sábado, 3 de novembro de 2012

" Essa Luz do Celular na sala de cinema "

 



Cézar Hazaki*

A cultura da televisão se desenvolveu nos Estados Unidos – cuja hegemonia tornaram-lhe a usina da sociedade do espetáculo – e se expandiu por todo o mundo (Raj Patel, “Obesos e famélicos”, ed. Marea, Buenos Aires, 2008). Nesse país, nos anos 1950, uma em cada dez famílias tinha televisor em casa; nos anos 1960, nove em cada dez. Esta revolução da imagem, que levou o espetáculo à sala de estar, transformou os eixos da vida familiar. O evento televisivo conseguiu se transformar no centro das atenções. Rapidamente, as famílias se acostumaram a comer enquanto assistiam TV. O encontro familiar passou a ser dominado pela TV, apesar das recomendações de especialistas que recomendavam separar a refeição da televisão.

Ligeiramente, a indústria da alimentação, que havia produzido enormes quantidades de comida enlatada para as tropas na Segunda Guerra Mundial e que precisava abrir novos mercados, compreendeu isso. Assim, inventaram a comida congelada. Bombardearam publicitariamente as donas de casa mostrando que cozinhar já não era o importante, pois se perde muito tempo. Como o espetáculo estava dentro de casa e era preciso dar atenção para o mesmo, deixar de preparar a refeição trazia liberdade para assistir mais TV. Apareceram as marcas de comidas congeladas “TV Dinner” e “TV Brand Frozen Dinners”. Na época, as revistas femininas insistiam que as crianças bagunceiras, graças ao incentivo para assistir TV, podiam comer o que sua mãe oferecia, sem se opor. Em casa, o espetáculo era tão poderoso que podia até disciplinar as crianças. A TV foi a ritalina da época.

Num longo e sistemático processo, que incluiu muitas mudanças tecnológicas (como a incorporação do freezer), a comida em comum foi abandonada como ritual familiar. Privilegiou-se a imagem da televisão. A organização da mesa familiar foi modificada ao se incorporar o televisor como integrante, o que também marcou a agenda: passou-se a falar daquilo que a TV mostrava. Era a TV que falava, os convivas se transformaram em espectadores e a TV no terceiro pai. E este processo foi avançando. Hoje, cada integrante da família come “delivery”, sozinho em seu quarto, assistindo TV e conectado à
Internet.

O cinema havia preservado para si a condição de lugar ritual, que demandava concentração do espectador. Quando se iniciava a projeção, era preciso respeitar a escuridão para não romper a cerimônia coletiva. Porém, o costume de comer rápido, para continuar assistindo TV, abriu as portas para outro negócio dentro do cinema: beber e comer. Os donos das salas credenciaram a venda de comidas dentro do cinema, e iniciou algo impossível de parar: os espectadores começaram a comer como se estivessem em suas casas, diante do televisor. Baldes de pipoca, refrigerantes, guloseimas, hambúrgueres, cachorros-quentes. Hoje, nas redes de cinemas são encontrados bons assentos, boa imagem, excelente som e o espectador da poltrona vizinha mastigando pipoca e bebendo refrigerante.

E mais mudanças serão vistas, desta vez vindas dos usuários de telefones celulares: é cada vez maior o número daqueles que os ligam, durante o filme, em diversos lugares na sala. Os usuários respondem mensagens de texto, resistindo em desligar os celulares. Ficam atentos às duas telas: a do cinema e à pessoal [celular]. Em maio passado, Amy Miles, da “CEO de Regal Entertainment” – a maior rede de exibição de filmes dos Estados Unidos -, advertiu que, embora sua empresa ainda não admita o uso de telefones celulares, “se apresentássemos um filme que seja para um público mais jovem, poderíamos mudar este critério” (www.acculturated.com).

A empresária está convencida de que a relação hiperconectada, entre os jovens e seus “
smartphones”, não retrocederá e que se intensificará na medida em que os aparelhos se tornem mais sofisticados. O tema foi explanado na convenção anual que é feita pelos proprietários de redes de projeção cinematográfica, em Las Vegas. Neste encontro, debateu-se sobre a estratégia para favorecer a volta desses jovens às salas cinematográficas, uma vez que antes que deixar sua hiperconectividade permanente, preferem não ir ao cinema.

Desta forma, estamos na presença de um novo tipo de espectador, que imporá condições na forma de ver cinema. O “Cinemacom” procura recapturar esses adolescentes desertores das salas, e busca soluções. Uma delas seria dispor de um espaço isolado, como se fosse uma sala para fumantes, onde seria permitido usar o celular sem restrições. A outra é oferecer funções especiais, com maior custo, para aqueles que querem usar o celular durante o filme. Trata-se de fazê-los se sentir em casa, fazendo “zapping” entre o filme, as mensagens de texto e as chamadas de seus amigos. Se já podem comer na sala, por que deveriam desligar a placenta midiática, prestativa e solícita, vinte e quatro horas, para alimentar o jovem hiperconectado.

Freud falava dos órgãos auxiliares para se referir aos avanços tecnológicos que o homem se colocava, e que o faziam se sentir um deus. Ele dizia que era difícil para que se acostumasse com as próteses tecnológicas, mas acreditamos que não é o que acontece com o celular. O “smartphone” torna atual o modelo proposto por Donna Haraway, em seu “Manifesto cyborg”, de 1985: o cyborg é um híbrido de máquina e homem, um organismo cibernético, uma pessoa conectada a uma rede. Hoje, o cyborg – híbrido de máquina e homem, organismo cibernético, pessoa conectada a uma rede – não é mais uma ficção: o celular já é parte do corpo do homem. Sua presença marca um aprofundamento da relação entre o atual corpus tecnológico e o corpo das pessoas. E este corpo mediático traz uma nova forma de subjetivação. Uma nova modificação do homem, onde a mutação é pela incorporação da tecnologia web e suas máquinas de comunicar, que se introduzem no corpo e o modificam.

