terça-feira, 3 de dezembro de 2013

" Bocejos para o século XXI "


Arquivo
Saul Leblon*

Nenhuma das questões essenciais que desafiam o futuro da humanidade encontra resposta adequada no ambiente extremado da desregulação global, pós crise.

O impasse entre a lógica dos mercados e os interesses da humanidade, sobretudo da parcela que ainda luta pelo seu desenvolvimento, está por trás das declarações truncadas, dos documentos entremeados de colchetes [sinônimo de pendências diplomáticas] e da circularidade irritante dos fóruns globais que bocejam para as urgências do século XXI.

Sempre foi assim, mas o quadro se agravou com o colapso da ordem neoliberal, desde 2008.

A emergência dos pobres se agudizou; o caixa dos ricos se retraiu. A desordem financeira se acomodou às custas do elo mais fraco da corrente.

Num primeiro momento, o ajuste se deu pela expansão da liquidez internacional para salvar a bancarrota da grande finança.

A contrapartida foi a valorização das moedas locais, uma doença autoimune que passou a operar contra a produção doméstica, à favor das importações ‘baratas’.

Na reversão do ciclo, ensaiada agora pelo BC norte-americano, pavimentam-se as condições à ascensão do receituário recessivo.

Chegou a hora, esfrega as mãos o colunismo isento por essas bandas, que evoca a desforra das urnas desde setembro de 2008.

Manchetes exigem que o governo se antecipe à ‘tempestade perfeita’, adotando-a voluntariamente.

A saber: raios de choque de juros para conter a fuga de capitais e o salto da inflação; trovões de arrocho fiscal sobre os pobres, para purgar os pecados das desonerações ao consumo e ao investimento (feitas para evitar a internalização da crise dos ricos).

O encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC), que acontece esta semana, em Bali, na Indonésia, ilustra essa colisão da lógica na esfera econômica.

Como conciliar, a essa altura, o interesse protecionista de milhões de pequenos agricultores da Índia, por exemplo, com a voragem liberalizante das grades potencias exportadoras de grãos?

Chovem colchetes em Bali.

Há duas semanas, o mesmo ambiente de prostração se repetiu na Polônia.

A 19ª reunião do clima, preparatória para o encontro de 2015, em Paris (quando em tese será pactuado um novo acordo global) não avançou um honesto centímetro no esboço de um sucessor para o malogrado protocolo de Kioto.

A crise colocou a agenda da descarbonização na gaveta das prioridades remotas.

E endureceu o braço de ferro na distribuição dos sacrifícios imediatos.

Quanto cada nação poderá emitir, antes que a temperatura multiplique eventos extremos em progressão devastadora?

Reza a Convenção do Clima, de 1992, que é necessário diferenciar as responsabilidades, maiores, dos países ricos em relação aos pobres que ainda lutam pelo seu desenvolvimento.

Não foi o que ocorreu até hoje.

‘70% das emissões de gases-estufa até 2010 vieram dos países desenvolvidos, enquanto 70% das reduções das emissões até agora foram feitas pelos países em desenvolvimento’, desabafou a delegação chinesa na fracassada reunião de Varsóvia, segundo o jornal Valor.

A China, a exemplo do Brasil, deve uma cota de sacrifício ao futuro.

Os propulsores do seu desenvolvimento terão que convergir desde já para uma matriz menos poluente. Mas tudo isso será inútil se sociedade norte-americana persistir, de longe, como a maior ameaça ao aquecimento do planeta.

A emissão média per capita nos EUA hoje é de 16,9 toneladas de CO2 por habitante/ano. Equivale a dizer que cada norte-americano sozinho emite mais que um chinês e um europeu juntos (respectivamente 6,8 t/per capita/ano e 8,1 t/per capita/ano).

A delegação dos EUA nesses encontros desconversa e evoca contribuições isonômicas para ‘salvar o planeta’.

Tampouco assume a iniciativa de inaugurar doações ao Fundo Verde, criado em 2009, na reunião de Copenhague, que destinaria US$ 100 bi em compensações ambientais às nações em desenvolvimento.

Se Obama não comparece, o resto do planeta se desobriga; as discussões giram em torno de miragens desprovidas de lastro econômico ou políticas.

Nem ONGs aguentam mais.

Mais 700 ativistas das 13 megaorganizações - incluindo Greenpeace, WWF e Oxfam – deixaram o Estádio Nacional de Varsóvia no meio da COP 19.

Do lado da fome e da miséria, o cenário tampouco está imune ao tsunami de colchetes.

Aguarda-se a generosidade dos países ricos para dar alicerce financeiro à necessária repactuação dos Objetivos das Metas do Milênio de 1990.

A principal delas --reduzir à metade os níveis de fome e miséria, até 2015, foi alcançada por apenas 40 nações. O Brasil é um dos destaques.

Mas e os restantes 840 milhões de famintos?

São necessários cerca de U$ 30 bilhões de dólares/ano para um combate efetivo às causas do seu infortúnio.

Quem se habilita?

Silencio de ouvir moscas nos encontros mundiais.

É nesse mundo de ouvidos moucos que a OMC buscar o Santo Graal na Indonésia, aquele ponto de equilíbrio capaz de conciliar o ímpeto dos livres mercados e o interesse coletivo da humanidade.

Pretende-se, de um lado, eliminar barreiras protecionistas e alfandegárias; de outro, garantir salvaguardas de subsídio a uma agricultura familiar que costura várias das boas intenções que desfilam por entre bocejos nos fóruns internacionais.

Basta dizer que 70% da fome do planeta concentra-se no espaço rural e que a pequena agricultura cooperativa talvez seja um suporte de segurança alimentar alternativo à escalada esgotante dos métodos convencionais de plantio.

A dificuldade de um consenso em torno desse ponto imaginário reflete menos as dificuldades técnicas que ele encerra, do que o embate entre interesses que a nomenclatura conservadora no Brasil denominou de: ‘intervencionismo da Dilma’ versus ‘agenda do custo Brasil’.

Ou, no idioma acadêmico, planejamento público versus desregulação de mercados.

O ponto a reter é que nenhuma das questões essenciais que desafiam o futuro da humanidade –a fome e a miséria, o destino do clima e da cooperação para o desenvolvimento— encontra resposta adequada no ambiente extremado da desregulação existente na ordem global.

Isso deveria dizer algo ao debate sucessório brasileiro em 2014.

Não apenas a quem reverbera aqui a emergência ambiental mas, paradoxalmente, alia-se aos que atribuem aos ‘livres mercados’ a panaceia para os gargalos nacionais.

O campo progressista –inclua-se aí o PT-- talvez devesse considerar também com mais de seriedade a hipótese de existir neste país condições singulares para aquilo de que tanto se fala e tão pouco se arrisca.

Não uma identidade exaustiva de agenda histórica.

Mas a possibilidade de uma articulação inédita de força social e horizonte econômico em torno do pré-sal brasileiro.

Uma agenda de convergência da riqueza na qual a lógica de mercado se subordine ao planejamento democrático da sociedade em que os brasileiros querem viver no século XXI.

A soberba do pragmatismo bem sucedido, ou a esférica indiferença dos portadores da verdade histórica, pouco ou nada representam diante do ganho que uma frente política dessa ordem traria a um mundo enfadado de bocejos, diante de um século que mal nasceu e já parece morrer.
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* Editorialista do site CartaMaior
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Bocejos-para-o-seculo-XXI/29711

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

" A perigosa fantasia do cibertio "


Luli Radfahrer*
Ele tropeça na etiqueta digital, tuíta em maiúsculas, escreve particularidades em 'timelines' alheias
Entende-se por "tio" aquele indivíduo que, independentemente de idade, gênero ou parentesco, caracteriza-se pelo descompasso que tem em relação ao ambiente em que vive.

Há tiozinhos e tiozões, tiazinhas e tiazonas. Em comum, tropeçam os pés publicamente nos tapetes das etiquetas digitais, tuitando em maiúsculas, escrevendo particularidades em timelines' e desafiando regras da gramática em frases de linguagem atribuídas aos mais jovens.

Há retro-tios, azedos e pessimistas, que se recusam a ver utilidade nos equipamentos digitais. Têm saudades de suas Olivettis, portam lenços nos bolsos externos dos paletós e proclamam que não existe música depois de Miles Davis. Muito se falou deles e de sua teima em questionar o progresso. Deixo-os em paz por estarem em extinção.

Tão anacrônicos quanto eles estão os cibertios, que adotam a terra do nunca da internet para combater a maturidade. On-line todos são belos, jovens e saudáveis, antenados com o que há de novo.

A personalidade digital é mais feliz por definição. Por ter se livrado deste fardo mortal, ela está livre para atingir os objetivos mais surreais. Mais assertiva, e corajosa, ela é mais forte e muito sexy.

