quarta-feira, 1 de junho de 2016

" Craques e super- heróis "



guilherme wisnik*
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O mundo dos super-heróis já não é o mesmo. Hoje, ao invés de protegerem gloriosamente a Terra contra monstros ou gênios do mal, são vistos com suspeita pela sociedade, dado o estrago que causam em suas batalhas, e terminam digladiando-se em temerárias guerras entre heróis.

Esse cenário, que vemos nos recentes filmes "Batman vs. Superman - A Origem da Justiça" e "Capitão América - Guerra Civil", parece expressar perfeitamente o imaginário de um mundo pós-Guerra Fria, no qual a figura do inimigo dual desapareceu. Sem a ameaça do inimigo ideológico e militar claramente identificável, resta uma batalha campal permanente e endêmica entre pares, na qual o seu aliado pode revelar-se, subitamente, um adversário.

Tal é o imaginário de um mundo para o qual a paranoia agressiva irrompe de repente em ações terroristas ou catástrofes naturais, e não mais em um esperado ataque do exército inimigo. Depois de pouco mais de 20 anos da queda do muro de Berlim, vemos hoje suas consequências alterarem o "ethos" do super-herói na indústria cinematográfica.

Assim, já não se trata mais da moral redentora e universalizante do antigo super-herói, portador da liberdade individual, emblema do capitalismo e avesso do comunismo. Agora os heróis estão inseridos nas malhas da burocracia de uma sociedade multicultural que questiona todos os privilégios, os foros especiais.

Mas não é só isso. Trata-se também, no fundo, de uma disputa entre marcas: Marvel versus DC Comics. Na impossibilidade de fazer ressoar, hoje, a batalha épica de cada super-herói contra seus antagonistas, essas gigantes companhias de entretenimento reúnem os seus astros em duas espécies de seleções mundiais, como as da Nike e da Adidas: Batman, Super-Homem e Mulher Maravilha de um lado e Capitão América, Homem de Ferro e Homem-Aranha, de outro.

Aliás, o eclipse dos super-heróis corresponde a um momento em que a vinculação dos craques de futebol às marcas esportivas tende a equiparar ou até suplantar suas ligações com clubes ou seleções nacionais, e onde a antiga seleção da Fifa (uma espécie de ONU do futebol) desaparece enquanto agremiação de excelência ecumênica em detrimento das seleções das marcas.

Significativamente, nas agressivas campanhas de marketing dessas marcas, os craques de futebol são cada vez mais apresentados como se fossem super-heróis imbuídos da tarefa de salvar a humanidade. É o que se vê, por exemplo, na propaganda "Craques x Demônios", em que uma seleção de jogadores vestidos de preto, como se fossem ninjas, ou Homens-Aranha dark, ao usarem as chuteiras Nike se tornam capazes de escalar a fachada fascista do Palazzo EUR, em Roma, penetrando pelas janelas o seu interior para resgatar a bola (Nike), que lá está guardada a sete chaves por demônios robóticos como um ídolo totêmico.

Qualquer criança (ou adulto) de boa fé estranhará a ausência de Lionel Messi nessa equipe superpoderosa. Ocorre que Messi é "propriedade" da Adidas, e não da Nike e, portanto, é como se não existisse nesse episódio de ficção feito com personagens da vida real. Pois, a propósito, se Cristiano Ronaldo tem todos os atributos de um Super-Homem do mundo atual, vacinado contra a criptonita, Messi, com seu físico franzino e olhar abobado, parece ser a matriz de um super-herói que ainda está por ser inventado.

Para ver o comercial da Nike:  https://www.youtube.com/watch?v=iHWh_RTue-4 
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*É professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e crítico de arte.
Escreve às segundas, quinzenalmente.

Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilherme-wisnik/2016/05/1776226-craques-e-super-herois.shtml

" A vida secreta do desejo "


                             Luiz Felipe Pondé*
 
 "A conclusão é de que um jovem de hoje dificilmente viveria o amor romântico tal como foi descrito na Idade Média. Mas homens e mulheres adultos, casados, com filhos e responsabilidades profissionais e sociais, são os verdadeiros candidatos à doença do amor hoje."
 
