terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

" In pectore "‘In pectore’De Temer: 'Se eu tiver de pagar um alto preço, pago com o Alexandre

COLUNISTA

Eliane Cantanhêde


O ministro Alexandre de Moraes foi desde o início o nome preferido do presidente Michel Temer para a vaga de Teori Zavascki no Supremo. Podia até não preencher os critérios da opinião pública, mas preenchia todos os critérios do próprio Temer: constitucionalista como ele, doutor pela USP, professor universitário, livros publicados, cioso do equilíbrio entre poderes e cuidadoso em matéria penal e em questões fiscais – algo fundamental em tempos de reformas.
Temer deixou inflar o número de candidatos e a cada um correspondia uma avalanche de críticas, enquanto ele avisava, conforme publicado neste espaço em 31 de janeiro: “Se eu tiver de pagar um alto preço, pago com o Alexandre”. Era uma senha: se fosse para apanhar com fulano ou beltrano, ele nomearia – como nomeou – a sua opção in pectore.
Um sinal do favoritismo de Moraes foi que ele subitamente se recolheu e ficou mudo, mas, quando Temer reforçou o Ministério da Justiça com a Segurança Pública, ficou a dúvida: se reforçou, é porque não vai trocar o ministro? Trocou, mas, antes, certificou-se de que os demais ministros acatariam bem o nome de Moraes, consultou os presidentes da Câmara e do Senado (que sabatina ministros do STF) e esperou Edson Fachin preencher a Segunda Turma e abrir caminho para Moraes na Primeira, que não tem a ver diretamente com a Lava Jato. O voto dele pesa, mas em plenário.
Além de falar demais, Moraes teve uma passagem particularmente infeliz na Justiça, quando disse que Roraima não tinha pedido ajuda federal e foi desmentido cabalmente pela governadora do Estado. Um vexame, que potencializou as críticas a um ministro que carrega uma curiosa ambiguidade: um currículo acadêmico exemplar e a imagem de superficial e desengonçado ao falar.
O mais delicado, porém, são as circunstâncias políticas. Moraes é filiado ao PSDB, foi secretário duas vezes nas gestões tucanas em São Paulo e é do primeiro escalão do governo Temer, deixando a impressão de que será uma extensão do Planalto no Supremo. Em sua tese de doutorado, como mostrou o Estado ontem, ele defendeu que a indicação de ministros do STF fosse vedada a quem exerça função de confiança do presidente, para evitar “demonstração de gratidão política”. Esqueçam o que escrevi?
Uma comparação inevitável é com Dias Toffoli, que também chegou jovem ao STF (42 anos, contra os 48 de Moraes). Ele foi advogado do PT em três campanhas presidenciais, assessor da liderança do PT e da CUT e advogado-geral da União com Lula. A diferença é que Moraes é considerado aluno brilhante, enquanto Toffoli não tem mestrado nem doutorado e levou duas bombas para juiz, antes de ir para a mais alta corte.
Assim como Toffoli, sete dos atuais ministros foram indicados por Lula ou Dilma, menos Celso de Mello (Sarney), Marco Aurélio (Collor) e Gilmar Mendes (FHC). Fachin, inclusive, apoiou publicamente a campanha de Dilma. Ou seja, não se pode dizer que Moraes vá desequilibrar o plenário... E mais: se os ministros indicados na era PT têm sido juristas e não petistas nos julgamentos, mesmo no do mensalão, é esse apartidarismo que se espera de Moraes. A ver.
Dos 28 nomes levados a Temer, um chegou a estremecer a vantagem de Moraes, o do presidente do TST, Ives Gandra Filho, com apoio de setores da Igreja Católica e das evangélicas, do empresariado, do tucanato paulista. Excessivamente conservador, atraiu um turbilhão de críticas. E, como avisou Temer, se é para pagar um alto preço com o candidato alheio, ele prefere pagar com o seu próprio. Que, agora, precisa usar menos sua loquacidade, mais seus conhecimentos jurídicos, e está como a mulher de César: além de ser honesto e independente, ele também precisa parecer.

                 O AMOR É BONDOSO

 

A química, as ciências sociais e a psicologia explicam que o segredo para manter um relacionamento depende da maneira como olhamos para o outro

Carolina Reis 

Costuma dizer-se que é um fogo que arde sem se ver. E que quando é verdadeiro não definha. E tem um jeito manso que só a alguém pertence. E que o corpo é testemunha de tudo o que faz. É dado de graça e semeado no vento. Um bicho instruído que nos faz escrever cartas ridículas e ser, igualmente, ridículos. É um verbo que dá vontade de conjugar perdidamente. Mas também é uma dor que desatina sem doer. Passamos por uma fase em que não se tem a certeza se é alegria ou tristeza. E, às vezes, no calendário, noutro mês é dor. Porque é cego e surdo e mudo, o amor. Luís de Camões, Carlos Drummond de Andrade, Caetano Veloso, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Ary dos Santos e Sérgio Godinho escreveram assim sobre e para ele. Tal como milhares de poetas que o tentaram (e tentam) descrever, dedicando-lhe versos e quadras à procura da definição perfeita. Aquela que faça quem a lê identificar-se na primeira rima, na primeira linha, no primeiro minuto.

O amor romântico — aquele que temos por um parceiro — está presente nas nossas vidas desde o início. Faz parte da cultura em que vivemos, pertence à sociedade na qual estamos inseridos. Mesmo que o conceito de casal tenha sido alargado, que uma grande maioria dos casamentos acabe em divórcio, que hoje já nasçam mais crianças de casais em união de facto do que casados de papel passado ou com votos feitos perante Deus.

Pode causar sofrimento e dor, mas está sempre presente. Na altura do Natal, quando a família pergunta se já se encontrou o tal. Nos círculos de amizade, em que se tenta arranjar par correspondente ao amigo solteiro. No sonho de ter uma família. “O amor relacional é o tema central da nossa clínica”, diz Coimbra de Matos, psiquiatra e psicanalista conhecido e reconhecido pelo estudo sobre a depressão.

Movidos e comovidos pelos versos dos poetas e pelas histórias de encantar, os sete mil milhões de humanos que habitam o planeta procuram-no. E, neste mês de janeiro — talvez inspirados pelas resoluções de ano novo —, os portugueses fazem um esforço extra e enchem os sites de encontros amorosos. “Vêm à procura de conhecer outras pessoas, descomprometidas. Querem alargar o seu círculo de conhecimentos, e, sim, encontrar namorada/namorado”, conta Miguel Moreira, responsável pelo ‘Speed Party’, um site que realiza eventos para solteiros. Nos últimos 11 anos, foram responsáveis por, pelo menos, 20 casamentos. Ainda há finais felizes.

