sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

essa é uma ponte longe demais,e cara demais...







Luiz Dahlem*

Uma ponte longe demais

Não se trata do conhecido filme de guerra, mas da sonhada nova ponte do Guaíba, um dos únicos consensos a que milagrosamente conseguimos chegar no Rio Grande do Sul nos últimos anos. Em meio ao júbilo dos presentes à cerimônia nos armazéns do Cais Mauá, a presidenta da República anunciou a construção da ponte, exclusivamente com recursos públicos.

A previsão de entrega da obra é de cinco anos, sendo dois anos de projetos e licitação e mais três anos de construção. Se tudo correr bem, a ponte será entregue em final de 2017, mas pode ser 2018 ou 2019, nunca se sabe, quando se trata de obras públicas e da burocracia que as acompanha.

O custo direto anunciado, a preços de hoje, é de R$ 900 milhões, mas pode ser maior, como está acontecendo com as obras da Copa. Mas há mais ainda. Há o custo indireto decorrente das perdas da economia gaúcha nesse longo período de espera.

Diz-se que, por ano, 590 mil veículos ficam retidos pelo içamento do vão móvel, entre eles 3 mil ambulâncias com pacientes que vêm do Interior em busca de tratamento médico. Pode-se argumentar que mesmo que fosse adotado o projeto da Concepa, mais rápido (2014) e mais barato (R$ 780 milhões), também haveria o custo das atuais paralisações do tráfego e dos atrasos do levantamento do vão móvel.

Mesmo assim, pode-se dizer que a solução apresentada pela concessionária da freeway economizaria pelo menos uns três anos dessas perdas, o que, pelos cálculos atuais é de R$ 280 milhões por ano, mais a diferença de preço da obra.

Isso significa que estaremos pagando algo como R$ 900 milhões a mais pela ponte na modalidade escolhida. O custo total da nova ponte, então, deverá chegar a cerca de R$ 1,8 bilhão. Considerando-se o tempo de espera e o preço a ser pago, não dá para entender por que essa decisão foi adotada, pois não há razões técnicas ou econômicas capazes de justificá-la.

Sobram, logicamente, razões de natureza política. Elas, entretanto, não podem justificar essa demora e esse elevado custo para a sociedade.

Por isso, preocupa muito a possibilidade da decepção dos gaúchos em face dos resultados, comparativamente à reação de júbilo e contentamento no anúncio da construção. A conclusão a que se chega é: essa não é apenas uma ponte longe demais, mas também cara demais.

*Engenheiro mecânico

sábado, 10 de dezembro de 2011

...o amor ,para permanecer ,deve mudar sempre!







- Rodrigo da Cunha Pereira*

O amor acaba?

Os dados do IBGE divulgados em 30/11/11, de que o ano de 2010 foi recorde na taxa de divórcios, correm o risco de reforçar a descrença em uma conjugalidade duradoura e induzir a uma leitura equivocada de que a família brasileira não está bem. Certamente, esse elevado índice advém de uma demanda reprimida, cuja vazão foi dada pela mudança da legislação.

A Emenda Constitucional nº 66, de julho de 2010, facilitou e simplificou o divórcio de casais, acabando com os prazos para se formalizar o fim do casamento, e extirpou do ordenamento jurídico brasileiro o inútil e anacrônico instituto da separação judicial (antigo desquite), imprimindo mais responsabilidade aos casais. Afinal, quem deve decidir sobre o fim da própria vida conjugal não é o Estado, mas o próprio casal.

O fim do casamento não significa o fim da família, mas tão somente que aquele núcleo familiar se transformou em binuclear. Também não é o fim da felicidade. Quem tem filhos tem uma responsabilidade maior com a manutenção do casamento. Mas isto não significa que se deva manter um casamento a qualquer custo.

O divórcio, por mais sofrido e indesejável que seja, pode significar um ato de responsabilidade com a própria saúde. O cuidado com o casamento passa pela compreensão em distinguir desejo de necessidade. Muitas vezes, o divórcio não é desejo, pois imaginava-se ficar casado para sempre. Mas torna-se necessidade em razão de determinadas circunstâncias, como, por exemplo, quando há reiterado desrespeito ou até mesmo violência doméstica. Tal necessidade se impõe para se preservar ou resgatar a própria dignidade, após tantas humilhações sofridas.

Outras vezes, embora não haja necessidade de se colocar fim ao casamento, há o desejo de reconstruir uma vida nova para voltar a ser feliz. E, se não foi possível reacender o desejo com a pessoa com quem se está casado, ou vivendo em união estável, o jeito é assumir que o amor chega ao fim, criar coragem e cumprir o difícil ritual de passagem que é o divórcio.

As facilidades jurídicas para se colocar fim ao casamento trazidas pela Emenda Constitucional nº 66, ao contrário do que se pensa, vieram ajudar a preservá-lo. Na medida em que o Estado deixa de tutelar os casais, estabelecendo prazos e culpa pelo fim da conjugalidade, consequentemente imprime mais responsabilidade às pessoas pela manutenção de seus vínculos amorosos.

Foi a substituição do discurso de culpa, tão paralisante do sujeito, pelo da responsabilidade. E assim pode-se refletir melhor sobre desejo e necessidade da manutenção do casamento e até mesmo sobre o porquê de sua mantença ou não.

O amor conjugal tem prazo de validade? Afinal, o que mantém um casamento, ou o que o faz acabar? Quando permitimos que nossas neuroses cotidianas se tornem maiores que o amor, elas certamente conduzirão ao divórcio.

É aí que se começa a voltar o olhar para outra direção ou a interessar-se por outras pessoas. Em outras palavras, o amor acaba porque se começa a ver os defeitos do outro, ou começa-se a enxergar e realçar os defeitos do outro porque o desejo já não está mais ali?

Apesar de todas as facilitações para se dissolverem casamentos, apesar dos amores tão líquidos de nosso tempo, a conjugalidade continua possível e até melhor que antes. Mas dá trabalho! Vê-se na “Clínica do Direito”, agora sem tantas amarras jurídicas para se dissolver um casamento, que uma das possibilidades de o amor conjugal vencer as neuroses e o desencantamento é diluir o mal-estar, que geralmente advém de um mal-entendido, falando dele.

