segunda-feira, 3 de junho de 2013

" Quando a vida não vale nada "


Andréa Saint Pastous Nocchi*

Na linda música Deixando o Pago, o cantor e compositor Vitor Ramil escreve que o mundo é pequeno e que a vida não vale nada. A morte de mais de 1,1 mil trabalhadores no desabamento de um prédio em Bangladesh, no final de abril, e o número oficial de 2012 de 2.717 brasileiros que perdem a vida em acidentes de trabalho, demonstram, sim, que o mundo é pequeno e que a vida não vale nada.
Pequeno, porque a distância entre o Brasil e Bangladesh é imensa, mas a realidade que envolve as precárias condições de trabalho de milhares de pessoas e a desconsideração com a vida humana nos aproximam; pequeno porque quando trabalhadores, na sua maioria mulheres, perderam suas vidas naquele desabamento e em outros incêndios que antecederam a tragédia, estavam confeccionando roupas para as grandes marcas da indústria têxtil mundial, que o brasileiro consome ou sonha consumir. Algumas delas, pressionadas pela repercussão deste e de outros acontecimentos, firmaram acordo para fiscalizar e financiar medidas de segurança e contra incêndio nas fábricas de Bangladesh.
A tragédia traduzida em morte anunciada tem pelo menos três facetas de perversidade. Uma, o trabalho escravo e a total falta de apreço com condições mínimas de dignidade. Outra, a fragmentação dos modos de produção que as terceirizações e toda a divisão da cadeia produtiva disseminam, de modo a desprezar quem e de que forma se produz para valorizar, apenas a capacidade de produção e, ainda, uma terceira, vinculada com a morte por acidente de trabalho.
Qualquer enfoque faz as fronteiras entre o Brasil e Bangladesh desaparecerem neste mundo pequeno. E a vida, que não vale nada lá, também nada vale aqui. Silenciosamente, cerca de sete trabalhadores perdem a vida por dia no Brasil. É mais que o dobro das mortes da tragédia do Paquistão, todo o ano, ano após ano. De tão grave o flagelo, a Organização Internacional do Trabalho pensa em uma campanha mundial para a prevenção de acidentes, o governo brasileiro começa a divulgar ações neste sentido e o Tribunal Superior do Trabalho tem um programa especialmente desenvolvido para conscientização e redução das mortes e doenças profissionais.

Mas, enquanto a prioridade for produzir de modo globalizado e massificado, com baixíssimo custo e altíssimos lucros, a vida não valerá nada e o mundo continuará a ser pequeno, na comunhão das tragédias.
------------------------------
*Juíza do Trabalho/RS
Fonte: ZH on line, 03/06/2013

" Sonhos, desejos , e esperança " !!!


Antonio Ozaí da Silva*

principio_esperanca_150
A Utopia habita em indivíduos concretos que pensam e sentem, sofrem e se alegram, lutam e, sobretudo, nutrem a esperança. Somos capazes de imaginar o devir, de termos “sonhos diurnos”. A consciência antecipadora é própria do humano. Somos animais ansiosos, seres que se angustiam antecipadamente. Imaginamos o vir-a-ser ainda que este seja apenas possibilidade remota. Mesmo quando este se apresenta enquanto possível concreto, ficamos a imaginar “como será”, “como reagiremos”, se confirmará ou não as expectativas. De tanto pensar, sofremos por antecipação; mas também nos alegramos com a possibilidade de

Enquanto o futuro não se concretiza, mas permanece em gérmen dentro de nós, sonhamos e desejamos. Somos seres desejantes. Desejar é querer. “Não há querer que não tenha sido precedido de um desejar”, afirma Bloch.* O querer pressupõe agir, indica um querer fazer. “Desejos nada fazem, mas eles dão a forma e retém com especial fidelidade o que deveria ser feito” (p. 51). O desejar ativo anseia, mas também pode ser angustiante e prisioneiro do medo. A esperança é expectante, opõe-se ao medo e à angústia; ela é “a mais humana de todas as emoções e acessível apenas a seres humanos. Ela tem como referência, ao mesmo tempo, o horizonte mais amplo e mais claro” (p. 77).

A esperança é um sonhar acordado. Os “sonhos diurnos” alicerçam-se em carências e na expectativa de dias melhores. É um sonhar consciente da realidade, mas insatisfeito diante dela. É um sonhar que almeja superar o que é e instituir o que pode ser. A possibilidade do novo está inscrita no ser, gesta-se no presente. A história é aberta e prenhe de possibilidades. Seu fundamento é o real materialmente concreto e contraditório. “O sonhar desperto, ou seja aberto para o mundo, sabe não se abster. Ele se recusa a se saciar ficticiamente ou ainda espiritualizar desejos. A fantasia diurna, assim como o sonho noturno, tem os desejos como ponto de partida, mas vai com eles até o fim. Quer chegar ao lugar da realização”, escreve Bloch (p. 97).

A esperança é militante, é um “afeto prático” que desfralda bandeiras. As utopias nutrem-se da esperança, a esperança é utópica. Mas utopia concebida em sua concretude, enquanto possibilidade real fundada num mundo de carência e no desejo de superação. Não é um sonhar fantasioso, desvinculado da vida real. Como ressalta Bloch: “O ponto de contato entre o sonho e a vida, sem o qual o sonho produz apenas a utopia abstrata e a vida, por seu turno, apenas trivialidade, apresenta-se na capacidade utópica colocada sobre os próprios pés, a qual está associada ao possível” (p. 145). A realidade não é estática, mas movimento contraditório em direção ao devir.

Os sonhos são instigantes. Iludem-se os que racionalizam em demasia e desconsideram a capacidade humana de sonhar, de desejar navegar por águas desconhecidas, atracar em novos portos e explorar territórios e países imaginários. A vida não se reduz à mediocridade, mesmo no mísero cotidiano o humano sonha. A vida humana tem uma amplitude que extrapola os limites do mero reproduzir-se. Sonhar e desejar talvez sejam o mais essencial ao viver. O ser humano até precisa de certa dose de ilusão, necessita superar o domínio do mero instinto animal. O humano é um ser em construção, social e historicamente. “O que caracteriza o amplo espaço da vida ainda aberta e ainda incerta do ser humano é a possibilidade de assim velejar em sonhos, que são possíveis sonhos diurnos, muitas vezes do tipo totalmente sem base na realidade. O ser humano fabula desejos”, observa Bloch (p. 194).
                                                      " pessoas de alma leve "

O mundo é inconcluso, aberto à transformação. O futuro é uma construção humana nutrida pela esperança! A efervescência utópica é própria do humano!

*Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).
* BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro, EdUERJ; Contraponto, 2005 (Vol. 1), p. 51. Todas as citações são desta obra.
Fonte: http://antoniozai.wordpress.com/2013/06/01/sonhos-desejos-e-esperanca/

" Ecos da Modernidade < por David Le Breton * >


 
 - Divulgação

Em ensaio exclusivo para o 'Aliás', antropólogo francês discute as fronteiras entre o silêncio e o barulho na modernidade

O barulho é um som de valor negativo, uma agressão ao silêncio ou simplesmente à tranquilidade necessária à vida em comum. Causa um incômodo àquele que o percebe como um entrave a seu sentimento de liberdade e se sente agredido por manifestações que não controla e lhe são impostas, impedindo-o de repousar e desfrutar sossegadamente de seu espaço. Traduz uma interferência dolorosa entre o mundo e o eu, uma distorção da comunicação em razão da qual as significações se perdem e são substituídas por uma informação parasita que provoca desagrado ou aborrecimento. O sentimento do barulho surge quando as sonoridades ambientes perdem sua dimensão de sentido e se impõem como uma agressão irritante, da qual não há como se defender. Mas o sentimento do barulho põe em relevo, antes de mais nada, um contexto social e a interpretação que o indivíduo faz do ambiente sonoro em que se encontra. Às vezes, o mesmo som é inversamente percebido por outra pessoa como um invólucro sonoro que lhe é indiferente. O barulho não tem objetividade; trata-se de mera sensibilidade individual.
                                       o silêncio " murmúrio da mata "
No limite, o barulho constante das ruas, absorvido pelo indivíduo como algo alheio a sua influência, acaba sendo abafado, ao passo que os excessos sonoros dos vizinhos são percebidos como indesejáveis e como violações da intimidade pessoal. O barulho é uma zona sensível da sociabilidade. Na França, muitas das queixas registradas nas delegacias de polícia referem-se a conflitos entre vizinhos em torno da questão do barulho: televisão, rádio, dispositivos musicais em volume alto, festas noturnas, etc., que invadem a intimidade. A vítima do barulho se sente expulsa da própria casa, invadida, seu espaço interior destruído. Ela é forçada a recuar até suas últimas trincheiras, e o barulho se impõe então como uma forma insidiosa de violência. E, reagindo a essa sensação de estar sendo atormentada, vez por outra a vítima toma uma atitude radical. Muitos incidentes que chegam às páginas dos jornais, um dos mais recentes ocorrido em São Paulo, atestam isso, e o fenômeno está presente em diversas sociedades: os homens (nunca, ou quase nunca, as mulheres) sentem-se incomodados com o barulho e, sem conseguir sensibilizar os vizinhos e fazer com que abaixem o som, acabam pegando uma arma e atirando contra eles ou contra os arruaceiros que teimam em ficar escutando música no último volume bem embaixo de sua janela, às vezes em plena madrugada. Uma violência responde à outra, mas sem nenhuma nuance, traduzindo, todavia, o sentimento de impotência da pessoa que se encontra à mercê do barulho e também seu sentimento de não poder suportar tamanha invasão de si. O conto de Kafka A Construção ilustra muito bem essa violência do barulho que acaba por tornar impossível qualquer repouso, inviabilizando mesmo a própria existência. Mas os barulhos produzidos por nós mesmos não são percebidos como incômodo: eles têm um sentido. Quem faz barulho são sempre os outros.

O sentimento do barulho se difundiu sobretudo com o nascimento da sociedade industrial – e a modernidade o intensificou de maneira desmesurada. O desenvolvimento técnico caminhou de mãos dadas com a penetração ampliada do barulho na vida cotidiana e com uma crescente impotência para controlar os excessos. Novos sons adentraram os apartamentos com o rádio, a televisão, os eletrodomésticos, o telefone, os aparelhos cada vez mais possantes de reprodução musical, etc. E isso no interior de apartamentos ou casas que não foram projetados para represar esses ruídos, sem os impor à vizinhança, degradando assim a tranquilidade do lar. Do mesmo modo, as casas suportam mal as infiltrações sonoras provenientes das ruas adjacentes. Embora sejamos capazes de abstrair os outros sentidos, espantando um odor ou fechando os olhos diante de um espetáculo pouco agradável, a audição resiste a tudo. O sentimento do barulho é a consequência disso.

À profusão de barulhos produzidos pela cidade, à circulação incessante dos automóveis, nossas sociedades acrescentam novas fontes sonoras com os televisores ligados e a música ambiente que toca no interior das lojas, dos cafés, dos restaurantes, dos aeroportos, etc., como se fosse preciso afogar permanentemente o silêncio em lugares onde a palavra se troca no interior de um universo de sons que ninguém escuta, que enervam às vezes, mas que teriam o benefício de emitir uma mensagem tranquilizante. Antídoto ao medo difuso de não se ter o que dizer, infusão acústica de segurança cuja súbita ruptura provoca um desconforto redobrado. A música ambiente tornou-se uma arma eficaz contra certa fobia do silêncio. Esse persistente universo sonoro isola as conversas particulares ou encobre os devaneios, confinando cada um em seu espaço próprio, equivalente fônico dos biombos que encerram os encontros em si mesmos, criando uma intimidade pela interferência sonora assim forjada em torno da pessoa.

A modernidade inventou a constância da sonoridade e a capacidade de propagá-la por meio de alto-falantes. O sujeito que não suporta o silêncio tem a oportunidade de recorrer, na totalidade de fatos e gestos da vida cotidiana, a um ruído de fundo. Ao chegar em casa, pode ligar seu rádio ou sua televisão, pode assistir um vídeo ou escutar uma fita cassete ou um CD. O barulho tem um efeito narcótico tanto no interior do apartamento, como no meio da rua, ele tranquiliza quanto à permanência de um mundo sempre incólume. Projeta uma linha de audição controlável e reconhecível, à maneira de uma tela que põe fim à turbulência e à profundidade perturbadora do mundo.

Nossas cidades são particularmente vulneráveis às agressões sonoras. O barulho se propaga e atravessa grandes distâncias. As operações de liquidação do silêncio abundam. Não são deliberadas, mas agregam os barulhos do meio urbano ou simplesmente técnico; sitiam os lugares ainda preservados, incultos, abandonados à pura gratuidade da meditação e do silêncio. A modernidade assinala uma tentativa difusa de saturação do espaço e do tempo por uma emissão sonora sem fim. Sendo uma zona não explorada, em estado de suspensão, livre de uso, o silêncio provoca uma reação de preenchimento, de animação, que tem por intuito dissolver a provocação do "inútil" por ele acobertada. Pois, aos olhos de uma lógica produtiva e comercial, o silêncio não serve para nada, ocupa um tempo e um espaço que poderiam se beneficiar de um uso mais rentável. Para a modernidade, o silêncio é um resíduo à espera de utilização mais lucrativa, assemelha-se a um terreno baldio no centro da cidade, representa uma espécie de desafio lançado ao imperativo de torná-lo rentável, de fazê-lo retribuir com uma utilidade qualquer, pois, enquanto não o faz, o silêncio é pura perda. Anacrônico, um domínio onde o barulho ainda não penetrou, o silêncio é um arcaísmo que precisa encontrar seu remédio. Soa como uma pane ensurdecedora do sistema. O silêncio é um resto, aquilo que o barulho ainda não conseguiu invadir ou degradar, aquilo que os meios ou as consequências das técnicas ainda poupam.