Atualmente, o cyborg – união do humano com a menor e mais potente máquina de comunicar que foi inventada – não pode se sustentar sem essas múltiplas aplicações da hiperconectividade providas pelos “smartphones”. Desconectá-lo ou esquecê-lo gera uma ansiedade muito primária: como humano, precariza-se, e com o celular vence a incerteza. É assim que se constitui o cyborg, um Popeye que comeu espinafre e acredita estar seguro e pronto para qualquer façanha comunicativa.

O celular, assim incorporado ao corpo, realiza uma unidade mais completa do corpo mediático, que havia começado com a TV, para se aprofundar com a revolução informática e alcançar novas dimensões com a ordem da telefonia celular. Agora, a placenta mediática pode ser requerida em todo momento e lugar. Os celulares são o cordão umbilical do modelo cyborg: anexados ao corpo, fazem parte dele. Sem dúvidas, as novas gerações, as infâncias digitais que estamos vendo crescer, serão muito mais cyborg. Contudo, os que já são cyborgs hiperconectados não admitem restrições ao seu afã comunicativo. Por isso, o cinema e o teatro são cada vez mais um campo de batalha entre os que não aceitam os celulares ligados e aqueles que não podem prescindir do seu. Estes, ao se esquecer de desligá-los – um típico ato de frustração -, impõem condições aos outros.

No cinema atual está presente o modelo televisivo: o “celu-espectador” aplica o modelo que praticou em frente ao televisor: o zapping. Vai do filme à mensagem de texto recém-recebida e vice-versa. Ou seja, sua atenção é menos concentrada e, por isso mesmo, requer vários estímulos simultâneos; com a reserva de que é mais fiel à sua conexão por celular do que ao ritual da tela.

Como o celular conta com vibrador, pode não atrapalhar com o seu som, mas trata de impor novas regras em relação ao acender e apagar das luzes. Os novos celulares com “leds” possuem um brilho que é impossível não prestar atenção. E o espectador com seu celular não é anônimo, não se trata de passar despercebido, como também não pretendem passar, aqueles que comem pipoca num balde: estão dispostos a romper a liturgia que conhecíamos no cinema. Em sua prepotência de cyborg, pouco importa as reclamações dos humanos espectadores (restos arqueológicos da humanidade pretérita); ele não quer a escuridão completa, não quer estar atento somente ao filme, não quer perder nada de seu mundo pessoal durante o filme. Na sociedade do espetáculo, o cyborg não aceita ser espectador, quer ser protagonista.

Em definitivo, quer fazer o que aprendeu e desenvolveu em sua casa, assistindo televisão: comer rápido, atender ao telefone e fazer “zapping”. O controle remoto era uma ferramenta, embora fora do corpo, não era solto da mão. O celular é parte inseparável do próprio corpo. Ele vai para todas as partes, é escutado diretamente no ouvido, fala-se mais com ele do que com quem se está viajando ou trabalhando. O celular constitui uma nova espécie de humanidade, e os cyborgs mostram as novas formas de subjetivação condicionadas pela tecnologia.
------------------
*O psicanalista Cézar Hazaki, citando como precedente a complexa relação entre a TV e o cinema, sustenta que aqueles que não param de olhar o celular, durante o filme, fazem parte de “um novo tipo de expectador, que imporá condições”, e que esse expectador é a realização do cyborg que a ficção científica já antecipou. O texto, extraído de um artigo escrito para o próximo número da revista Topía, é publicado no jornal Página/12, 01-11-2012. A tradução é do Cepat.
Fonte: IHU on line, 03/11/2012
Imagem da Internet

" Homogenitorialidade" de Laurent Alexandre



 

Algumas afirmações que parecem ser
de bom senso se tornarão
em breve biologicamente falsas.
A tecnologia permitirá
que os homossexuais tenham
filhos biológicos portadores
dos genes dos dois genitores,
como os
 
 casais heterossexuais
Quais são os limites para os homossexuais franceses? O debate é muito vivo. Em poucas décadas, eles conquistaram reconhecimento e proteção; reivindicam hoje diversas mudanças em nível legislativo em nome da igualdade: casamento, direito à adoção, acesso às técnicas de procriação medicamente assistida e recurso à gestação de "aluguel". O presidente francês, François Hollande, prometeu o direito ao casamento e à adoção para esses casais. Será que amanhã será dado aos homossexuais o direito de se reproduzirem?

Por enquanto, os gays franceses vão para os Estados Unidos ou à Ásia, onde está organizado um verdadeiro mercado da fertilização in vitro e da gestação de "aluguel". Eles compram na internet um óvulo sob medida e alugam um útero por nove meses. As características físicas das mulheres envolvidas além do seu quociente intelectual estão particularmente bem documentados nesses sites.

Os felizes genitores voltam com um recém-nascido, e as autoridades fecham os olhos. Eles só têm alguns problemas administrativos para a transcrição do estado civil da criança no direito francês. No entanto, a criança é o fruto biológico de apenas um dos dois genitores, o que é fonte de frustração para o outro: as lésbicas utilizam o esperma de um terceiro, e o óvulo e o útero de uma das duas "cônjuges"; os gays se servem do esperma de um dos dois homens e do óvulo de uma mulher que pode ser a mesma da gestação, mas não obrigatoriamente.