O meio ajuda. Invisibilidade, anonimato, ilusão de proximidade e falta de hierarquias ou divisões grupais reforçam as ilusões de um ego sem fronteiras, cada vez mais desconfortável ao lado daquela que sempre foi a única personalidade.

Experimentos de massa praticamente ilimitados, as redes sociais são a nova fronteira do faroeste digital, encorajando grandes sonhos, comportamentos heroicos e riscos incompatíveis com o mundo real.

A sensação de se estar à parte das regras convencionais, de se operar em um vácuo econômico, jurídico e ético em busca de novas minas de ouro invalida, em parte, o contrato social ao encorajar desvios de comportamento sem precedentes.

Delírios de grandeza, invencibilidade, indestrutibilidade, imortalidade, narcisismo, morbidez, impulsividade e psicopatias diversas mostram o lado negro do mundo da fantasia, em que o digital, sem vergonha nem culpa, se mistura ao real.

À medida que os comportamentos on-line são incorporados ao mundo off-line, as personalidades inevitavelmente se misturam, tornando suas vítimas progressivamente impacientes, impulsivas e insensíveis. Como recém-nascidos.

As redes sociais se tornaram, para muitos, um espaço de regressão, em que muitas imaturidades e petulâncias inaceitáveis no mundo real se tornam a regra. O mundo virtual virou espaço conveniente para se esquivar das complexidades da vida adulta e voltar à infância.

No livro "A Sociedade do Espetáculo", Guy Debord mostra como a vida social vem sendo progressivamente substituída por sua representação. Um declínio do "ser" para o "ter", e deste para o mero "aparentar". O espetáculo, segundo ele, não é uma coleção de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens.

E o espetáculo prejudica a qualidade de vida, a autenticidade, a percepção e o pensamento crítico.
De Facebook a Pinterest, de Twitter a Lulu, o espetáculo nunca para. Seu único objetivo é entreter e ser prontamente esquecido, para a tristeza dos que precisam trabalhar no dia seguinte.
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* Colunista da Folha
folha@luli.com.br
Fonte: Folha on line, 2/12/2013

" Internet é muito mais importante nos países pobres "


Nelson Mattos, 54

Para brasileiro do Google, educação é o maior benefício da internet, e acesso é um direito; executivo conta ter sofrido com a defasagem tecnológica na universidade
Governos devem gastar dinheiro para levar internet a todos e para ensinar a população a usar o computadores como medidas para diminuir a desigualdade social. É o que afirma Nelson Mattos, 54, vice-presidente de engenharia do Google na Europa e em países emergentes.

A empresa anunciou recentemente iniciativas para levar internet a lugares isolados do mundo --no Brasil, testes com uma tecnologia para fornecer conexão via balões será testada na Amazônia no ano que vem.

"O Google pode contribuir para a inclusão, mas não é seu papel", disse Mattos, em entrevista à Folha, durante sua passagem pelo Brasil na semana passada. Leia os principais trechos abaixo:

O que o Google ganha ao conectar mais pessoas?
A curto prazo, não há benefício direto para o Google. A longo prazo, com mais pessoas e mais empresas na internet, há mais buscas, exibimos propagandas, e o Google tem condições de faturar. Sabemos que, se o ecossistema da internet crescer, nos beneficiamos indiretamente. Não só nós, mas também todos os que se beneficiam do crescimento da internet.

E a sociedade?
O uso da internet tem benefícios em quatro grandes dimensões: na área econômica, com empregos e contribuindo para o crescimento do PIB; na cultural, com as maneiras mais rápidas de se comunicar; na saúde, com resposta rápida a catástrofes e para enviar ajuda remota a áreas pobres; e a de educação, com acesso quase ilimitado a qualquer informação e conteúdo educacional.
Essa última é a mais importante para mim, por causa da minha experiência de vida.

Qual a experiência de vida?
Venho de uma família de poucos recursos. Estudei no colégio militar, uma escola excelente, e tive a oportunidade de ir para os EUA fazer intercâmbio. Lá, morei numa cidade de 5.000 habitantes, que tinha uma biblioteca com todos os livros que eu poderia imaginar que gostaria de ler.

Imagina a biblioteca de uma cidade no Brasil com 5.000 habitantes. A diferença era monstruosa. No mestrado, senti a mesma coisa: só conseguia um estudo novo se conhecesse alguém que fora à França, aos EUA e que pudesse te dar uma cópia xerox.

Àquela época, nem e-mail existia. Estava sempre um ano ou dois atrasado em relação a meus colegas. Hoje em dia, esse problema não existe --com internet, todos acessam as mesmas informações. Você só depende de você.

O acesso, então, é o desafio.
Sim. Há pessoas no Brasil que não têm acesso, estudantes também --uma situação que é como se estivéssemos trinta anos atrás. Como é que eles vão competir com seus colegas no exterior? É por isso que digo que a internet é mais importante para os países em desenvolvimento do que para os países desenvolvidos.

Na América Latina, muitas vezes há acesso, mas é caro, a rede é ruim, congestionada. No Brasil, o setor de telefonia é um horror. Se você tenta fazer uma ligação no horário de pico, o número de vezes que ela cai é um problema. E é a mesma rede pela qual passam os dados.

Como solucionar isso?
Estamos tentando mostrar na Uganda [com o Projeto Link, para instalar fibra ótica na capital do país africano] que a melhor maneira é o governo investir em infraestrutura compartilhada, que permita que as operadoras baixem seus custos usando o mesmo cabo de fibra ótica, por exemplo.

[A infraestrutura] é o primeiro grande desafio.

Raio-X Nelson Mattos, 54

Cargo
Vice-presidente de engenharia do Google para a Europa e mercados emergentes

Carreira
Formado em ciência da computação na UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul), possui mestrado e doutorado na área feitos em Kaiserslautern (Alemanha). Foi executivo da IBM nos EUA, empresa em que chegou ao cargo de vice-presidente de tecnologias de usuários e informação no IBM Research. No Google, exerce a atual função desde 2007
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Reportagem por YURI GONZAGA DE SÃO PAULO
Fonte: Folha on line, 02/12/2013

" AMÉRICA LATINA "




LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Memorial da América Latina



O incêndio do Memorial da América Latina, com suas perdas culturais e artísticas, chama nossa atenção à simbologia do sinistro. Claro, a América Latina não ardeu em chamas; ela segue íntegra e forte. É América, sim, mas a que acrescentaram o adjetivo “latina”, não por sua posição geográfica, o que seria mais natural (vide “América do Norte”), mas à formação de sua cultura, de forte raiz latina, englobando-se nesse sintagma as línguas como definidoras: o espanhol e o português, ambas derivadas do Latim, mas não seus aspectos culturais.

Essa curiosidade na denominação, por genérica, encerra alguns preconceitos típicos de quando se quer incluir na mesma definição um conjunto de elementos diferentes entre si. O nosso país, por exemplo, conheceu uma profunda miscigenação de povos extracontinentais, a começar pelos enormes contingentes africanos que falavam de tudo, menos, e sabidamente, alguma língua latina; se suas línguas originais não vingaram íntegras, os elementos de suas culturas integraram-se ao modo de ser brasileiro a ponto de não sabermos onde uma cultura começa e onde termina a outra.



Da mesma forma, os povos indígenas eram portadores de formas de expressão linguística extremamente ricas, de um léxico refinado e de uma sintaxe complexa, que igualmente pereceu ante a língua dominante, mas que deixou marcas em nossas expressões cotidianas e que saborosamente reproduzimos. Se pensarmos nas vagas imigratórias europeias e asiáticas, o quadro torna-se ainda mais multicolorido e sedutor.

A assimilação dessas convergências não significou apenas uma mutação na área da expressão oral e escrita, mas também a composição étnica que, aqui, encontrou um dos maiores campos de sincretismos de toda natureza.

Sendo assim, a denominação “latina” pespegado à nossa América, é um constructo intelectual erudito que prima por ser redutor e, por redutor, injusto.

Não, não se quer propor nenhuma espécie de mudança no nome que aprendemos desde crianças, mas que tenhamos a consciência de que nem sempre somos senhores de nossos nomes, e que eles estão sujeitos às imposições de outras latitudes.

O incêndio do Memorial da América Latina reduziu a pó e escombros uma parcela importante de nossas melhores expressões artísticas, mas nossas culturas, essas que permeiam nosso sangue e músculos, essas são reafirmadas a cada dia de nossas vidas, e não são sujeitas ao fogo e ao perecimento.