Dizendo de outra maneira, ao invés de “engolir sapos”, é melhor cortar o mal pela raiz, esclarecendo a causa do incômodo através do exercício da palavra, que possa ser dita e ouvida com alma, sem rancor e sem agressões. Não é fácil, mas é necessário para cuidar do amor. E, nisto, temos que aprender com as mulheres, que talvez saibam mais sobre o amor do que os homens.

De qualquer
forma, e por mais elaborações verbais que tenhamos, ainda é Platão que continua apontando o melhor caminho para tornar a conjugalidade possível: o amor, para permanecer o mesmo, deve mudar sempre.

*Presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, doutor em Direito Civil e Advogado

" sem querer interromper..."







Sem querer interromper

Martha Medeiros

Não é um defeito que mereça entrar no rol dos crimes hediondos, mas é bem chato: pessoas que falam em cima da fala da gente. Ainda nem terminamos a frase, e o nosso interlocutor já está falando junto, numa demonstração clara de que não importa o que estamos dizendo, ele próprio tem algo mais importante a dizer.

Pode parecer uma crítica, mas é, na verdade, uma autocrítica: entre essas pessoas, estou eu mesma. Minha família é ótima, alegre, desinibida, mas tem essa mania incontrolável: todos falam em cima dos outros. Não somos italianos, e sim ansiosos (nascidos e criados num país fictício chamado Ânsia).

É um costume que passa de geração para geração. Mães, pais, avós, tios, primas, todos praticam essa esquizofrenia de não permitir que ninguém termine uma fala, ninguém. A conversa é de doidos, mas as festas são animadas.

Fui incorrigível, desse mesmo jeito, por muito tempo, até que comecei a perceber o quanto a situação é desagradável para quem não faz parte da nossa árvore genealógica. Levei uns puxões de orelha das amigas, o que me salvou. Hoje, se não estou 100% curada, posso dizer que já consigo me conter um pouco.

Procuro não sair falando junto, em cima, atrapalhando o trânsito das palavras. Ouço o que o outro tem a dizer, mas ainda cometo o pecado de terminar a frase por ele. Basta que o coitado vacile na conclusão da sua argumentação, buscando uma palavra que não vem, e eu rapidamente encontro a palavra que ele procurava. Quase sempre acerto, o que não me redime. Por que raios não esperei ele próprio encerrar seu discurso? Nascida em Ânsia, num lugarejo chamado Impaciência.

Nós, os acelerados de berço, não fazemos por mal, mas precisamos nos dar conta de que duas pessoas falando juntas é a anticomunicação. Sabemos como é azucrinante ter que concluir nosso pensamento e ao mesmo tempo ouvir o que o nosso interlocutor está dizendo.

Por isso me compadeço de entrevistadores que usam um ponto eletrônico no ouvido, aquele dispositivo que permite que se receba instruções do diretor do programa. Que sufoco ouvir duas vozes ao mesmo tempo, a do entrevistado falando sobre sua obra e a do diretor avisando: “Arruma o cabelo que caiu no rosto”, “Não esquece de perguntar sobre o escândalo do ano passado”, “Corta esse chato e chama o comercial”.

Duas vozes simultâneas: adeus, diálogo. Faz alguns anos que prometi a mim mesma: não vou mais me atravessar. Vou aguardar minha vez. Esperar a amiga falar, o namorado concluir. Vou escutar. Vou respeitar. Quieta, deixa ele acabar. Ai, que aflição, não vou conseguir. Putz, não me segurei. Falei em cima, de novo.

Maria,são tantas,e únicas,muito especiais!








Marias
,de Nilson Souza



O Brasil tem mais de 13 milhões de Marias, segundo recente pesquisa que apontou os 50 nomes mais populares do país. Lá em casa tem uma, que não gosta muito de ser chamada pelo primeiro nome – e, por uma dessas inexplicáveis contradições dos casais que compartilham o mesmo teto, é exatamente o que mais me apetece chamá-la.

Maria é um nome suave, que desliza pelas cordas vocais e ganha dimensões oceânicas. Tem sonoridade. É uma sinfonia de cinco letras. Quem, com alguma rodagem na vida, nunca cantou baixinho aquele antológico verso de Ary Barroso? “Maria, o teu nome principia, na palma da minha mão...”

É um nome agradável, solito ou acompanhado. Ele se encaixa bem, antes e depois de qualquer outro. Até mesmo alguns nomes masculinos adquirem certa suavidade com a conjugação. Lembro, por exemplo, de um ex-goleiro do Internacional chamado Ademir Maria, cuja originalidade se constituía em prato cheio para os locutores esportivos em meio à fauna de apelidos viris do futebol.

Mas é no gênero feminino/feminino que Maria mais encanta. Conjuga-se com Anas, Floras, Madalenas, Ritas e Claras, além de uma infinidade de outros nomes igualmente bonitos. Também estas combinações me lembram uma música de Roberto Carlos, bela e triste, mas simbólica para evidenciar a singularidade do nome: “E não lhe chamaram/ assim como tantas/ Marias de santas/ Marias de flor./ Seria Maria/ Maria somente/ Maria semente/ de samba e de amor”.

Somente Maria já é mais raro, mas é suficiente. Maria é um nome imenso, não apenas pela conotação religiosa, mas também pelo significado. De acordo com os dicionários especializados, significa “mulher que ocupa o primeiro lugar”. Mariam, em hebraico, também significa “mares”, o que dá bem ideia da sua dimensão.

É um nome que gera nomes. Maria é nome de santa, de planta, de chá, de pássaro, de penteado, de refeição, de trem, de inseto, de peixe, de brincadeira infantil, de doce e também de estrela. As Três Marias, por capricho dos astrônomos, respondem individualmente por outros nomes, mas são conhecidas popularmente pelo genérico coletivo.

