segunda-feira, 3 de julho de 2017

Ruy Fausto: Grupos independentes apontam para reorganização da esquerda, diz filósofo

RuyFausto, que lançará o livro 'Caminhos da Esquerda'

Ruy Fausto, 82, que lançará o livro 'Caminhos da Esquerda'

Iniciativas independentes e pequenos novos grupos apontam para uma forma positiva de reorganização da esquerda, afirma Ruy Fausto, professor emérito da USP e doutor em filosofia pela Universidade Paris I. 

À Folha, Fausto critica a idealização do PT e fala sobre sua perspectiva eleitoral. "Não creio que o melhor candidato seja o Lula, embora espere que ele não seja condenado e que possa concorrer." 

Nesta segunda (3), ele lança o livro "Caminhos da Esquerda", uma extensão de artigo publicado na revista "Piauí" em 2016, em que analisa os erros e propõe um novo trajeto da esquerda no país.
*
Folha - Qual caminho a esquerda precisa seguir?
Ruy Fausto - Um dos pontos principais é a exigência democrática. A gente precisa de democracia. Mesmo uma democracia deformada é um ponto de partida e é preciso preservar. Eu tenho algum medo de uma ruptura do processo democrático, não sei o que a extrema-direita trama. A esquerda se acostumou com a ideia de que quanto mais democrático, menos anticapitalista você é. Queria uma outra junção: ser muito democrata e muito crítico do capitalismo. 

A mesma coisa com o populismo. Se supõe que fazer a crítica do populismo, da desonestidade administrativa, implica esquecer a crítica do capitalismo. Dizem que quem faz a crítica da corrupção é a direita –isso é um engano. Somos nós que temos o maior interesse possível em um Estado que funcione 100%. 

O que estou propondo é redefinir esquerda e direita. Se organizar esse discurso e tiver clareza a respeito disso, a gente ganha setores importantes. Sem essa clareza, não conseguimos fazer o trabalho com a massa. Se tivermos a massa e contarmos que é uma beleza a Venezuela, Cuba, isso só atrapalha. 

A reconstrução da esquerda que o senhor fala exclui o ex-presidente Lula?
Não exclui de jeito nenhum, mas deixa de pôr o Lula no centro do universo. Não há por que idealizar o PT, essa espécie de fetichização dos dirigentes partidários é um absurdo. Os partidos podem ser alavancas e podem ser freios. Não creio que devemos pôr as fichas nesse partido e nem que o melhor candidato seja o Lula, embora espere que ele não seja condenado e que possa ser candidato. 

Não é para jogar fora [o PT], eles fizeram muitas coisas importantes, uma política de redistribuição... Houve uma espécie de aliança de classes que, conforme a condição, poderia até ser aceitado. Não houve autoritarismo do tipo chavista, peronista. 

O pior ali foi a corrupção. Eles se recusam a reconhecer isso tudo. O que existe de fetichização de partidos e dirigentes nos meios intelectuais me assusta. O pessoal se recusa a pensar por conta própria porque acha que quem pensa são os dirigentes do partido. 

O sr. propõe dissociar a esquerda dos governos que se disseram representativos dela, mas que não teriam seguido sua ideologia. Uma teoria que nunca foi posta em prática não entra no terreno da fé?
Não é uma questão de fé. Toda opção política implica uma decisão, que não vem simplesmente da leitura do que se passa –é muito pensada. Houve grandes deformações da esquerda, algumas notórias, como o stalinismo e o leninismo. Isso custou milhões de mortos, não foi brincadeira. É evidente que a esquerda tem que se dissociar disso, é preciso levar até o final essa crítica. 

Por outro lado tem a questão do populismo, que é mais complicada. Há muita ilusão a respeito do chavismo, que levou a uma catástrofe na Venezuela. Vemos gente qualificada fazendo elogios, ouvimos enormidades do tipo "o PT poderia ter ido pelo menos até onde foi o Chávez [Hugo, ex-presidente da Venezuela]". Isso seria um desastre. 

Para os pós-modernos, a queda do Muro de Berlim representou o fim da história. A esquerda mundial conseguiu recuperar o otimismo em algum momento nas décadas posteriores?
A queda do muro foi uma boa coisa. Aquilo era um peso para a esquerda, um governo despótico, antidemocrático, uma regressão histórica. O certo é não reivindicar aquilo. Se a direita ataca tanto, é porque a esquerda não foi capaz de definir bem o que foi a queda do muro. Tem todos os viúvos, mas foi ótimo o que aconteceu. O que veio depois é difícil, complicado, mas pelo menos agora temos condições para lutar. 

O senhor escreveu o artigo [que baseou o livro] em outubro do ano passado. Oito meses depois, a esquerda ganhou alguma perspectiva ou está tão perdida quanto antes?
Houve bastante mobilização da esquerda, apesar de tudo. Tem muita confusão, mas existe gente buscando uma saída. Muitos jovens pensando, gente de boa vontade. Não estou muito pessimista, não. Às vezes faço lista das pessoas de esquerda que poderiam ajudar, é gente muito qualificada. 