" Popularidade com vitamina e xarope "

ARTIGOS - Paulo Brossard*
Como é sabido, a opinião pública pode sofrer alterações rápidas, quase repentinas, assim como pode manter estável período mais ou menos longo. Observadores do que se passa entre nós nos dias atuais, têm notado uma fase de certa paralisia por parte do governo quando este, pelos próprios recursos de que dispõe e das atribuições que lhe são inerentes, é o maior agente de possíveis transformações. Nesse particular, a projeção pode ser no sentido de majorar, manter ou reduzir seus fluxos, e sem falar em sua desmedida gula eleitoral, a ação governamental, em geral, parece entravada.

Os fatos do dia estão a mostrar que a maior empresa nacional está a enfrentar desconforto em razão da resistência da autoridade em suprimir as causas do fenômeno. É fato notório que os preços dos combustíveis no mercado externo têm sofrido elevações que projetam seus efeitos nos preços internos. Assim, no começo do ano, a majoração do preço do petróleo no mercado internacional importou no aumento dos custos do combustível na bomba.

A Petrobras tomou as providências no sentido de restabelecer a relação avariada; quando implantaria as medidas tidas como inevitáveis, a senhora presidente da República vetou a providência. Não faltou quem sustentasse que os preços internos seriam mantidos, e esta orientação foi anunciada como definitiva. Ocorre que a empresa, que é uma das maiores do país, vinha sofrendo o duro impacto do congelamento oficial, de modo que o mau desempenho da Petrobras num dos trimestres do ano em curso, decorreria da decisão presidencial. A questão não é de somenos, uma vez que, também é sabido, ela não tem como conviver com a atual orientação.

Nesse quadro, a senhora presidente, cuja bravura é apregoada, guardava silêncio; até que a febre se elevou a tais alturas que se tornou inafastável refazer o exame de alguns meses tanto mais se anuncia revisão dos preços internos dos combustíveis. Até aí nada há de novo. Quando novidade existisse e ela existe, essa configura uma nova componente no problema; mas a ela foi atribuída uma prevalência absoluta, para que governo e popularidade fossem confrades obrigatórios; a popularidade passou a ser a pedra de toque do governo e sua vitamina.

Ao que consta, a descoberta é devida aos talentos mágicos do marqueteiro oficial. Vale recordar que, no início do mês que acaba de findar, grande jornal estampava com todas as letras que: “apesar de ter intensificado sua situação política nos últimos quatro meses, a presidente não concretizou a previsão do marqueteiro João Santana, de que até novembro recuperaria a popularidade perdida... a recuperação foi parcial e está parada há dois meses... diferentes segmentos da sociedade, em especial os mais jovens, nunca tiveram tantas divergências em relação à atuação da presidente”.

Com efeito, o caso é cheio de paradoxos, o ministro da Fazenda cambaleia em face dos antagonismos;
a Petrobras engrossa a voz e a senhora presidente aguarda as mágicas do sumo pensador que, embora não faça parte do governo, é o detentor de seus segredos.
Este não teve um voto para adquirir o título e a missão de marqueteiro, o que não impede que ele exerça o mandarinato na República, que soma esforços para assegurar a reeleição. Do marqueteiro tudo é esperado. Duvide se quiser, mas o futuro do país pode estar nas mãos do original decifrador, criador e intérprete das intimidades da popularidade, essa é o xarope salvador dos problemas pendentes. Ainda bem que haja um mosqueteiro e um xarope, ou vice e versa, que é a mesma coisa.

Impedido de assistir à conferência de Roberto Saturnino acerca da ética, apraz-me declarar que, tendo com ele convivido frente a frente durante oito anos no Senado, posso testemunhar que ninguém possui melhores atributos para versar o tema. Sua atuação no Senado foi modelar.

Ainda bem que haja um mosqueteiro e um xarope, ou vice e versa, que é a mesma coisa.

                                      JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF

" Partido novo do Estado Mínimo "

 

Gregorio Duvivier*

Não existe nada mais deprimente que uma repartição pública. Ou que o piscinão do Sesc

A gente não é a nova direita, até porque a gente não acredita nessa coisa de esquerda e direita. As pessoas dizem isso só porque a gente defende o Estado mínimo. É claro que a gente defende: tudo o que é privado funciona. Tudo o que é público é uma droga.

Pensa bem: o mundo não seria muito melhor se fosse uma grande empresa, com wi-fi, coffee break e um bom termostato? Não existe nada mais deprimente que uma repartição pública. Ou que o piscinão do Sesc.

Todo mundo sabe que os melhores hospitais são os privados: o médico ganha melhor e o paciente é mais bem tratado. Quem sai perdendo com a privatização da saúde? O PT, que ganha uma baba com essa festa da uva que é a saúde pública. Iam perder essa bocada. Pior para eles. E para os médicos da saúde pública, que hoje em dia estão de papo para o ar e do dia para noite teriam que trabalhar que nem todo mundo.

A educação é a mesma coisa. Só mesmo privatizando para acabar com a farra dos professores. Precisava de um bom Roberto Justus para dizer: você está demitido. Duvido que ia ser essa festa --você já viu a Coca-Cola entrar em greve? Não entra. O que falta na educação é alguém para fazer a limpa e deixar só quem presta.

Aí vocês me perguntam: e aqueles que não podem pagar por educação ou por saúde? De repente, isso é bom para dar uma sacudida neles. O mundo é meritocrático. O que isso significa? Significa que eu não ralei a bunda por cinco anos numa faculdade privada das 9 às 5 da tarde pegando trânsito todo dia e tendo que fazer matérias que eu não queria, algumas inclusive de religião, para botar os meus filhos na mesma escola que o filho do motoboy que levou o meu retrovisor.

Agora, se o motoboy tiver que pagar caro pelos serviços, tudo muda. Ele pensa: "Eu tenho que trabalhar, senão não vou enriquecer, senão meu filho com leucemia não vai ter tratamento". Resultado: desemprego zero. Crescimento a toque de caixa. Não adianta: sem a obrigação de trabalhar, o povo não trabalha.

Bom mesmo era entregar o país nas mãos de um puta empresário. Tipo o Eike. Ou o presidente da Gol. Esse daí é um gênio. "Acabou essa festa de todo mundo ganhar barrinha de cereal. Agora você tem que pagar por ela. E caro." É disso que o Brasil precisa: de um bom CEO, com MBA no exterior, que manje de marketing, "people management" e Excel. Vou ligar para o Eike. Vai que ele topa. Acho que hoje em dia ele topa.
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* Colunista da Folha
Fonte: Folha on line, 02/12/2013

" Dorian "


Luiz Felipe Pondé*

Um tema sem dúvida datado: só gente cafona ainda vê rebeldia em alguma forma de sexualidade
A imortalidade é para os deuses. Em nós, ela seria uma deformação, mas nem por isso deixaremos de procurá-la e construí-la. Muitas vezes, quando vejo paquitas velhas andando pelas ruas, lembro de Dorian Gray e sua aposta na juventude eterna.
A propósito, nada deixa filhos e filhas mais envergonhados do que pais e mães que querem parecer jovens como eles. Um ridículo de doer. Impressionante como, à medida que a vida se torna mais longa, a alma se torna irrelevante.
Na obra de Oscar Wilde "O Retrato de Dorian Gray" (versão ampliada, publicada em 1891), a imagem não só envelhece no lugar de Dorian como "recolhe" a deformação da alma daquele (Dorian) que não envelhece. Esse livro é uma das maiores profecias sobre a modernidade e sobre sua aposta na redenção pelo desejo de vida eterna bela e saudável --e consequente fracasso.
Dorian é um jovem bonito e sedutor, mulheres e homens ficam enlouquecidos por ele. Sendo ele mesmo, Oscar Wilde, gay (e teve um importante affaire em sua vida que muito lhe custou), a temática gay como "rebeldia" (um tema sem dúvida datado; só gente cafona ainda vê rebeldia em alguma forma de sexualidade) perpassa o romance, mas neste é apenas um detalhe, caso contrário ele não seria mais um clássico.
Italo Calvino dizia que um clássico é um livro que nunca se acaba de ler porque o que ele tem a dizer é inesgotável. O que tem Dorian Gray a nos dizer de infinito? Algumas coisas.
Vivendo numa sociedade vitoriana bastante repressora, Oscar Wilde, esteta da moral (normalmente gente assim acha que as sensações nos formam mais profundamente do que nossas ideias --concordo com os estetas em grande parte), brinca com o niilismo hedonista como forma de resposta à falta de sentido da vida.
Dorian, eternamente jovem e belo, come todo mundo, viaja pelo mundo, come todo mundo, bebe todas, come todo mundo, mergulha no ópio, come todo mundo e volta para casa anos depois, eternamente jovem, belo e saudável.
Mas fracassa: não suporta tanta "felicidade". Só bobo "acredita" no desejo, mas, se você nunca levou o desejo ao extremo da realização, talvez não tenha noção do custo desse fato: "O tédio é o único pecado para o qual não há perdão", dizia nosso grande escritor irlandês.
Se o hedonismo apresentado por Oscar Wilde no romance trai a afetação de quem vivia antes da broxante revolução sexual dos anos 60, ainda hoje não desistimos de apostar numa forma de hedonismo, aquele que podemos definir como "safe": faço tudo, mas com camisinha e sem tabaco.
Wilde provavelmente experimentaria um enorme tédio hoje em dia, maior do que em seus anos vitorianos, porque então podíamos dar a desculpa da ignorância: hoje sabemos que já nos deixaram desejar tudo e descobrimos que não desejamos mais nada.
Talvez nunca tenham andado sobre a Terra homens e mulheres com tão pouco desejo. É o contrário do que os bonitinhos afirmam por aí: temo que, antes da água, o desejo desapareça do ecossistema.
Nós, contemporâneos, teríamos processado o pintor do retrato de Dorian Gray por não nos ter poupado do enlouquecimento da alma.
Em vez de considerar esse enlouquecimento da alma representado no retrato (a alma velha e deformada pelo excesso de desejo realizado) como o limite imposto "pelos deuses", como forma de cura da desmedida humana, nós, contemporâneos, seres sem desejo, o teríamos considerado uma falta de respeito ao nosso direito a felicidade e juventude eternas.
Mas nem por isso Dorian Gray fala menos a nossas almas apequenadas. Pelo contrário, somos quase todos o seu retrato. Figuras deformadas pelo projeto de saúde total, de egoísmo fisiológico pleno, pelo retardo mental como ideal cultural máximo e pela declaração de guerra ao amadurecimento.
Wilde nos legou como herança a aposta não de que nós seríamos Dorian Gray, jovem atormentado pela descoberta do que o deuses sempre souberam (que necessitamos da dor, da morte e do sofrimento como formas de humanização), mas sim seu retrato: um rosto que recolhe a grotesco de um mundo clean, "safe", teen e maníaco pela saúde.-----------------
* Filósofo. Escritor.
Fonte: Folha on line, 02/12/2013