Na verdade, todas as Marias são estrelas. São tantas as Marias, que alguém pode alegar falta de originalidade na escolha do nome. É um equívoco. Nenhuma Maria é igual à outra. Todas são especiais.

Espero que a minha Maria, que, como no verso, tem olhos claros cor do dia, leia este texto para ter certeza de que também ela é única entre mais de 13 milhões.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

... numa tarde de dezembro...















Numa Tarde de Dezembro

LETICIA WIERZCHOWSKI


Todo dia, o menino está no sinal. Triste, alegre, maltrapilho, sorridente, gentil, o menino está no sinal. Eu vou e venho: do colégio, do supermercado, de uma palestra. Sozinha, acompanhada dos meus próprios meninos, e lá está o menino no sinal.

Quando tenho alguma coisa, lhe dou. Certa vez, dei-lhe um desses potinhos para fazer bolhas de sabão. Embora seja um menino alto, grande, do tamanho do meu filho mais velho, ao ganhar o brinquedo, ele sorriu como meu filho mais novo.

E vou, e venho, e o menino está lá... Um dia, nem sei bem porque






talvez porque o tenha encontrado triste, olhos da mais genuína tristeza, convido o menino para almoçar. Ele ainda não almoçou, saiu do colégio “direto pra rua”, como diz. E aceita o meu convite com um sorriso.

O menino entra no meu carro, e vamos pra minha casa. É a primeira vez dele em muitas coisas: carro, elevador (no elevador, aquele menino grande, do qual muita gente deve sentir medo por aí, aquele menino me dá a mão, com medo). É a primeira vez dele num apartamento, e ele se comporta muito bem.

E come, educadamente, dois bons pratos de comida. E agradece os pequenos presentes que lhe damos (uma bola, umas blusas para substituir a rasgada que ele veste, alguns pacotes de biscoitos, dois gibis). É um menino tão educado quanto o meu próprio menino – embora não use as palavras corretas, o sorriso, os modos, tudo nele é pura educação e respeito.

De barriga cheia, levando seus presentes, com uma lata de Coca-Cola na mão (o maior dos presentes, pelo tamanho do sorriso), vamos embora. Eu tenho hora, meu marido também. E o menino vai-se, bamboleando pela nossa rua, feliz, feliz como qualquer menino.

E eu fico ali, olhando o carro, o elevador, o prédio – e como me dói viver num país onde os meninos estão assim tão separados. Aquele ali, tão doce, e o meu menino também, tão doce – e tudo é tão injusto, e o Natal vem chegando, e enquanto o meu filho estuda para entrar de férias numa boa, o meu amigo do sinal precisa sair do colégio “direto pra rua”, porque a mãe teve bebê e não está trabalhando ultimamente.

E tenho vontade de chamar aquele menino de volta, de abrir minhas asas... Mas ele tem mãe: ela educou-o, na pobreza, com um esmero que merece o meu respeito. E sigo para a minha vida, depois desse encontro, alegre e triste ao mesmo tempo. Torcendo que haja uma segunda visita, uma segunda Coca-Cola, e um outro sorriso daqueles, dos mais bonitos que já vi na minha vida.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A verdadeira paz é a que nasce da verdade...







MARTHA MEDEIROS

O que acontece no meio


No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco, mas a que nos revela a nós mesmos

Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.

No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.

Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.

No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa.

Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.

No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença.

Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo).

Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.

No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais.

Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo


Ferreira Gullar

Preconceito cultural

Cruz e Souza e Machado de Assis foram herdeiros de tendências europeias; não se pode afirmar que faziam 'literatura negra'

De alguns anos para cá, passou-se a falar em literatura negra brasileira para definir uma literatura escrita por negros ou mulatos. Tenho dúvidas da pertinência de uma tal designação. E me lembrei de que, no campo das artes plásticas, em começos do século 20, falava-se de escultura negra, mas, creio eu, de maneira apropriada.

Naquele momento, a arte europeia questionava o caráter imitativo da linguagem plástica e descobria que as formas têm expressão autônoma, independentemente do que representem, ou seja, não é necessário que uma escultura imite um corpo de mulher para ter expressão estética, para ser arte.

As esculturas africanas, trazidas para a Europa pelos antropólogos, eram tão "modernas" quanto as dos artistas europeus de vanguarda, já que fugiam a qualquer imitação anatômica. Foram chamadas de arte negra não apenas porque as pessoas que as faziam eram da raça negra e, sim, porque constituíam uma expressão própria a sua cultura.

Não é o caso da literatura. A contribuição do negro à cultura brasileira é inestimável, a tal ponto que falar de contribuição é pouco, uma vez que ela é constitutiva dessa cultura.

O Brasil não seria o país que o mundo conhece -e que nós amamos- sem a música que tem, sem a dança que tem, criada em grande parte pelos negros.

Ninguém hoje pode imaginar este país sem os desfiles de escolas de samba, sem a dança de suas passistas, o ritmo de sua bateria, a beleza e euforia que fascinam o mundo inteiro.

Uma parte dessas manifestações artísticas é também dos brancos, mas constituem, no seu conjunto, uma expressão nova no mundo, nascida da fusão dos muitos elementos de nossa civilização mestiça.

Certamente, os estudiosos reconhecem que, sem o negro e sua criatividade, seu modo próprio de encarar a vida e mudá-la em festa e beleza, não seríamos quem somos. Mas teria sentido, agora, pretender separar, no samba, na dança, no Carnaval, o que é negro do que não é? E já imaginou se, diante disso, surgissem outros para definir, em nosso samba, o que é branco e o que é negro?

E, em função disso, se iniciasse uma disputa para saber quem mais contribuiu, se Pixinguinha ou Tom Jobim, se Ataulfo Alves ou Noel Rosa, se Cartola ou Chico Buarque?

Felizmente, isso não vai acontecer, mesmo porque, nesse terreno, ninguém se preocupa em distinguir música negra de música branca. O que há é música brasileira.

Mas, infelizmente, na literatura, essa descriminação começa a surgir. Não acredito que vá muito longe, uma vez que é destituída de fundamento, mas, de qualquer maneira, contribuirá para criar confusão.