Eles [a direita] ganharam o impeachment [da ex-presidente Dilma Rousseff], mas ganharam mal porque houve resistência. O impeachment foi um desastre, quaisquer que tenham sido os erros da Dilma. A direita e a extrema direita levantaram a cabeça. Houve um momento de muita pressão deles, hoje está um pouco mais controlado. Em parte porque a esquerda se movimentou, em parte porque eles se desmoralizaram quando apareceu a corrupção como uma coisa geral. 

Como a esquerda pode trazer para si a massa que despertou para a política em 2013?
Não vou dar fórmulas gerais, mas a primeira coisa é não perder de vista o trabalho da classe média. É preciso encontrar a linguagem para se dirigir a eles. A campanha do Freixo [Marcelo, segundo lugar nas eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro em 2016], por exemplo, me contaram que teve muita qualidade, não teve demagogia, mas que não atingiu o eleitorado do Crivella [Marcelo, prefeito do Rio], não se dirigiu a essa gente. É preciso conversar. 

Depois, que relação ter com essa base. Não podemos idealizar a massa, achar que a solução é essa. A massa tem de tudo, tem muita confusão, às vezes muita violência. Ao mesmo tempo, não se pode incutir doutrinas. Às vezes a base é que tem razão. 

A esquerda consegue se reconstruir a tempo de disputar 2018?
A esquerda está se mexendo. Vai se organizar até lá? Não posso dizer, mas teríamos que fazer o melhor possível, pôr clareza o quanto a gente puder. Vejo o meu livro como uma pedrinha nisso, uma contribuição. É a minha tentativa de situar o problema num plano mais geral. 

Haverá um problema de encontrar candidatos, é difícil prever. O que espero é que haja essa eleição e que se chegue a alguma solução, mesmo que a esquerda perca. A direita joga muito com a história do não político, com o Doria [João, prefeito de São Paulo], o Macron [Emmanuel, presidente da França]. Não vai ser muito fácil. 

Há um dado muito sério que é o crescimento do Bolsonaro [Jair, deputado federal, com 16% das intenções de voto para presidente]. Tem que denunciar essa história, estudar o fenômeno e como vamos enfrentar. 

Temos pelo menos dois novos partidos liberais no cenário nacional: o Novo e o Livres. O que falta para a esquerda se organizar dentro da política?
Vai surgir um novo partido? Acho difícil. Por hora é se mobilizar, discutir com o pessoal. De imediato penso em estruturas em que entra muita gente independente e gente do PT e do PSOL. Pegar os melhores do PSOL, o Freixo, por exemplo, e os melhores do PT, o Fernando Haddad, o Tarso Genro... tipos condenados pelo PT atualmente. Fazer reuniões, explorar os contatos... É o que se pode fazer agora. Vai ter que se chegar à ideia de um candidato, mas não dá para prever. Esses pequenos grupos se organizando já acho muito positivo. 

Pensando na forma que a política é organizada hoje, com as campanhas milionárias, o fisiologismo, o clientelismo, é provável que um partido governe o Brasil de forma ética?
Há uma ideia que domina muito hoje que chamei de a miragem do negativo. É a necessidade de usar de métodos ilegítimos de governar. O papo que vem do PT é muito esse. No fundo é o "rouba, mas faz". Não quero dizer que a política é toda racional, que não vai haver retórica, alianças. Precisa apelar para os afetos, é verdade, mas a partir de um discurso que é justo. Minta o menos que você puder, jogue o jogo mais limpo e isso vai muito longe. Pode fazer alianças, mas definir o tipo, com a exigência de não-corrupção e de democracia. 

É possível ter um partido de esquerda e que seja ético. Isso significa que não vai ter nenhum pilantra? Não, vai aparecer, mas a perspectiva tem que ser reprimir esse tipo de coisa. Você muda a política, faz outra política. Ou somos capazes de enfrentar isso ou é melhor não pensar em partido e coisa nenhuma. 

A Lava Jato pode servir como um freio à corrupção a partir de agora?
Não sou contra a Lava Jato, a princípio sou favorável. Era corrupção em um nível que não sabíamos. Só serei contra se acabar dando numa ditadura militar. Há três perigos grandes. A extrema-direita, que utiliza a Lava Jato pensando em golpe, a direita que também usa, sem que a Lava Jato seja da direita, e a húbris dos próprios juízes, que vão, prendem, pegam o Lula para depor... 

Tenho um pouco de medo do que possa acontecer, há muita confusão, uma espécie de vazio. Tenho receio da extrema direita nessa história, mas é absolutamente errada a perspectiva daqueles que recusam a luta contra a corrupção, achando que é coisa da direita. Temos que apoiar todas as iniciativas contra a corrupção. Levou muito tempo, mas o Aécio [Neves, senador] e o Serra [José, senador] apareceram também. 