domingo, 1 de dezembro de 2013

" O preço de estar online "


FÊCRIS VASCONCELLOS
Não basta mais pensar para existir: é preciso compartilhar.
 
As redes sociais na internet, que se multiplicaram desde o surgimento há cerca de 10 anos, são parte da identidade de pessoas de todas as idades e não estar nelas é, por vezes, abdicar de parte do eu na era digital.
 Mas, atenção: uma conta no Facebook, aparentemente gratuita, pode custar mais que um simples cadastro com e-mail.
Quem aceita os termos de adesão de um site do tipo, posta imagens, localização e qualquer outra informação está abrindo mão de um bem precioso: a privacidade. Não entender exatamente o que as produtoras de software e os sites estão fazendo com os seus dados custa caro.

O sucesso do aplicativo de avaliação masculina Lulu trouxe de carona uma enxurrada de manifestações contrárias à liberação de dados pessoais fornecidos às redes para terceiros. Só que essa é uma das contrapartidas pedidas pela maioria dos sites para cadastro.
 
O advogado especialista em Direito Digital, sócio do escritório Patrícia Peck Pinheiro Advogados, de São Paulo, Victor Haikal, explica que é difícil chegar a uma conclusão se essa exigência é ou não abusiva, pois não há como medir quanto valem os dados das pessoas. Além disso, não há leis específicas sobre privacidade na internet a que se possa apelar, especialmente quando o site oferece a opção de bloquear algumas informações para não permitir o acesso público, como no Facebook.

– O usuário, quando entra na rede ou usa o app, permite o acesso a seus dados, mas eles não são de propriedade da empresa. A partir do momento em que a pessoa concordou com as políticas de privacidade e não configurou a rede de modo que lhe proteja, fica difícil reclamar. Na prática, quanto mais opções derem para proteger a conta, há menos chance de reclamar – esclarece.

Vontade de participar motiva exposição

Por vezes, não é uma questão de falta de compreensão. Usuários, ainda que saibam que estão expostos, preferem abrir mão do controle a estar fora da conversa.

– Num primeiro momento, as pessoas talvez não se deem conta do que pode acontecer. Mas depois, em troca dos benefícios e para ter as práticas de sociabilidade, elas abrem mão da privacidade sem sentir. A contrapartida é prazerosa – diz Adriana Amaral, professora e pesquisadora do Pós-graduação em Comunicação da Unisinos.

Esse prazer em estar na rede não é mais o bastante para algumas pessoas. De acordo com Adriana, há um movimento – especialmente dos mais jovens – de deixar redes como o Facebook por acreditar que o preço é alto demais:

– O problema do Facebook é que ele integra todos os dados, a vida pessoal, profissional etc. Isso dá um volume e um cruzamento de dados maior. Nos deixa mais vulneráveis.

A debandada da maior rede social do mundo estaria beneficiando sites menores e mais focados, como o Pinterest (para referências visuais), o LikedIn (focado na vida profissional) e mesmo o Instagram.

– A identidade sempre foi fragmentada, num momento tu és profissional, noutro és pai de família. A internet possibilita um melhor gerenciamento desses fragmentos – explica Adriana.
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fecris.vasconcellos@zerohora.com.br
FÊCRIS VASCONCELLOS
FONTE: ZH on line, 01/12/2013

" Uma justiça sem venda, sem balança e só com a espada ??? "


Leonardo Boff*
Tradicionalmente a Justiça é representada por uma estátua que tem os olhos vendados para simbolizar a imparcialidade e a objetividade; a balança, a ponderação e a equidade; e a espada, a força e a coerção para impor o veredito.

Ao analisarmos o longo processo da Ação Penal 470 que julgou os envolvidos na dita compra de votos para os projetos do governo do PT, dentro de uma montada espetacularização mediática, notáveis juristas, de várias tendências, criticaram a falta de isenção e o caráter político do julgamento.
Não vamos entrar no mérito da Ação Penal 470 que acusou 40 pessoas. Admitamos que houve crimes, sujeitos às penas da lei. Mas todo processo judicial deve respeitar as duas regras básicas do direito: a pressunção da inocência e, em caso de dúdiva, esta deve favorecer o réu.

Em outras palavras, ninguém pode ser condenado senão mediante provas materiais consistentes; não pode ser por indícios e ilações. Se persistir a dúvida, o réu é beneficiado para evitar condenações injustas. A Justiça como instituição, desde tempos imemoriais, foi estatuída extamente para evitar que o justiciamento fosse feito pelas próprias mãos e inocentes fossem injustamente condenados mas sempre no respeito a estes dois princípios fundantes.

Parece não ter prevalecido, em alguns Ministros de nossa Corte Suprema esta norma básica do Direito Universal. Não sou eu quem o diz mas notáveis juristas de várias procedências. Valho-me de dois de notório saber e pela alta respectabilidade que granjearam entre seus pares. Deixo de citar as críticas do notável jurista Tarso Genro por ser do PT e Governador do Rio Grande do Sul.

O primeiro é Ives Gandra Martins, 88 anos, jurista, autor de dezenas de livros, Professor da Mackenzie, do Estado Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra. Politicamente se situa no pólo oposto ao PT sem sacrificar em nada seu espírito de isenção. No da 22 de setembro de 2012 na FSP numa entrevista à Mônica Bérgamo disse claramente com referência à condenação de José Direceu por formação de quadrilha: todo o processo lido por mim não contem nenhuma prova. A condenação se fez por indícios e deduções com a utilização de uma categoria jurídica questionável, utilizada no tempo do nazismo, a “teoria do domínio do fato.” José Dirceu, pela função que exercia “deveria saber”. Dispensando as provas materiais e negando o princípio da presunção de inocência e do “in dubio pro reo”, foi enquadrado na tal teoria. Claus Roxin, jurista alemão que se aprofundou nesta teoria, em entrevista à FSP de 11/11/2012 alertou para o erro de o STF te-la aplicado sem amparo em provas. De forma displicente, a Ministra Rosa Weber disse em seu voto:”Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Qual literatura jurídica? A dos nazistas ou do notável jurista do nazismo Carl Schmitt? Pode uma juiza do Supremo Tribunal Federal se permitir tal leviandade ético-jurídica?

Gandra é contundente:”Se eu tiver a prova material do crime, não preciso da teoria do domínio do fato para condenar”. Essa prova foi desprezada. Os juízes ficaram nos indícios e nas deduções. Adverte para a “monumental insegurança jurídica” que pode a partir de agora vigorar. Se algum subalterno de um diretor cometer um crime qualquer e acusar o diretor, a este se aplica a “teoria do domínio do fato” porque “deveria saber”. Basta esta acusação para condená-lo.