Falar de literatura brasileira negra não tem cabimento. Os negros, que para cá vieram na condição de escravos, não tinham literatura, já que essa manifestação não fazia parte de sua cultura.

Consequentemente, foi aqui que tomaram conhecimento dela e, com os anos, passaram a cultivá-la.

Se é verdade que, nas condições daquele Brasil atrasado de então, a vasta maioria dos escravos nem sequer aprendia a ler -e não só eles, como também quase o povo todo-, com o passar dos séculos e as mudanças na sociedade brasileira, alguns de seus descendentes, não apenas aprenderam a ler como também se tornaram grandes escritores, tal é o caso de Cruz e Souza, Machado de Assis e Lima Barreto, para ficarmos nos mais célebres.

Cruz e Souza era negro; Machado de Assis, mulato, mas tanto um quanto outro foram herdeiros de tendências literárias europeias, fazendo delas veículo de seu modo particular de sentir e expressar a vida. Não se pode, portanto, afirmar que faziam "literatura negra" por terem negra ou parda a cor da pele.

Pode ser que os que falam em literatura negra pretendam valorizar a contribuição do negro à literatura brasileira. A intenção é boa, mas causa estranheza, já que o Brasil inteiro reconhece Machado de Assis como o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Pelé como um gênio do futebol e Pixinguinha, um gênio da música.

Contra toda evidência, afirmam que só quando se formar no Brasil um grande público afrodescendente os escritores negros serão reconhecidos, como se só quem é negro tivesse isenção para gostar de literatura,ou má fé.Para gostar de literatura escrita por negros,na época.

O Cheiro do Natal,de L.Augusto Fischer


LUÍS AUGUSTO FISCHER

Cheiro de Natal

O senhor não vai acreditar, mas eu agora mesmo parei de responder uma entrevista sobre Nelson Rodrigues – ano que vem será seu centenário de nascimento, motivo de festa grande no arraial da literatura – e fui preparar meu mate. Desculpe perguntar: o senhor diz “mate” ou diz “chimarrão”?

Na minha infância e no meu meio social e cultural (anos 1960, classe média-média do Quarto Distrito e descendente de alemães, respectivamente), se dizia “mate” para o mate doce, e “chimarrão” para o sem açúcar, o amargo; mas isso não é, aprendi depois, uma distinção unânime, porque na dita Metade Sul creio que o uso varia entre mate e mate doce. Eu acabei optando por mate, genericamente.

Foi abrir o pacote da erva e dali evolar-se – quase igual a “voar”, sim – o cheiro característico; uma sinapse a mais e a memória me levou longe, não a um antigo mate, mas aos antigos presépios de Natal. Na minha família, as figuras eram de gesso pintado e a gruta era papel imitando pedra, mas havia lugar para lago de espelho com patinhos e o cheiro da erva-mate, para fazer o papel de grama, de piso do cenário todo.

E aquele cheiro, este cheiro, ficava no ar pelo mês todo, até o dia de Reis, dia 6 de janeiro, quando as figuras voltavam para a caixa costumeira, para a temporada anual de repouso.

Outros cheiros se mobilizaram no arquivo morto da minha cabeça. O cheiro suado do monte de dinheiro velho que o leiteiro carregava no bolso e tirava, a cada cliente visitado (em épocas de pouco leite, ele visitava primeiro os apartamentos com crianças). O cheiro das plantas quando molhadas, no fim da tarde quente.

O cheiro da casa da praia fechada, assim que se chegava lá, depois do Natal; diretamente proporcional e ele, o cheiro da casa da cidade fechada por um mês inteiro, assim que se voltava das férias de verão.

O leitão assado da véspera; os papéis de embrulho dos presentes; os presentes de madeira ainda com um pouco de pó, os tecnológicos marcados por algum óleo, as roupas ainda com cheiro de tinta. Mas como o cheiro natalino da erva do presépio, não tem – e deve ser só nosso, gaúcho, ainda por cima.

O “mesmo”: devo registrar que assim que saiu a crônica de duas semanas atrás, falando daquela deselegante frase de advertência à entrada dos elevadores – frase que não teve o poder de evitar a trágica morte de uma senhora, semana passada –, recebi dois e-mails bem-educados e esclarecedores.

Um de Celito Brugnara, dando conta de que já há legislação estadual nova, de abril de 2010. A mensagem agora é muito mais decente: ATENÇÃO: ANTES DE ENTRAR, VERIFIQUE SE O ELEVADOR ESTÁ PARADO NESTE ANDAR. Outro de Marcelo Rosa, comunicando que a empresa Thyssen Krupp se livrou daquela redação ruim.
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Uma avenida líquida

Porto Alegre é circundada por uma imensa avenida líquida, algo que só vi parecido em Regensburg, uma cidade do sul da Alemanha. Pois agora enfim esse extraordinário patrimônio natural começa a ser aproveitado.

Leio, em reportagem de Nilson Mariano, que a hidrovia estabelecida entre a Capital e Guaíba supera todas as expectativas e só no primeiro mês de operação foram transportados 63,2 mil passageiros. A meta superou todos os cálculos da concessionária, que só esperavam alcançá-la em meio ano.

Não é de surpreender. Trata-se de um transporte fluvial com segurança, conforto e pontualidade.

A viagem ocorre em 20 minutos, com previsão de, no máximo, 60 segundos de atraso.

Já era hora de Porto Alegre redescobrir o seu rio, que os técnicos chamam de lago.

Mas o catamarã unindo a Guaíba não é a única forma de revalorizá-lo. Já uma outra e promissora perspectiva desenha-se no horizonte.

Nos próximos anos acabará em definitivo o divórcio entre a cidade e uma das mais belas paisagens do Brasil.

Caminha a passos largos o aproveitamento do Cais Mauá, completamente revitalizado, o que nos colocará no nível de Puerto Madero, em Buenos Aires, e da orla de Barcelona.

Será um passo gigantesco rumo à revalorização da metrópole, talvez a obra mais importante deste século na antiga aldeia dos casais açorianos.