Sempre que toco no tema do amor romântico, muitos leitores se manifestam. Ao contrário do que parece, muita gente se sente afetada por essa questão. A primeira pergunta que me fazem é: "Você crê no amor romântico?". A resposta é sim. Mas, como os medievais, não creio que seja uma experiência universal e acho que é uma doença encantadora e, por isso mesmo, perigosa. 

Mas volto ao assunto hoje devido a uma questão específica que toquei na minha coluna de 16 de maio último ("A doença do amor"), em que discutia alguns especialistas no tema do amor cortês (ou romântico). E acho essa questão muito importante, porque ela incide sobre uma compreensão errônea comum em nossa época da relação entre desejo e maturidade. 

A questão é a seguinte: as pessoas mais maduras tendem a descrer no amor romântico, enquanto as mais jovens estão mais propensas a viver essa forma de amor? 

As explicações comuns para isso seriam a pouca idade e experiência de vida (como digo na coluna de 16 de maio), que levariam os mais jovens aos delírios amorosos. A favor dessa hipótese está a costumeira afirmação de que Romeu e Julieta teriam no máximo 15 anos de idade. Ou que, na Idade Média, berço da literatura romântica, os homens e mulheres morriam com 30 anos e, portanto, os personagens da literatura cortês não passavam dos 15 anos de idade de novo. 

E aí voltamos ao argumento comum de que só jovem crê nessas coisas porque não entende a vida como ela é. Mas o erro está na ideia de que, na Idade Média, pessoas de 15 anos eram "jovens". 

"Jovem" é um conceito criado para descrever alguém que não precisa obedecer aos pais como as crianças devem fazê-lo, mas que, ao mesmo tempo, são livres para fazer o que quiserem, sem o peso da responsabilidade dos adultos. "Jovem" é uma das primeiras invenções do enriquecimento do mundo devido a sociedade de mercado. Logo, na Idade Média, não existia "jovem". 

Para entender a literatura de amor cortês, você deve pensar o seguinte: o amor romântico só podia acometer pessoas que carregavam responsabilidades e interdições. 

Portanto, se transferirmos os pressupostos da dramaturgia medieval para hoje, época em que homens raramente morrem em batalhas e mulheres estão em conventos, o que se revela como o coração do drama são as interdições morais: as vítimas são casadas e carregam responsabilidades da vida adulta.
Qual é a conclusão então da relação entre idade e amor romântico? A conclusão é de que um jovem de hoje dificilmente viveria o amor romântico tal como foi descrito na Idade Média. Mas homens e mulheres adultos, casados, com filhos e responsabilidades profissionais e sociais, são os verdadeiros candidatos à doença do amor hoje. 

Por isso, são os mais maduros que estão a mercê desse flagelo, e não os mais jovens, que, costumeiramente, não têm quase nenhuma responsabilidade determinante em suas vidas. 

O "amor fora de lugar" ocorre como um desejo que não pode se realizar plenamente devido a uma estrutura moral que lhe precede. A condenação do desejo implica em sua piora como "pressão", que nunca cessa de se manifestar, corroendo o cotidiano dessa estrutura que lhe precede. O amor romântico só existe quando os amantes não podem vivê-lo porque para isso destruiriam a própria vida e de outras pessoas que não mereciam sofrer. 

O erro da associação do amor romântico à idade "jovem" é a não percepção, típica de nossa época, da lógica do desejo em questão. 

Perdemos a capacidade de desejar na medida em que declaramos que "é proibido proibir". Os jovens logo deixarão de desejar. 

E, aqui, chegamos a outra incompreensão decorrente dessa: entendemos pouco do amor romântico porque esvaziamos nossa cultura da noção de conflito entre desejo e virtude como um dos motores essenciais do drama moral humano. O drama romântico pressupõe o desejo encantador acompanhado da terrível experiência da culpa. Só os olhos vidrados de culpa enxergam o combate entre desejo e virtude na alma. 

A vida secreta do desejo é esse desespero que, na mesma medida em que encanta, destrói. 
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Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/05/1776164-a-vida-secreta-do-desejo.shtml

" PERANTE AS MIGRACOES , ULTRAPASSEMOS O MEDO "


 Irmão Alois*

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 "Assim que os encontros pessoais se tornam possíveis, os medos dão lugar à fraternidade. Esta fraternidade implica pormo-nos no lugar do outro. A fraternidade é o único caminho 
de futuro para preparar a paz."