Outro notável é o jurista Antônio Bandeira de Mello, 77, professor da PUC-SP na mesma FSP do dia 22/11/2013. Assevera:”Esse julgamento foi viciado do começo ao fim. As condenações foram políticas. Foram feitas porque a mídia determinou. Na verdade, o Supremo funcionou como a longa manus da mídia. Foi um ponto fora da curva”.

Escandalosa e autocrática, sem consultar seus pares, foi a determinação do Ministro Joaquim Barbosa. Em princípio, os condenados deveriam cumprir a pena o mais próximo possível das residências deles. “Se eu fosse do PT” – diz Bandeira de Mello – “ou da família pediria que o presidente do Supremo fosse processado. Ele parece mais partidário do que um homem isento”. Escolheu o dia 15 de novembro, feriado nacional, para transportar para Brasília, de forma aparatosa num avião militar, os presos, acorrentados e proibidos de se comunicar. José Genuino, doente e desaconselhado de voar, podia correr risco de vida. Colocou a todos em prisão fechada mesmo aqueles que estariam em prisão semi-aberta. Ilegalmente prendeu-os antes de concluir o processo com a análise dos “embargos infringentes”.

O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa. E nós tivemos ainda que defendê-lo contra tantos preconceitos que de muitas partes ouvimos pelo fato de sua ascendência afrobrasileira. Contra isso afirmo sempre:“somos todos africanos”porque foi lá que irrompemos como espécie humana. Mas não endossamos as arbitrariedades deste Ministro culto mas raivoso. Com o Ministro Barbosa a Justiça ficou sem as vendas porque não foi imparcial, aboliu a balança porque ele não foi equilibrado. Só usou a espada para punir mesmo contra os princípios do direito. Não honra seu cargo e apequena a mais alta instância jurídica da Nação.

Ele, como diz São Paulo aos Romanos:”aprisionou a verdade na injustiça”(1,18). A frase completa do Apóstolo, considero-a dura demais para ser aplicada ao Ministro.
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* Leonardo Boff foi professor de Etica na UERJ e escreveu Etica e Moral: em busca dos fundamentos, Vozes 2003.
FONTE: http://leonardoboff.wordpress.com/2013/12/01/uma-justica-sem-venda-sem-balanca-e-so-com-a-espada/

" Sorria, você está sendo monitorado "

                                                           CLAUDIA TAJES
futon almofadas grandes.


Um dia me deu vontade de ter um futon, aquela almofada gigante que parece um colchão, sabe? Pesquisei um pouco na internet para ver preços e modelos e esqueci o assunto.
Já faz mais de um ano.
Só que, desde então, cada vez que abro o meu e-mail ou olho para a barra lateral dos anúncios do Facebook, lá está a foto de um futon a me encarar. O futon que você quer em 3 vezes sem juros, Novas padronagens para o seu futon, Encomende agora o seu futon. Não sei o que fazer para me livrar da perseguição. Já está me lembrando o filme de terror A Geladeira Diabólica, em que um refrigerador mastigava e engolia pessoas. E ainda devia ser autolimpante, porque não ficava sangue na cozinha.

Se eu sumir, favor avisar a polícia sobre o envolvimento do futon.

Sou gremista, mas não quero morar perto da Arena. O difícil é convencer as imobiliárias que vendem empreendimentos por lá. São muitos os e-mails que chegam a cada dia com lançamentos imperdíveis para começar uma nova vida no Humaitá. Até a bolha imobiliária é argumento para empurrarem um imóvel que o pobre do consumidor não quer. Seja como for, não bote o dedo no nariz e sorria. Você está sendo monitorado, e não é de hoje.
Outros produtos oferecidos especialmente para o meu perfil, segundo dizem os e-mails: creme antirrugas, armário para cozinha, celular, curso de desinibição para falar em público e conquistar pessoas, um cruzeiro, Réveillon em Camboriú, forninho do George Foreman e um pênis maior. Mas claro que sempre tem uma margem de erro. Pelo menos é o que eu espero.

Sobre o tal do aplicativo Lulu, esse que permite que as mulheres deem notas para os homens (ou que meninas deem notas para meninos, dada a infantilidade da coisa). Aqui mesmo, em uma reportagem da Zero Hora, uma usuária contumaz declarou que, se fosse criado um aplicativo para os homens avaliarem as mulheres, ela “bloquearia, porque não gosto desse tipo de exposição”. A discussão envolve tecnologia, mas o analógico ditado pimenta nos olhos dos outros é refresco nunca teve tanta atualidade.

Já um aplicativo que serve para muita coisa é o Follow the Art, desenvolvido por duas gurias de Porto Alegre, a Samantha Carvalho e a Juliana Luderitz. Basta baixar de graça na App Store e no Google Play para conhecer as exposições em cartaz na cidade, com informações e mapas.

No ano que vem o Follow the Art vai mostrar também o que acontece em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O bom da internet é isso: para cada tranqueira como o Lulu, surgem muitas e muitas ideias interessantes – o que inclui, claro, as boas bobagens. Trata-se só de escolher.

" Amigos se casando "

amigos casando
felicidades
O que faz duas pessoas quererem passar o tempo todo juntas? Que loucura é essa? O que move um casal a dividir suas fantasias, seus medos, suas manias? O que tem na cabeça dessa gente que decide casar e se expor ao imprevisível do fim do dia? Dormir lado a lado, acordar lado a lado, grudar nos finais de semana, sentir saudade e se desesperar de preocupação. O que faz alguém ceder metade do seu guarda-roupa, metade de seu quarto, metade de seus sonhos, metade de suas confidências?

O que faz um casal se acotovelar para escovar os dentes no espelho? O que pretende: dormir em paz? Como? É uma ginástica rítmica encontrar o encaixe, a conchinha, o tempo da respiração do outro na cama. E se um levanta, como não se assustar e seguir descansando? É brigar pela televisão, pelo horário de abandonar uma festa, pelo uso das folgas. É ouvir que bebeu demais, é ouvir que falta paciência e não poder mais deslizar pela grosseria impunemente. É criar vexame e ser repreendido.

Não seria mais fácil cada um seguir sua vida e seguir namorando em residências separadas, com ideais separados? Não seria mais fácil não sofrer com contratempos e dores, ser egoísta e breve, não se importar com que o outro está pensando?


O que movimenta o coração dessa gente que se entrega? Essas pessoas insistentes numa história de amor, românticas, ingênuas, que não acreditam em divórcios, apesar da metade dos amigos ser divorciada. São loucos ou desinformados? Ou os dois?

Ninguém tem vontade de avisá-los? Ninguém ficou com vontade de convencê-los a se manter longe do altar? Que p**** de amigos são estes? Que p**** de padrinhos são estes?

Que doideira é esta? Comprar o sorvete predileto e de repente ver que não está mais no congelador. Não experimentaram irmãos para ver que nada permanece no lugar durante a vida familiar?

Não pode ser normal desejar essa dependência quando os dois poderiam ser livres, sem necessidade de prestar contas para onde vai e com quem está.

Olha o esforço que estão se metendo: não há mais como sair de casa e deixar o celular desligado. Olha o quanto sofrerão de ciúmes à toa, de insegurança à toa.

É um caminho sem volta: é dizer “eu te amo” e esperar a resposta “eu te amo”, é dizer “eu te amo muito” e esperar a resposta “eu te amo muito”, é perguntar se o amor é correspondido com receio do despejo.

Para que se incomodar, hein?

Eu sei o motivo. Todo amor é um milagre. O que é o sofrimento perto da sorte de ser amado?

Todo amor é uma comoção. Os pássaros invejam os casais que podem andar de mãos dadas. Os pássaros dariam suas asas para andar de mãos dadas por cinco quadras. Todo amor é uma revolução. As árvores dariam seus frutos para dançar colados pelo menos por uma noite.

Não existe sacrifício, existe doação. Não existe renúncia, existe entrega. Não existe culpa, existe escolha. Ninguém entenderá o que vocês estão vivendo, além de vocês mesmos.

O amor é um segredo a dois. Transforma tudo o que é errado em personalidade. Transforma tudo o que é certo em lembrança.

O amor é coragem. Só pode ser feliz quem não esconde seu rosto. O amor é incurável. Não tem como trocá-lo por nada. É uma amizade cheia de desejo.

os bem casados


Vocês não precisam de explicação porque se compreendem pelo olhar. Não precisam de paz, a confiança é o início da fé. Não precisam temer problemas, basta se abraçar dentro de um beijo. Vocês nasceram sozinhos, mas jamais ficarão de novo sozinhos. Estarão se acompanhando a vida inteira, até depois do fim.