O contexto barulhento de nossas sociedades e a transformação que as sensibilidades coletivas sofreram nesse aspecto ao longo dos últimos anos induzem a uma irritação crescente com o barulho. Uma legislação mais atenta o regulamenta e procura contê-lo dentro de limites precisos. A intenção é proteger os que trabalham em ambientes sonoros insalubres ou manipulam ferramentas barulhentas, atenuar os ruídos dos canteiros de obras a fim de reduzir a poluição sonora para os habitantes das redondezas, regular a circulação de cargas nas cidades, restringindo-a a horários específicos, oferecer uma estrutura jurídica capaz de lidar com os conflitos entre vizinhos quando da utilização imprópria de instrumentos sonoros ou da ocorrência de manifestações inconvenientes (algazarra noturna, por exemplo). Nos planos de urbanismo é maior a preocupação em estabelecer zonas de silêncio. As pessoas com frequência se mobilizam contra projetos envolvendo a construção de estradas, aeroportos, etc., que desfigurariam a acústica de um determinado lugar. E a legitimidade social de tais reivindicações já não sofre muita objeção. O direito ao conforto acústico (a preservação de parte do silêncio) tornou-se uma zona sensível da sociabilidade, um valor unânime em resposta à amplificação ambiental do barulho. O mais extraordinário é que, assediado de todos os lados, o silêncio pouco a pouco se tornou uma referência comercial de peso na promoção de produtos, regiões e passeios turísticos. As empresas e as agências publicitárias também se deram conta da necessária valorização do silêncio numa vida cotidiana perseguida pelo barulho.

Atualmente, valorizamos o silêncio do motor de um carro, dos eletrodomésticos, dos cortadores de grama, etc. O argumento é um eficaz recurso de marketing. O setor de insonorização cresceu muito nos últimos anos. As pessoas isolam acusticamente os apartamentos, os escritórios, os ateliês... Não se tolera mais que o motor do carro, do avião ou do trem atrapalhem as conversas. Cada um se esforça, em princípio, para reduzir suas produções sonoras e espera, em retribuição, que os vizinhos tenham a mesma preocupação. O silêncio torna-se riqueza moral, comercial, turística, ecológica, etc. Espécie em vias de extinção, seu preço sobe diariamente e mobiliza uma atitude de preservação mais ou menos eficaz e interessada. Por outro lado, centenas de milhões de pessoas que gostam de caminhar na natureza deixam as cidades em busca de paz, de silêncio, de conversas, de descobertas, de lentidão. Querem deixar para trás o barulho e os ritmos que lhes são impostos na vida atual, encontrando, por fim, o apaziguamento e a interioridade. / Tradução de Alexandre Hubner
------------------------
* David le Breton é professor de sociologia na Universidade de Estrasburgo (França). Autor, entre outros, de Du Silence (Métailié). Suas últimas obras traduzidas no Brasil foram Antropologia do Corpo e Modernidade (Vozes), As Paixões Ordinárias (Vozes) e Adeus ao Corpo (Papirus). Escreveu este ensaio especialmente para o Aliás.
Fonte: Estadão on line, 01/06/2013

" No meio do caminho tinha Drummond " por < Raul Albuquerque * >



O autor da pedra mais famosa da poesia brasileira, Drummond, teve uma poesia com muitas fases e muitas faces. O poeta demonstra através de sua obra o amadurecimento e a mudança de ponto de vista naturais à ação do tempo. Drummond é um poeta completo não por atingir a completude da poesia, mas a plenitude da humanidade.
Nascido em 1902, em Itabira (MG), Carlos foi desde cedo muito poético - revolucionário - o que o levou a ser expulso do Colégio Anchieta por acusação de "insubordinação mental" - nasceu poeta. Toda sua produção poética é marcada por um uso inteligente e surpreendente das nuances e dos recursos da língua. Refinado, o lirismo drummondiano é marcado por um trabalho complexo escondido atrás da simplicidade de suas palavras.
Sua primeira fase - dada como "fase experimentalista" - é marcada por um instinto modernista de reinventar modelos e sentidos de escrever. Sob influência dos modernistas de 1922, ele iniciou-se escrevendo poemas de ordem conceitual. Dessa fase, o maior exemplo da qualidade da poesia de Drummond é - indiscutivelmente - "No meio do caminho". O poema foi publicado na Revista de Antropofagia em 1928:

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."
02.jpg
Sua segunda fase - dada como "fase gauche" - é marcada pela desconformidade com o mundo, a sensação de autoexclusão, de afastamento do mundo externo. Encontrando um modo muito peculiar de escrever, Drummond inicia uma "poesia em primeira pessoa", onde o que havia para ele não passava dele mesmo. O poema que caracteriza - e da nome a - essa fase é "Poema de Sete Faces". Publicado no livro "Alguma poesia" em 1930:

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. [...]
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo."

03.jpg
Sua terceira fase - dada como "fase social" - é marcada por uma preocupação com o mundo, um olhar mais próximo da realidade externa. Extremamente influenciado pelas ideias socialistas, passou a ver a Segunda Guerra Mundial como um empasse único. O marco desta fase é o livro - e o poema - "Sentimento do Mundo", publicados em 1940:
"Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor. [...]

Os camaradas não disseramque havia uma guerra
e era necessáriotrazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,anterior a fronteiras,
humildemente vos peçoque me perdoeis. [...]
esse amanhecer
mais noite que a noite."
04.jpg
Sua quarta fase - dada como "fase do não" - é marcada por uma poesia decepcionada, focada no tempo - com frequentes referências à morte, à filosofia, à metafísica e à reflexão. Marcado pela Guerra Fria, viu seus ideais serem corrompidos e o mundo cair no caos. O livro que marca essa fase é "Claro Enigma", publicado em 1951:
"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvidocontra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão. Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."
05.jpg
Sua última fase - dada como "fase da memória" - é marcada por uma retomada do passado focando a infância em Itabira (interior de Minas Gerais) , a família, o humor, o cotidiano e as ironias da vida. O livro que abre essa fase é "Boitempo", lançado em 1968. O poema que bem retrata sua carga nostálgica é "Confissões de um itabirano":
"Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!"

-----------
*Estudante de Direito apaixonado por Letras.
Fonte: http://lounge.obviousmag.org/a_razao_singular_do_segredo/2013/06/01

" Não basta um manifesto nas redes sociais para mobilizar as pessoas "

                                                                Manuel Castells
Sociólogo diz que alcance real dos protestos depende das condições de quem os lê
O franquismo dominava a cena espanhola quando um estudante de 18 anos decidiu entrar nos cinemas de Barcelona para alterar seu enredo.

Escolheu salas na periferia, aproveitou a escuridão para deixar folhetos de protesto nas cadeiras e terminou a noite com uma sensação: "As palavras que eu havia transmitido poderiam mudar algumas mentes que acabariam por mudar o mundo".

O objetivo principal não foi alcançado, e a ditadura espanhola perdurou até os anos 1970. Décadas mais tarde, ao descrever seu ato, Manuel Castells concluiu que ignorava coisas importantes da comunicação. "Não sabia que a mensagem só é eficaz se o destinatário estiver disposto a recebê-la e se for possível identificar o mensageiro e ele for de confiança", escreveu.

O jovem revolucionário acabou exilado em Paris, onde deu início a uma trajetória que fez dele um dos mais destacados sociólogos do mundo. Famoso por estudar sobre poder das redes e o impacto social da informação, Castells diz, em entrevista por e-mail, que o Facebook sozinho não é capaz de mudar a história.
-
Folha - Os jovens espanhóis que saíram várias vezes às ruas e acamparam em lugares como a praça Catalunya [na região central de Barcelona] continuam sem emprego, e a coisa piorou desde então. O movimento fracassou?
Manuel Castells - É a única esperança que sobra em um país com 27% de desemprego, 53% de desemprego juvenil e com apenas 26% dos cidadãos neste momento apoiando um dos dois grandes partidos.
Hoje, 70% da população concorda com o movimento, porém não existe, por ora, uma expressão política institucional dessa crítica frontal a todo o sistema. Mas a mudança já aconteceu na cabeça das pessoas. E isso é o essencial na mudança social.