No mundo inteiro, há homens, mulheres e crianças que são obrigados a deixar a sua terra. A angústia que vivem cria neles a motivação de partir. E esta motivação é mais forte que todas as barreiras erguidas para lhes impedir o caminho. Posso dar testemunho disso por ter passado alguns dias na Síria. Em Homs, a extensão das destruições causadas pelos bombardeamentos é inimaginável. Uma grande parte da cidade está em ruínas. Vi uma cidade fantasma e ressenti o desespero dos habitantes do país.

Hoje são os Sírios que afluem à Europa, amanhã serão outros povos. Os grandes fluxos migratórios a que assistimos são invencíveis. Não nos apercebermos disso seria uma demonstração de miopia. Procurar regular estes fluxos é legítimo e mesmo necessário, mas querer impedi-los construindo muros de arame farpado é absolutamente inútil.

Perante esta situação, o medo é compreensível. Resistir ao medo não significa que este deva desaparecer, mas sim que não devemos deixar que nos paralise. Não permitamos que a rejeição do estrangeiro se introduza nas nossas mentalidades, pois recusar o outro é o germe da barbárie.

Numa primeira etapa, os países ricos deveriam tomar uma consciência mais clara de que têm a sua parte de responsabilidade nas feridas da História que provocaram e continuam a provocar imensas migrações, nomeadamente de África ou do Médio Oriente. E, hoje, algumas escolhas políticas permanecem fonte de instabilidade nestas regiões. Uma segunda etapa deveria levar estes países a ir além do medo do estrangeiro e das diferenças de culturas, colocando-se corajosamente a moldar o novo rosto que as migrações já dão às nossas sociedades ocidentais.

Em vez de ver no estrangeiro uma ameaça para o nosso nível de vida ou a nossa cultura, acolhamo-lo como membro da mesma família humana. E assim compreenderemos que, apesar de criar certamente dificuldades, o afluxo de refugiados e de migrantes também pode ser uma oportunidade. Estudos recentes mostram o impacto positivo do fenómeno migratório, tanto para a demografia como para a economia. Porque será que tantos discursos salientam as dificuldades sem dar valor ao que há de positivo? Os que batem à porta dos países mais ricos que o seu levam estes países a tornar-se solidários. Será que não os ajudam a tomar um novo impulso?

Gostaria de situar aqui a nossa experiência de Taizé. É humilde e limitada, mas muito concreta. Desde Novembro do ano passado, em colaboração com as autoridades e algumas associações locais, acolhemos em Taizé onze jovens migrantes do Sudão – a maioria deles do Darfur – e do Afeganistão, vindos da «selva» de Calais. A sua chegada despertou uma impressionante vaga de solidariedade na nossa região: há voluntários que vêm ensinar-lhes francês, médicos que os tratam gratuitamente, vizinhos que os levam a fazer passeios e a dar voltas de bicicleta… Rodeados por tanta amizade, estes jovens, que atravessaram acontecimentos trágicos nas suas vidas, estão aos poucos a reconstruir-se. E este contacto simples com muçulmanos muda o olhar das pessoas que os encontram.

Na nossa aldeia, os jovens também foram acolhidos por famílias de vários países – Vietnam, Laos, Bósnia, Ruanda, Egipto, Iraque – que chegaram a Taizé ao longo de décadas e que fazem hoje parte integrante do nosso ambiente. Todos eles conheceram grandes sofrimentos, mas trazem à nossa aldeia muita vitalidade graças à riqueza e à diversidade das suas culturas.

Se uma experiência destas é possível numa pequena região, porque não haveria de ser numa escala muito mais ampla? É um erro pensar que a xenofobia é o sentimento mais partilhado, muitas vezes o que há é muita ignorância. Assim que os encontros pessoais se tornam possíveis, os medos dão lugar à fraternidade. Esta fraternidade implica pormo-nos no lugar do outro. A fraternidade é o único caminho de futuro para preparar a paz.

Assumindo juntos as responsabilidades exigidas pela vaga de migrações, em vez de brincarem com os medos, os responsáveis políticos poderiam ajudar a União Europeia a reencontrar uma dinâmica entorpecida.