Se um esquecer, o outro vai lembrar. Se um vacilar, o outro vai amparar. São inteiros sendo dois. Mais inteiros hoje do que quando nasceram.

                 A eternidade tem inveja de vocês.
                                         


" De pés descalços "

MARTHA MEDEIROS


Para quem vive em locais quentes e com praia, andar de pés descalços não é nenhuma novidade. Já para nós, gaúchos, que passamos a metade do ano usando botas e sapatos fechados, a chegada do verão resgata o prazer de receber diretamente do solo a energia vital que circula pelo corpo todo. Posso estar dando uma importância excessiva ao fato, mas é que andar de pés descalços me remete ao menino das selvas que habitou minhas fantasias da infância, o Mogli. Sapatinhos de cristal sempre me pareceram afetados e apertados demais.

Porém, só fui me dar conta disso, conscientemente, agora, depois de ter feito a viagem pela Tailândia e Camboja que já mencionei na coluna de quarta-feira passada. O que menos levei na bagagem foi algo para calçar. Apenas um chinelo para o dia, uma rasteirinha para a noite e um par de tênis para as aventuras mais radicais – inclusive os tênis ficaram por lá: não sobreviveram às emoções off road vividas de bicicleta em torno do templo de Angkor nesse finalzinho da estação das chuvas cambojanas.

Na Tailândia, o convite para deixar os calçados na porta, antes de entrar nos lugares, é frequente, e isso me fez ter contato direto com a madeira, com o mármore, com pedras rústicas e, principalmente, com a terra: visitando plantações de arroz, andando de barco por aldeias flutuantes, visitando templos e palácios, e mesmo em restaurantes, meus pés reaprenderam a sentir, e não falo de sentir vergonha, ainda que devesse, já que os meus são poucos inspiradores para fetiches. Falo em sentir um grau de pertencimento que o costume e o conforto geralmente impedem.

Se nas vilas e cidades tive o mundo aos meus pés, o que dizer das praias de Krabi, Koh Phi Phi e demais ilhas paradisíacas do sudeste asiático? Pisava na areia de dia e inclusive à noite, jantando a poucos passos do mar, monitorada pela lua. Nem mesmo pés-de-pato coloquei para mergulhar.

Está aí o verão, que nos Estados do norte e nordeste do Brasil não é uma temporada tão diferente do inverno. Nesses casos, os pés descalços já fazem parte da indumentária habitual. Mas para os que têm apenas esses próximos meses para descer do salto, é hora de conceder-se a delícia de sentir o calor e o frio que vem da base. Perceber o seco e o úmido, o macio e o árido, o liso e o áspero – que absorvamos todas as texturas, sem se importar que esse despojamento nos roube a classe e o charme: aliás, rouba nada, a meu ver. Se, em sentido figurado, somos obrigados a manter os pés no chão o ano inteiro, que o façamos agora também literalmente, pelo simples e relaxante exercício de uma liberdade que anda cada vez menos em uso.

" O Governo assustou os empresários "


COM A PALAVRA: ANTÔNIO DELFIM NETTO

Antônio Delfim Netto é daqueles personagens que desperta admiração ou raiva, mas não indiferença. Assumiu o Ministério da Fazenda em 1967, aos 39 anos, e ainda comandou a Agricultura, em 1979, e o Planejamento de 1979 a 1985. Pilotou a fase mais longa e de maior crescimento da economia, mas deu um choque no câmbio e congelou salários. Em 13 de dezembro de 1968, assinou o AI-5, que suspendia direitos individuais. Em fevereiro passado, admitiu que voltaria a assinar. Na entrevista em seu escritório em São Paulo, diz que repetiria também as medidas econômicas do período que chama de “regime autoritário”. Mais de quatro décadas depois, segue influente. Conselheiro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, aponta temor com uma suposta disposição do governo de ter um “capitalismo sem lucro”. E virou guru. Depois que advertiu para a formação de uma “tempestade perfeita” em 2014 – fatores combinados que detonam uma crise –, ganhou eco do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Aos 85 anos, Delfim mantém a verve e a ironia. Para não dar detalhes sobre as conversas com Dilma, faz uma ginástica verbal: – Na minha opinião, é totalmente invenção da imprensa.

Como funciona sua consultoria econômica ao governo Dilma?

Você acredita na imprensa? (risos) Não existe isso. Uma vez ou outra ela me honrou com um convite, mas não sou assessor nem conselheiro. Tenho grande admiração pela presidente, é uma tecnocrata muito competente, muito trabalhadora, tem ideias todas na direção correta. Na implementação, sempre há problemas, mas ela está plantando um Brasil que vai voltar a crescer.

Quantas vezes vocês conversaram?

Nunca contei.

Então foram muitas...

Na minha opinião, é totalmente invenção da imprensa (risos).

Como vê a economista Dilma?

Ela tem uma ideia muito clara sobre a realidade. Por exemplo, o caso da energia elétrica. Precisava mesmo baixar a tarifa de energia. Talvez a antecipação dos contratos tenha sido um pouco prematura. Houve uma coincidência, o tempo andou muito mal, e foi preciso usar usinas termelétricas. Tudo isso vai ser dissipado. Daqui a dois, três anos, a baixa de energia vai ser visível, e você vai tirar proveito disso. É que no começo sempre é muito difícil mudar as coisas.

Mas o mandato atual não está mais perto do fim do que do começo?

Pode estar no começo de outro mandato. Houve um aprendizado muito grande. O governo está mudando. É muito importante para o Brasil esse acordo com o Congresso de que não se colocará em pauta medidas de aumento de despesa ou redução de receita. A situação fiscal se complicou, e isso produziu um mal-estar, levou as agências de risco a fazer ameaça de redução de rating, mas está mudando.

O senhor teme uma “tempestade perfeita” no Brasil em 2014...

É isso mesmo. Houve uma mudança importante no governo causada pela compreensão do mal-estar em relação à política fiscal, resultado também de certo desconforto com as alquimias fiscais. Caminhamos para um aumento da dívida bruta fiscal, que não é exagerada, mas é quase o dobro dos outros países emergentes. E vai haver uma redução no estímulo monetário americano. Se não forem tomadas medidas concretas, enérgicas, vai haver a tempestade perfeita, com choque de câmbio e interrupção do crédito. As medidas preventivas vão resolver. Está cada vez mais visível que o governo aprendeu. É uma coisa que eu sempre dizia e as pessoas não acreditavam: com o tempo suficiente, até o PT aprende.

O que o governo aprendeu?

A mudança na disposição do governo de colocar suas concessões com muito mais inteligência e competência do que no passado. O sucesso de Libra (primeiro leilão exclusivo de área do pré-sal), porque só participou quem quer tirar óleo. As grandes estavam tentando retardar a extração do petróleo no Brasil. Não há defeito no projeto. O sucesso no leilão de aeroportos mostra que o governo aprendeu que a concessão de serviços públicos, na verdade, é a concessão do monopólio público para o monopólio privado. E o mercado entendeu que a preocupação que a Dilma tinha com a modicidade tarifária (preço baixo para o usuário) é legítima, não uma hostilização ao setor privado. Tanto é verdade que agora está ficando cada vez mais claro que você não pode controlar as duas variáveis da concessão. Ou controla a qualidade ou a taxa de retorno. Se opta pela qualidade, a taxa de retorno vai ser fixada num leilão bem feito.

Será possível reconstruir a ponte entre a Fazenda e o empresariado?

Acho que sim. O que havia era uma desconfiança em relação ao que supunham que era a filosofia do governo. E de onde tiravam? Se ela (a presidente) quer tarifa baixa, não quer que eu tenha lucro. Agora compreenderam que a preocupação é legítima, e a modicidade será a possível.

CONEXÃO GAÚCHA Com o governador Amaral de Souza no Palácio Piratini

E preço mais alto para o usuário?

O governo entendeu que tarifa baixa
não é a que se quer, é a que pode ser obtida nos melhores leilões possíveis. Entendeu que nos leilões houve o maior progresso na teoria econômica. Leilão é coisa para profissional, não para amador. Foi amadorístico tentar fixar a taxa de retorno.

O fracasso foi pedagógico?

É claro, não há nada mais educativo do que o fracasso (risos).

Também não fracassou a redução do juro para recuperar o crescimento?

O que alavanca o crescimento não é o juro, é acordar o espírito animal dos empresários. O governo assustou os empresários. O crescimento é fundamental, dá perspectiva e coragem para investir. Quando esse crescimento diminuiu, foi atribuído a uma disposição ideológica do governo, de que era a favor do capitalismo sem lucro. E de onde tiravam essas ideias? Entre outras coisas, da pressão por tarifas menores. Foram os equívocos iniciais. Só que o governo foi aprendendo. O tempo é um fator importante. Nos últimos três, quatro meses, a orientação está mudando de forma muito significativa. Dilma está mostrando que quer o setor privado funcionando, e o setor privado está dando respostas.