O senhor diz que a esquerda precisa construir um projeto de bem-estar social, o que pressupõe investimentos do Estado, no caminho contrário da PEC do teto. Como recuperar a arrecadação e viabilizar esses gastos em um cenário de desaceleração econômica?
Precisaria muito da ajuda dos economistas críticos. Primeira coisa é rever a legislação fiscal brasileira. Eles inventam essa história de que o imposto é muito alto. É alto para quem? O imposto sobre a herança é baixíssimo. E tem um trabalho contra a corrupção que se for simétrico deve ajudar também. 

É possível que seja preciso fazer reformas, mas que não sejam contrarreformas. A situação do povo é muito ruim, não há como limitar os gastos de saúde, educação, e as garantias todas. Tem que mexer em outras coisas. Evidente que isso tem que ser feito no lápis. A ortodoxia econômica passa por cima disso tudo, não considera os fatos sociais e a desigualdade brutal do Brasil. É importante formar muita gente de esquerda em economia para fazer a crítica. A economia oficial está aí, fala alto e tenta se impor. 
--------
Reportagem por 

domingo, 2 de julho de 2017

O Iluminismo britânico e a sociologia da virtude

Rodrigo Constantino*
Quando se fala em Iluminismo, costuma-se pensar em Voltaire, no racionalismo francês, na própria Revolução Francesa. Mas esse foi apenas um lado do fenômeno. No Reino Unido, especialmente na Escócia, ocorria uma fervilhante troca de ideias também, mas com abordagem bem distinta. No fundo, faz sentido falar em Iluminismos, pois foram mais de um. E esse aspecto acaba sendo ignorado inclusive por muitos professores de História. Mas esse Iluminismo britânico também ajudou a moldar a era moderna, e merece maior atenção.

É o que sustenta a historiadora Gertrude Himmelfarb em seu magistral O caminho da modernidade, em que divide o legado iluminista em três: o francês, o britânico e o americano. De forma resumida, as principais diferenças poderiam ser definidas como a “ideologia da razão” (França), a “sociologia da moral” (Reino Unido) e a “política da liberdade” (Estados Unidos). Na síntese de Luiz Felipe Pondé feita no prefácio da edição brasileira, “o Iluminismo foi uma tentativa de examinar três formas básicas da experiência humana a partir do exercício livre do pensamento, a saber, a moral, o conhecimento e a política”.

A ênfase dada ao lado francês fica clara quando se fala da “era da razão”, o que já soa um tanto prepotente, como se até então a humanidade vivesse no obscurantismo das superstições, e finalmente tivesse acordado para o poder do raciocínio. Mas é justamente essa a ideia que muita gente tem desse período de intensa produção intelectual, ignorando a maior cautela dos britânicos. Não que fossem irracionais; certamente não eram. Mas porque defenderam ideias mais moderadas, que não combinaram muito com aquele clima revolucionário.

Ocorre que houve revoluções e “revoluções”. Não é possível colocar no mesmo saco a Americana e a Francesa, por exemplo. Uma teve influência de pensadores britânicos mais conservadores, e pretendeu resgatar valores perdidos e preservar as liberdades existentes na própria metrópole inglesa, enquanto a outra buscou destruir todos os pilares até então existentes, declarar guerra à aristocracia e à religião, e criar um mundo novo praticamente do zero.

Enquanto a Revolução Americana produziu uma das nações mais livres e prósperas do mundo, a Francesa levou ao Terror jacobino e ao regime ditatorial de Napoleão. O “Templo da Razão” acabou se revelando um tanto irracional. Muitos foram sacrificados em nome da Liberdade. Em boa parte, argumenta a autora, isso se deve ao esquecimento de certas lições defendidas pelos pensadores britânicos, como David Hume, para quem a razão era facilmente dominada pelos afetos e paixões.

Ou seja, o ceticismo britânico alertava para um ensinamento básico que foi jogado para baixo do tapete pelos racionalistas franceses: o de que os “hábitos são essenciais para nos mover num mundo do qual não temos grandes certezas contínuas”, no resumo de Pondé. Uma razão excessivamente autoconfiante pode produzir utopias perigosas, fruto dessa “arrogância fatal”, como diria Hayek, algo que o “espírito conservador” dos britânicos procurava evitar.

Os britânicos eram mais empíricos, reconheciam os limites da razão, com base na própria razão, e por isso rejeitavam ideias revolucionárias de um “mundo novo” parido do nada, como se a natureza humana fosse uma tábula rasa. Essa postura levava a um foco maior nas virtudes, não necessariamente as virtudes individuais, mas as “virtudes sociais”, tais como compaixão, benevolência, simpatia. Para os britânicos, elas naturalmente unem as pessoas, mais do que a razão, que teria um papel secundário, instrumental, diferente do papel primário e determinante dado a ela pelos philosophes.