O momento de procura, de partida para o amor é feito de incertezas. Apenas sabendo de que se terá a certeza quando for a altura do passo definitivo. E com a expectativa de que será para sempre. Foi isso que a sociedade e as histórias de encantar nos ensinaram. Porém, nem todos os relacionamentos são eternos. O amor assume muitas formas ao longo da vida. Não tem uma fórmula secreta e matematicamente certeira, mas há um caminho para o fazer durar. Não é bem científico, mas envolveu muita ciência social para o descodificar. Amar uma pessoa e querer ficar com ela para o resto da vida requer trabalho, não basta querer. É preciso querer e fazer.

Há um coração que bate, sim, mas também moléculas que se espalham pelo corpo e sentimentos que podem ser exercitados como um músculo para o fazer — ao amor — durar. “Existem dois tipos de amor: o oblativo e o contemplativo. O primeiro é o que dá amor, o segundo é egoísta e pouco benéfico. O amor relacional entre casal assenta na reciprocidade”, afirma Coimbra de Matos.

Vive, então, do parar, ouvir e responder. Numa ligação constante entre cérebro e coração. É isso que faz as mãos suar quando se avista a pessoa amada; ter borboletas no estômago que parecem reais só de pensar em quem gostamos; as pernas que tremem no momento de um beijo. “O amor é frequentemente celebrado como um fenómeno místico, muitas vezes espiritual, por vezes apenas físico, mas sempre como uma força capaz de determinar o nosso comportamento. Sem querer discutir a magia do amor do ponto de vista científico, há uma química que lhe está associada: os compostos químicos que atuam sobre o nosso corpo — o cérebro em particular — e nos transmitem sensações e comportamentos que associamos ao amor”, diz Paulo Ribeiro Claro, professor de Química na Universidade de Aveiro.

Mais importante do que descobrir a chave para o encontrar, é mantê-lo ao longo do tempo. Como impedir que o amor se torne passado, pule o muro, suba a árvore e se transforme em ferida que às vezes não sara nunca, às vezes sara amanhã, como canta a poesia de Carlos Drummond de Andrade.
Qualquer um de nós pode amar, mas para o fazer em pleno é bom que a infância tenha sido passada sem medos e com um desenvolvimento espontâneo. A raiz do presente está no passado. O que somos hoje e, por consequência, quanto conseguimos amar, depende da maneira como fomos criados. O amor que hoje temos para dar, a nossa disponibilidade para o fazer, depende da qualidade do amor que recebemos na infância, a altura em que estruturamos o nosso estilo relacional até aos cinco/seis anos. “Se a pessoa não foi amada na infância fica com deficiência afetiva. Fica com uma deficiência em receber afeto e torna-se pesada para o outro. Não consegue amar porque acha que não recebe o suficiente”, explica Coimbra de Matos. Uma definição que se pode encontrar em quem se queixa, constantemente, da vida. Pessoas que consideram que dão muito mais ao outro — incluindo o amor — do que o que recebem em troca.

Mas qualquer pessoa tem as moléculas necessárias para se apaixonar e amar. Primeiro, há a fase do desejo, em que a testosterona e o estrogénio nos levam a sair e a procurar parceiro; depois, a fase da paixão, em que as mãos transpiram, se sentem borboletas na barriga, o coração e as pernas tremem quando se vê a pessoa desejada, graças a compostos químicos que afetam o cérebro: a norepinefrina que nos excita (e acelera o bater do coração), a serotonina que nos descontrola, e a dopamina, que nos deixa felizes. Só daqui se parte para o chamado amor sóbrio, ou seja, o amor que sustenta a relação amorosa que manteremos, ou tentaremos, manter ao longo vida. E, ao mesmo tempo, tudo faremos para que nos continue a satisfazer.

                     UMA QUESTÃO HORMONAL

“Amar-me-ás em maio como em dezembro?”, perguntou um dia Jack Kerouac. Depende, também, da química. Esse tal amor sóbrio sobrevive — segundo a antropóloga Helen Fisher — devido à oxitocina e a vasopressina. A primeira, também conhecida como hormona do carinho ou do abraço, é produzida no hipotálamo que se situa no cérebro, e está associada a emoções e comportamentos sociais. É ela que diminui as resistências que temos em relação à proximidade com os outros. A vasopressina é a hormona da fidelidade. “A oxitocina é também responsável pelos orgasmos, por isso, um dia, por piada, durante uma conferência a professora Helen Fisher disse que o segredo para manter um casamento era fazer muito sexo com o parceiro e, de preferência, com muitos orgasmos”, brinca Paulo Ribeiro Claro.

Há 30 anos, um psicólogo norte-americano relacionou, cientificamente, o amor com a bondade e a generosidade. John Gottman — fundador de um instituto com o seu nome que se dedica há 40 anos a estudar a conjugalidade — juntou num laboratório da Universidade de Washington um grupo de recém-casados para ver como reagiam. Depois de testes feitos com elétrodos, em que estes respondiam a perguntas sobre o dia a dia, o laboratório do amor concluiu que os mais ativos eram os que, seis anos depois, estavam infelizes ou separados. Estes casais estavam sempre em modo ataque, mesmo quando a conversa era sobre o dia a dia ou sobre um momento agradável. Se o parceiro lhes fazia uma pergunta sobre o dia de trabalho, o outro respondia logo num tom de crítica e fazia uma pergunta de volta sobre esse mesmo dia. Gottman chamou-lhes os “desastres do amor”.
No lado oposto, os casais felizes emanavam calma e tranquilidade. Os resultados intrigaram o psicólogo, levando-o a avançar para um segundo estudo, desta vez mais centrado apenas nos casais bem-sucedidos, a que chamou “mestres do amor”. Reuniu outros recém-casados noutro laboratório na mesma universidade, mas agora em estilo bed and breakfast (pensão com pequeno-almoço), para analisar interações normais: cozinhar, ouvir música, comer, conversar ou fazer limpezas. E reparou que os bem-sucedidos, ou seja, os “mestres do amor” criavam uma cultura de intimidade e atenção. Um exemplo: imaginemos que, num casal, um dos parceiros é fã de música clássica e encontra por acaso um vinil raro de Maria Callas numa loja vintage, chega a casa e mostra-o ao outro parceiro. A maneira como este vai responder definirá o futuro daquela relação. Quem não mostrou interesse, respondendo de forma breve, respondendo de forma brusca, ou não respondendo, e continuou a fazer o que estava a fazer terá mais probabilidades de separação ou de ser infeliz naquele relacionamento. Um pouco ao jeito da canção de Caetano Veloso: “Não tá entendendo quase nada do que eu digo. Eu quero é ir-me embora Eu quero dar o fora.”