O senhor é fiador da reaproximação da presidente com os empresários?

Não sou fiador, mas acho importante porque conheço os dois lados. Ela não tem restrição ao funcionamento de mercado. Empresários acham que ela pensa que eles têm visão curta, desejo muito pouco solidário de lucros muito avantajados, um certo egoísmo. Ela não pensa isso. E eles temem que ela seja uma trotskista enrustida. Ou uma brizolista, o que é ainda pior (risos), uma aluna do engenheiro. No fundo, criou-se uma distância alimentada pelos fracassos da economia. O vento de cauda acabou em 2011. O real valorizado destruiu a indústria nacional. Primeiro roubou a demanda externa, depois a interna, com a concorrência da importação. A indústria murchou.

Não há outro paradoxo entre crescimento baixo e emprego alto?

Houve uma revolução demográfica. Nos anos 60, 70, eu ficava discutindo com Roberto Campos (então ministro do Planejamento) o que seria o Brasil em 2000. O Roberto, muito mais pessimista do que eu, dizia: ‘ah, esquece, vai ser uma porcaria, 400 milhões de pobres, sujos, vai repetir a Índia e a China’. Estávamos errados. Naquele tempo, cada mulher deixava seis filhos. Hoje, deixa dois. Houve um processo civilizatório. A senhora que era doméstica virou manicure, a manicure foi para o call center. Quem usava sabão de coco agora usa Dove. Não tem como fazer esse gente voltar para o sabão de coco aumentando a taxa de juro, . Esse processo civilizatório ocorreu junto com essas dificuldades. O Brasil de hoje é muito melhor do que o de 15 anos atrás.

O bolo não foi repartido antes de crescer, ao contrário do que o senhor receitava nos anos 70?

Essa frase nunca foi minha, eu não sou idiota. O que eu disse foi que não se pode distribuir o que não produziu. O Lula repartiu o que não produziu e fez um buraco de US$ 280 bilhões de déficit em conta corrente. Hoje só tem um caminho para crescer, aumentar a produtividade. A forma mais fácil de fazer isso é aumentar a infraestrutura.

O senhor disse que Lula distribuiu sem produzir e gerou déficit, mas também que salvou o capitalismo...

(interrompendo) O Lula é um gênio, um diamante bruto, uma inteligência absolutamente fora da curva. Ele não distribuiu só fazendo déficit, produziu uma política interna de redistribuição de renda focando melhor programas que já existiam. Essa distribuição de renda começou com o Médici, com a aposentadoria para todos os velhinhos do campo. Cada um foi acrescentando algo. Quando veio o Bolsa Família, houve melhoria dramática no nível de bem-estar da sociedade brasileira.

E o aumento real do salário mínimo?

Não tem nada gratuito em economia. O preço – não precisava ter sido – foi a valorização do câmbio, usada para combater a inflação. Quando se aumenta salário acima da inflação e da produtividade, vai dar em inflação ou em déficit de conta corrente. No nosso caso, um pouquinho de cada.

Faltou fazer algo para equilibrar?

Poderíamos ter feito melhor. Houve exagero na velocidade. Mas uma coisa é segura: isso está construído. Hoje você tem 30 milhões ou 40 milhões de sujeitos no mercado, e funcionando. O Lula fez muita coisa. Houve um aprendizado, o Brasil foi aprendendo. E também não nasceu em 2002, costumava ter nascido em 1500, e continua.

Como foi a experiência de assumir o ministério bem jovem, aos 39 anos?

Eu era visto como um caipira de São Paulo. O Rio era a metrópole. Você vai com suas circunstâncias. Tinha uma situação muito favorável. A dupla Campos e Bulhões (Roberto Campos, ministro da Fazenda, e Octávio Bulhões, do Planejamento, no governo Castelo Branco) havia feito bom serviço, com reforma tributária. Havia inflação de 40%, um problema de dívida pública, mas o ajuste tinha deixado uma boa situação. Quando entramos, aproveitamos. Havia recursos. O imposto único sobre combustíveis e lubrificantes era um dinheiroduto para a infraestrutura. Naquele tempo, a carga tributária era de 24% e se investia 5% do PIB. Hoje a carga é de 36% e se investe menos de 2%.

Na crise da dívida de 1982, o senhor levou o Brasil ao FMI...

(interrompe) O Brasil foi o primeiro a sair da crise. Em 1984, não havia mais déficit em conta corrente, mas foi o último a negociar a dívida externa. Isso se deve ao Malan (Pedro, ex-ministro da Fazenda de FH). Em 1994, era preciso terminar a negociação para tornar possível o Plano Real.

A dívida e o acordo com o FMI levaram a duas décadas perdidas?

Isso é uma grande tolice. A dívida não foi feita com grande crescimento, mas quando não tinha mais condição de ampliar as exportações para pagar petróleo. Foi feita porque o governo do Brasil decidiu não acreditar no Giscard d’Estaing, que depois foi presidente da França, sobre um complô dos exportadores de petróleo. Geisel se opôs aos contratos de risco (abertura à iniciativa privada) em 1972, quando era presidente da Petrobras. Só fez em 1976, 1977, quando não tinha mais saída. O Brasil produzia 20% do petróleo que consumia.

Nada poderia ter sido diferente?

Eu deveria ter providenciado a oferta de petróleo interna mais cedo. Só cresceu no governo Figueiredo. E não foi só o Brasil. Todos os países que importavam petróleo quebraram juntos. O Geisel não tinha outra coisa a fazer, mesmo. Não tendo petróleo, só podia se endividar.

O senhor já disse que assinaria de novo o AI-5...

Exatamente.

E também tomaria as mesmas decisões na economia?

Eu repetiria o que fiz. Dizem que a gente não deveria ter crescido tanto em 1980, mas o Brasil já estava quebrado. Melhor crescer quebrado do que nada. Ia quebrar do mesmo jeito. Não tinha mais o que fazer, então seria uma idiotice não crescer.

Mas o crescimento acelerado não agravou a situação da dívida?

Por quê? Não tinha mais crédito nenhum. Nem era a dívida, era o juro que estava crescendo, e não estava mais na nossa mão, os Estados Unidos levaram o juro a 18%. É lamentável como as pessoas não olham os números e ficam repetindo. Falam no processo de substituição de importações como se fosse uma teoria, uma filosofia.
... Chargistas também abusaram do perfil redondo do perene e poderoso ministro.
O desenho básico: um círculo (rosto) e dois quadrados (óculos).

E não era?

Nunca foi, era simplesmente falta de dólar. Então, para crescer, havia três coisas: um câmbio relativamente desvalorizado e constante, um sistema tarifário que realmente protegia o mercado interno e um sistema que permitia importar o que ia exportar depois. Isso permitiu que o Brasil multiplicasse as exportações por seis em cinco anos.

Por que há incentivo ao conteúdo nacional, mas a indústria murcha?

Para resolver, é preciso sistemas estáveis, câmbio competitivo, relativamente estável, reformulação o sistema tarifário, sistema amplo e irrestrito de draw back verde-amarelo (isenção de tarifa de importação sobre insumos para exportação). É preciso liberar a indústria para importar e exportar.

Dólar a R$ 2,30 não é competitivo?
O valor anterior não era, este é um pouco mais. Os economistas nunca sabem nada sobre o câmbio, o que é uma alegria para a gente (risos).

Por que é tão difícil mexer no intrincado sistema tributário?

A guerra fiscal foi um mecanismo de legítima defesa dos Estados, abandonados pela União. Havia programas de desenvolvimento regionais. Quando isso desapareceu, o que Goiás podia fazer? Nada. A solução foi oferecer vantagens no ICMS. É um sistema terrível. As vantagens vocacionais são eliminadas por conta de tributo. O desperdício que produz é gigantesco. Mas o que está aí é produto do descaso do governo federal depois de 1984, que abandonou todo mundo à própria sorte. Se fosse o governo, aprovaria o fundo de estímulo regional e cooptaria os Estados todos para um novo arranjo, que vai eliminar tudo isso em 15, 20 anos.

É a melhor perspectiva, 15, 20 anos?

Menos do que isso não sai. Não se vai destruir a indústria que está em Goiás, mal localizada, ou no Rio Grande (pausa antes da ironia). Agora, o Rio Grande é bom, porque mandou embora até a Ford.

GENERAIS DE ESTIMAÇÃO Com Figueiredo (E),esteve na Agricultura e no Planejamento

E uma nova reforma tributária?

Claro que dá, tem de ter governo.

E não tem?