Claro que tais distinções não são tão claras e estanques assim, e havia comunicação entre esses diferentes pensadores. Em alguns casos, um pensador francês poderia estar mais alinhado com o ponto de vista anglófilo, e vice-versa. Mas em linhas gerais essa divisão define bem o fator predominante em cada ala iluminista. O ódio contra a religião, por exemplo, era uma característica basicamente francesa, e foi Voltaire quem lançou sua famosa declaração de guerra conta a Igreja – “esmague o infame!” –, enquanto Diderot propôs “enforcar o último rei com as tripas do último padre”.

Esse não era, nem de perto, o clima dos Iluminismos britânico e americano, que foram liberais em termos de religião, compatíveis com um amplo espectro de crença e descrença. E, se a “era da razão” levou à guilhotina dos jacobinos, é preciso considerar que a “era da benevolência” dos britânicos não só garantiu maior estabilidade política como produziu uma incrível proliferação de atos filantrópicos. Para Himmelfarb, os britânicos confrontaram o mundo moderno com bom senso – o “senso comum” –, e seus filósofos dele se serviram em um período tumultuado e que ecoa ainda hoje em um estágio posterior da modernidade.

Isso ajudou a evitar derramamento inútil de sangue, assim como a impedir modelos totalitários no Reino Unido, cuja monarquia parlamentar sobrevive até hoje. “Piedade”, “empatia”, “benevolência”, esses foram conceitos marcantes para o Iluminismo britânico, para pensadores como Hume, Adam Smith e Burke. O “senso moral” era ainda mais importante que a razão para esses filósofos com forte senso prático.

Numa era de individualismo exacerbado, de tantos buscando monopolizar a razão, e da velha arrogância racionalista de que é possível e desejável se criar um “novo mundo” a partir do zero, com base em conceitos abstratos paridos do conforto do escritório de “intelectuais” e abandonando completamente as antigas tradições, talvez seja mais prudente deixar um pouco o fervor revolucionário dos novos jacobinos de lado e escutar o alerta dos britânicos. Mais prudência, mais ceticismo, menos utopia e menos febre revolucionária.

O mundo não começou hoje, tampouco com Voltaire e companhia. Seria bom um pouco mais de respeito por nossos antepassados e pela formação de nossas instituições, especialmente a moral, tão combalida nos dias de hoje, quase considerada “ultrapassada”.
-------------
* Economista liberal. Blogueiro.
Fonte:  http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/o-iluminismo-britanico-e-sociologia-da-virtude/

Vale a pena

Lya Luft*

Resultado de imagem para conflitos

Viver é andar de conflito em conflito, buscando a harmonia que nos dê sossego ao coração sempre agitado, em raras ocasiões ancorado num momento tranquilo. Na vida pessoal ou profissional, lutamos. Buscamos. Perseguimos. Achamos, perdemos, realizamos, fracassamos, às vezes desacreditamos ou pensamos desacreditar de tudo: “Eu não acredito em mais nada”, me pego afirmando – era mentirinha. Porque, afinal, vivemos de acreditar: que teremos comida na mesa, teto sobre a cabeça, alguém amado perto, porta para entrar e para sair, alguma ocupação e, mais do que tudo, alguma importância... ainda que para uma só pessoa.

“Com as perdas, só há um jeito, perdê-las” – escrevi certa vez, não lembro onde. Acredito nisso. Há que se persistir por algum tempo, mas há que se ter a sabedoria, ainda que rara e rala, de saber quando é hora de deixar que a corrente da vida carregue o que não pôde (ou não pode mais) ser nosso.

Alguns andam desanimados, e não é para menos. Além dos horrores da coisa pública, quando se tem algumas décadas de vida, amigos adoecem ou se vão em definitivo. Talvez a pior coisa do tempo passando seja perder amados e amigos, alguns de uma vida inteira. Mas os que ainda sobram, não apenas sobram: eles vivem, se agitam, pelo menos em emoção e pensamento, leem seus livros, veem sua televisão, convocam seus filhos, amam seus netos, lembram as amizades e telefonam ou, em geral – viva eles –, comunicam-se no WhatsApp.

E ainda conseguem ter os seus conflitos: briguinhas, fofocas indevidas, curiosidades infantis, reclamar do açougueiro, do cabeleireiro, do jornal, da TV, do filho que demora a ligar, dos netos que, vibrando em suas idades magníficas, não se lembram de que alguém, ali, vai adorar ver suas belas carinhas e se divertir com suas conversas que às vezes nem entendem. Surpreendo-me pedindo aos netos e netas que falem mais devagar ou mais alto, “porque a vovozinha aqui tá meio surda”, e todos achamos graça. Brincadeira minha, e a velocidade dessas jovens e belas vidas me livra de qualquer tédio. Aliás, ando cada vez mais contemplativa. Feliz olhando a paisagem, feliz ouvindo a chuva, feliz lendo esse novo livro bastante difícil, feliz porque ainda consigo pintar nuvens e mar e até começar a escrever um novo livro... Feliz porque daqui a pouco a chave na porta de entrada anunciará que o maridão chega do trabalho.