Futuro diferente têm os parceiros que pararam o seu mundo, escutaram as maravilhas da voz de Callas, e a aventura da descoberta daquele vinil encontrado numa loja perdida no meio do nada. “É a diferença entre examinar o parceiro pelo que o parceiro está a fazer de correto, de examiná-lo pelo que ele está a fazer de errado. É a diferença entre criticar o parceiro versus respeitá-lo e mostrar apreciação”, disse Gottman depois de realizar o estudo. A diferença está na bondade e generosidade que se tem com o outro. A forma como o bem-estar e felicidade do outro são encarados. Com igualdade e sem submissões, mas com partilha e envolvimento. No fundo, com bondade. E é este sentimento que mantém uma relação, que a torna duradoura. “As relações amorosas não funcionam quando um dá mais do que o outro, porque assim há sempre alguém que se sente esvaziado e alguém que se sente cheio”, frisa Coimbra de Matos. Ninguém pode amar sozinho, ninguém pode contentar-se com apenas ser amado.
Por vezes, as relações estão cheias de comportamentos tóxicos dos quais os parceiros não se apercebem, mas que corroem, quase em silêncio. Contabilizar os erros do parceiro na relação, não esquecendo os danos que trazem para o presente da relação; usar uma postura passivo/agressiva para dizer o que se pretende, em vez de se ser frontal e afirmar o que se quer; ameaçar o relacionamento em função de uma atitude, tornando-o quase como refém das decisões do parceiro como, por exemplo, pensar que o companheiro esconde algo e ameaçar terminar tudo porque não pode estar com alguém que tem segredos; culpar o parceiro pelas próprias emoções; ser ciumento ao mínimo telefonema, SMS, ou contacto do parceiro com amigos e conhecidos; resolver os problemas com presentes, por exemplo, decidir fazer uma viagem num momento de crise para tentar seguir em frente, em vez de conversar sobre a questão da discórdia, são caminhos para a rutura e a infelicidade.

Mas também há hábitos que pensamos ser tóxicos e que são saudáveis num relacionamento a dois. Gottman destrói a ideia de que tudo o que sentimos, pensamos e fazemos tem de ser debatido com o parceiro. Dizem os seus estudos que 69% dos casais felizes mantêm conflitos por resolver ao fim de dez anos, mas não estão aprisionados nessa discordância e conseguem seguir em frente. “A ideia de que todos os casais têm de comunicar e resolver todos os seus problemas é um mito”, diz no livro “What Makes Love Last”. Ao longo da sua investigação, encontra sempre uma semelhança entre casais felizes, são os que não fazem questão de analisar e debater tudo. É como se aceitassem que a vida não é perfeita e há coisas que não se resolvem. Isso não significa, porém, desonestidade. Estar disponível numa relação significa estar preparado para magoar o outro, desde que isso implique ser sincero. Não é um magoar físico ou emocional. É ser sincero, ainda que o outro fique magoado ao ouvir. E por muito que se queira manter a relação, que isso implique manter idealizada uma ideia de amor com que se cresceu, os casais devem perceber que nem tudo é para sempre. Só aceitando isto se evolui e se trabalha para manter a chama acesa. Ter-se o outro como garantido, ou dar-se por garantido não é saudável nem augura bom futuro. Outra regra de ouro é aceitar os defeitos do outro, sem o querer mudar. Ninguém pode mudar ninguém. Não há nada mais desagradável do que tentar fazer do parceiro algo que ele não é.

Uma relação é um diálogo, assente na dicotomia de perguntas e respostas. Conta também a maneira como se veem essas ações, muitas vezes o parceiro tenta fazer as coisas bem, com boas intenções, mas acaba por não conseguir. Há que apreciar as intenções. Apreciar o gesto. Isto é, ter bondade para reconhecer o esforço do outro em chegar até nós.

A diferença está na resposta

Os votos de casamento católico dizem que a união de dois seres é válida para a “saúde e a doença, a alegria e a tristeza, todos os dias da vida”. Não são palavras exclusivas dos religiosos, nem palavras vãs para momentos bonitos. São compromissos para serem interiorizados por quem dá o passo de se juntar a outro. Se conta a maneira como se reage nos momentos maus, também é relevante a forma como se dá apoio nas alturas felizes que, na generalidade, são a maioria da vida de um casal.

Num estudo de 2006, a socióloga americana Shelly Gable juntou vários jovens casais para analisar a maneira como vivenciavam os aspetos positivos das suas vidas. E distinguiu quatro formas de reação: o passivo-destrutivo; o ativo-destrutivo; o passivo-construtivo; ou o ativo-construtivo. Diferenciam-se consoante a resposta que dão aos companheiros após uma boa notícia, como uma promoção no trabalho, por exemplo. O primeiro responde com algo bom que lhe tenha acontecido nesse dia, mesmo que seja de menor importância; o segundo diminui a importância da notícia, ao perguntar, por exemplo, se acha que vai conseguir ter tempo e estofo para aquela promoção; o terceiro reconhece a boa novidade, mas não para a saborear com o parceiro, continuando a fazer o que estava a fazer antes; o quarto fica feliz, faz perguntas, envolve-se na decisão, oferece ajuda.

Esta última é uma reação baseada na bondade. Tal como dizem as escrituras do Novo Testamento. “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha”, como o apóstolo São Paulo disse aos Coríntios. Podem não existir fórmulas, porém terá de existir bondade para manter a oxitocina e a vasotosina a fervilhar. Talvez se possa dizer, para não correr riscos, que o sucesso do amor está na junção destas três componentes: infância, ciência e bondade.

“É difícil ter regras gerais que se apliquem a toda a gente. Mas é importante que o relacionamento não entre numa rotina. A rotina mata. Ou dá conflito ou esmorece”, sublinha Coimbra de Matos. Esta morte pode acontecer até em momentos de boas intenções, como quando se marca um dia fixo a dois e esse dia é sempre na mesma altura e para fazer a mesma coisa, como ir jantar fora às sextas-feiras. Ir sempre ao mesmo sítio passar férias, fazer sempre as mesmas atividades, estar sempre com o mesmo grupo de amigos: mata.

Faz falta conhecer novas pessoas, contudo, a nível social (amigos e conhecidos). Uma relação é um espaço a dois, desengane-se quem achar que pode continuar a amar o marido/mulher e encontrar um amante para os tempos livres. “O homem é capaz de te trair e de te amar ao mesmo tempo. A traição do homem é hormonal, efémera, para satisfazer a lascívia. Não é como a da mulher. Mulher tem de admirar para trair; ter algum envolvimento. O homem só precisa de uma banda. A mulher precisa de um motivo para trair, o homem precisa de uma mulher”, eternizou Arnaldo Jabor. Mas não vamos entrar na guerra dos sexos. Qualquer um pode amar, qualquer um pode trair.