Hoje, o sistema ficou tão emaranhado que não tem como fazer. Está havendo um grande esforço na direção do ICMS, deveríamos fazer o acordo final. Os ganhos de produtividade seriam enormes.

Se há consenso, por que é tão difícil?

Porque contraria alguns interesses. É assim mesmo, tem de convencer a todos.

O senhor se referiu aos governos aos quais serviu como “regime autoritário”. Sabia o que se passava nos porões na época, não?

A administração civil era absolutamente independente, nunca houve qualquer interferência de nenhum jeito. Uma vez perguntei ao presidente Médici se havia (Delfim não pronuncia a palavra tortura), e ele me respondeu que não havia nada, só disse ‘tem uma guerra’.

E o senhor acreditou?

Acreditei. O Médici era mais sério do que parece.

Hoje o senhor sabe que havia?

Hoje todo mundo sabe. Na verdade, primeiro que o AI-5 não implicava que você torturasse alguém, isso é uma bobagem. Não tinha ninguém autorizado a maltratar alguém sob a guarda do Estado. Se alguém fez isso, deve ser punido.

SÍMBOLOS DE UMA ÉPOCA O ministro do“milagre”e o carro pré-crise do petróleo
Hoje o senhor é interlocutor da presidente Dilma, na época presa e torturada. Vocês falaram sobre isso?

Não, nunca conversei sobre isso. Ela é uma pessoa vivida, nós temos de aproveitar a Dilma, que tem características muito interessantes.

O senhor sempre foi muito discreto sobre sua vida privada...

(interrompendo) E continuo.

Como o senhor teve um neto há pouco, o Rafael, conversa sobre isso com a presidente Dilma, que gosta de falar do Gabriel, o neto dela?

Você continua acreditando na imprensa, nunca tive conversas pessoais com a presidente. Quando ela me honra com um convite, vou e discutimos sobre futebol (risos). Ela é do Internacional, mas no regime autoritário eram todos do Grêmio.

O senhor teve um problema sério de saúde em 2010...

(interrompendo) Tive um probleminha (Delfim ficou internado por 60 dias, dos quais 18 em coma em 2010).

Está se cuidando melhor?

Eu sempre me cuidei, não teve nenhuma mudança fundamental.

E o senhor tem problema com exercícios físicos...

Eu detesto, mas acho que todo mundo detesta.

Mas não faz bem para a saúde?

Isso resta provar. Estatisticamente não está provado que quem faz esporte dure mais. Ou ao menos não há prova confiável de que quem faz exercício dure mais.

O senhor tem saudade da biblioteca de 300 mil volumes doada à USP?

Poxa... Mas eu tenho uma sala lá, ainda está sendo montada. Esta semana, mandei buscar dois livros do ministro da Economia da Argentina.

Como vê o julgamento do mensalão?

Cumpriu seu papel. Em que lugar do mundo você tem um processo com a abertura que teve aqui? Com a sociedade brasileira assistindo todas as tardes, interrompendo o crescimento, para assistir a um julgamento. A impressão que eu tenho é que a maioria não sabe o que foi julgado. Cada um dá seu palpite. Terminou como tinha de terminar.
Na sala de Delfim, uma parede exibe charges do tempo em que era ministro,
enquanto no aparador ganha destaque a foto do neto Rafael, de dois anos

Quais as perspectivas de um Estado na situação financeira do Rio Grande do Sul, agora sem alívio na dívida?

Foi uma grande medida essa do governo de terminar com a ênfase nessa mudança. Talvez na letra não violasse, mas no espírito violava a Lei de Responsabilidade Fiscal. Todos os níveis de governo precisam encontrar formas de acertar as finanças. O problema do Rio Grande é muito antigo, o que aumenta as dificuldades. Admiro muito o governador Tarso Genro, que me honrou com sua amizade, mas não acredito que seja possível que os Estados continuem esperando da União algum reforço muito importante. A União, ela mesma, está hoje em situação muito delicada.

O Estado tem buscado novos financiamentos. É boa opção?

O espaço para o endividamento tem um limite, e você já atingiu esse limite. Você não consegue sequer honrar as condições para manter um nível de endividamento existente. É muito difícil encontrar saída no endividamento, é uma coisa provisória. Você tem de comparar o endividamento com a renda do Estado, na verdade tem de ter um controle do endividamento perante a renda do Estado, que já é muito grande.

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marta.sfredo@zerohora.com.br
Reportagem por MARTA SFREDO
Fonte: ZH on line, 01/12/2013

" Procastinando "


Fernando Luis Schüler*

O Brasil tem um lado tedioso. Uma teimosia encruada de não resolver certas coisas que todo mundo sabe que devem ser resolvidas. Coisas que não andam porque são delicadas, porque o equilíbrio de forças não deixa, ou simplesmente porque exigem alguma inovação. É assim com nosso Ensino Médio. Todo santo ano, os resultados do Enem mostram o mesmo: nosso sabido apartheid educacional. Durante uma ou duas semanas, como agora, o assunto entra na pauta. Depois vem o verão, e a vida segue.

O apartheid funciona assim: temos duas classes de estudantes. Há a turma do São Bento, aqui no Rio, das boas escolas privadas, em Porto Alegre ou qualquer parte do Brasil. E há os 80%, os estudantes dos colégios estaduais que alguns chamam de “escolas públicas convencionais”. Nenhuma delas figura entre as mil melhores classificadas no exame. Menos de 20% delas conseguiu um resultado acima da média nacional. Não é preciso dizer o que isto significa. A educação define o mapa das oportunidades sociais. Nossa dualidade de sistemas define a “cara” de um país que parece tomar a desigualdade como destino. E a procrastinação como vício.

A procrastinação começa pelo discurso. Um argumento comum, no Brasil, para explicar o apartheid educacional vincula o mau desempenho dos alunos à pobreza. Os alunos das escolas estatais renderiam menos porque vivem em piores condições, os pais não acompanham etc. A má qualidade não seria responsabilidade da escola, e sim da “clientela”. Escutei este argumento da boca de muita gente importante, do Ministério da Educação, da academia e da política brasileira.

O argumento é sedutor. É evidente que as condições das famílias afetam o rendimento escolar. O ponto é que elas não definem o seu resultado. É isto que vêm demonstrando os resultados obtidos pelos alunos bolsistas do ProUni. Esses alunos, de famílias com menor renda, têm um desempenho, em geral, igual ou melhor do que os alunos pagantes. Acompanho muitos deles, na instituição em que trabalho. Seu segredo? Nenhum, eles simplesmente receberam o direito de escolher onde estudar, e atribuem um enorme valor a esta oportunidade. O resto é esforço, além de uma saudável integração de “círculos sociais”.

O argumento que vincula o desempenho dos alunos à renda das famílias serve para esconder o óbvio: a falência do modelo estatal de ensino, no Brasil. A responsabilidade, por óbvio, não é dos professores, mas da crônica incapacidade, sabida e ressabida, da nossa máquina estatal, com seu cipoal burocrático, de oferecer bons serviços. Situação que penaliza exatamente os alunos cujas famílias não pressionam por uma maior qualidade de ensino. Não o fazem porque não veem alternativa. Porque a vida os levou a reduzir o nível de expectativas.

Porque os políticos e “especialistas em educação” lhes ensinaram a virtude da paciência. Paciência que não possui, parafraseando o Elio Gaspari, a turma do “andar de cima”, que matricula os filhos em bons colégios (com todo o direito) e aprecia a escola pública para os filhos dos outros.

O ProUni, criado na gestão do então ministro Tarso Genro, representa uma pequena-grande revolução brasileira. Ele sinaliza um caminho: um modelo de políticas públicas em que o Estado garante a efetividade de um direito, e a sociedade provê o serviço. O Estado faz o que sabe fazer: estabelece parâmetros de qualidade, financia, assegura o acesso em condições de igualdade. O setor privado, com ou sem fins lucrativos, faz o que sabe fazer: a gestão. A burocracia é mínima. O aluno ganha direito de escolher. O sistema traduz com perfeição a velha tese do voucher educação.

A pergunta que resta, nestes dias de discussão do Enem, é: por que não fazemos a mesma coisa no âmbito do Ensino Médio? Por que não prestamos atenção no que vem se fazendo mundo afora, sejam modelos de bolsas, como o ProUni, as charter schools, nos EUA, as “academias”, na Inglaterra? Fiz esta pergunta a diversos líderes políticos, e em geral obtive uma não resposta: seria difícil aprovar isto no Legislativo, há os sindicatos, há dificuldades técnicas, o preço das mensalidades, critérios de seleção. Mais fácil é abrir concurso, seguir a cartilha, e continuar apostando no mesmo de sempre.
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*Doutor em Filosofia pela UFRGS