O sr. diz que esses novos movimentos, nascidos na internet, estão recriando a democracia. Mas no Brasil não é incomum que protestos organizados por dezenas de milhares no Facebook não cheguem a reunir centenas de pessoas na rua. Esses movimentos têm mesmo toda essa capacidade?
Isso depende das condições de cada país. Na Espanha, chegaram a ser centenas de milhares. Nos Estados Unidos, aconteceram ocupações urbanas em mil cidades. Na Itália, saiu daí o movimento Cinco Estrelas, o partido mais votado [nas eleições parlamentares deste ano]. No Chile, os estudantes mudaram o panorama político do país.
Mas é claro que não basta um manifesto no Facebook para mobilizar milhares de pessoas. Isso depende do nível de descontentamento popular e da capacidade de mobilização de imagens e palavras. A internet é uma condição necessária mas não suficiente para que existam movimentos sociais.

Se o que aconteceu na Itália com Beppe Grillo [líder do Cinco Estrelas] pode ser considerado um desses movimentos, pergunto: para que ele serviu então? [Embora fosse o partido mais votado, recusou-se a negociar e acabou ficando fora do novo governo.]
O Cinco Estrelas se situa entre o movimento e a política, mas surge de um clamor, que existe na sociedade italiana, por uma verdadeira democracia. O que aconteceu é que seu êxito bloqueou um sistema corrupto a serviço de uma classe política que na Itália se chama "A Casta".
E o Partido Democrático, em vez de desmentir as suspeitas e mudar suas práticas, faz um governo de aliança com [Silvio] Berlusconi, depois de fazer uma campanha para acabar com ele.
É provável que o Partido Democrático se fracione e que aconteça uma recomposição do sistema político. O Cinco Estrelas não é um partido do governo, mas é uma força que faz o sistema se regenerar.

Como o sr. vê a evolução da crise de representação dos Parlamentos, e que papel a imprensa tem nisso?
Todos os dados mundiais, exceto os da Escandinávia, mostram o desprestígio total dos políticos, partidos e parlamentos. Se os cidadãos pudessem, mandariam todos embora, mas o sistema bloqueou as saídas.
A imprensa costuma estar mediada pelos empresários e por suas alianças políticas. Felizmente, a liberdade de comunicação tem dois aliados fundamentais: o profissionalismo dos jornalistas e a rede.

Marina Silva propõe a criação de um novo partido político, que tem o nome simbólico de Rede. É possível para um político que esteve nos partidos tradicionais reinventar-se nesses novos movimentos?
Em geral, eu diria que não. Mas, conhecendo Marina Silva, se alguém tem a possibilidade de fazer isso, seria ela. Terá, entretanto, de enfrentar todo o sistema, porque um ponto sob o qual todos os partidos estão de acordo é manter o monopólio conjunto do poder.

Os chineses aprenderam a controlar a rede? Seu firewall [muro de censura na rede] já é reconhecido como um exemplo de sucesso tecnológico, como disse a revista "The Economist".
Não. Como dizem meus amigos hackers chineses, a Grande Barreira é um tigre de papel. O controle se faz com robôs que utilizam palavras-chave, como Tiananmen [o nome local para a Praça da Paz Celestial], basta não usar essas palavras.
Mesmo que tenham introduzido novas medidas tecnológicas, não há como controlar os milhões de blogs individuais, que são onde se gera o debate social ""não na página da "Economist" na web.

O que será do Facebook em cinco anos? Se o Facebook quer ser o "melhor jornal personalizado do mundo", como disse Mark Zuckerberg, como ficará sua relação com os meios tradicionais?
Nunca faço previsões. Mas o Facebook tem sucesso porque é personalizado. Qualquer tentativa de utilizar as pessoas em vez de ser utilizado por elas levará a uma competição com centenas de outros, como aquela em que o Facebook liquidou o MySpace. Quem não tem boa perspectiva são os meios de comunicação tradicionais, a menos que se reconvertam no modelo de "jornalismo em rede" que tenho analisado recentemente.

Aos poucos se está mudando o consumo de informação na rede para um modelo em que nem tudo o que está nela é gratuito. Como vê o futuro do jornalismo nesse sentido?
É um grave erro cobrar por informação na rede, a menos que a informação seja profissionalmente relevante, como no caso do [jornal americano de economia] "Wall Street Journal". Com as alternativas que existem na rede, o que acontece é que simplesmente se desvia o fluxo de leitores para outros canais informativos e de debate.

Há 14 anos, o sr. esteve no programa "Roda Viva", da TV Cultura, e disse que São Paulo tinha uma terrível gestão urbana, comparando-a à de Barcelona. Por que as metrópoles brasileiras não conseguem dar o passo que deu Barcelona, mesmo numa transformação tão grande como a de agora para o Mundial?
Barcelona tem muito mais problemas atualmente, mas, ainda assim, é uma das melhores cidades do mundo, e a qualidade da administração municipal é um fator importante para esse resultado.
As metrópoles brasileiras têm muito mais dificuldades objetivas, por seus níveis de pobreza, de violência e da força dos interesses especulativos no solo urbano e nas infraestruturas de transporte e de serviços.
Se houvesse um pacto entre partidos e instituições para deixar de lado diferenças partidárias e fazer um projeto de gestão urbana, estou seguro de que seria tecnicamente possível. Hoje, existem recursos e capacidade profissional no Brasil para melhorar a gestão urbana. É preciso vontade política e sentido de serviço ao cidadão.
Raio X Manuel Castells

IDADE: 71 anos

NA ACADEMIA: professor da Universidade Aberta da Catalunha e da Universidade do Sul da Califórnia; professor emérito da Universidade de Berkeley

LIVROS: "Networks of Outrage and Hope: Social Movements in the Internet Age", de 2012, ainda sem tradução para o português, e "Communication Power" ("O Poder da Comunicação"), de 2009, entre outros
----------------
Reportagem por ROBERTO DIAS SECRETÁRIO-ASSISTENTE DE REDAÇÃO
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/112107-nao-basta-um-manifesto-nas-redes-sociais-para-mobilizar-as-pessoas.shtml

" O Sol sobre o Pântano " < por Luiz Felipe Pondé *



A mulher é mulher porque sangra e, quando não mais sangra, se sente menos mulher

"Somos todos leprosos!", afirma o Monsenhor no livro "O Casamento", de Nelson Rodrigues, muito bem adaptado e dirigido por Johana Albuquerque, em cartaz no teatro Tuca.

O que quer dizer esta afirmação exagerada "Somos todos leprosos"? No romance adaptado existe uma personagem leprosa, e ela se torna, na fala do Monsenhor, o paradigma da humanidade em nossa humanidade. Todos necessitamos de misericórdia porque estamos "em pedaços", e estes pedaços "desfilam" pelo palco, gemendo de prazer e dor.

Nelson Rodrigues é um desses clássicos que todo mundo fala mas pouca gente conhece de fato. Como ele é "cult", dizer que ele é o "máximo" é algo esperado em jantares inteligentes, afora, é claro, os ignorantes que o acusam de "machista" ou, na versão mais moderninha da mesma bobagem, "sexista".