O ser humano é monogâmico, logo o amor também? Depende da zona do globo em que habitamos. No norte de Moçambique, por exemplo, há uma tribo polígama em que as mulheres têm vários maridos. E quando a mulher está com um marido, os sapatos ficam à porta e todos os outros homens percebem e respeitam aquele momento de intimidade, não entrando em casa. E se alguém se sentir menos apoiado, pode recorrer a um auxiliar do amor. Em muitos países, cuja lei é regida pelo Islão, é possível a um homem ter várias mulheres. E, na Índia, continuam a existir os casamentos arranjados.
O nosso amor, o do Ocidente, é uma equação entre duas pessoas. Monogâmica. “Embora seja cultural, o ser humano é bastante exclusivo. Somos predominantemente monogâmicos, mesmo que seja uma monogamia serial, temos um parceiro de cada vez. É difícil gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. O que é possível é ter relações parciais”, frisa Coimbra de Matos. Podem existir momentos de hesitação, de dúvida, em que muitas vezes se confunde o amor com a paixão e o desejo. E que se não forem consumados, pois a traição põe em causa o amor, devem ficar guardados no interior de cada um. “Há sempre coisas que se guardam para nós próprios. É normal e natural que surjam ‘terceiras pessoas’ à nossa volta. Em fantasia, em pensamento, que sejamos livres”, continua o psicanalista.

Procura dolorosa

A norma do amor romântico, no entanto, está a mudar. “No contexto português, as pressões sociais para se seguir um determinado percurso são muito grandes e têm etapas muito marcadas: namoro, coabitação, casamento”, explica Cristina Santos, socióloga e investigadora do Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

A expectativa de vida que temos é baseada no amor. Num único amor que será para a vida. Prevalece a ideia de que só nos completamos quando encontramos outra pessoa, e isso “é extremamente violento e castrador das liberdades”. O tempo é, no entanto, de mudança. As alterações à norma vão crescendo. Começa-se a normalizar o que até aqui eram alternativas: o viver sozinho por escolha própria; o ser pai ou mãe sozinho por escolha própria. A vida amorosa e conjugal deixou de ser linear.
O mundo sempre foi evolutivo e esta não é a primeira mudança. “Antigamente, as pessoas viviam menos tempo, por isso estavam casadas menos anos”, lembra Coimbra de Matos. Há meio século não era possível um casal — como hoje acontece — celebrar 60 anos de casamento. A geração que neste anos completa esta data, cresceu e viveu numa época em que a obediência da mulher ao marido era um dado adquirido e em que o divórcio era proibido. As alterações legislativas que ocorreram desde o ano 2000 — criminalização da violência doméstica; descriminalização da IVG; adoção de crianças por parte de casais homossexuais; alargamento da procriação medicamente assistida a mulheres sozinhas e lésbicas; a possibilidade de recorrer a uma barriga de aluguer — estão também ligadas ao conceito de família e, assim, do amor.

Num programa de estudo, financiado pelo European Research Council, Cristina Santos e uma equipa de investigadores em Portugal, Espanha e Itália investigam o efeito destas alterações. Em todos os tipos de relações, como as poliamorosas, surge a bondade. “A preocupação com o bem-estar do outro. Apesar de o amor-próprio ser bastante importante.”

Muda o mundo, a norma, misturam-se os géneros. Mas há sempre uma ferida que dói e não se sente. E a maior solidão é a do ser que não ama. Mas quando houver tormenta, resta sempre a poesia. “Este céu passará e então teu riso descerá dos montes pelos rios até desaguar no nosso coração”, escreveu Ruy Belo.
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FONTE:  http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-02-05-O-amor-e-bondoso 

'Parque Cultural', do escritor russo Sergei Dovlátov, é lançado no Brasil

Aurora Bernardini* 

Sergei Dovlátov
 'Parque Cultural', livro de Sergei Dovlátov, é lançado no Brasil pela editora Kalinka 

Livro foi editado pela Kalinka e é representativo da obra do autor que se radicou nos Estados Unidos após sofrer perseguição na União Soviética
Serguei Dovlátov (1941-1990) é um nome importante não apenas na literatura russa de hoje, mas também na dos EUA, para onde emigrou (1978) e se tornou famoso como fundador do jornal O Novo Americano. Foi reconhecido por prestigiosas revistas (The New Yorker e Partisan Review), lançou 12 livros e lhe foi dedicada uma rua (Sergei Dovlátov Way, no Queens). 

Já o parque que lhe foi dedicado na Rússia, quando se tornou um autor icônico, tem a ver com esta curiosa novela, uma das mais comicamente ferinas que se possa ler na literatura atual. Acontece que na Rússia de Puchkin (1799-1837) havia uma propriedade onde o grande poeta costumava passar suas férias (e exílio), que na época da URSS foi transformada em parque cultural e monumento histórico. Um parque, aliás, onde foi recriado o ambiente da época do poeta nacional, retocado (leia-se “fajutado”), aberto à visitação pública, e onde Dovlátov trabalhou como guia turístico pouco antes de emigrar, parque esse que para Borís Alikhánov (seu alter ego, na novela) é uma alegoria da própria vida na URSS. Mas descrita com tanto humor (cáustico) pelo protagonista e narrador Alikhánov, que se autoironiza (como o Humbert Humbert de Lolita, ou o nosso Serafim Ponte Grande) dizendo, com a sua inconveniência politicamente incorreta, disparates que muitos “pensam, mas não dizem”, entremeados por generalizações comuns ao mundo inteiro (liberdade, amor, morte, impostura, vícios: em especial, sexo e bebida), expressas com uma hilariante ingenuidade nonsense que conquista a simpatia do leitor a cada página. 

Como muitos artistas, o autor recria nas obras, publicadas após sua emigração (exceto alguns contos em samizdat, cópias clandestinas que foram bem recebidas, apesar de desconstruírem o mito soviético), fatos e figuras das etapas de sua vida real. Seu malogro na literatura oficial foi, inicialmente, ele ter passado a constar, em 1968, de uma “lista negra” (do “Sarau da juventude criativa de Leningrado”) – coisa que ele só descobriu mais tarde: “Na União Soviética eu não era dissidente. (A bebedeira não conta.) Eu apenas escrevia contos alheios à ideologia. Publicam qualquer um, menos eu. As pessoas vendem a alma ao diabo, eu a dei de graça...” 

Sua infância/juventude/maturidade aparecem nos contos Os Nossos (1977), que retrata a família e os amigos; A Mala (1986), o resumo de toda sua vida na URSS; O Ofício (1985), sobre sua “carreira”; A Troca (1981), período de 5 anos em que trabalhou em Tallin como jornalista; A Zona (1982), seu serviço militar como membro da “tropa da prisão”; A Estrangeira (1986), sobre a emigrada Mússia Tataróvith; A Filial (1990) etc.  