Essas evoluções da sociedade são contestadas por alguns psicólogos, particularmente porque a adoção por homossexuais corre o risco de provocar problemas psicológicos às crianças as quais se impõe uma filiação impossível. "Um casal homossexual nunca será crível como 'gerador'", afirmou recentemente o doutor Pierre Lévy-Soussan, no jornal Le Point. No entanto, essa que hoje parece ser uma afirmação de bom senso se tornará biologicamente falsa. A tecnologia permitirá que os homossexuais tenham filhos biológicos portadores dos genes dos dois genitores, como os casais heterossexuais.

A técnica das células-tronco IPS (pluripotentes induzidas) – cujo inventor japonês, Shinya Yamanaka, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina 2012 – permite a fabricação dos espermatozoides e dos óvulos a partir de fibroblastos, células que se encontram sob a pele. Já é possível fabricar um camundongo a partir de dois genitores. A passagem dessas técnicas para a espécie humana é apenas uma questão de tempo, e as associações homossexuais militarão para que esse prazo seja breve.

Além disso, graças às células estaminais IPS, um mesmo indivíduo poderá produzir tanto óvulos quanto espermatozoides. O único limite, por enquanto, é que o filho de um casal de homossexuais poderá ser apenas uma filha.

Em algumas décadas, os casais de homens poderão se beneficiar ainda do útero artificial. O biólogo e filósofo Henri Atlan – grande especialista no assunto – defende a ideia de que não há diferença fundamental entre uma incubadora para recém-nascidos prematuros e o útero artificial.

Parece realmente muito distante o tempo em que Jeannette Vermeersch-Thorez, grande dirigente do Partido Comunista Francês, declarava o seguinte sobre a pílula anticoncepcional: "Quando as mulheres trabalhadoras exigiriam o direito de acesso aos vícios da burguesia? Nunca!".

A experiência mostra que a velocidade do deslocamento do "proibido" para o "tolerado", depois ao "permitido" ou até ao "obrigatório", depende, essencialmente, do ritmo das descobertas científicas, independentemente dos problemas éticos levantados.
-------------------
* A opinião é do cirurgião urologista francês Laurent Alexandre, em artigo publicado no caderno Science et Techno do jornal Le Monde, 27-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/03/11/2012
Imagem da Internet

" O perigo pode nos salvar " de Edgar Morin

 



O filósofo francês Edgar Morin (Foto: Pedro Abude)

O pensador francês diz que o risco de uma catástrofe global pode oferecer novo rumo à humanidade


Share4
O pensador francês Edgar Morin, de 91 anos, é dono de incontáveis memórias. Filho único de uma família judia, testemunhou, quando jovem, em Paris, a expansão nazista de Adolf Hitler. Na Segunda Guerra Mundial, a fim de combater os alemães, foi para o campo de batalha pela Resistência Francesa. Aderiu, em 1941, ao Partido Comunista, do qual seria expulso anos mais tarde por criticar Josef Stalin. Assumiu-se ateu. Escreveu dezenas de livros que viraram referências para universidades de todo o mundo. Criou teorias influentes, como a do “pensamento complexo” — que disseca a racionalização humana. Criticou sistemas econômicos e políticos. Hoje fala dos perigos do progresso tecnológico.
Tido como um dos grandes intelectuais vivos, Morin está no Brasil para trazer à tona algumas dessas passagens de sua vida. Ele está lançando, pela editora SESC SP, três volumes em português de seus Diários: Diário da Califórnia (256 páginas, R$49), Um ano sísifo (560 páginas, R$59) e Chorar, amar, rir, compreender (404 páginas, R$49). Escritos em diversas etapas da vida do autor, as obras misturam reflexões de fatos históricos com passagens da vida particular, como a traição de um amigo e a doença de sua mulher, Edwige, que morreu em 2008.
De fala pausada e olhar sereno, Morin concedeu uma entrevista a ÉPOCA, no hotel em que está hospedado, em São Paulo, onde disse como enxerga o futuro da humanidade. Para ele, que se define com um “otipessimista”, a grande saída para um mundo próspero continua sendo a educação. Quer que o mundo faça uma reforma completa no sistema educacional. “Hoje só há os especialistas que veem os problemas em pedaços”, diz. “Os conhecimentos fragmentados nos impedem de ver e conceber os problemas fundamentais, que são globais.”

ÉPOCA - Em muitos de seus artigos, o senhor afirma que o mundo está caminhando rumo ao abismo. Sintomas disso são as guerras religiosas, as catástrofes ambientais e as crises financeiras. É possível frear essa autodestruição?
Edgar Morin -
Espero que sim. A experiência histórica mostra que as mudanças chegam de modo que nenhuma previsão é capaz de captar. Pense nos períodos antes das religiões. Precisou haver uma pessoa marginal, desviante, como Buda, Jesus Cristo ou Maomé, para que surgissem. O mesmo vale para os sistemas políticos. O capitalismo surgiu com o avanço das técnicas no mundo feudal. O socialismo começou com três ou quatro pensadores e em 20 anos ganhou força. Todos esses exemplos surgiram de forma inesperada, contra a corrente. Então, se agora não podemos ver uma possibilidade de mudar, não significa que não exista. Temos que ampliar nossas visões. Agora não temos uma consciência geral de como lidar com todas as ameaças: econômicas, ambientais, entre outras. Tenhamos como o exemplo o tema da biosfera. Em junho, houve a Rio+20, onde não se chegou a um acordo global. Isso só ocorreu porque os interesses nacionais e particulares são mais fortes que o interesse comum e global. Somente com o agravamento da situação global chegaremos a essa consciência em comum. Há uma frase do poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843) que resume: “Onde há perigo, cresce também o que salva”. O perigo pode nos salvar. Acredito que, quando se faz presente, o perigo dá uma possibilidade de consciência de ação. Estamos chegando a esse período. É um terreno instintivo, e a regeneração é sempre mais lenta. Espero que mudemos com o crescimento dos perigos.