Há toda uma jovem geração europeia que aspira a esta abertura. Nós, que acolhemos há muitos anos, na nossa colina de Taizé, dezenas de milhares de jovens de todo o continente para encontros internacionais de uma semana, podemos constatar isso mesmo. Aos olhos destes jovens, a construção europeia apenas encontra o seu verdadeiro sentido mostrando-se solidária com os outros continentes e com os povos mais pobres.

Há muitos jovens europeus que não conseguem compreender os seus Governos quando estes manifestam vontade de fechar as fronteiras. Pelo contrário, estes jovens pedem que a uma mundialização da economia seja associada uma mundialização da solidariedade e que esta se expresse em particular através de um acolhimento digno e responsável dos migrantes. Muitos destes jovens estão dispostos a contribuir para esse acolhimento. Ousemos acreditar que a generosidade também tem um papel importante a desempenhar na vida urbana.
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Irmão Alois, prior da Comunidade Ecuménica de Taizé


http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?cont_=ver2&id=5560

" Meu Fio de ESPERANÇA "


                                                                         Frei Betto*




Sou vivido. Vi o Brasil passar por muitas crises. O suicídio de Vargas, em agosto de 1954, estragou meu aniversário de 10 anos. JK soube, em 1956, contornar a rebelião militar de Jacareacanga. A renúncia de Jânio, em 1961, me levou às ruas pela primeira vez, em defesa da democracia.

O golpe militar de 1964 me arrancou da faculdade de Jornalismo para atirar-me nas masmorras do CENIMAR (Centro de Informações da Marinha). O AI-5 me desempregou do jornal e, meses depois, me conduziu a quatro anos de prisão.

Meu sonho, ainda hoje, é o socialismo. Fora da Igreja há salvação. Mas não há salvação para a humanidade fora de um sistema no qual haja partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, e onde os direitos humanos estejam acima dos privilégios do capital.

Para um sonho se tornar realidade são necessárias mediações. Busquei-as na Ação Católica. Os bispos, pressionados pela ditadura, a desmantelaram. Apoiei organizações revolucionárias contra a ditadura. A repressão as derrotou. Tornei-me eleitor do PT. O partido se deixou contaminar pelo elitismo e a corrupção, em treze anos de governo não promoveu nenhuma reforma estrutural, e calou-se quanto ao socialismo. Hoje, voto PSOL.

Meu fio de esperança se prende aos movimentos sociais. Não são perfeitos. Neles há também oportunistas e corruptos. Mas estes são exceções. Porque a base da maioria dos movimentos é a gente pobre que luta com dificuldade para sobreviver. Essa gente costuma ser visceralmente ética. Não acumula, partilha. Não se entrega, resiste. Não se deixa derrotar, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Não sei o que será do nosso Brasil nos anos vindouros. Sei apenas que fora dos movimentos sociais a nação não tem salvação. O PT tentou e se deu mal. Em uma sociedade tão marcadamente dividida em classes sociais, somente o vínculo orgânico com os pobres nos mantém com os pés no chão, a alma repleta de fome de justiça e a cabeça fiel à utopia socialista.

A democracia é uma senhora muito ciosa de suas origens. Todas as vezes que tentam prostituí-la, sequestrá-la, corrompê-la, reage e desmascara seus algozes. Ela prefere sempre se abrigar em seu ninho: o protagonismo popular.

O capitalismo tenta nos ludibriar, convencer-nos de que democracia é sinônimo de rotatividade eleitoral. Ora, a verdadeira democracia se apoia na economia, na partilha das riquezas; na ecologia, ao cuidar da proteção ambiental; na cultura, ao assegurar a todos o direito de criar e se expressar; e na política, ao dotar todos os cidadãos e cidadãs de poder para monitorar os rumos do Estado e, portanto, da sociedade.

Nenhuma esquerda ideológica se sustenta por muito tempo sem este respaldo fisiológico: o contato direto com os movimentos nos quais os pobres se organizam e lutam por seus direitos.
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* Frade dominicano. EScritor.
Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=88982

" Parar o relógio e viver intensamente "


Levar uma vida de rotina não libera ninguém de experimentar aventuras

 

O tempo é o que é. Está em nossas mãos decidir como queremos desfrutá-lo






O protagonista do filme Uma questão de tempo pertence a uma família cujos membros têm um dom especial: podem viajar a lugares e momentos em que estiveram anteriormente. Essa peculiaridade lhes permite desfazer decisões e corrigir erros para melhorar suas vidas. Até o fim do filme, o personagem percebe que sua vida foi boa exatamente do jeito como ela foi e que não deseja voltar para o passado.