Incrível como, a certa altura, se não formos do tipo lamuriento e resmungão, as coisas mínimas nos dão prazer: não precisamos mais visitar as ilhas gregas, andar na bela Londres, percorrer de carro a amada Itália, visitar os mais espetaculares museus, voltar aos jardins de Giverny aspirando Monet, um de meus prediletos. Ao menos, não sofremos por isso.

Ficar quieto (não demais) também é bom: curtindo o tesouro acumulado na alma – porque o que se perdeu continua ali, se a gente souber ver: os afetos, as memórias, as descobertas, as alegrias e a capacidade de novas alegrias –, por que não? Então, mesmo que o mundo ande confuso e ameaçador e estejamos quase todos mais pobres, se a gente não bobear, toda a conturbada, fascinante, assustadora, intrigante vida humana continuará se desenrolando diante de nós.

E minha lulu da Pomerânia, Melanie, deitada no tapete a meu lado, nunca deixa de me contemplar com esse ar de adoração – que já faz valer a pena iniciar o dia.
-------
* Escritora.

Corporativismo à solta

Getty Images
Voltei a me sentir viva e a ter libido': as mulheres que enfrentam a menopausa com testosterona --- Márcia decidiu recorrer a um novo médico depois de tratamento convencional de menopausa fracassar
                                                                    Consulta médica



SÃO PAULO - Corporações são um problema. Não é que a defesa de benefícios para uma categoria profissional seja ilegítima. Colocá-los em pauta faz parte do jogo democrático. A dificuldade só surge quando o grêmio consegue fazer com que o poder regulatório do Estado seja sequestrado para contemplar os interesses de seus membros, o que invariavelmente se dá às expensas da sociedade.

É o que poderá ocorrer com os aplicativos de marcação de consultas médicas. Como mostrou reportagem de Cláudia Collucci, esses sites agora estão na mira do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Os conselheiros encontram-se divididos em relação à matéria.

O Cremesp, que é uma autarquia federal, tem seu poder de regulação restrito aos médicos. Não pode, portanto, agir diretamente contra os sites. Mas, se aprovar uma resolução que considere que o sistema de marcação viola a ética médica, pode proibir os profissionais de saúde de se inscreverem nos aplicativos. E qual o problema que alguns conselheiros veem nesses sites? 

Acredite ou não, eles acham que a divulgação do preço da consulta fere o Código de Ética Médica, cujos artigos 51 e 58 vedam respectivamente a promoção de concorrência desleal entre profissionais e o exercício mercantilista da medicina.

Estamos aqui diante de um sério concorrente ao título de "understatement" do ano. Proibir a divulgação de preços não evita apenas a concorrência desleal. Evita a concorrência, ponto. E a concorrência, como se sabe, é a alma da economia de mercado. É ela que pressiona os preços para baixo, ampliando o leque das pessoas que têm acesso a bens e serviços.


No mais, os potenciais clientes de um médico (ou de qualquer outro profissional) têm todo o direito de saber previamente quanto precisariam pagar por seus serviços e fazer suas escolhas com base nessa informação. Sem transparência no sistema de preços, a sociedade se torna menos livre e funciona pior. 



Janot dá a senha de combate para procuradores messiânicos

Pedro Ladeira/Folhapress
BRASILIA, DF, BRASIL, 22-03-2017, 16h00: Sessão solene de posse do novo ministro do STF Alexandre de Moraes. A ministra Carmen Lucia preside a sessão, que tem a presença do presidente Michel Temer, dos presidentes da câmara e do senado, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) e senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), do Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot e de várias outras autoridades. Janot rebateu duramente hoje críticas feitas por Gilmar Mendes à supostos vazamentos de informações por parte da PGR. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot



Janot dá a senha de combate para procuradores messiânicos

Pedro Ladeira/Folhapress
BRASILIA, DF, BRASIL, 22-03-2017, 16h00: Sessão solene de posse do novo ministro do STF Alexandre de Moraes. A ministra Carmen Lucia preside a sessão, que tem a presença do presidente Michel Temer, dos presidentes da câmara e do senado, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) e senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), do Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot e de várias outras autoridades. Janot rebateu duramente hoje críticas feitas por Gilmar Mendes à supostos vazamentos de informações por parte da PGR. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima cumpre dupla jornada, na força-tarefa da Lava Jato e nas redes sociais. Dias atrás, na sua encarnação de agitador de Facebook, postou uma réplica à coluna na qual apontei violações legais cometidas por Janot na "operação Joesley" (Folha, 17/6). Ele nem mesmo tenta refutar minhas críticas –mas, excitado, decreta que a "única motivação" do texto seria "amedrontar as pessoas com ameaças sobre o caos que virá se não nos contentarmos com as migalhas de mudança conseguidas até agora". A técnica de polêmica selecionada evidencia que Carlos Fernando está no lugar errado "" e, aqui, refiro-me ao Ministério Público, não ao Facebook.