O eixo de Parque Cultural (1983) é a separação da mulher do narrador (Tânia, na novela) que emigra com a filha para os EUA (o pai do ex-marido é judeu) bem no momento em que, apesar da bebedeira e de uma série de quiproquós com figuras impagáveis (os turistas, que às vezes desmaiavam de tensão; a metodologista, de corpo indistintamente feio; o guia preguiçoso), Alikhánov achava ter conseguido uma certa harmonia. “Decidi ponderar tudo com calma. Tentar dissipar a sensação de catástrofe, de beco sem saída. 

A vida se desenrolava como imenso campo minado. E eu estava bem no meio dele. Era necessário dividir este campo em setores e pôr mãos à obra”. Mas os fatos não o permitem, ele cai em depressão, volta ao vício e vê-se acossado pela censura que sempre, nos momentos culminantes de sua tão desejada carreira literária, reúne indícios para não publicá-lo. Estamos na véspera das Olimpíadas de 1980, época em que se procurava fazer com que os “indesejáveis” saíssem do país e – de fato –, na vida real, apesar de não querê-lo (“é possível sobreviver e continuar escrevendo longe de seu leitor e de sua língua?”), Dovlátov, com a mãe e a cachorra de estimação, acaba deixando o país, rumo aos EUA, onde, como previra seu amigo Joseph Brodsky que o admirava, terá sucesso de crítica e de público. 

Quando o escritor morreu, em 1990 (de uma parada cardíaca, consequência da bebida que nunca abandonou), a Rússia lançou oficialmente sua primeira coletânea de contos. O sucesso foi estrondoso. Sua obra completa foi publicada em três volumes (1995), saíram pesquisas, biografias, memórias, filmes, congressos, documentários sobre ele e sua obra. A casa alugada pelo escritor perto do Parque Cultural, que se encontra na aldeia que no livro aparece com o nome de Sosnovo, tornou-se sede de um museu, num parque que hoje leva seu nome.  

*Aurora Bernardini é professora de literatura russa na USP
Foto: Divulgação
Sergei Dovlátov
Capa do livro 'Parque Cultural', do escritor russo Sergei Dovlátov

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Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,parque-cultural-do-escritor-russo-sergei-dovlatov-e-lancado-no-

" Crescimento com Ética "


06 de fevereiro de 2017 | N° 18761 
EDITORIAIS



Com a eleição de aliados para a presidência nas duas casas legislativas e a oposição parlamentar visivelmente fracionada, o governo Temer reúne neste segundo mês do ano as melhores condições políticas para implementar reformas estruturais necessárias à superação da crise e ao crescimento sustentável. 

O próprio mercado já percebeu esta calmaria, como comprovam a recuperação da bolsa, a queda do dólar e a perspectiva crescente de controle da inflação. Neste contexto, o Planalto deve anunciar nesta semana a ampliação de crédito para o programa Minha Casa Minha Vida e para outros empreendimentos imobiliários, consciente de que esse setor costuma ser um indutor da geração de empregos.

Há, porém, uma nuvem escura no horizonte da pacificação política: a continuidade da Operação Lava-Jato. É inequívoco que os brasileiros querem a reforma que devolverá solidez à Previdência, assim como o crescimento econômico e a urgente geração de novos postos de trabalho. Mas a sociedade não abre mão da depuração ética representada pela punição dos responsáveis pelo maior escândalo de corrupção da história do país.

É ilusório pensar que o abraço entre políticos adversários num momento de comoção emocional, como ocorreu recentemente entre Michel Temer, Fernando Henrique e Lula, tem abrangência para garantir harmonia política no enfrentamento dos grandes problemas nacionais. Na verdade, o único ponto em comum entre as principais forças políticas do país, representadas pelos partidos de maior expressão, é o desejo inconfesso de esvaziamento da Lava-Jato, que atinge igualmente governistas e oposicionistas. Mas, depois de verem corruptos e corruptores poderosos encarcerados, os brasileiros não aceitam mais retrocessos éticos. Exigem, porque têm direito a isso, um país próspero, igualitário e com justiça social.

A MORTE DA PROFESSORA

Além de se constituir em dor incomensurável para familiares, amigos, colegas de escola e alunos, a morte brutal da professora Maria Francisca Elias, causada por bala perdida num tiroteio entre criminosos e policiais no último sábado, em Gravataí, evidencia mais uma vez que homicídios e execuções não ocorrem apenas entre delinquentes. Os cidadãos inocentes são, sim, as maiores vítimas do descalabro na segurança pública no Estado e no país.

Ainda que a indignação leve as pessoas a também “atirar” acusações para todos os lados, responsabilizando autoridades e políticos, a verdade é que existem culpados pelo absurdo, que precisam ser identificados e punidos. Não é possível que cidadãos comuns não possam passear numa tarde de sábado sem correr risco de vida.

Evidentemente, os principais causadores da barbárie que vitimou Tia Chica são os delinquentes, que cometem todo tipo de atrocidades e raramente são punidos como merecem, devido às conhecidas deficiências do sistema judiciário/prisional brasileiro. Ainda assim, também é importante conferir a atuação dos policiais envolvidos na operação, que, além da coragem e da presteza que demonstraram no atendimento da ocorrência, precisam ter também a perícia exigida para a profissão. 

Mais do que apontar o responsável pelo tiro fatal, a investigação do episódio da Morada do Vale deve ser direcionada para procedimentos preventivos a serem adotados em outros casos semelhantes, sempre no sentido de aumentar a proteção da população.

O VOO MAIS LONGO DO MUNDO CHEGA À NOVA ZELÂNDIA

Trajeto de mais de 14.500 quilômetros foi feito em 16 horas e 23 minutos.(Crédito: Reprodução)
Aterrissou nesta segunda-feira (6) na Nova Zelândia o voo comercial mais longo do mundo. Operado pela Qatar Airways, o Boeing 777-200LR fez o trajeto de mais de 14.500 quilômetros entre Doha (Qatar) e Auckland, em 16 horas e 23 minutos. “Oficialmente pousamos em Auckland”, escreveu a companhia aérea no Twitter, celebrando a primeira chegada do recém-lançado voo cinco minutos antes do horário planejado.
Havia quatro pilotos a bordo e 15 comissários, que, segundo a companhia aérea, serviram 1.100 xícaras de chá, 2 mil bebidas geladas e 1.036 refeições.
Antes, o voo comercial mais longo, operado desde março do ano passado, era o da Emirates Airlines entre Dubai e Auckland, compreendendo um trajeto de 14.200 quilômetros. (AG)

" A POLITIZAÇÃO DO STF "



07 de fevereiro de 2017 
EDITORIAIS



Depois de receber mais de 50 sugestões de nomes, o presidente Michel Temer decidiu indicar o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para a vaga de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal. É uma indicação preocupante, pois significa a troca de um magistrado técnico e discreto por um político no momento em que a Corte Suprema está sendo demandada a julgar exatamente parlamentares e governantes citados pela Operação Lava-Jato.