Com isso, acabará barreira do muro que separa a cidade de seu panorama mais belo. Uma estreita mentalidade tecnocrática decretou que a Capital virasse as costas para o seu rio.

E não apenas para este, mas para todo um tesouro de ilhas, colinas, espelhos líquidos.

Pois isso agora vai acabar.

Porto Alegre, com a hidrovia e a restauração do Cais Mauá, reencontra a sua vocação de moça bonita, à espera de seus enamorados, que somos todos nós.

Época de promessas e sonhos,viradas...







DIANA CORSO

Viajando nas figurinhas

Na infância, além de quadrinhos, adorava livros ilustrados. Meus preferidos eram os que passei a ler quando maior, com uma ilustração a cada muitas páginas, que sequer eram bonitos, mais fiéis que criativos. Costumava voltar à gravura de tanto em tanto, na medida em que o texto ia acrescentando um detalhe.

Por vezes, voltava só para sonhar sobre o conteúdo da obra, como se o portal para entrar na minha própria fantasia estivesse na imagem. A palavra impressa impunha seu ritmo, conduzia a imaginação, o que é bom.

É melhor entrar num labirinto desses com a certeza de ter um guia e uma saída, um fim. Até hoje sou leitora lenta, mais divago do que leio. Pena, meus livros raramente são ilustrados. Saudosa, lembro das figuras como o melhor lugar para onde ir quando queria fantasiar sobre a fantasia e recorro à capa do livro, que detesto quando não contém figuras.

Adulta descobri um tesouro: as “graphic novels”, traduzidas por “romances gráficos”. São histórias longas contadas através de quadrinhos. Os exemplos mais populares são os maravilhosos Persepolis (Marjane Satrapi) e Maus (Art Spiegelman). Ao contrário da leitura breve e desatenta que por preconceito que costuma ser atribuída ao quadrinho, elas são detalhadas na construção da linguagem visual, sempre peculiar.

Entrar numa delas é como desvendar uma novidade literária a cada vez, um novo estilo narrativo. Cada autor tem um traço, um modo de inserir as falas, personagens e ambientes se devotam à máxima eloquência.

Ali, página após página, reencontro os portais em que costumava me perder. O que na literatura era uma relação clandestina, aqui torna-se estável, reconhecida, é o centro das atenções. As imagens não valem por palavras. Elas não dizem, nos fazem dizer. Não discursam, põem nossa cabeça a falar. Nas novelas gráficas a literatura se aproxima do sonho.

Tudo isso para recomendar uma delas: Asterios Polyp (de David Mazzucchelli, Ed. Quadrinhos na Cia.). A história de um famoso arquiteto em crise, que após um incêndio que destrói seu apartamento no dia do 50° aniversário, resolve abandonar a vida que tinha. Com o dinheiro do bolso compra uma passagem até onde esse valor possa levá-lo e lá experimenta fazer tudo diferente.

É uma fantasia que já tivemos: sair para comprar uma Pepsi e nunca voltar. Fim de ano é época de promessas de mudança e de sonhar com viradas radicais. Asterios pode ser um bom cicerone nessa fantasia. Perca-se nessas imagens.

Bênção,também é,receber amor de quem menos esperamos...







MARTHA MEDEIROS

Vidas secas

Não é Graciliano Ramos, não é sobre o sertão, mas o filme francês O Garoto da Bicicleta também tem na aridez a sua força. Nada é úmido, nada é aguado, nada transborda no filme dos irmãos Jean Pierre e Luc Dardenne.

O garoto Cyrill, interpretado magnificamente pelo ator Thomas Doret, corre ou pedala em quase todas as cenas. Corre atrás de um pai que não o ama, corre atrás de uma infância que lhe foi interditada, corre atrás de promessas de afeto, corre atrás de si mesmo sem nem saber por onde começar a procurar-se.

Em cerca de 90 minutos de projeção, ele dá apenas dois meios sorrisos, o que equivale a um só, e contido. No resto do tempo, carranca, seriedade, perplexidade com um mundo que lhe virou as costas. Só quando enfim aceita a ideia de que tem um pai imprestável que nunca lhe dará os cuidados e o amor necessários, é que percebe que existe um anjo a seu lado.

O mais curioso no filme é o comportamento desse anjo: uma cabeleireira bonitona que poderia estar tocando sua vida sem nenhuma responsabilidade maior a não ser trabalhar e namorar, mas que se compromete a cuidar de um guri surgido do nada, que nem parente é. Por que ela topa abrir mão da sua tranquilidade para ser guardiã de um menino-problema?

Porque sim. Só por isso.

Poderia ser uma história sentimentaloide, mas não há meio segundo de sentimentalismo no filme. Muito estranho. Não estamos acostumados com essa escassez de drama, ao menos não aqui, abaixo da linha do Equador, onde vivemos tudo entre lágrimas e sangue, amores e ódios líquidos.

O filme mostra um menino de prováveis 11 anos, talvez 12, não mais que 13, levando todas as bordoadas que a vida pode lhe dar e mais algumas, e uma moça segurando a barra dele como se fosse uma questão de destino apenas, e não de uma escolha. Ninguém chora, ninguém berra, ninguém reclama, ninguém se exalta. E nessa economia de demonstração externa dos sentimentos, saltam no filme as dores silenciosas.

Elas. As dores silenciosas. As mais contundentes.

É um filme amparado por dois personagens extremamente raçudos. E eu fico me perguntando: quantos raçudos há entre nós? Quantas crianças que tiveram amor sonegado, que levaram essa recusa de afeto como se fosse uma pedrada na cabeça, que se deixaram cair pelo desânimo, cansaço e frustração, mas que tiveram que levantar, mesmo alquebrados, e seguir vivendo do jeito que era possível?

A maior sacanagem do mundo é não dar amor a quem não espera outra coisa. Um filho não espera outra coisa dos pais.

A maior bênção do mundo é receber amor de quem a gente menos espera. E esse amor pode vir de qualquer um

sábado, 3 de dezembro de 2011

de Marco Aurélio Freire Ferraz,educação e saúde...