Carlos Fernandos povoam as redes sociais do mundo. Nos EUA, diante de uma contestação à proibição de entrada de muçulmanos, sua versão trumpiana retruca que o crítico deseja facilitar o terrorismo. Na Venezuela, face à descrição do caos social vigente, sua versão chavista assegura que o dissidente almeja o triunfo do "imperialismo ianque". Incidentalmente, nosso procurador conhece, por experiência própria, a técnica de atribuição de motivações ocultas: os Carlos Fernandos das guerrilhas virtuais petistas garantem que, ao falar sobre a corrupção na Petrobras, Carlos Fernando tem como "única motivação" a entrega do pré-sal ao "Império".

Se eu fosse um Carlos Fernando, alegaria que, ao fantasiar-se de revolucionário francês diante de uma Bastilha de papel, Carlos Fernando nutre a "única motivação" de cavalgar a Lava Jato para inaugurar uma carreira política inflada pela demagogia. 

Como não sou, faço como prega Luís Roberto Barroso ("não coloco em questão a boa-fé de ninguém" pois "as pessoas divergem em função de ideias"), descartando a trilha fácil da especulação sobre maléficas motivações alheias. De fato, acho que o procurador acredita genuinamente no que proclama. Ele não é um oportunista, mas um missionário. O que nos conduz ao tema de interesse público: o papel do Ministério Público na ordem política da democracia.

Janot escreveu que o "foco do debate" sobre o acordo com Joesley deve ser "o estado de putrefação de nosso sistema de representação política". A sentença é uma senha de combate entre procuradores messiânicos, que a repetem obstinadamente. Na minha avaliação (que está longe de ser consensual), nosso sistema político entrou, realmente, em decomposição. Mas tal diagnóstico pertence ao universo de referências do analista político, não podendo servir como bússola para o Ministério Público. A diferença é que, ao contrário dos procuradores, não possuo as prerrogativas de investigar, acusar e pedir prisões.

O Ministério Público tem poderes que me são vedados. Em contrapartida, tem a obrigação de se nortear, exclusivamente, pela letra da lei. A mobilização de uma análise política em defesa da imunidade judicial de Joesley evidencia que, nesse episódio, a lei foi jogada na célebre "lata de lixo da História". Sugiro que Raquel Dodge, procuradora-geral indicada, reserve dois minutos para ler a postagem de Carlos Fernando no Facebook. Ela ilumina as raízes da deriva de Janot rumo aos mares revoltos da política.

Registrei, na coluna, as inclinações jacobinas de uma ala do Ministério Público –e apontei o risco de uma reação termidoriana destinada a cercear a Lava Jato. Carlos Fernando replicou com uma exaltada apologia da Revolução Francesa (cujos "ideais prevaleceram", "apesar do Termidor") que a identifica, implicitamente, ao Terror jacobino. 

O procurador ainda não aprendeu que um dos legados da experiência revolucionária francesa é a disjunção entre justiça e Terror (termidoriano ou jacobino). Por isso, escolheu Danton, um dos criadores do Tribunal Revolucionário, para citar em epígrafe, esquecendo-se de que seu herói morreu na guilhotina jacobina, condenado sob a acusação de enriquecimento ilícito num processo farsesco.

Análise
Meritocracia milenar

Competição de xadrez entre pais e filhos em escola primária na província de Liaoning, na China

Competição de xadrez entre pais e filhos em escola primária na província de Liaoning, na China

RODRIGO ZEIDAN
ESPECIAL PARA A FOLHA


Meritocracia de verdade não existe nem nunca vai existir em lugar nenhum do mundo, já que, para que ela exista, é preciso real igualdade de oportunidades. Mas mobilidade social é fundamental para o verdadeiro desenvolvimento de um país. Quanto mais as pessoas puderem se esforçar para crescer, melhor para toda a sociedade.

Na China, diferentemente da maioria dos países do mundo, há pelo menos uma forma de mobilidade social, aberta há mais de mil anos, a todas as pessoas de qualquer idade: o exame imperial, que na sua versão moderna é dividido em dois tipos: os concursos públicos, que parecem os que acontecem no Brasil, e o gaokao, similar ao Enem.

Na Ásia, a competição pelas melhores escolas é feroz, e as famílias sacrificam muitos recursos para incentivar os filhos a galgar o sistema educacional como saída da pobreza. O sistema educacional na China é melhor que no Brasil justamente porque as famílias demandam e estão dispostas a gastar mais recursos em educação.

O caso chinês é interessante porque mostra o poder da evolução de normas sociais e como elas impactam o presente, apesar de terem surgido dezenas de gerações atrás. O exame imperial chinês surgiu há mais de 2.000 anos, na dinastia Han, e de meados da dinastia Tang (que durou de 618 a 901 a.D.) até 1905, quando foi abolido, era a principal forma de entrada na burocracia chinesa.