ÉPOCA - Desde 2008, passando pelas manifestações do ano passado até a crise econômica nos países europeus, muito se falou em sinais de um colapso do capitalismo. O senhor acha que pode haver um sistema mais eficaz?
Morin -
O modo fundamental para impedir a dominação e a especulação financeira nas várias nações do mundo é a criação de um novo meio de tomada de decisões em nível planetário. As nações não têm poder suficiente para impedir as multinacionais. Temos a necessidade de organizarmos instituições comuns que não existem na ONU (Organização das Nações Unidas) para tratar dos problemas mais perigosos, complexos e terríveis do nosso tempo — como o controle das armas nucleares.

ÉPOCA - Qual é o papel do intelectual no mundo atual?
Morin -
O papel dos intelectuais é expor os problemas fundamentais e globais para todo ser humano. Eles devem olhar para as tensões. Hoje só há os especialistas que veem os problemas em pedaços. Nosso sistema de educação também é de separação. Os conhecimentos fragmentados nos impedem de ver e conceber os problemas fundamentais, que são globais. Existe uma reforma do conhecimento que é necessária, e este é também o papel dos intelectuais. Mas não basta os intelectuais exporem os problemas fundamentais. Precisam não se iludir. No passado, muitos intelectuais se iludiram.

"As pessoas buscam esperança e salvação.
A questão do nosso tempo é encontrar
um caminho que não seja de ilusão."

ÉPOCA - Como evitar as ilusões? A reforma na educação que você propõe teria esse papel?
Morin -
Fiz três livros sobre as necessidades de uma reforma na educação. É mais do que uma revolução pedagógica. Hoje todos os sistemas educacionais fazem uma separação dos saberes em compartimentos. Precisamos religá-los para que as mentes possam conceber e tratar problemas fundamentais e globais. Devemos introduzir na educação questões como a possibilidade de equivocar-se e de encontrar conhecimentos pertinentes. Também temas como a limitação da compreensão humana, o aprendizado para enfrentar incertezas e a compreensão do significado de uma mundialização de uma história planetária. São tópicos fundamentais para nos dar a possibilidade de enfrentar os problemas vida. Precisamos de tudo isso para um futuro melhor.

ÉPOCA - Nos últimos anos, vemos uma popularização dos livros de autoajuda. Muitos autores agrupam temas como filosofia e sociologia, simplificando-os em passos simples para uma vida prática. Como o senhor vê esse movimento?Morin - Vivemos uma época de impulsos, de interrogações, de medos. Nesse momento as pessoas procuram caminhos e salvação. É evidente que chegam os profetas. Grandes, pequenos e os falsos profetas. É normal isso. Muitas crenças do passado, sabemos, foram grandes ilusões. As pessoas buscam esperança e salvação. A questão do nosso tempo é encontrar um caminho que não seja de ilusão.

ÉPOCA - O senhor também se mostra um crítico do progresso tecnológico. Em meio a tantas descobertas, o senhor vê questões preocupantes que deveriam ser abordadas com mais frequência. Por quê?
Morin -
O progresso tecnológico e científico tem duas cargas distintas: uma benéfica e outra de manipulação. É o caso do descobrimento da energia nuclear, que também era e é utilizada para criar armas de destruição em massa. Tem também as manipulações múltiplas de cérebro, da genética e muitos outros perigos que se apresentam como benévolos. Nós vemos tudo a partir de uma ciência biológica que está contaminada pelo proveito do capitalismo. Há muitos interesses por detrás. Quanto ao avanço da tecnologia e da inteligência artificial, a questão é sempre dominá-las e não ser dominados por elas. Penso que é uma luta permanente.
-------------------
Reportagem por GUILHERME PAVARIN
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/cultura/noticia/2012/10/edgar-morin-o-perigo-pode-nos-salvar

" Felicidade pode ser Fugaz,mas ainda será..."

 
 
 
Dr J.J. Camargo
é cirurgião torácico e chefe
do Setor de Transplantes
da Santa Casa de Misericórdia
          Porto Alegre - RS
 
 
 
A medicina nunca se cansou de buscar soluções para interromper a dor, nossa feroz e eterna inimiga. No final dos anos 70, alguém propôs uma técnica interessante, ainda que os benefícios fossem muito pouco duradouros.
A injeção intraraquidiana de soro fisiológico gelado determinava alívio satisfatório de dores intratáveis, como as decorrentes de invasão da coluna vertebral.
Numa época em que ainda não se conhecia os prodígios da analgesia peridural com morfina ou derivados, isto pareceu um avanço significativo.
O método foi testado em dois pacientes com tumores avançados de esôfago e de pâncreas e o alívio doloroso foi imediato, ainda que o efeito desaparecesse depois de cinco ou seis horas. Quando entrei no quarto do Camilo, portador de um câncer terminal com incontáveis metástases ósseas na coluna, ele estava encolhido, virado para a parede.
Nos olhos inchados, havia uma dor multiplicada. Na final daquela tarde, a filha caçula casaria numa capela da Vila Assunção e ele não tinha a mínima condição de acompanhá-la ao altar. Impossível não sofrer com aquele sofrimento.
 