Marco Aurélio Freire Ferraz

Educação e saúde, prevenir é melhor do que remediar

"Enquanto uma das preocupações é o tempo que as crianças passam na escola, nossa maior preocupação é como passam seu tempo.

Muitas das crianças passam um tempo de violência, falta de saúde e assistência básica. No entanto o que me convoca a escrita dessas linhas é falar de saúde, parceria e conquistas, de um serviço que é público e que é nosso, orientadores educacionais das escolas da região pertencentes aos territórios de atendimento do Posto de Pronto Atendimento da Cruzeiro do Sul, carinhosamente chamado de "Postão da Vila Cruzeiro", um posto que não pode ser tratado no diminutivo, pois abriga em seu interior grandes trabalhos para esta comunidade, entre eles o Nasca (Núcleo de Atendimento à Saúde da Criança e do Adolescente).

O Nasca presta atendimento a nossa comunidade há bem mais de dez anos certamente, mas minha experiência com este serviço tem aproximadamente oito anos, que é o tempo em que minha escola participa das assessorias quinzenais. As assessorias são momentos de encontro de demandas de todas as escolas da região, onde cada uma é acolhida a partir de uma profunda discussão com o grupo que se mantem coeso na preocupação com a saúde dos alunos. Nossos encontros são momentos de estudo, trocas de experiências, partilha de vivências, de aprendizagem e também de encaminhamento.

Estudamos cada caso que é trazido quinzenalmente pelos orientadores educacionais das escolas da região que são estudados pelo grupo, momento em que ainda arduamente falamos em prioridades, pois infelizmente com os profissionais ali disponíveis, ainda não conseguimos que todos sejam atendidos, mas não lembro de alguma assessoria que um colega tenha saído sem uma orientação ou um ombro amigo para partilhar as difíceis histórias que vivemos de nosso tempo com nossos alunos e com o tempo de vida que muitas vezes não pode esperar.

Cada dia na escola é único e já não basta mais apenas o tempo da informação, nosso tempo é da formação. Formação para saúde, para cidadania, para arte, para a cultura, para invenções de cada escola para dar conta do imenso universo que se transformou a infância contemporânea, não podemos mais apenas cuidar das crianças ou ensinar-lhes letras e números, temos que ensinar-lhes a cuidar de si em uma tenra idade, tentar minimamente que aprendam a brincar em paz com sua comunidade, com sua escola.

Para isso precisamos que nossas crianças tenham tempo de saúde. Exatamente esse tempo que aprendemos a qualificar com os profissionais do Nasca da Vila Cruzeiro, através de assessorias e parcerias incansáveis em busca de soluções.

Não sei exatamente o que vem acontecendo na cidade, mas esse serviço tornou-se fundamental na qualificação do cotidiano escolar de nossos alunos e temos uma experiência louvável de parceria entre saúde e educação. Não resolvemos todos nossos problemas, mas também não desistimos de continuar lutando em nossa batalha diária pela qualidade de vida e saúde de cada um, pois lutamos pela escola para todos, mas também lutamos pela escola para cada um.

Portanto todas as experiências merecem ser divulgadas, quando um serviço que é público não funciona, muitas são as críticas, mas quando vivenciamos um serviço que é público e histórico na região, temos que constantemente convencer nossos próprios governantes que o Nasca é nosso e é de cada dia.

A prevenção se faz com acolhimento, respeito às escolas, parceria, vontade política e respeito aos trabalhos coletivos arduamente constituídos, já aprendemos que democracia não significa tratar todos igualmente, mas tratar cada um com sua história e conquistas."

e,chegou dezembro...





ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES

Dezembro

Chegou dezembro. É o verão que se anuncia, com seus dias de sol e de calor.

Nas cidades, os estudantes se preparam para os exames de fim de ano e logo as férias, ah, as férias, ou o aceno das praias, viagens, descanso restaurador para a trabalheira do ano que está passando.

Na Campanha, o cenário é outro. O campo se enche de roseta, o que impede a gurizada a andar de pé descalço. A gurizada campeira só tem um jeito de andar sem calçado e evitar os mordiscos das incomodas rosetas: é arrastar os pés no chão. Mas atenção: com o sol forte as cobras saem das tocas e não são raros os acidentes se o guri se descuida.

Apesar das lendas de que essas serpentes atacam pessoas sem provocação, na realidade elas só picam em defesa própria quando se sentem agredidas. E há outros bichos peçonhentos pelo chão como aranhas e escorpiões – aranha caranguejeira, grande, peluda e feia, na realidade é inofensiva.

É a época dos banhos de sanga, lagoões e rios. A gurizada aprende a bracear, algumas vezes até usando duas bexigas de porco infladas como flutuadores.

No Alegrete da minha infância e adolescência, lá pelas quatro horas da tarde a gurizada amiga passava pelas casas dos outros que já estavam em férias e chamavam: “Vão ao banho!”, e lá se iam, a gente já de calção enfiado, rumo ao Valêncio, um trecho raso na curva do Ibirapuitã que ficava lá para baixo da Santa Casa.

Na água vinham as brincadeiras, a mais popular das quais era o “pataço”, quando um guri mergulhava de ponta cabeça na frente do outro e com as duas pernas fora d’água batia fortemente tentando atingir o outro guri. Quando errava, era um barulhão com a água saltando para tudo que era lado. Outra brincadeira era a luta entre dois guris, cada um montado num companheiro maior dentro d’água, tentando derrubar o “cavaleiro” adversário.

No final da tarde voltava-se para casa e antes da janta começavam as brincadeiras de rua, quase sempre nas esquinas, onde a brincadeira mais popular era o “um, dois, três, por mim”: o guri ficava com uma pedra no chão e os outros ficavam escondidos. Quem tinha a pedra ou avistava qualquer um dos escondidos batia com a pedra no chão e dizia: “Um, dois, três, por mim pelo fulano”, e o guri assim identificado estava fora do jogo.