Ainda que tenha conhecimento jurídico suficiente para o exercício da função, Alexandre de Moraes terá que enfrentar a desconfiança gerada pela sua filiação partidária ao PSDB e também a contradição decorrente de sua tese de doutorado na Faculdade de Direito da USP. Na ocasião, Moraes defendeu o veto de candidatos ao Supremo que tivessem exercido ou estivessem exercendo cargo de confiança na administração do presidente da República responsável pela indicação. É exatamente o seu caso neste momento.

Há resistências a Alexandre Moraes também no âmbito da Operação Lava-Jato. Embora não deva atuar diretamente no caso, pois a relatoria ficou com o ministro Edson Fachin, o indicado para o lugar de Teori poderá desequilibrar a visão da Corte sobre a execução provisória de pena após a condenação em segunda instância. 

Zavascki estava entre os seis votos favoráveis, contra cinco ministros que defendiam a liberdade de condenados antes do trânsito em julgado, isto é, antes de se esgotarem todos os recursos. As condenações provisórias, como se sabe, têm sido um dos trunfos da Lava-Jato para obter delações premiadas e dar efetividade à investigação.

Todos esses pontos deveriam ser considerados pelo presidente da República na indicação do novo ministro do STF.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Lula treme


 ex-presidente Lula anda insone. Segundo amigos próximos, o petista não consegue sossegar a cabeça no travesseiro desde a prisão, há duas semanas, de Marcelo Odebrecht, presidente da maior empreiteira do País, e do executivo Alexandrino Alencar, considerados os seus principais interlocutores na empresa. Tem dormido pouco. Nem quando recebeu o diagnóstico de câncer na laringe, em 2011, o petista demonstrou estar tão apreensivo como agora. Pela primeira vez, desde a eclosão da Operação Lava Jato para investigar os desvios bilionários da maior estatal brasileira, a Petrobras, Lula teme amargar o mesmo destino dos empreiteiros. Até um mês atrás, o ex-presidente não esperava que sua história poderia lhe reservar outra passagem pela cadeia. Em 1980, o então líder sindical foi detido em casa pelo DOPS, a polícia política do regime militar. Permaneceu preso por 31 dias, chegando a dividir cela com 18 pessoas. Agora, o risco de outra prisão – desta vez em tempos democráticos – é real. Na quinta-feira 25, o tema ganhou certo frisson com a divulgação de um pedido de habeas corpus preventivo em favor do ex-presidente impetrado na Justiça Federal do Paraná. Descobriu-se logo em seguida, no entanto, que a ação considerada improcedente pelo Tribunal Regional Federal não partiu de Lula nem de ninguém ligado a ele. Mas, de fato, o político já receia pelo pior. O surto público recheado de críticas ao governo Dilma Rousseff e petardos contra o partido idealizado, fundado e tutelado por ele nos últimos 35 anos expôs, na semana passada, como os recentes acontecimentos têm deixado Lula fora do eixo.


FORA DO EIXO
Vivendo o pior momento de sua história, Lula atira contra a
própria obra. Pela primeira vez, o ex-presidente teme os
desdobramentos da Operação Lava Jato


Em privado, o ex-presidente exibe mais do que nervos à flor da pele. Na presença de amigos íntimos, parlamentares e um ex-deputado com trânsito nos tribunais superiores, Lula desabou em choro, ao comentar o processo de deterioração do PT. Como se pouco ou nada tivesse a ver com a débâcle ética, moral e eleitoral da legenda, ele lamentou: “Abrimos demais o partido. Fomos muito permissivos”, justificou. Talvez naquela atmosfera de emoção, Lula tenha recordado de suas palavras enunciadas em histórica entrevista à ISTOÉ no longínquo fevereiro de 78, quando na condição de principal líder sindical do ABC paulista começava a vislumbrar o que viria a ser o PT, criado em 1980. “Para fazer um partido dos trabalhadores é preciso reunir os trabalhadores, discutir com os trabalhadores, fazer um programa que atenda às necessidades dos trabalhadores. Aí pode nascer um partido de baixo para cima”, disse na ocasião. Hoje, o PT, depois de 12 anos no poder, não reúne mais os trabalhadores, não discute com eles, muito menos implementa políticas que observem as suas necessidades. Pelo contrário, o governo Dilma virou as costas para os trabalhadores, segundo eles mesmos, ao vetar as alterações no fator previdenciário, mudar as regras do seguro para os demitidos com carteira assinada e adotar medidas que levam à inflação e à escalada do desemprego. Agora crítico mordaz da própria obra, Lula sabe em seu íntimo que não pode se eximir da culpa pela iminente derrocada do projeto pavimentado por ele mesmo.
Restaram os desabafos, sinceros ou não, e a preocupação com o futuro. Num dos momentos de lucidez, o ex-presidente fez vaticínios impensáveis para quem, até bem pouco tempo, imaginava regressar triunfante ao Planalto daqui a três anos. Em recentes conversas particulares no Instituto que leva o seu nome, em São Paulo, Lula desenganou o governo Dilma, sucessora que ele mesmo legou ao País. “Dilma já era. Agora temos que pensar em salvar 2018”, afirmou referindo-se às eleições presidenciais. Para o petista, a julgar pelo quadro político atual, “teria sido melhor” para o projeto de poder petista e da esquerda “que (o senador tucano) Aécio Neves tivesse ganho as eleições” presidenciais do ano passado. Assim, no entender dele, o PSDB, e não o PT, ficaria com o ônus das medidas amargas tomadas na esfera econômica destinadas a tirar o País da crise, o que abriria estrada para o seu retorno em 2018. Como o seu regresso não é mais favas contadas, o petista tem confidenciado todo o seu descontentamento com a administração da presidente Dilma. Lula credita a ela e ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o avanço da Lava Jato sobre sua gestão. Embora essa hipótese ainda seja improvável, petistas ligados ao ex-presidente não descartam a possibilidade de ruptura, o que deixaria a presidente ainda mais vulnerável para enfrentar um possível processo de impeachment. A atitude, se levada adiante, não constituiria uma novidade. Em outros momentos de intensa pressão, como no auge do mensalão e do escândalo do caseiro Francenildo, Lula não se constrangeu em rifar aliados e até amigos do peito, como os ex-ministros José Dirceu, Antonio Palocci e Ricardo Berzoini.
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ISOLADA
A presidente tentou minimizar as declarações de Lula,
mas no paralelo mandou emissários procurá-lo