Talvez seja este o maior anseio de qualquer um de nós. Chegar ao fim de nossas vidas e poder dizer a nós mesmos: “Foi bom assim. Se eu voltasse a viver, não mudaria nada”. A pergunta é se alcançar tal nível de satisfação não depende tanto do número e da variedade de experiências quanto da intensidade com a qual elas foram vividas.

O magnífico filme Up, da Walt Disney-Pixar, reflete muito bem esse sentimento, quando o personagem principal, um idoso viúvo, que não conseguiu fornecer a sua falecida esposa nenhuma das aventuras que sonharam quando eram crianças, descobre que sua mulher montou um álbum de fotos de todas as viagens que iriam realizar com fotografias de suas vidas em casa e deixou um recado escrito: “Obrigado pela aventura”. Ela apreciou o que viveu com o marido, pouco ou muito, como um grande acontecimento. É uma sequência preciosa que nos ensina que o importante é o sentido que queremos dar às nossas vivências, nem tanto o que acontece em si. É possível levar uma vida rotineira e vivê-la intensamente.

No entanto, é muito difícil fazer valer essa atitude. A oferta de possibilidades alternativas, destinos turísticos, as inumeráveis possíveis relações pessoais e caminhos que as redes sociais abrem exercem uma enorme pressão sobre o indivíduo de hoje em dia. As relações da sociedade líquida, como defendeu o sociólogo Zygmunt Bauman, provam que o ser humano opta cada vez mais por não solidificar as relações, não as materializar e nem as manter, em nome de uma possibilidade eternamente variável.

Do meu ponto de vista, passamos de uma sociedade líquida para outra multidimensional ou poliédrica. Quando realizamos uma atividade, buscamos fazer outra ao mesmo tempo. É habitual que os fabricantes de esteiras instalem nelas uma televisão para acompanharem o jogo de futebol ou as notícias, enquanto se pratica esporte; vemos televisão em casa enquanto conversamos ou navegamos com o celular. As próprias emissoras de televisão colocam na tela, durante as discussões e entrevistas, o que os espectadores tuítam sobre o que está sendo dito. Parece que viver uma única realidade é insuficiente.

Já é habitual ver casais em um restaurante que combinam a conversa entre si com outra por meio do celular com terceiros. Não se trata de uma crítica, como “o passado era melhor”. O que esse exemplo quer explicar é que, quando se instala no ser humano uma insuficiência constante sobre o presente, ancora-se a ele uma crença deficitária da vida, e, portanto, a provável conclusão de que a sua existência não foi plena. Um desejo peremptório por multiplicar o presente desemboca em uma insatisfação com o passado.

Esquecemos o que significa presente. Os presentes têm que ser desfrutados, saboreados e apreciados. Viver intensamente obriga a parar o relógio, a não pensar em outra coisa que não seja o que se está experimentando. O tempo é o que é. A única coisa que está em nossas mãos é decidir como queremos desfrutá-lo. Tempo de qualidade, não quantidade de tempo.

Vamos pensar nas crianças. Quando são pequenos e brincam com alguma coisa, fazem apenas isso. É verdade que a aparição de um novo estímulo pode fazê-los abandonar o que têm em mãos e se dirigir a outro assunto com muita facilidade. Mas é devido à curiosidade. Sua percepção de tempo não existe. Seu presente é absoluto, e a ele se entregam com os cinco sentidos.

No âmbito profissional, as consequências desse conceito, a partir de nossas decisões, são transcendentais, porque não podemos mudar de ocupação a cada dois meses. Publiquei há muitos anos um livro chamado O vendedor de tempo. O protagonista empacotava minutos em frasquinhos e os colocava à venda. As pessoas ficavam loucas e enchiam as ruas para comprá-los. Na verdade, o tempo que adquiriam era seu, era o mesmo que viveriam, mas comprá-lo com seu próprio dinheiro lhes dava liberdade para usá-lo em outras coisas. As decisões profissionais são vendas de espaço que nos pertence, e com ele que negociamos. Não em frasquinhos, mas em grandes contêineres. Nós nos comprometemos cada vez que firmamos um contrato, assumimos um cargo, um projeto, uma função ou tarefa.