Saí do quarto estimulado por uma ideia meio louca: nós podíamos tentar colocá-lo naquela igreja. Esta que seria a última coisa maravilhosa de uma vida que fracassáramos em evitar que terminasse. E ele merecia isso. Depois de conseguir a cumplicidade do anestesista e a parceria solidária do residente de plantão, anunciamos o projeto ao pobre homem, que chorava de dor e ria um riso de criança, imaginando a surpresa que haveria de causar. Um irmão foi convocado para buscar o seu melhor terno, cortou cabelo e barba e incorporou-se à trama caridosa. As roupas trazidas eram do tempo de bonança, mas ataduras e compressas encheram os vazios de tronco e membros consumidos pela doença.
Um pouco de ar injetado no pescoço encostou a pele no colarinho folgado e umas massagens enérgicas nas bochechas, agora sorridentes, devolveram um rosado saudável.
 
Com os cúmplices nas laterais, Camilo entrou na igreja com um sorriso capaz de suplantar ao de uma noiva muito feliz. Impressionante como alegria e gratidão reunidas na mesma cara, dão às pessoas um indiscutível ar de saúde.
 
O festival de abraços na saída da igreja deixou uma lição definitiva: a felicidade não se mede por duração, mas por intensidade. Quando ele voltou ao hospital, tarde da noite, pediu uma dose generosa de morfina porque a danada recomeçara e ele confessou que nunca se sentira tão cansado. Antes de dormir, fez o plantonista prometer que, acontecesse o que acontecesse, a sua família não deveria ser avisada antes das nove horas da manhã.
 
Uma lua de mel sem notícias ruins seria seu último presente à filha amada.
Felicidade é urgente. A tristeza pode esperar.
 
 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

" Filosofando,analisando... ou profetizando..."

E, os Morangos

 
Rubem Alves: "Jovem não fala retrato, fala foto.
Tenho que escrever rápido porque não
sei quando vou partir"

- “Tempus fugit”. Portanto, “carpe diem”. O tempo voa. Então, colhamos o dia. Vivamos o momento, pois envelhecer é só canseira e enfado. É como a luz do crepúsculo, que vai se transformando rápida e melancolicamente, até o mergulho final na escuridão da noite. O pior da velhice, entretanto, é que as pessoas passam a nos tratar por diminutivos, como fazem com as crianças. “Você está doentinho?” “Quer um docinho?” É humilhante.

Essas imagens sobre o envelhecer são descritas pelo escritor, psicanalista e teólogo Rubem Alves em seu livro “Pimentas - Para Provocar Um Incêndio Não É Preciso Fogo” (Planeta), no qual trata dessa “fase crepuscular” da vida com poesia, ironia e melancolia. São 74 fragmentos sobre temas variados — educação, política, poesia, céu e inferno e passagens curiosas do Antigo Testamento — de um autor que completou 79 anos em setembro.

Ele soa um pouco triste ao telefone, falando da varanda de seu apartamento, na cidade de Campinas. “O tempo me foge. Não tenho mais tempo para escrever um romance. Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim. ‘Pimentas’ é uma coleção de fragmentos - sou um retratista. Outra palavra que revela idade.”

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Valor: O senhor conta no livro um episódio engraçado sobre um “flerte” no metrô que não terminou como gostaria. Como foi isso?
Rubem Alves: Eu descobri que estava velho numa situação surpreendente. Isso foi há vinte anos. Estava em São Paulo, peguei o metrô, estava lotado. Eu era jovem, pernas fortes, segurei no balaústre e comecei a olhar para os rostos das pessoas. Rostos contam histórias. Olhando para as pessoas você pode imaginar contos, muitas coisas. Eu estava ali, imaginando as crônicas que poderia escrever, quando vi uma moça me olhando com mansidão, quase com ternura. Eu fiquei comovido com aquele olhar. Eu olhava para ela, ela olhava para mim. Percebi que ela devia estar comovida com a minha presença. Houve um momento de suspensão romântica. Pensei: manchete do meu conto — ‘Rubem Alves encontra inesperadamente no metrô o grande amor de sua vida’. Comecei a ter fantasias. Foi nesse momento que ela me fez um gesto de carinho. Ela se levantou e me ofereceu o lugar. Quando ela fez isso, é como se dissesse para mim: o senhor (certamente ela estava pensando em senhor, não em você) não pertence ao meu mundo. O senhor deve ter pernas bambas. Naquele instante eu percebi que estava perto dela, mas estava muito longe dela. Ela era uma moça e eu era um velho. A partir dali o tema da velhice começou a ser importante para mim. Comecei a prestar atenção no que acontece com as pessoas quando elas se descobrem velhas. Fiz então uma série de observações sobre isso.

"A percepção é que a hora de partir está chegando.
O crepúsculo é essa consciência de
que o tempo passa rapidamente,
a vida passa rapidamente."

Valor: Cite algumas.
Alves: A gente é velho quando as moças nos oferecem lugar no metrô. A gente é velho quando uma moça lhe dá o braço para ajudar a subir a escada e você tem que aceitar a delicadeza. Eu agora tenho que ter cuidado, tenho que olhar pro chão e medir os meus passos. Coisas que eram naturais - andar, subir escada, descer escada - coisas simples passam a não ser mais.

