole, a sensibilidade de ouvir o que os outros nos dizem e de nos colocarmos em seu lugar. Sem foco, não há trabalho, dieta ou relacionamento que vá para a frente. Se seguirmos o conselho de Goleman e concentrarmos nossas energias apenas em desenvolver nosso foco em 2014, é muito mais provável que consigamos manter a dieta, ir à academia e trabalhar melhor. Com a concentração afiada, nos restarão pouquíssimas promessas para 2015.
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REPORTAGEM POR NATÁLIA SPINACÉ
FONTE: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/01/como-nao-bperder-o-focob.html

" França : um exemplo do poder destruiodor que podem ter as redes sociais "


Le Monde

A última crise francesa fornece uma prova ao mesmo tempo demolidora e cômica acerca da influência desses dispositivos na opinião pública.

Eduardo Febbro

Paris - As linhas que seguem são um reflexo verbal da realidade, e não uma piada forjada no coração de uma das grandes democracias do Ocidente. Se alguém duvida do poder destruidor que podem alcançar as redes sociais e os instrumentos de comunicação mais avançados, a última crise francesa fornece uma prova ao mesmo tempo demolidora e cômica acerca da influência desses dispositivos na opinião pública.

Um falso rumor propagado por católicos de ultradireita através de Facebook, Twitter e SMS fez com que dezenas de milhares de pessoas acreditassem que o Executivo se preparava para ensinar a masturbação nos jardins de infância, para dar cursos sobre a famosa teoria de gênero ao mesmo tempo em que atribuiu à senadora socialista Laurence Rossignol a seguinte frase: “as crianças não pertencem aos pais, mas sim ao Estado”.

O resultado desta campanha foi devastador: o governo se encontrou em sérios apuros quando milhares de pais decidiram participar de uma greve e se negaram a levar seus filhos às escolas. Tudo, porém, é falso. Os grupos de ultradireita e os católicos integristas que, no ano passado, saíram às ruas para se manifestar contra a lei que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão por trás dessa argúcia mentirosa difundida por meio das redes sociais. A mentira acertou no alvo.

A história passaria por um caso anedótico se não se tratasse de uma sociedade avançada como a francesa e se não tivesse tido nenhum impacto na realidade. Em setembro do ano passado, o ministro da Educação, Vincent Peillon, e a ministra dos Direitos da Mulher, Najat Vallaud-Belkacem, cogitaram a ideia de realizar em alguns estabelecimentos escolares do país uma operação destinada a promover a igualdade entre homens e mulheres. Reciclada pelos católicos integristas e a extrema-direita, a ideia se converteu em uma ameaça imaginária articulada em torno de um suposto programa cujo objetivo consistia em propagar nas escolas a teoria de gênero, ou seja, esse princípio segundo o qual ser homem ou mulher é uma mera construção social e não uma consequência biológica por completo.

Milhares de pais começaram a receber SMS advertindo que o governo, em nome da teoria de gênero, havia dado instruções aos professores para que estes ensinassem aos filhos a arte da masturbação e convidassem transexuais para as aulas. Muitos deles acreditaram. No dia 24 de janeiro, em uma dezena de departamentos da França, as salas de aula estavam vazias. Aterrorizados diante de semelhante barbaridade, os pais tiraram os filhos das escolas. Delirium tremens.

Os tópicos desta operação perversa realizada por pequenos grupos de extrema direita e católicos fanáticos agrupados em diversas associações: JDR, JRE 2014, os fascistas do grupo Jour de Colère (Dia de Cólera), próximo do ensaísta de extrema-direita Alain Soral e da militante Farida Belghoul, 24 heuresactu, Boulevard Voltaire, Egalité et Réconciliation, Manif pour Tous, Printemps Français, Action Française, Familles de France. Estes movimentos pertencem à órbita mais extrema da direita e vivem em uma esfera paranoica.

Em um artigo publicado em meados de janeiro, 24heuresactu, por exemplo, assegura que o governo socialista está estudando “um informe da OMS (Organização Mundial da Saúde), que propõe estimular a masturbação infantil e permitir à criança a expressão de seus desejos sexuais”. O informe existe, mas não expressa nenhuma dessas ideias. No entanto, o rumor acabou sendo tomado como verdade.

Esta nebulosa católica-fascista denuncia uma espécie de engrenagem lógica onde se associa o casamento entre pessoas do mesmo sexo com a igualdade entre o homem e a mulher, o ocaso da família tradicional com a decadência da civilização, a ampliação do direito de aborto com a intoxicação da imigração, a cultura laica com a suspeita de que se está buscando reconfigurar a família e mudar a mentalidade das crianças, a obsessão de que serão transmitidas coisas de adultos para as crianças, de que serão incitadas a mudar de sexo, a se masturbar ou se converter em pedófilos.

O catálogo é pesado. A teoria de gênero carece de todo fundamento. De fato, ela é chamada assim, mas nem sequer é uma teoria. Trata-se de um estudo de gêneros iniciado nos Estados Unidos nos anos 60 e 70. No entanto, os “anti” inventaram sua existência nas escolas da França e estão convencidos de que os socialistas querem reorientar a sociedade com base nas orientações sexuais, as quais se converteriam, assim, no fundamento do direito e da igualdade. A política governamental contra a desigualdade entre o homem e a mulher não tem nada a ver com isso, mas sim com a igualdade dos papéis sociais entre homem e mulher.

O ministro francês da Educação, Vincent Peillon, respondeu a estes delírios: “não escutem a quem quer semear a divisão e o ódio nas escolas. O que nós fazemos não é ensinar a teoria de gênero, eu a rechaço, mas sim promover os valores da República e a igualdade entre os homens e as mulheres”, disse o titular da pasta.

A chamada facho-esfera conseguiu, contudo, que muitos pais acreditassem nessas invenções. A França se viu assim sob o poder hipnótico de uma intoxicação destruidora, de um fantasma que, em pleno século XX, ganha adesões no coração de sociedades que sustentaram seus progressos em valores totalmente opostos aos que essas correntes extremistas promovem.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
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Fonte: http://www.cartamaior.com.br