Mas então, o dono da pedra tinha que sair para procurar os que estavam escondidos. E aí outro se aproveitava e vinha correndo, pegava a pedra e batia por cima. Mas o dono da pedra também via a correria do outro e tentava voltar o mais rápido possível, ás vezes se pechando os dois na hora de pegarem a pedra.

Era também a época das pandorgas, das bolitas e de brinquedos cíclicos, que apareciam de vez em quando, como o bilboquê, onde havia guris com extraordinária capacidade manual. E era também a época das “quadrilhas”, quase sempre inspiradas por filmes e seriados que passavam no cinema (não existia ainda TV)...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011







Mês de Dezembro,preparamo-nos,para o Natal.






Que sejam dias :

de bênçãos,e imantados da paz interior.









um belo mês de dezembro a todos,leitores.





Dezembro dia 1º-2011








CLAUDIA TAJES

Tinha um porco no meio do caminho

Agora mesmo, em algum sinal de trânsito, alguém ganha a vida fantasiado de cachorro, porquinho, cavaleiro andante, guarda da rainha e o que mais a imaginação dos publicitários mandar.

Sempre em busca da criatividade, a propaganda tenta diferenciar as dezenas de empreendimentos imobiliários, carros em promoção e outras oportunidades imperdíveis de todos os dias com distribuidores de folhetos temáticos. No caso, temáticos são os distribuidores, não os folhetos.

Basta sair de casa para encontrar garotas vestidas de operárias da construção civil, capacete amarelo e macacão, andando entre os carros com um sorriso cansado e um folheto para enfiar pela frestinha do vidro:

– Construa uma nova vida. Residencial La Maison.

Mais alguns metros, é possível ver homens e mulheres fantasiados de monstros. Estão lá o Frankenstein, o conde Drácula, múmias, caveiras, fantasmas e, quem sabe, a própria morte, vendendo uma promoção do outro mundo. As opções de fantasia, nesse tipo de propaganda, dependem do tema do folheto: mergulhe nos preços baixos, venha morar como um milionário, só louco para perder as nossas ofertas.

Distribuir folhetos na rua com uma roupa de esquiador (para vender o empreendimento que fará você se sentir nos alpes) ou de gueixa (para lançar o exclusivo flat com decoração oriental) traz, além do mico, os efeitos do calor de Porto Alegre. Horas e horas de pé, na poluição, não raro ouvindo desaforos dos motoristas e com o agravante do mormaço a cozinhar lentamente o trabalhador dentro da sua fantasia de Pluto. O publicitário que inventou isso merece arder no inferno.

É verdade que a distribuição de folhetos na rua acabou criando uma espécie de ocupação. E remunerando por ela. Mas, que isso é uma forma de propaganda que deveria ser melhor avaliada, é.

Na maioria das vezes, os impressos em quatro cores, com muitas dobras, brilhos, papéis de gramaturas altas e preços idem, terminam no lixo ou no chão, em um grande desperdício de esforço, material, tempo, dinheiro. Deve ser a propaganda menos ecologicamente correta que existe. E será que convence alguém?

De qualquer jeito, a distribuição continua. E agora mesmo, em alguma esquina, o lobo mau e os três porquinhos, bem ou mal, vão ganhando a vida.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

ah...amigo; amigaaa







"Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais.
Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é."




[Guimarães Rosa]

Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha.







'Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância. Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu pense na rua ao atravessar o amor. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu seja a vontade de rir. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu possa amar mais sem contar as horas. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu prove a comida nas panelas. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que eu possa soltar os vaga-lumes que prendi em potes. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo."




[Fabrício Carpinejar]

O Desafio do Ensino Médio





José Clovis de Azevedo*

O desafio do Ensino Médio

O Ensino Médio concentra os problemas mais graves da Educação Básica. Desde os anos 1930 que a então denominada educação secundária foi dividida em ensino propedêutico, formação geral voltada ao prosseguimento dos estudos, e educação técnica, com afunilamento profissional. Estabeleceu-se, na prática, o chamado sistema dual.

O ensino profissional para os alunos das classes menos favorecidas, e o ensino das letras e das ciências para os socialmente bem situados. Em 1971, a Lei 5.692 tentou quebrar essa dualidade, implantando compulsoriamente o ensino profissionalizante para todos. O caráter impositivo da medida e a ausência de condições materiais e intelectuais para a sua implantação determinaram seu insucesso. Desde então, o Ensino Médio perdeu a sua identidade, com resultados danosos para a juventude.

O diagnóstico desse nível de ensino revela-nos um quadro insustentável, com resultados que agridem a ética e os padrões mínimos de qualidade que se esperam de uma atividade pública financiada pelo esforço do conjunto da sociedade. Temos hoje na rede pública do Estado um índice de reprovação e abandono que reproduz a situação nacional, superior a 30%.

Ou seja, de cada mil alunos que ingressam, 300 são reprovados ou abandonam a escola. Significa que, dos aproximadamente R$ 2 bilhões que o Estado investe a cada ano no Ensino Médio, um terço perde-se no “ralo” do abandono e da reprovação. Mas mais grave que a perda material é a perda humana – os milhares de jovens que veem frustrados os sonhos de conquista de uma vida melhor pela educação.

Em tempo, o Conselho Nacional de Educação emitiu as novas diretrizes para o Ensino Médio, que irá orientar-se pelos eixos – Trabalho, Ciência, Cultura e Tecnologia – que deverão estruturar o currículo em quatro áreas: Linguagens e suas tecnologias; Ciências Humanas e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias.

Seguindo estas diretrizes, o governo do Estado colocou em discussão, desde setembro, uma ampla reforma curricular propondo um Ensino Médio que dialogue com o mundo do trabalho, embora não profissionalizante, e o Ensino Médio profissionalizante, com a educação profissional integrada à educação geral.

Esta proposta será implantada em três anos, oportunizando o amplo debate com comunidades escolares, entidades educacionais e, sobretudo, com o protagonismo dos educadores. O nosso objetivo é superar a desmotivação da nossa juventude e resgatar a identidade deste nível de ensino, possibilitando a formação de cidadãos globais humanizados e tecnicamente competentes.