Valor: Mas o senhor não está se concentrando muito no aspecto físico do envelhecimento?
Alves: É, mas o olhar das pessoas também muda.

Valor: O que muda nesse olhar?
Alves: Você deixa de ser o homem másculo, viril, objeto de contemplação das jovens, e passa a ser um ser crepuscular. O que é o crepúsculo? Nele, o tempo passa muito mais rápido. Neste instante, eu estou sentado aqui na minha varanda, o céu está muito azul, o tempo está parado. Assim é a juventude — na juventude, o tempo para. Mas quando chega o crepúsculo, começa a haver transformações rápidas no céu. Rapidamente, as cores vão se alterando, o azul fica verde, o verde fica amarelo, amarelo fica abóbora, abóbora fica vermelho, o sol está se pondo, tudo fica roxo e logo o céu está mergulhado na escuridão. A percepção é que a hora de partir está chegando. O crepúsculo é essa consciência de que o tempo passa rapidamente, a vida passa rapidamente.

"Uma das coisas da velhice é o cansaço.
Dá uma canseira de viver, sabe?
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Mas a gente não tem mais disposição
para fazer a obra nascer."

Valor: O senhor cita numa das crônicas o livro de Eclesiastes, quando fala do envelhecer como os anos nos quais o homem não encontra mais prazer nenhum.
Alves: Sim, a gente descobre que o tempo é curto. Aqui na minha varanda tem duas frases que mandei gravar em madeira - Tempus Fugit. Se o tempo foge, eu preciso correr. Então mandei gravar Carpe Diem, colha o dia. Viva o momento. Mas isso dá uma tristeza na gente.

Valor: Envelhecer também não é sobre perder a capacidade de sonhar? A sua escrita, contudo, revela uma pessoa que não perdeu essa capacidade. Que sonhos o senhor tem cultivado?
Alves: Tem uma frase de Fernando Pessoa que diz assim - Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Talvez essa pressa em produzir tenha a ver com essa sensação de que os dias passam muito rapidamente . Comecei a ler esses dias um livro enorme de John dos Passos, um livro monumental. Eu não tenho mais tempo para escrever livros enormes. O tempo me foge. Não tenho mais tempo para escrever um romance. Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim. “Pimentas” é uma coleção de fragmentos - sou um retratista. Olha aí, eu já disse uma palavra que revela a idade. Jovem não fala retrato, fala foto. Eu tenho que escrever rápido porque não sei quando é que vou partir.

"Agora, a felicidade aqui da minha varanda
é ver os ipês, que teimam em florescer.
Para florescer eles têm que perder todas as folhas.
Árvore pelada, na cabeça da gente,
está se preparando para morrer.
Mas em vez de morrer o que os ipês fazem?
Eles florescem."

Valor: O senhor parece cansado.
Alves: Uma das coisas da velhice é o cansaço. Dá uma canseira de viver, sabe? Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Mas a gente não tem mais disposição para fazer a obra nascer. A gente tem que agarrar o que resta. Gosto de contar a história de um homem que ia caminhando pela floresta, a mata estava escura. De repente, ele ouve o rugido de um leão e sai correndo, mas como está escuro ele cai num precipício. Ele se agarra a um galho preso no abismo, olha para cima, o leão, para baixo, o abismo; então ele nota que bem à sua frente está brotando um galho com uma fruta vermelha. É um morango. Ele estende o braço e come o morango e se delicia. As pessoas perguntam - qual o final da história? O homem caiu? E eu respondo, não tem final, é só isso mesmo. Você não entendeu? Quem está pendurado sobre o abismo sou eu, é você , todos estamos sobre o abismo, portanto, o que nos resta a fazer é comer os morangos.

Valor: E quais são os morangos que o senhor tem apreciado atualmente?
Alves: São coisas pequenas, simples. Ontem, por exemplo, ouvi pela internet a Pour Elise, de Beethoven, tocada num órgão feito de taças de cristal, um som inesperado, que vai surgindo aos poucos. Qual é a importância disso? Nenhuma! Mas me feliz naquele momento.

Valor: Na realidade, não deveríamos viver sempre desse jeito, ter essa capacidade de tirar alegria de coisas pequenas?
Alves: O Guimarães Rosa tem uma frase verdadeira: alegria, só em raros momentos de distração. Agora, a felicidade aqui da minha varanda é ver os ipês, que teimam em florescer. Para florescer eles têm que perder todas as folhas. Árvore pelada, na cabeça da gente, está se preparando para morrer. Mas em vez de morrer o que os ipês fazem? Eles florescem. No livro conto a história de uma escola que organizou uma exposição de desenhos dos alunos sobre coisas que escrevi. A professora perguntou para as crianças: quem é Rubem Alves? E uma menina respondeu: Rubem Alves é um homem que gosta de ipês amarelos. Isso é muito comovente.
 
Valor: Algumas crônicas falam sobre educação, de uma maneira crítica, e da proximidade entre velhos e crianças. “As crianças nos salvam de um envelhecimento triste.”
Alves: Os avós estão mais próximos dos netos que os pais. Os pais ficam preocupados em colocar o filho em escola forte, para passar no maldito vestibular. É uma perda de tempo isso, as escolas não ensinam a sabedoria da vida, e os avós não têm tanto essa preocupação com desempenho. A alma dos velhos é muito parecida com a alma das crianças.

"Quem tem muitas vinganças a realizar
faz mosaicos de infernos, diz o
[filósofo Gaston] Bachelard.
Deus não tem vingança
nenhuma a realizar.
Se é que Deus existe.
Deus não pune nada,
vai punir o quê?"