Assim como no Brasil hoje, com o sistema de concursos públicos, o exame imperial era uma forma de ascender à elite. Como o exame imperial durou mais de mil anos e esteve durante esse tempo combinado a um sistema imperial no qual as possibilidades de ascensão social eram praticamente inexistentes, ele gerou, através do tempo, uma demanda grande por investimentos educacionais por parte das famílias chinesas.

Mas como, no caso chinês, as famílias venciam a miopia do curto prazo, que aflige o Brasil? A resposta é uma combinação de normas sociais diferentes e um prazo realmente longo para que os sinais do mercado de trabalho gerassem mais investimentos educacionais.

Em especial, a pobreza absoluta e períodos de miséria tornaram a unidade familiar o principal construto social, no qual os sacrifícios de curto prazo e mecanismos de seguro intrafamília são a norma, de forma a suportar períodos traumáticos.

O resultado é uma quebra do curto-prazismo pelo foco no sacrifício familiar. É por isso que muitos dos países asiáticos estão entre os mais poupadores do mundo e também entre aqueles que mais investem recursos familiares em educação. Sempre houve o exame imperial como saída da pobreza, e a unidade familiar, como superior ao indivíduo, permite tomadas de decisão com prazo mais longo.

Mas, se no Brasil também temos o Enem e os famosos concursos públicos, com milhares de concurseiros dedicados a uma vaga no setor público, por que na China os concursos geram mobilidade e aqui não (a maioria dos que passam no Brasil é membro das elites, com diversos novos desembargadores sendo filhos de membros antigos, por exemplo)?
São três as razões:

1) na China, os concursos geraram externalidades positivas porque motivaram todas as famílias a investir mais em educação;

2) diferentemente do Brasil, o nível de rentismo do funcionalismo público -ou seja, o quanto de renda da sociedade é extraído sem contrapartida- é muito menor, já que os salários são em média menores do que no setor privado, embora mais altos que a média dos salários do país;

3) e, por último, as normas sociais não veem o Estado como provedor -a competição por educação gera também maior competição no mercado de trabalho, com uma população muito mais produtiva que no Brasil ou em outros países de renda média.

O exame imperial no passado e o gaokao hoje criaram uma pressão da sociedade por educação que não encontra paralelo em outras economias mundiais. Esse investimento familiar em educação é fundamental para explicar o recente sucesso econômico da China e é parte do modelo de meritocracia com características chinesas.

Ao captar o ódio frio de tirano tropical, García Márquez explica o presente


Bruna Barros/Editoria de Arte/Folhapress
Bruna Barros 01 de julho de 2017



De tão repetida, a verdade insofismável de que a história não se repete transforma-se no seu contrário, em sofisma. Agora mesmo, venais travestidos de vestais repisam que o Terror curitibano esconde uma guilhotina no porão e estamos todos com a cabeça a prêmio.

Como os legalistas querem deter os carrascos, os procuradores provincianos botam a carapuça, fingem que é boné frígio e entoam: somos todos jacobinos. A analogia é trapaceira porque não se passou nada que remotamente lembre a revolução francesa.

Logo, não há motivo real para reação a termidoriana ou o alarme moralista. O que há de palpável, isso sim, é o afã em desregulamentar o trabalho e cortar aposentadorias. O sofisma de fundo histórico é falsa ideologia: evoca um passado heroico para justificar tramoias no presente.

Assim, se na França tribunos da plebe vestiram as togas retóricas da República romana, políticos e procuradores brasileiros agitam o espectro do Terror para mobilizar crápulas tremebundos do pântano brasiliense. Fazem buuuuu para arrebatar aliados e trouxas. É má ficção, mas cola.

Para captar o presente, o melhor é ficar na ficção à vera. Não na nossa, pois não temos o romance do pai da pátria, subgênero ilustre nas letras latino-americanas. Nele estão "O Senhor Presidente", de Astúrias, "Eu o Supremo", de Roa Bastos, "O Recurso do Método", de Carpentier, "A Festa do Bode", de Vargas Llosa.

São bons romances do século 20, mas nenhum emparelha com "O Outono do Patriarca", de García Márquez. Ele levou ao desvario o ódio frio de um tirano tropical: o monstro estrebucha com as axilas rescendendo a cebolas velhas e uma hérnia no escroto do tamanho de um figo.

É com cadência fúnebre, com parágrafos letárgicos em prosa espessa, que "O Outono do Patriarca" fantasia a agonia de um ditador de República Banana. Há sentenças gélidas, compostas com drama e escárnio, que parecem delinear a solidão do patriarca ora no Planalto:

"Ninguém sabia senão ele que só lhe restavam nas frestas da memória uns quantos fiapos soltos dos vestígios do passado, estava só no mundo, surdo como um espelho, arrastando suas densas patas decrépitas por gabinetes sombrios." Lá vai ele, com sua dança de dedos neurótica.