Por isso temos que ser exigentes. As transações de tempo próprio, pessoal ou profissional são a principal causa para chegarmos ao fim de nossas vidas pensando que deveríamos ter vivido de outra maneira. Para evitar que isso aconteça, é bom se perguntar frequentemente: “O que eu faria se não tivesse medo? O que eu faria se soubesse dizer não? ”.
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Fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/29/estilo/1464558997_272379.html

Com controle remoto da Câmara, Cunha faz ofensiva para burlar Conselho de ÉticaCunha no último dia 19.



Presidente afastado da Casa usa aliados na presidência e em comissão para driblar punição


Supremo Tribunal Federal afastou Eduardo Cunha (PMDB-RJ) de seu cargo e da presidência da Câmara para que ele não interferisse nas ações que tramitam contra ele como parte da Operação Lava Jato. A cassação branca, porém, não impede que Cunha mantenha controle remoto sobre seus aliados e empreenda uma nova ofensiva, e dupla, para tentar travar a apuração do Conselho de Ética contra ele e já se blindar contra qualquer revés caso o relatório - que deve pedir sua cassação nesta quarta - chegue ao plenário da Casa.
Os estratagemas de Cunha já fizeram de seu processo o mais longo da história do Conselho de Ética, se arrastando por mais de seis meses. Agora, ele quer usar seus aliados na presidência da Casa, Waldir Maranhão (PP-MA), e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Oscar Serraglio (PMDB-PR), para estabelecer um novo procedimento sobre a votação de um parecer da instância por todos os deputados, de modo a tentar salvar seu mandato.
Paralelamente, outra estratégia de Cunha é usar também seus aliados para forçar que deputados que são votos certos por sua condenação sejam afastados do colegiado. Os principais alvos são o presidente do Conselho, José Carlos Araújo (PR-BA) e Júlio Delgado (PSB-MG). Aliados de Cunha tentam retirá-los do órgão fazendo denúncias de que esses parlamentares quebraram o decoro parlamentar. Pelas regras internas, os membros do conselho que responderem a processos são automaticamente afastados de suas funções até o fim das investigações. Araújo e Delgado votaram pela abertura do processo contra o peemedebista, quando o placar foi de 11 votos a favor e 10 contrários.
Nesta terça-feira, minutos antes de receber o relatório em que Marcos Rogério (DEM-RO) deverá pedir a cassação do mandato de Cunha, Araújo foi notificado por um funcionário da Corregedoria da Câmara sobre três representações que deram entrada no órgão contra ele. As denúncias são de suposto uso de laranja na aquisição de terras na Bahia, o de comprar votos na eleição de 2014 e o de caluniar um adversário político em um programa de rádio do interior baiano. Os casos estavam na Corregedoria havia mais de um mês, mas só agora, na reta final da apuração contra o peemedebista, Araújo recebeu a notificação sobre os pedidos de investigação. Quem ordenou a entrega foi o corregedor Carlos Manato, um deputado filiado ao Solidariedade (SD) do Espírito Santo e aliado de Cunha.
Araújo alega que todas as acusações se referem disputas políticas locais e foram feitas para tentar intimidá-lo na condução dos trabalhos. “É mais uma manobra para tentar me intimidar, me amedrontar. Não vão conseguir. Não me surpreenderia se outros membros do Conselho passassem pela mesma situação”, disse.
Na outra frente, desde o dia 18 de maio, deputados do Solidariedade acusam Júlio Delgado, um dos principais adversários de Cunha, de também ter mentido na CPI da Petrobras. Segundo um documento assinado pelo presidente da legenda, o deputado Paulo Pereira da Silva, Delgado recebeu 100.000 reais de uma empreiteira envolvida na operação Lava Jato, mas na comissão que investigou os desvios de recursos da petroleira, o deputado mineiro disse que não tinha recebido nenhum valor irregular em sua campanha. Delgado, que é um dos principais adversários de Cunha na Casa (inclusive perdeu a última eleição para ele), chegou a ter um pedido de investigação aberto pelo Ministério Público Federal, mas foi arquivado por ausência de provas.
Se Araújo e Delgado forem afastados, os suplentes dos blocos aos quais pertencem assumem as vagas. O curioso é que não há um nome específico para substituí-los, porque, ao menos em tese, o substituto imediato seria o primeiro suplente que registrar presença nas sessões em que houver votações. No caso de Araújo, há seis suplentes no seu bloco, sendo que apenas um é adversário declarado de Cunha, o deputado Assis Carvalho (PT-PI). Os demais ou são aliados do investigado ou pertencem a partidos que são facilmente manejados pelo peemedebista como o PP, o PRB, o PR e o PROS. Já com relação a Delgado, a chance de ter alteração de voto é menor, pois os seus três possíveis suplentes são de legendas que querem a queda de Cunha, como o PPS, o PSDB e o PSB.