Valor: Nos fragmentos, o senhor fala também sobre céu e inferno. Uma frase que me chamou a atenção é: “É inimaginável que um Deus de amor castigue com sofrimentos eternos pecados que foram cometidos no tempo”. Qual a sua ideia de inferno?
Alves: São Tomás de Aquino tem uma frase horrenda que diz que “Deus e os salvos contemplam, dos céus, os condenados, dos estertores da sua agonia, para que sua alegria se cumpra”. Quem foi que criou o inferno? Não foi o diabo. Se Deus é onipotente, então o inferno é produto da vontade de Deus. Eu já acreditei nisso, sabe? Já perdi o sono por causa disso. Quem tem muitas vinganças a realizar faz mosaicos de infernos, diz o [filósofo Gaston] Bachelard. Deus não tem vingança nenhuma a realizar. Se é que Deus existe. Deus não pune nada, vai punir o quê? Um pobre mortal que foi enrolado pelas artimanhas da estupidez humana? Acreditar que o universo tem essa dimensão de vingança? Deus não está se vingando de seus desafetos. Além disso, os pecados humanos são cometidos no tempo — por uma pessoa que vai viver setenta, oitenta anos. E o inferno é por toda a eternidade, é para sempre. Se eu fosse Deus mandaria um castigo para todas as pessoas que pensaram essas coisas horríveis de mim. O mesmo castigo que aconteceu entre o povo de Israel e os filisteus lá no Velho Testamento. Ele castigou com uma praga terrível — todos os filisteus ficaram tomados de hemorróidas. Numa região que não tinha nem um riachinho onde pudessem se refrescar.

Valor: O senhor cita esse e outros episódios muito esquisitos do Antigo Testamento. Um deles é sobre o profeta Eliseu, amigo de Elias.
Alves: O que tem de maluquice no Velho Testamento, de maldade... O profeta Eliseu era discípulo de Elias. Eliseu era vaidoso e tinha muita raiva por ser careca. Mas ele era muito poderoso. Um dia, Eliseu estava caminhando pela estrada e vinham em sua direção 42 crianças, que começaram a rir dele. Sabe o que ele fez? Ele invocou o poder de Jeová, que fez sair do mato duas ursas que devoraram as crianças. E o profeta, sem se comover com isso, simplesmente continuou a sua caminhada. Não fez nada para defendê-las. Tá lá na Bíblia.

"As mudanças vêm de dentro, quando alguma coisa começa a operar dentro da gente e a gente
começa a perceber os absurdos."

Valor: É difícil convencer as pessoas que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo Testamento?
Alves: Ah, eu não tento mais convencer ninguém de nada. As pessoas acreditam no que querem acreditar. As mudanças vêm de dentro, quando alguma coisa começa a operar dentro da gente e a gente começa a perceber os absurdos. Tem que separar o trigo do joio. Na Bíblia tem coisas lindas - o Senhor é meu pastor, nada me faltará, conduz-me por águas tranquilas.. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal algum porque tu estás comigo ...

Valor: Pura poesia.
Alves: Poesia. Veja o que aconteceu bem agora. Aqui na minha varanda, acabo de ouvir um barulho. Olhei e vi que tinha entrado uma cigarra pela janela. Você sabe que as cigarras são seres subterrâneos, elas vivem nas raízes das árvores. Elas não veem nada. Mas há um momento em que alguma coisa diz para esses seres subterrâneos: cigarra, está na hora de se transformar num ser alado. Então elas saem da terra, sobem o tronco das árvores, tiram a casca dura que as envolve e ganham asas. Daí elas cantam, cantam, cantam. Cantam para quê? Para celebrar o amor, para chamar os machos. Depois de realizar o amor, elas esperam a morte.

Valor: Por que razão o senhor terminou um livro tão poético com um assunto tão árido quanto a diabetes?
Alves: Para chamar a atenção dos diabéticos para o fato de que eles e eu estamos pendurados sobre o abismo e vai chegar a nossa hora. E por isso a gente precisa tomar cuidado, a menos que você queira morrer. Para dizer às pessoas que vivam bem. Cuidem da vida, não vão comer bombom, porque bombom é bom, mas melhor é ficar vivo.
--------------------
Reportagem Por Marília Camargo Cesar | Valor
Destaques do Blog
Imagem :ipê amarelo, da Internet

"" Vergonha Alheia" ,Luciano Pires

                                        " que vexame " e é nacional... "

Luciano Pires*


Sigo com interesse o programa The Voice Brasil na Rede Globo. Programas de calouros são criação do rádio, muito anteriores ao surgimento da televisão. Existe até uma história muito saborosa envolvendo Elza Soares e Ari Barroso em 1950. Elza, com 13 anos de idade e um filho doente que viria a morrer de fome, foi como caloura ao programa que Ari apresentava na Rádio Tupi. Elza, uma menina pobre, magrinha e mal vestida, ao entrar foi recebida com uma pergunta pelo apresentador:

- De que planeta você vem, minha filha?

- Do planeta fome.

O resto é história.

Qualquer brasileiro que ouviu rádio ou assistiu televisão nos últimos 80 anos sabe o que é um programa de calouros. A pessoa acha que tem algum talento e se apresenta para um grupo de “jurados” que premiará ou punirá a performance. Não sei como era antes, mas lembro de vários programas, especialmente do Chacrinha, um dos que mais abusava dos calouros, levando pessoas sem qualquer talento para serem ridicularizadas em público. Aquilo era divertido e no meio das baixarias sempre aparecia alguém que fazia o velho guerreiro perguntar:

- Vai para o trono ou não vai?