Quem testemunhou as confidências de Lula na ampla sala de reuniões de seu Instituto, sediado na capital paulista, não chegou a ficar surpreso com o destempero verbal apresentado pelo petista na semana passada. Não se pode dizer o mesmo da maioria expressiva da classe política, impossibilitada de privar da intimidade do ex-presidente. De tão pesados e surpreendentes, os ataques de Lula a Dilma e ao PT foram recebidos com perplexidade. O primeiro tiro foi disparado na quinta-feira 18. Numa reunião com padres e dirigentes religiosos, Lula admitiu, em alusão ao nível baixo do sistema da Cantareira, que ele e Dilma estão no volume morto. “E o PT está abaixo do volume morto”, avaliou. Na segunda-feira 22, Lula elevou ainda mais o tom. Só que contra o PT. Em debate com o ex-presidente do governo espanhol Felipe Gonzáles, disse que o partido “está velho, só pensa em cargos e em ganhar eleição”. “Queremos salvar a nossa pele, nossos cargos, ou queremos salvar o nosso projeto?”, questionou Lula, durante a conferência “Novos Desafios da Democracia”. Nos dias subseqüentes às declarações, enquanto o meio político tentava interpretar o gesto do petista, o Planalto reagia a seu modo. Num primeiro momento, Dilma minimizou.“Todos têm direito de fazer críticas, principalmente o presidente Lula”. No dia seguinte, no entanto, Dilma orientou o ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, a procurar Lula para tentar entender as razões de tamanha fúria. Paralelamente, o ex-presidente tratou de se proteger. Articulou junto à bancada do PT no Senado a divulgação de uma nota de desagravo a ele próprio. Criou, assim, mais uma jabuticaba política: fez com que o partido atacado emitisse um documento em apoio ao autor dos ataques. Na nota, o PT manifestou “total e irrestrita solidariedade ao grande presidente Lula, vítima de uma campanha pequena e sórdida de desconstrução de uma imagem que representa o que o Brasil tem de melhor”. No fim da semana, ao perceber o ar rarefeito, Lula mandou emissários espalharem o suposto reconhecimento de que ele ‘se excedeu”. Era tarde.
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ELA TIRA O SONO DELE
Integrantes da Lava Jato querem investigar suposto depósito milionário
feito em Portugal pela amiga de Lula, Rosemary Noronha

Para o cientista político da USP, José Álvaro Moisés, ao abrir confronto contra Dilma e o PT, Lula “jogou para a plateia”. “Ele está vendo o navio fazer água, por isso age assim”, avaliou. Para Oswaldo do Amaral, da Unicamp, ao dizer que o partido precisa de uma renovação, Lula tenta uma reaproximação com o eleitorado mais jovem, segmento hoje refratário a ele (leia mais em matéria na página 46). O jornalista José Nêumanne Pinto, autor do livro “O que sei de Lula”, no qual conclui que o ex-presidente nunca foi efetivamente de esquerda, é mais contundente. Para ele, “Lula é sagaz e não tem escrúpulo nenhum para mudar seu discurso”. “O ex-presidente tem circunstâncias e conveniências que ele manipula”, afirmou. “Na verdade, ele não quer se descolar do PT e sim da Dilma. Com esse discurso da utopia, ele planeja atrair parte do PT que finge ser honesto”, disse.
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O mais espantoso na catilinária lulista é que o ex-presidente se comporta como se fosse um analista distante de uma trama da qual é personagem principal. Numa analogia com o futebol, recurso metafórico muito utilizado por Lula quando estava na Presidência, seria como se o zagueiro e então capitão da seleção brasileira David Luiz descrevesse os sete gols da Alemanha como se não tivesse assistido entre atordoado e impassível ao baile de Toni Kroos, Schweinsteiger e companhia em campo. No caso do ex-presidente há um agravante: Lula nunca foi apenas um mero integrante do time, mas o mentor, o grande líder e artífice da caminhada petista até aqui. Por isso mesmo, causou ainda mais espécie a repreensão de Lula ao PT por sua sede por cargos. Ora, o aparelhamento da máquina pública pelo PT e aliados começou e recrudesceu durante os dois mandatos do petista. Quando Lula chegou ao poder em 2003, havia 18 mil cargos de confiança na administração federal. Ao transmitir o cargo para Dilma, em 2011, já eram cerca de 23 mil.
Do mesmo modo, Lula não pode lamentar, como fez em privado, que o crescimento do partido levou aos desvios éticos e à corrupção – hoje marca indissociável ao PT. O escândalo do mensalão, que resultou na condenação de dirigentes petistas em julgamento no STF, remonta ao seu governo. E o processo de abertura da legenda, bem como à rendição à política tradicional de alianças, baseada no fisiologismo e no toma lá, da cá, beneficiou o próprio Lula. Sem isso, o ex-presidente dificilmente se elegeria em 2002. Ao chegar ao Planalto, Lula cansou de dar demonstrações de que não sabia separar o público do privado. A mais chocante delas foi a ousadia de ornar os jardins do Alvorada com a estrela rubra do PT. O limite entre o público e o privado foi ultrapassado também quando Lula nomeou a amiga Rosemary Noronha para a chefia de gabinete de um escritório da Presidência em São Paulo. Hoje, Rosemary responde a uma ação na Justiça por formação de quadrilha, tráfico de influência e corrupção passiva. Ela integraria um esquema de vendas de pareceres técnicos de órgãos públicos federais. Agora, a personagem muito próxima a Lula pode retornar ao noticiário numa outra vertente das investigações da Lava Jato. Trata-se da retomada das apurações do episódio envolvendo um suposto depósito milionário feito em Portugal por Rosemary. Para a PF, o caso converge com a investigação sobre a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. É que Otávio Azevedo, preso na 14ª fase da Lava-Jato, foi representante da Portugal Telecom no Brasil. A empresa de telefonia era em grande medida controlada pelo Grupo Espírito Santo, parceiro da Odebrecht em vários empreendimentos em território português. “Tudo converge para os mesmos personagens.
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Se já houver outra investigação em curso, também podemos colaborar”, afirmou à ISTOÉ um delegado ligado a Lava Jato. Até hoje não se sabe o que houve com o ofício protocolado pelo então deputado Anthony Garotinho (PR/RJ) sobre o périplo de Rosemary em solo português. Em 2012, Garotinho denunciou o caso com base em relatos de um ex-delegado federal. Rosemary, segundo essa fonte, teria desembarcado em Lisboa com passaporte diplomático e autorização para transportar uma mala. Ao chegar à alfândega, questionada sobre o conteúdo da bagagem, teria revelado que transportava 25 milhões de euros para depositar na agência central do Banco Espírito Santo no Porto. Segundo a mesma versão, as autoridades alfandegárias sugeriram que ela contratasse uma empresa de transporte de valores. Para executar o serviço, a empresa Prosegur exigiu a contratação de um seguro, pelo que Rosemary teve de preencher uma declaração com a quantia e a titularidade dos recursos. Ela, então, teria identificado o próprio Lula como proprietário do dinheiro.
Não restam dúvidas de que a explosão do petista deriva principalmente dos rumos tomados pelas investigações da Lava Jato nas últimas semanas. Mas seus recentes arroubos guardam relação também com os resultados das últimas pesquisas de opinião. De janeiro para cá, os levantamentos mostram a vertiginosa queda de popularidade de Dilma e dele próprio, que já perderia para o senador Aécio Neves se as eleições presidenciais fossem hoje. De acordo com o último Datafolha, Aécio aparece com 10 pontos na frente de Lula. Segundo a mesma pesquisa, o governo Dilma foi reprovado por 65% dos eleitores. Este índice de reprovação só não é maior do que o do ex-presidente Fernando Collor no período pré-impeachment, em setembro de 1992. Na época, Collor era rejeitado por 68% dos brasileiros. No levantamento, o governo Dilma é classificado como bom ou ótimo por apenas 10% dos brasileiros. É a maior taxa de impopularidade da petista desde 2011. A taxa de aprovação da presidente no Sudeste é de apenas 7%. No Nordeste, histórico reduto eleitoral do PT, é de somente 14%.
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Num cenário nada alvissareiro para Dilma como o atual, em que ela está às voltas com um processo no TCU que pode até levar ao seu afastamento, o pior dos mundos para ela seria um rompimento com o padrinho político. Nesse cenário, Lula levaria com ele para o outro lado da trincheira parte do PT que hoje critica severamente a política econômica do governo. Se uma ruptura oficial é improvável, o mesmo não se pode dizer de um racha na prática, mas não declarado. O embrião do que pode vir a ser um contraponto ao governo surgiu na quarta-feira 24, em reunião na casa do senador Randolfe Rodrigues, do PSOL. Nela estavam presentes parlamentares do PSB e petistas de proa, como o ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, e o senador Lindbergh Farias (RJ). No encontro, articularam o que chamam de “Frente de Esquerda”. Se o movimento florescer, o grande responsável pela ascensão e projeção política de Dilma – o ex-presidente Lula – poderá ser também o principal artífice do seu irremediável isolamento.
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Com reportagem de Claudio Dantas Sequeira 
Colaborou Ludmilla Amaral
Fotos: Michel Filho / Agência O Globo, DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE; Jorge Araujo/Folhapress; Andre Penner/AP Photo, Ed Ferreira/Folhapress; Pedro França/Agência Senado; JOEL RODRIGUES/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO 


