terça-feira, 7 de junho de 2016

" O Inverno das Almas "

Ticiano Osório - Editor de Sua Vida - ZH
Não costumo fazer isso, mas desta vez alguma coisa me impele a anunciar publicamente: pratiquei a solidariedade.

Não costumo alardear porque acho que o que importa mesmo é a prática, é a troca que se estabelece entre a pessoa que ajudo e eu, é o sentimento íntimo de ter feito algo por alguém, sem que me bata a volúpia da vaidade (minha vaidade é outra, minhas vaidades são outras). Não costumo alardear porque essas boas ações não chegam a ser eventos bissextos, que por sua raridade merecessem propaganda — mas devo admitir: gostaria que fossem rotineiros e tenho até certa inveja daqueles que se doam de verdade, que dedicam parte de seu tempo para o exercício da cidadania, que visitam asilos, orfanatos, hospitais. Não tenho esse desprendimento, estou mais para um torcedor da beneficência do que para um benfeitor de fato. E não costumo alardear porque sentir-se bem por fazer o bem é tão gostoso que parece errado, parece, no fundo, um gesto egoísta — aliás, meu amigo Paulo Germano, ao ler estas linhas, disse-me que valia a pena citar Santo Agostinho: "Se o homem soubesse as vantagens de ser bom, seria homem de bem por egoísmo".
Mas desta vez eu vim dizer, vim alardear, porque acho que o mundo está precisando de menos discurso e mais atitude (a começar por mim mesmo) — espero, sinceramente, que a minha atitude e este meu discurso inspirem pelo menos uma pessoa. Espero que haja uma troca entre mim e a pessoa inspirada — o que eu ganho é, com o perdão da redundância, a esperança; a esperança de que a humanidade tem salvação neste mundo em que muitos só olham para si mesmos, e tantos, quando olham para o outro, o fazem para cometer barbáries.
Então desta vez eu vim dizer: estava passeando com nosso cachorro, a Filó, na sexta-feira e vi que o mais recente morador de rua da nossa quadra estava muito despreparado para aquela noite fria. Daí peguei em casa um edredom que não usamos e voltei. Tive que acordá-lo, mas acho que ele ficou agradecido. E me disse: "Deus te ajude".
Não acredito em Deus, mas naquele instante não pude deixar de me sentir reconfortado, aquecido, mais preparado para o inverno das almas.

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