"Um Anjo Pornográfico", título da excelente biografia escrita por Ruy Castro, é uma forma precisa de descrevê-lo. Porque, mesmo sendo pornográfico, ele ultrapassa o discurso sobre sexo para falar do "miserável tédio da carne" que não fala especificamente da carne, mas sim da carne como pele da alma e não do corpo. Seus textos parecem confissões de agonia da alma diante do pecado, na mais velha tradição cristã do começo do cristianismo.

Nelson não é um mero autor de sacanagem (Nelson não é um Sade pernambucano), mas sim um autor espiritual, no sentido mais forte da palavra, talvez, o melhor teólogo que o Brasil já produziu, já que nos últimos anos a teologia brasileira é mais autoajuda do que qualquer outra coisa.

Se formos situá-lo na tradição ocidental, eu o colocaria no encontro entre três gigantes: Freud (sexo como centro dilacerante da alma), Dostoiévski (a alma só sobrevive numa atmosfera de misericórdia porque seu elemento natural é o perdão) e Santo Agostinho (a consciência de que todo drama do corpo é em si um drama da alma). A obra rodriguiana faz de Freud um teólogo.

"Somos todos leprosos" (...) Todos necessitamos de misericórdia porque estamos "em pedaços",
e estes pedaços "desfilam" pelo palco,
gemendo de prazer e dor."
 
 
 

A expressão "Sol sobre o pântano", que descreve muito bem o efeito causado pela montagem de Johana Albuquerque, é um modo presente na fortuna crítica para nomear a obra dramatúrgica de Nelson: sua obra ilumina nossa miséria. A expressão foi usada por Léo Gilson Ribeiro, nos anos 1960, num texto no qual ele diz ser nosso maior dramaturgo um expressionista brasileiro.

Nelson era um obcecado por sexo, adultério, sífilis, crime passional, homossexualismo (pederastia), cunhadas gostosas, todas umas Lolitas cariocas. "Em cada esquina do subúrbio carioca existe uma Anna Karenina e uma Emma Bovary", dizia Nelson. No Brasil, a tragédia anda de lotação.

No mesmo artigo, Léo Gilson Ribeiro cita a famosa passagem na qual Nelson, comentando sua peça "Bonitinha, mas Ordinária", afirma que "a nossa opção é entre a angústia e a gangrena. Ou o sujeito se angustia ou apodrece. E se me perguntarem o que eu quero dizer com a minha peça, eu responderia: que só os neuróticos verão a Deus".

Nelson ri dos idiotas que ainda afirmam que no sexo há redenção e que a revolução sexual nos salvará do tédio. Não, o sexo como sentido da vida é tédio puro. Só idealiza o sexo quem não faz muito sexo. No "Casamento" não é outro o sentido do suicídio de Antônio Carlos, o comedor de todas a mulheres do mundo.

As risadas artificiais desvelam o vazio que carrega os personagens arrastados por protocolos: "Não se adia um casamento na véspera só porque a noiva está menstruada!", de novo, decreta o Monsenhor, o oráculo do romance.

No sexo da mulher, o sangue menstrual que escorre pelas suas pernas define sua feminilidade. A mulher é mulher porque sangra e sangra porque pode ser fecundada no coito e, quando não mais sangra, se sente menos mulher.

Este mesmo oráculo que diz que o sexo é uma mijada (afinal, o órgão sexual é o mesmo que mija, tanto no homem como na mulher e na mulher também sangra), enuncia a diferença final entre nós e os animais: "a culpa faz de nós humanos". A dor da alma é que nos mantém de pé.

Se na teologia clássica é dito que só os pecadores verão a Deus, na teologia rodriguiana só os neuróticos verão a Deus.
---------------------
* Filósofo. Prof. de Filosofia. Escritor. Colunista da Folha

domingo, 2 de junho de 2013

" O povo das coberturas "






           Vai-se para uma cobertura atrás de um quintal
Amigo nosso, que acabei de inventar, mudou-se de um apartamento no quarto andar para um apartamento de cobertura. E nos contou que descobriu outra civilização: o povo das coberturas.
Começara investigando as coberturas próximas à sua, num raio que permitia o abano e a identificação fisionômica. Havia quatro à sua volta e ele estabeleceu contato com três. A quarta era de uma mulher de idade indefinível que molhava suas plantas de biquíni e desprezava os seus acenos matinais.

Todas as coberturas próximas tinham plantas, duas tinham pequenas piscinas. Uma tinha o que parecia ser uma coleção de esculturas eróticas. Ele está convencido de que, como um arqueólogo ao contrário, tropeçara numa civilização desconhecida no céu. O povo das coberturas é diferente. Ele só não sabe se é a diferença que o faz procurar as coberturas ou as coberturas que o torna diferente.


Ele encheu o terraço da sua cobertura com plantas, o que serviu para aproximá-lo da mulher de biquíni, com quem ele agora troca saudações entusiasmadas todas as manhãs. Agitam os braços, fazem grandes gestos de agradecimento ao sol e à chuva e desenvolveram uma sólida identificação comunitária pela mímica, de pomar a pomar.

Nosso amigo acredita que é a vegetação que faz a diferença entre o povo das coberturas e o dos outros andares. O povo das coberturas distancia-se o máximo possível do chão atrás de uma paradoxal compulsão agrícola. Em vez da fascinação milenar do jardim suspenso, o que ele tem, no fundo, é uma nostalgia da casa.

A cobertura é o térreo invertido e, portanto, uma espécie de exaltação do térreo. Ao contrário do que se pensa, vai-se para uma cobertura por humildade, pela mais rasteira das virtudes. Vai-se atrás de um quintal.

Nosso amigo conta que está à beira de uma revelação. Suspeita que todas as coberturas da cidade formam uma rede semafórica, uma silenciosa conspiração de sinais trocados acima da percepção comum e do controle das autoridades. Ele já captou luzes piscando numa cobertura e respondida da outra num código desconhecido. E acha que ainda não foi incluído na rede porque talvez duvidem das suas credenciais. Podem ter concluído, observando-o através de suas lunetas (todas as coberturas têm lunetas), que a dele é uma irreversível alma de quarto andar.

Ele tem passado as noites em claro, tentando decifrar o código e saber o que eles dizem. Não tem dúvida de que existe um intercâmbio clandestino entre os tetos da cidade e não descansará enquanto não descobrir o que combinam. Ou o incluírem no mistério.
 


" Na cama com a insônia "< por Claudia Tajes >





Foi matéria nos jornais: estamos dormindo menos e mal. O celular, sempre à mão para olhar os e-mails e o Facebook entre uma virada e outra na cama, é uma das razões para isso. O barulho da rua, coisas por fazer e a cabeça que não desliga quando a luz apaga, situação típica dos quadros de estresse, são outros dos motivos. Parece que o brasileiro dorme hoje uma hora a menos do que há 40 anos.

E que a média nacional é de seis horas e meia por noite, bem distante das ideais oito horas de descanso das modelos para ter a pele fresca e a aparência louçã. Os homens são os mais afetados pela falta de sono. E a falta de sono causa vários tipos de mazelas, como alterações na memória e no humor, interferências no metabolismo, propensão a diabetes e impotência. Não se espante, pois, se a sua senhora aparecer com um chazinho de camomila todas as noites. O seu sono também é do interesse dela.