sábado, 4 de fevereiro de 2017

" A Vivência lúdica do Educar "

04 de fevereiro de 2017
ANTONIO PRATA



Deviam estabelecer como prova final num desses cursos que prometem estimular a criatividade: duas horas diante de um portão de embarque com uma menina de três anos e um menino de um e meio, sem choro – nem das crianças, nem dos adultos. “Tem que andar pisando só no preto. O branco é água!”. “Agora só no branco, o preto é fogo!”. “Vamos fazer chapéu de guardanapo?”. “A mala de rodinha é um trator. Quem quer andar de trator?”. “Não, Olivia, você já comeu catorze pães de queijo”. “Não, Dani, você já assistiu a quarenta e nove episódios de Masha e o Urso”.

Foi com o alívio de um maratonista avistando a linha de chegada, portanto, que no final da primeira hora (sensação térmica de seis) vi numa loja de revistas um balde cheio de ímãs. “Hematita”, segundo o vendedor, era o nome das pedrinhas cor de grafite, algo irreais em seu brilho mercúrio-Terminator sob as lâmpadas dicroicas. Peguei uma, as outras grudaram embaixo formando um cordão, uma corrente prateada que – assim acreditei – seria capaz de resgatar meus filhos das profundezas do tédio. Comprei um punhado.

Cheguei com os ímãs no bolso, pensando em como daria o presente. Estava feliz não só com a possibilidade de entreter as crianças com uma atividade sem açúcar, sem gordura e sem pixels, mas sobretudo por poder apresentá-los a esse interessantíssimo capítulo da vida na terra: o magnetismo.

“Daniel e Olivia”, eu disse, com a pompa que o momento merecia, “lá no banheiro, eu encontrei um mágico e o mágico me deu”. “Cadê o mágico?!”, a Olivia me interrompeu. “Ádico! Ádico!”, ecoou o Dani, discípulo da irmã mais velha – não muito seguro, acho eu, do que estava falando. “O mágico... O mágico deu um presente pra vocês!”. “Eu não quero presente, eu quero ver o mágico!”, ela me atropelou, de novo, o lábio inferior já dobrando-se perigosamente sobre si. (O lábio inferior dobrado está para o pranto como a nuvem negra está para a chuva – e quando a minha filha resolve trovoar, amigos, o furacão Katrina parece aqueles esguichinhos de vapor do Ibirapuera.)

Não havia tempo para preâmbulos. Tirei as pedras do bolso. Se a simples visão das bolotas metálicas não fosse suficiente para seduzi-los, vê-las saltando da minha mão e grudando umas nas outras seria. “As pedras voam! Olha, são pedras mágicas!”. “Eu não quero pedra! Eu quero o mágico! Papai! Vamos atrás do mágico! Cadê o mágico?!”. “Olivia, o mágico... O mágico foi embora”.

Olivia se atirou no chão. Rolava de um lado pro outro: “Máááágico! Máááágico!”. Daniel, por educação, a acompanhava no pranto: “Áááádico! Áááádico!”. As paredes tremiam. O teto sacudia. Pousos e decolagens foram temporariamente suspensos. Minha mulher me encarava com um olhar que ainda não sei se era de ódio ou compaixão.

Vinte e sete pães de queijo e duzentos e trinta e nove episódios de Masha e o Urso depois, embarcamos pra São Paulo. No Uber, a caminho de casa, os dois finalmente dormem. Minha mulher encosta no meu ombro e dorme, também. Sigo o mesmo rumo. Fica acordado só o motorista – e as hematitas, que, no meu bolso, usam seus maravilhosos superpoderes para destruir meu celular e apagar os meus cartões de crédito, do seguro-saúde, do trabalho, do supermercado, da livraria, do clube e da academia. Que coisa mais lúdica, mais mágica é a vivência do educar.