Tropa de choque

Para que a estratégia de Cunha funcione a Mesa Diretora da Câmara precisa concordar com um pedido feito por outro aliado dele, Carlos Marun (PMDB-MS). No requerimento, Marun solicita que não haja o sobrestamento dos novos processos que vierem a tramitar no conselho. Ou seja, que possam ser abertas novas investigações mesmo com a atual (a de Cunha) ainda em andamento.
A decisão sobre essa questão está nas mãos de Waldir Maranhão (PP-MA), o deputado que substitui interinamente Cunha na Presidência, ou de Fernando Giacobo (PR-PR), o segundo vice-presidente. Ambos são próximos ao peemedebista e, assim como ele, são investigados em esquemas criminosos. Maranhão está fora do país desde o início da tarde desta terça-feira, quando viajou ao Chile para participar de um encontro sobre transparência na gestão pública. Caberia a Giacobo tomar qualquer decisão até o fim desta semana.
A investigação contra Eduardo Cunha por quebrar o decoro parlamentar ao mentir na CPI da Petrobras já é a mais longa da história, já está no Conselho de Ética há quase sete meses. “Isso só nos mostra que o tempo é o senhor da manipulação”, disse o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), membro de um dos partidos que apresentou a representação contra o peemedebista.
Em sua defesa, o deputado afastado mantém a mesma versão dada na ocasião de seu depoimento à CPI, de que não tem contas no exterior e que só era beneficiário de um truste sediado na Suíça. Na sua concepção, truste não é uma conta bancária. Nos últimos meses, Cunha também negou que estivesse manobrando para protelar a apuração contra ele. Disse, diversas vezes, que se a cúpula do Conselho de Ética se debruçasse sobre o Código de Ética e no regimento interno da Casa não haveria tantos erros a serem corrigidos.
Entre as manobras da tropa de choque do peemedebista estão a substituição do relator do caso, o cancelamento de uma das sessões que votaria a admissibilidade do relatório.

" A Persistência do Desemprego "

 
01 de junho de 2016 
EDITORIAIS Zero Hora




A elevação do número de desempregados para 11,4 milhões, com uma taxa de desocupação de 11,2% no trimestre até abril deste ano, dá uma dimensão exata de uma das consequências mais drásticas da crise econômica. 

Um agravante do quadro é que, para cada posto de trabalho perdido, surgiram duas pessoas à procura de uma oportunidade com carteira assinada, o que aumenta o compromisso dos responsáveis pela definição de políticas econômicas. Sem uma recuperação imediata do setor produtivo, hoje na dependência de maior estabilidade política, a tendência é de a deterioração do mercado de trabalho se agravar ainda mais, o que é lamentável.

Os dados apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são inquietantes por ratificarem o quanto a população de maneira geral é quem mais arca com o custo de equívocos na gestão econômica e nas tentativas frustradas de corrigi-los. 

Mesmo quem conseguiu garantir sua vaga em meio às turbulências está ganhando menos, na média. E, no intervalo de um ano, o contingente de desempregados em busca de inserção foi acrescido de um total de 3,4 milhões de pessoas. É um número elevado demais e contrastante para um país que, há pouco tempo, comemorava percentuais de desemprego dentro dos limites aceitáveis.

A ampliação dos níveis de emprego e de renda precisa ser vista como prioridade absoluta e depende acima de tudo do restabelecimento da confiança na economia. O país precisa criar logo os pressupostos para facilitar o crescimento e gerar mais vagas, que incluem ações imediatas e reformas estruturais em favor da retomada da economia.