Na literatura, a insônia já deu assunto para muita história boa. Existem insones em obras de Proust, Tchekcov, Borges, Dostoievski e muitos mais autores que ou não lembro, ou não li. A insônia confere dignidade a um personagem. Já eu durmo tão fácil que chega a ser constrangedor. Em situações de tristeza extrema, de pindaíba absoluta, de solidão completa, de desilusões variadas, de hecatombe no trabalho, de desavenças familiares, mesmo assim eu durmo.

Pode passar a errônea impressão de que não sei sofrer, mas juro que sei. A questão é que durmo fácil. Em compensação, a maioria das pessoas das minhas relações frita na cama todas as noites. Sem remédio, muitas preferem nem deitar. Conheci um rapaz que não dormia há quatro anos. Era o que ele dizia. Faz tempo que não o vejo. Espero que tenha conseguido pregar os olhos ou que, pelo menos, vire personagem de livro. Nem que seja o Guinness Book.

Para quem não consegue dormir de noite, existe o recurso dos pequenos sonos reparadores. A sesta na cadeira do escritório ou sob a mesa de trabalho é um deles. Quando meu filho era bebê, desenvolvi o método de dormir de pé durante o minuto em que o leite da mamadeira esquentava no micro-ondas. Era reconfortante e eu até sonhava. O cansaço de uma mãe recente deveria ser sintetizado por um laboratório e receitado aos insones.

Derruba qualquer um. Sobre sonos de emergência, li certa vez que, após algumas horas em uma festa, a atriz Tônia Carrero ia ao banheiro e tirava uma soneca de 20 minutos. Depois disso, ficava pronta para varar a madrugada dançando. O único senão é que, se o cochilo passasse dos 20 minutos, a Tônia emendava a noite dormindo. Imagino o susto da moça da limpeza ao abrir a porta e encontrar uma diva roncando na privada.

Quem também nunca dorme são os adolescentes, não por insônia, mas porque não concordam que a noite foi feita para descansar. Diferente das manhãs de aula, o horário preferido deles para dormir. O esforço de uma mãe para tirar um adolescente da cama deveria ser sintetizado por um laboratório e receitado aos fracos. Não há nada, mas nada mesmo, que exija mais força, superação e determinação de alguém.

Elena reconta a história de Elena Andrade, atriz em início de carreira que se suicidou aos 20 anos, quando sua irmã e diretora do documentário, a Petra Costa, tinha apenas sete. Aos 29, Petra narra o filme como se fosse uma carta para a irmã.

Elena deixa uma impressão tão forte que o cineasta Jorge Furtado, em debate com a Petra e com o escritor Peninha Bueno, perguntou o que a guria vai fazer agora que já realizou um filmaço como este. O bate-papo está disponível em podcast na radioeletrica.com. E para ver o trailer e mais informações. Depois é pensar em Elena até dormindo.

" A Secretária e a Patroa "


Estreou semana passada o filme francês A Datilógrafa, que ainda não vi e possivelmente não verei em função do meu pouco tempo livre. Minha patroa anda cada vez mais ocupada, e quem segura o rojão sou eu, claro.
Mas seria ótimo assistir a um filme onde, finalmente, sou protagonista. Pelo que ouvi dizer, a história se passa em 1958, quando as mulheres estavam começando a colocar as manguinhas de fora. Uma garota de 21 anos recebe de presente uma máquina de escrever e resolve aventurar-se no excitante mercado de trabalho, esforçando-se para ser uma boa secretária, que era a atividade adequada às moças daquela época.

Depois o filme parece que vira uma competição, e daí por diante não sei mais nada, mas o resumo inicial me fez lembrar de quando ganhei, aos 13 anos, uma Olivetti Lettera 32. Tirei-a do estojo com o maior cuidado e suspirei: estava ali o passaporte para a profissão que eu sempre havia sonhado exercer.

Fiz um curso de datilografia e passei a praticar todo dia. Comecei a escrever poemas só para exercitar os dedos no teclado, eu que até então me atrevera apenas aos diários escritos à mão. Vinha um verso, vinha outro, e eu ali, treinando, fazendo de conta que era poeta, até que tivesse idade suficiente para virar a secretária que eu desejava ser.

Num acesso de loucura, acabei mandando uns poemas para uma editora e, pra encurtar a história, publicaram um livro meu. Já trabalhava como redatora publicitária nessa época, porque tinha que ganhar algum dinheiro, mas lembro que, quando faltava uma secretária na agência, eu me oferecia para ficar no lugar dela. E tive meu dia de telefonista também.

sábado, 1 de junho de 2013

" Não enlouqueça com os preços "


RUTH DE AQUINO

Não enlouqueça com os preços

O consumidor não gosta de se sentir otário. Está na hora de boicotar quem mete a mão no nosso bolso. Quando o brasileiro médio começa a viajar ao exterior para fazer compras sem se sentir roubado, é porque nossa economia desandou. Felizmente, ainda não perdemos a referência de preços, como nossos hermanos na Argentina, onde os índices são todos maquiados, e a presidente Cristina Kirchner restringe o direito de ir e vir do cidadão. Mas tudo fica mais caro de um dia para outro – de alimentos a serviços e passagens. E bem acima dos salários.

Fiz um teste com uma lista de supermercado. Grãos, legumes, frutas, carnes, peixe, legumes, verduras, laticínios, produtos de limpeza. Mínima quantidade de cada mercadoria. No mercado Zona Sul do Leblon, paguei R$ 452. No mercado Mundial, da Barra da Tijuca, R$ 345. Mesmas marcas, mesmos pesos. E uma diferença de 30% no preço total. Só 12 quilômetros separam os dois estabelecimentos. Pesquise sempre em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é atestado de loucura.

Muitos bares e botequins do Rio de Janeiro e de São Paulo aprenderam a lucrar o máximo, tirando proveito da crise real e psicológica. Reduzem as porções – e o tamanho dos salgados – e cobram R$ 5 a unidade. Em botecos cariocas recomendados por guias, como Jobi ou Chico e Alaíde, os croquetes e bolinhos de aipim ficaram raquíticos, viraram umas bolinhas. E mais caros. Parece que R$ 5 passou a ser o valor mínimo de qualquer coisa. É quanto os quiosques da praia cobram por uma água de coco que pode acabar em três goles. Absurdo!

O quiosque Palaphita Kitch, com bela vista na Lagoa Rodrigo de Freitas, se define como uma “experiência mística”, onde você “entra um e sai outro” – bem mais pobre e revoltado com os preços e o serviço. Uma caipirinha de cachaça “especial” custava ali R$ 26 até pouco tempo atrás! Em Búzios, na costa norte do Rio, um picolé na Praia de Geribá chega a custar R$ 13. Não, obrigada. Vou direto ao fornecedor para satisfazer o desejo por sorvetes.

Jovens resolveram contra-atacar a carestia desenfreada lançando sites úteis. O www.riomaisbarato.com.br dá dicas de opções culturais gratuitas e lugares para comer e beber que não provoquem indigestão na hora da conta. Em São Paulo, quatro amigos criaram o www.boicotasp.com.br para alertar sobre as armadilhas. Os usuários denunciam o grau de exploração do lugar, de 0 a 5, e podem publicar foto do que consumiram com o preço ao lado.