*Secretário de Estado da Educação do RS

Autoajuda ,Martha Medeiros





30 de novembro de 2011
MARTHA MEDEIROS

Autoajuda

Estava lendo o divertido Tudo é Tão Simples, de Danuza Leão, quando uma senhora chegou perto, com ar de desprezo, e disse: “Não te imaginava lendo autoajuda”. Pensei em responder que Kafka e Tchekhov também são autoajuda: dos eruditos aos passatempos, todo livro escrito com honestidade ajuda. Se bobear, até mesmo embustes tipo “Como arranjar marido” ou “Como juntar o primeiro milhão antes dos 30 anos” ajudam – quer ilusão, toma ilusão.

O psicanalista Contardo Calligaris certa vez disse numa entrevista que escreve para estimular o leitor a melhorar a qualidade de sua experiência de vida, intensificando-a. E Calligaris realmente consegue esse feito, por isso o leio. Assim como leio e sublinho inúmeras citações do filósofo romeno Cioran, que me ajuda a identificar a miséria humana sob uma ótica extremamente lúcida.

Muito antes de eu descobrir Calligaris e Cioran, tive que descobrir a mim mesma, e Marina Colasanti foi, nesse sentido, minha guia espiritual. Com suas crônicas, abriu minha cabeça para a sociedade que estava se firmando no início dos anos 80, quando as mulheres assumiram um novo papel. Eu não seria a mesma se não tivesse lido seus livros (muitas garotas talvez citem hoje a autora de Comer, Rezar, Amar como divisora de águas em suas vidas – eu também adorei).

Ainda adolescente, Fausto Wolff me deu consciência política, Millôr Fernandes me ensinou a enxergar o reverso do espelho, Verissimo me incentivou a rir de mim mesma, Paulo Leminsky me fez ver que poesia não precisava ser um troço chato e Caio Fernando Abreu me apresentou um mundo sem preconceitos. Seria uma ingrata se dissesse que eles não fizeram nada além de me entreter.

Além desses autores geniais, passei também por livros maçantes que me serviram como ansiolíticos – me ajudaram a pegar no sono. Hermetismo nem sempre é sinônimo de inteligência, profundidade não é privilégio dos deprimidos e mesmo histórias bem escritas podem naufragar se forem pretensiosas.

Michael Cunnigham ajuda a manter minha humildade (nem que eu vivesse 200 anos conseguiria escrever algo minimamente parecido com Ao Anoitecer, que acaba de ser lançado), Cristovam Tezza ajuda a controlar minha inveja (que técnica!) e Dostoievski me ensina que a fúria é mais produtiva quando transformada em arte.

Qualquer tipo de arte, aliás. Música de Autoajuda? Existe. Cazuza, por exemplo, já estimulou minha indignação com o país, Ney Matogrosso me faz sentir sensual, Jorge Ben sempre me alegra e Chico Buarque diversas vezes me comoveu, e ficar comovido é de primeira necessidade.

Existe autoajuda para todos os gostos. Tendo ou não esse propósito, nenhum livro deve ser diminuído por ter sido útil.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Falta Domínio da Língua Portuguesa,Niskier

Ausência de autoestima,
de, Arnaldo Niskier *



Não deveremos contar com o apoio total dos professores no processo de contemplar o novo perfil dos alunos, porque lhes falta a necessária autoestima

Alunos dispostos como se estivessem num ônibus lotado; aulas expositivas ao estilo "magister dixit" dos velhos tempos, com gosto dos tradicionais "trivium" e "quadrivium" da educação clássica -eis o quadro encontradiço na grande maioria das escolas brasileiras de ensino médio.

Modernidade? Só naquelas que, a duras penas, conseguiram a doação de computadores solitários.

Nos planos oficiais, os conteúdos, por intermédio das diretrizes curriculares, fizeram dez anos de serviços, alcançando uma estabilidade altamente questionável.

Quase nada muda quanto ao desenvolvimento intelectual dos alunos, embora permaneça o dispositivo constitucional da aprendizagem como direito social, devendo ser oferecida com qualidade.

Pudera, as escolas, sobretudo as públicas, operam sucateadas, sem estrutura condizente, e conduzidas por professores justamente desmotivados, em virtude da tibieza dos seus salários. No Brasil há solução para quase tudo, menos para encontrar uma resposta condigna para essa questão que vem desde meados do século passado.

É certo que o perfil do aluno está mudando. Em busca da sonhada empregabilidade, ele reivindica o domínio de línguas estrangeiras modernas (pelo menos o inglês, como segunda língua) e o conhecimento dos mistérios da internet, cujo domínio passou a ser sinônimo de status.

Há um novo e instigante perfil psicológico dos jovens -e isso o Plano Nacional de Educação, que está em discussão no Congresso, deverá contemplar, mas com uma perspectiva facilmente previsível: não deveremos contar com o apoio total dos mestres nesse processo, pois lhes falta a necessária autoestima.

Foi uma boa iniciativa alargar para nove anos a obrigatoriedade do ensino fundamental. Continuam, como desafios, os lamentáveis problemas da permanência e da conclusão, o que pode perfeitamente explicar os vazios da educação média, que sofre as consequências dos problemas trazidos da base.

Muitos jovens dessa faixa etária crucial fogem da escola, com conhecimentos precários. Muitas vezes se limitam a assinar o nome, caracterizando o que chamamos de analfabetismo funcional. Os conhecimentos de leitura e interpretação não passam de precários.

Como pretender alunos críticos, reflexivos e investigadores se lhes falta o essencial, que é o adequado domínio da língua portuguesa?

Melhorar a educação brasileira, de um modo geral, pode ser uma utopia? Depende, naturalmente, da existência de uma política séria, no setor, conduzida por pessoas competentes e desinteressadas de proveito pessoal ou político. A boa escola deixará de ser utopia quando esse quadro se modificar.

ARNALDO NISKIER, 75, é doutor em educação. Foi presidente da Academia Brasileira de Letras (gestão 98-99) e pertenceu ao Conselho Nacional de Educação.