O personagem brasileiro mais parecido com um pai da pátria é Don Porfírio Diaz, de "Terra em Transe". Ele não se encaixa bem no gênero porque o filme acaba no momento em que costumam começar os romances de ditadores –quando o patriarca entra em parafuso e seu poder se paralisa.

Paralisia é o mote de "O Outono do Patriarca". Um colapso fez com que o poder do déspota se esvanecesse. O país entorpece aos poucos. Os pássaros silenciam. Todos estão à espera. Aí tempo para. O romance prefigura o Brasil letárgico de nossos dias:

"Esperávamos o cumprimento de previsões antigas, que no dia da sua morte o lodo dos lamaçais havia de regressar pelos seus afluentes até as nascentes, que havia de chover sangue, que as galinhas poriam ovos pentagonais, que o silêncio e as trevas voltariam a se estabelecer no universo porque aquele havia de ser o fim da criação".

Paralisia é permanência: os países dos pais da pátria estão condenados a esperar. A paralisia perpétua imobiliza até os de eventos mágicos de "Cem Anos de Solidão", também de García Márquez, cujo meio século de publicação vem de ser comemorado.

Estão no romance os fatos brutos: a chegada dos estrangeiros; a exploração colonial; o massacre dos trabalhadores; as escaramuças contínuas entre conservadores e liberais para manter o status quo.


Alvíssaras: depois de uma chuva de quatro anos, 11 meses e dois dias virá a praga do esquecimento. Um vento varrerá o país e haveremos de esquecer que estamos à espera de não sabemos o quê. Restará apenas a silhueta do patriarca no Planalto. 

sábado, 1 de julho de 2017

" A organização criminosa é tão emaranhada,que nada adianta a LAVA JATO..."

STF manda soltar Rocha Loures, ‘homem da mala’ e ex-assessor de Temer

Ministro Edson Fachin converte prisão preventiva em domiciliar do ex-deputado que foi pego com uma mala com 500.000 reais



Rocha Loures é solto
Rocha Loures, no aeroporto, após ter seu nome citado na delação.  FOLHPRESS
Em Brasília existia a expectativa de que Loures pudesse firmar um acordo de colaboração premiada, o que teria potencial para abalar ainda mais o já desgastado Governo Temer. Em entrevista para a revista Veja, o presidente chegou a dizer que “duvidava” que “ele faça uma delação (...) e duvido que ele vá me denunciar". Loures é investigado no mesmo inquérito que o presidente pelos crimes de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça, o que o beneficiou: no despacho, o ministro Fachin afirma que somente após autorização da Câmara “é que se analisará, de modo mais concreto, a situação processual do ora segregado”. Pela legislação brasileira, o presidente só pode ser processado com a autorização de ao menos dois terços dos deputados. O STF já enviou ao presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a denúncia contra o mandatário. Não há prazo para que ela seja analisada.
Pouco antes de ser preso, no início do mês, Loures era deputado suplente do então ministro da Justiça Osmar Serraglio. Alvo de críticas no Congresso por não controlar a Polícia Federal, Serraglio foi substituído por Torquato Jardim. Contrafeito, se recusou a assumir outro ministério, o que fez com que reassumisse seu posto na Câmara. Como consequência Loures perdeu direito a foro privilegiado e foi preso. A defesa alegou, no pedido de habeas corpus enviado ao STF, que a perda do cargo de deputado "teria feito cessar o potencial de influência sobre a instrução processual, não se justificando, portanto, a prisão preventiva". Além disso, seus advogados alegaram que a detenção estava sendo usada para forçar Loures a firmar acordo de delação, e que ele não representaria "risco à ordem pública", e que as condições da prisão eram "insalubres".
Fachin afirma que manteve Loures em prisão preventiva porque "em tese, surgiram supostas ameaças diretas e indiretas à sua vida". Mais à frente o ministro diz que "à luz das atuais circunstâncias (...) se depreende mitigada a possibilidade da reiteração delitiva".
O ministro também mencionou a decisão recente da primeira turma da Corte, que em 20 de junho decidiu colocar a irmã de Aécio Neves, Andrea Neves, e o primo do tucano, Federico Pacheco em regime domiciliar. Eles haviam sido presos por suposta participação em um esquema de pagamento de propinas de 2 milhões de reais envolvendo o senador tucano. O parlamentar sempre negou qualquer ilícito, e afirmou que se tratava de um empréstimo legal. Para Fachin, esse precedente permite que Loures receba o mesmo tratamento.
A saída de Rocha Loures deve ocorrer no sábado, de acordo com comunicado da Polícia Federal. Isso porque a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, onde o deputado está preso, aguarda a chegada da tornozeleira eletrônica que ele terá de usar. A previsão é que o equipamento seja recebido pela polícia no começo da manhã de sábado.