Pesquise sempre, em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é um atestado de loucura

A remarcação abusiva de preços é um duplo tiro no pé. Primeiro, afasta o cliente. O consumo das famílias brasileiras caiu drasticamente no primeiro trimestre de 2013. Todos pensam duas vezes antes de comprar. A inadimplência aumentou. Uma pesquisa da Fecomércio do Rio em nove regiões metropolitanas mostrou que os brasileiros passaram a parcelar compras de alimentos com cartão de crédito. É a primeira vez que isso acontece nos últimos sete anos.

Não somos o povo mais culto do mundo. Mas a classe média não é desinformada. Os gastos de turistas brasileiros no exterior se multiplicam. Nos Estados Unidos, o que gastamos em compras só perde para japoneses e britânicos. Em Paris, as ruas estão coalhadas de conterrâneos. Não é só porque o poder aquisitivo da classe média aumentou no Brasil. É porque nosso país está caro demais, impraticável. Gasolina, transporte, restaurante, shows.

Uma tendência atual é viajar para Nova York ou Miami para fazer o enxoval do bebê. Compra-se pela metade do preço, ou um quinto do preço às vezes, uma mercadoria de mais qualidade que a oferecida no Brasil. Nosso país e o governo Dilma não fazem o menor esforço para estimular o turismo e o consumo domésticos, com preços competitivos. Não temos ferrovias, e as passagens de avião são um escândalo no Brasil. Na Europa, há promoções incríveis com hospedagem. Barato para o padrão nacional.

No bairro de Saint-Germain, em Paris, é possível comer direito em restaurante chinês, japonês ou francês por 8 euros (entrada, prato e sobremesa). Restaurantes sofisticados oferecem menus de almoço em conta, numa relação custo-benefício inexistente no Brasil. E os vinhos? Um chileno de média para baixa qualidade custa, no Brasil, o mesmo que um bom Bordeaux em Paris. Nos Estados Unidos, compra-se um Mouton Cadet por menos de US$ 10. Resultado: turistas brasileiros têm comprado lá fora caixas de vinho.

O vilão são os impostos, as taxas? Está na hora de adequar tudo aos salários. O consumidor não é masoquista. Ninguém está disposto a enlouquecer com os preços. Esperamos que Dilma não imite a viúva Kirchner. A Argentina pune as vítimas de sua política econômica e não os malfeitores. Podemos fazer melhor.

" Impressões Digitais " , < por Nilson Souza >

 


A historinha contada em forma de diálogo é tão engraçada quanto perturbadora.O homem telefona para encomendar

uma pizza e descobre que a pizzaria foi comprada pelo Google.

A partir daí,é o atendente que comanda a conversa , antecipando a preferência do cliente, sugerindo o melhor alimento para a sua saúde, lembrando- o de que não está tomando o seu remédio regularmente e mostrando que sabe tudo sobre ele, pois possui

um banco de dados com todos os seus gostos e hábitos.É tamanha a intromissão em sua vida, que lá pelas tantas o sujeito explode:

____________ESTOU FARTO! Estou farto de internet, de computadores , do século 21 , da falta de privacidade , dos bancos de dados e deste país...

E cancela o pedido , avisando que no dia seguinte mesmo vai viajar para bem longe, talvez para uma ilha desabitada na Oceania.

Depois de um silêncio constrangedor, o atendente avisa :

________ seu passaporte está vencido.

O Grande Irmão , profetizado por George Orwell , venceu a parada.Programas de computador cada vez mais sofisticados mapeiam não apenas o perfil do consumo das pessoas ,mas também detalhes inimagináveis de sua personalidade e de seu comportamento. Cadastros são comercializados a preço de ouro.Lojas e Bancos sabem quanto você ganha,se você é bom pagador, se gosta de comer sagu,se viaja sozinho ou acompanhado.Antigamente só o padre sabia isso, porque perguntava, E

NÃO CONTAVA PARA NINGUÉM.

Agora todos sabem e todos revelam.


Temos um pouco de culpa,certamente, pois vamos deixando impressões digitais por onde passamos.Mas as armadilhas são

muitas e irresistíveis.Você ganha um brinde aqui,concorre a um prêmio ali,aproveita uma oferta de ocasião , recebe um cartão de fidelidade, mas em troca tem que informar seu CPF, o nome do seu avô,o gênero literatura preferido,a geléia

que consome no café da manhã.

Aí não pode se surpreender quando estiver percorrendo uma zona comercial da cidade e receber um alerta pelo celular

...aquela centrífuga que você procura está em liquidação na loja da frente! Isso, porém ,é o de menos.O risco maior é o da

discriminação : ao saber que você costuma pesquisar preços antes de comprar,o lojista deduz que seu poder aquisitivo é baixo e dificulta o seu crédito ou oferece produtos de segunda linha.

O homem ama e respeita o homem enquanto não consegue julgá-lo, escreveu certa vez Thomas Mann.Na era da informática, estamos sendo avaliados e julgados o tempo inteiro.E, para sermos amados e respeitados, talvez tenhamos mesmo que viajar para as ilhas FIJI.

Uma semana sem Facebook



Por que você resolveu sair do Facebook?
A gente passa o dia todo on-line e nem percebe que pode estar viciado. Eu queria saber como seria minha vida sem isso. Sete dias parecem pouco, mas, para quem está há vários anos acessando todo dia, foi um desafio. Eu quis esse desafio mesmo.

E como foi?
No primeiro dia foi algo meio que “doido”. Eu chegava na frente do computador e a primeira coisa que fazia era digitar o site do Face, e não podia logar. Até parece papo de grupo de recuperação, de gente que está sem usar uma droga. Mas é bem isso mesmo: tem uma certa dependência, abstinência e recaída. Muito difícil.

Você teve alguma recaída?

Se eu falar que não, estarei mentindo. Entretanto, logar no site eu não loguei. Mas teve alguns momentos que amigos comentaram comigo alguma situação, e pedi para eles olharem alguma atualização em meu perfil.

Você se considera viciado em Facebook?

Eu achava que não era viciado. Pensava que era algo “normal”. Mas percebi que meus dias já não estavam mais tendo 24 horas. Eu ficava muito tempo na frente do PC, no Face. Acordava e já ligava o computador. Era a mesma coisa quando chegava ao trabalho e quando voltava para casa. Várias vezes, conversei pelo Face com um amigo que estava ao meu lado!

O que seus amigos acharam da ideia de você se desconectar?

Vários não curtiram a ideia. Alguns falaram que eu havia “sumido”. Mas eu continuava no mesmo lugar, só não estava no Face. Às vezes, parecia que eu não existia mais. Algo estranho mesmo. Muito estranho. Antes eu marcava coisas pelo Face: saídas, jantas, filmes, recebia muitos convites. Naquela semana eu tive que telefonar para “agitar” alguma coisa.

Sua vida melhorou sem o Face?

Depende do ponto de vista. Pude ler mais livros e sites de notícias do que antes. Quando fiz alguma coisa diferente nessa semana, pude aproveitar mais, porque não me preocupei em ficar contando para o Face o que estava acontecendo, tirando fotos, essas coisas. E sem contar que pude aproveitar o tempo sem Face para falar pessoalmente com velhos amigos e também conhecer novos. Foi uma experiência boa. Entretanto, pretendo não repetir tão cedo (risos).
(Experiência vivida pelo estudante Rafael Brondani)
Nota:As redes sociais estão causando uma verdadeira revolução comportamental. Sem dúvida, há pontos positivos, como a possibilidade de reencontrar velhos amigos, de partilhar informações e fotos com parentes distantes e de se manter atualizado com respeito à vida de pessoas que nos são queridas. Mas acaba sendo bem tênue a fronteira entre o que é bom e o que não é, entre o que convém e o que não convém. Muita gente desperdiça tempo precioso com banalidades e“fuçando” na vida das pessoas e nas páginas dos amigos dessas pessoas (com quem nem sequer se relacionam). Quando se dão conta, as horas voaram, o tempo para o sono reparador foi encurtado e a cultura útil não foi ampliada. Aquele livro interessante e importante continua na estante e os relacionamentos reais ficam na lista de espera. Como em tudo na vida, o uso das redes sociais exige moderação. Além disso (e mais importante), os que se dizem cristãos devem deixar isso bem evidente também em sua “vida virtual”.
-----------------------
Fonte: http://www.criacionismo.com.br/31/05/2013

Sobre a impermanência do tempo


ANDRÉ COMTE-SPONVILLE*
O filósofo André Comte-Sponville: autor é convidado da Jornada de Psicologia da SPRGS
e terá videoconferência exibida no evento.
 
 
O tempo é evidentemente um dos conceitos mais importantes de toda a filosofia. E não somente de toda a filosofia, mas, eu diria ainda, de toda a nossa vida. Isso porque, na realidade, nós estamos “dentro/no” tempo. E não só estamos/somos “no tempo” mas nós somos temporais/transitórios, ou ainda “nós somos tempo”. Dito de outra forma, o tempo não é tão somente aquilo que nos contém e que seria algo de “exterior”, mas o tempo é a própria substância de nossa vida. Poderíamos dizer a mesma coisa a respeito do espaço. Dizemos seguidamente que estamos no tempo e que estamos no espaço. De acordo, mas eu não estou “simplesmente” no espaço visto que, eu mesmo, sou espacial, intrinsecamente espacial. No tempo, o que é que eu sou? Pois bem, eu sou o presente, eu pertenço ao presente, e a dificuldade será a de compreender aquilo que significa dizer, ao mesmo tempo, que eu estou/sou tempo e eu estou/sou no presente. Seria esta espécie de mistério que eu gostaria de procurar aprofundar e esclarecer.

Na verdade, a primeira pergunta que nos devemos colocar é: o que é o tempo? É uma pergunta muito simples, mas, na verdade, muito desconcertante. Todos sabem que eu falo do tempo, e todos nós sabemos do que se trata. No entanto, se eu pedisse a vocês para “definir” o tempo, para dizer-me, com palavras, aquilo que ele “é”, então eu suponho que vocês se sentiriam um pouco constrangidos. Esse constrangimento é o próprio ponto do qual seria necessário partir.

O tempo é o passado, o presente, o futuro. Muito bem, mas o passado não é, porque ele não é mais, e o futuro não é, porque ele ainda não é. Resta-nos somente o presente, mas o presente não é do tempo, ele é um instante sem duração. Entende-se então que o presente seja a soma de dois “nadas”: o passado que não é mais e o futuro que ainda não é, separados por um instante sem duração. O tempo é esse processo perpétuo de aniquilamento, visto que o presente é anulado a cada instante no passado, o instante-presente entre dois nadas, o passado e o futuro.

Cena da videoinstalação “Alarm Clock” (2006), do sul-coreano
Shin Kiwoun: o tempo não é uma coisa, e somente o presente existe

Na verdade, é o que chamamos “a fuga do tempo”. O que o torna inatingível é que o tempo não é uma coisa, o tempo é o instante-presente sem duração, entre dois nadas: o passado que não é mais e o futuro que ainda não é. O tempo é o presente. Antes de tudo é uma tese estoica e, para citar o estoico Crisipo, “somente o presente existe”. Isso conduz, então, a um tema universal que nós encontramos em todas as escolas de sabedoria: viver no presente! Salvo que, vocês se dão conta disto, se somente o presente existe, viver o presente não é um ideal, não é um “slogan”, uma palavra de ordem. Viver no presente é simplesmente a verdade de viver. O tempo é o ato... o ato de ser! Então, não quero me demorar no problema sob o ponto de vista metafísico, mas isso significa dizer que ele tem também suas consequências éticas: se ser é ser em ato, quer dizer que existir é insistir, é o que chamamos de conatus, com Espinosa: o esforço de todo ser para perseverar em ser e que o poeta Paul Éluard chama “o difícil desejo de durar”, e isso desemboca naquilo que eu chamei uma ética da insistência e da resistência.

É necessário aceitar que o real é aquilo que ele é para tomar a empreitada de transformá-lo. Mas aceitá-lo tal como ele é não significa resignar-se àquilo que ele é, e renunciar a transformá-lo. O tempo é o devir/ futuro. Ser é duração, duração é mudar. Quando eu digo que o ser é o devir, violo uma espécie de tabu ocidental porque, na verdade, toda a metafísica ocidental desde Platão está fundamentada sobre a ideia de que o ser e o devir são duas coisas separadas. E, na verdade, o Ocidente não parou – com algumas raras exceções – de privilegiar aquilo que é imutável, aquilo que é permanente e que seria o verdadeiro ser em oposição àquilo que muda, aquilo que não é permanente e que chamamos de devir. Para Platão, as Ideias são eternas, imutáveis, elas não mudam jamais, e o mundo aqui embaixo, o mundo sensível, muda sempre, e não podemos confiar nele. A mesma coisa está em Aristóteles, o mundo supralunar é imutável, o mundo sublunar é, evidentemente, fadado à mudança. Mesma coisa no materialismo epicurista: os átomos são seres verdadeiros, são imutáveis, é o que não se move, é o permanente.

Os corpos compostos que mudam sempre estão destinados à impermanência. Ser e devir são uma única e mesma coisa, o ser vem a ser e somente o devir “é”. É o que chamamos de “heraclitismo”. No Ocidente, o pensamento de Heráclito, panta rei, dizia ele em grego, tudo se esvai, tudo muda... vocês conhecem a famosa fórmula de Heráclito, “não nos banhamos jamais duas vezes no mesmo rio!”. Com certeza, Heráclito não está só. O maior seguidor moderno de Heráclito, pelo menos na França, é, sem dúvida, Montaigne. E o que é interessante, tratando-se de Montaigne, é que, como um bom cristão que ele também é – porque existiram sempre cristãos e não haverá lugar para pensar que ele não o era. Mas como dizíamos, como um bom cristão que era, também, Montaigne escreve nos Ensaios, na Apologia de Raymond Sebond, o seguinte: “Que há então que seja realmente verdadeiro? Somente o que é eterno, isto é, o que nunca teve começo e nunca terá fim: o que não muda sob o efeito do tempo?”. Dito de outro modo, para Montaigne aquilo que “é” verdadeiramente é aquilo que é imutável, e disso ele conclui: “E é por isso que só Deus ‘é’”. Vocês entendem bem a razão: se Deus é imutável, esse ser imutável como só Deus pode ser, somente Deus “é”. Entendido, mas nós não somos Deus, nós estamos no tempo, nós não paramos de mudar, nós estamos fadados ao devir. E é esse devir que é preciso habitar. A grande questão no centro da vida é, antes de tudo, aceitar mudar/a mudança, aceitar o devir, aceitar a impermanência/instabilidade.

------------------
* Filósofo
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/01/06/2013