A alma daqueles programas era a vergonha alheia que sentíamos por gente que soltava a voz desafinada em público. E quanto mais feia, mal vestida e desengonçada a pessoa, mais sucesso fazia.

"E parece haver um prazer mórbido em ver alguém passar um constrangimento. Não é que gostemos de ver, é que a situação nos traz o prazer do alívio daquele
“ainda bem que não foi comigo.”


A vergonha alheia é causada pelos tais neurônios-espelho, que simulam em nosso cérebro as mesmas sensações de medo, prazer, alegria e vergonha que observamos em outras pessoas. E parece haver um prazer mórbido em ver alguém passar um constrangimento. Não é que gostemos de ver, é que a situação nos traz o prazer do alívio daquele “ainda bem que não foi comigo.”

Mas os marqueteiros da mídia há muito descobriram essa fascinação mórbida e tiram todo proveito para garantir audiência. Ou as vídeo-cassetadas do Faustão são o quê? O processo de seleção de programas como Ídolos? As bebedeiras e baixarias do Big Brother Brasil? Claro, a cada demonstração de constrangimento alheio a audiência sobe...

Muito bem. Mas o The Voice Brasil é diferente. O programa é focado no mérito e não tem um processo de seleção que mostra gente ruim. Os “calouros” são de altíssima qualidade, gente que canta excepcionalmente bem. O resultado é que não existe vergonha alheia, só admiração plena e a torcida pelos melhores entre os melhores. Raul Gil tem há anos algo parecido em seu programa, mas sem a plástica, sem a audiência, sem a produção e o enredo que a Globo apresenta.

Quanto termino de assistir ao The Voice Brasil, fica a sensação boa de ter visto gente competente desempenhando seu melhor. Muito melhor que sentir vergonha alheia.

                              Não haverá uma lição aí
?
                                                                              *Luciano Pires é editor do Café Brasil

TAM< pode demitir tripulantes a partir de 2013 >



TAM pode demitir tripulantes a partir de 2013 Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, presidente da companhia aérea afirmou que haverá nova redução de oferta de assentos no ano que vem
Divulgação/Tam

São Paulo - O ano de 2012 não tem sido dos melhores para as companhias aéreas brasileiras, e, com a TAM, não é diferente.

A companhia planeja fazer nova redução de oferta de assentos em 2013 e isso pode acarretar um ajuste no quadro de funcionários, afirmou Marco Antonio Bologna, presidente da TAM, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, desta quinta-feira.

De acordo com o executivo, a companhia está planejando reduzir 7% da oferta de assentos no ano que vem. A medida deve ser aplicada depois do carnaval Neste ano, a TAM anunciou redução de 2% de sua oferta.

"Devemos ter um ajuste de pessoal depois de fevereiro, quando acabar a alta temporada", afirmou Bologna, ao Estadão.

Ainda, segundo a reportagem do Estadão, a companhia acredita que não vai perder mercado com a medida, pois as condições ruins do setor afetam todas as empresas aéreas brasileiras.

" Segurança ( uma modesta proposta ) de Contardo Calligaris

                                                             Contardo Calligaris A certeza de que o socorro será precário, lento ou ausente alimenta a sensação de insegurança

A CIDADE de São Paulo está insegura como não estava há tempos. Claro, estão acontecendo ataques mortíferos contra policiais e prováveis execuções dos supostos responsáveis por essas mortes. Mas não é só isso.

A nova insegurança de nossas ruas é óbvia para qualquer paulistano, no aumento dos crimes contra ele mesmo ou contra seus próximos. No dia 21 último, a morte de Caroline Silva Lee, de 15 anos, confirmou o que já sabíamos: a cidade, absurdamente perigosa, parece voltar aos piores momentos do fim dos 1980 e começo dos 1990.

Naquela época, as grandes acusadas eram a exclusão social e a desigualdade excessiva de nossa sociedade. Hoje, parece mais provável que alguns jovens da novíssima classe C estejam adotando, como símbolo de status, uma necessidade imperiosa de consumo -e isso sem incorporar hábitos menos tentadores e menos conspícuos da classe média (ética do trabalho, meritocracia etc. Nota: melhorias socioeconômicas não implicam necessariamente melhorias do tecido social da comunidade).

Hoje, como naquela época, é pífia, se não nula, a confiança dos cidadãos no socorro da força pública.

A prova disso está nas estatísticas apresentadas pela Folha na sexta, 26, (http://migre.me/bsb4k). Em 2012, os latrocínios (roubo seguido de morte) aumentaram 27% em relação ao mesmo período de 2011 e os roubos de veículos aumentaram 13%, enquanto os roubos simples aumentaram apenas 4%. Nenhum mistério nessa disparidade: o crime é denunciado quando há morte ou roubo de veículo (o seguro pede o boletim de ocorrência). No mais, chamar a polícia e registrar a ocorrência é fora de questão: já pegaram meu relógio, vão querer meu tempo também?

Silogismo. 1) A certeza de que o socorro será precário, lento ou ausente alimenta a sensação de insegurança; 2) a sensação de insegurança entrega a rua aos criminosos; 3) diminuir a sensação de insegurança seria uma maneira de combater a insegurança efetiva da cidade.

Um carro de bandidos em fuga capotou na sua frente atropelando duas pessoas, que agora gemem debaixo do carro revirado. Você, escondida, tem como dar um telefonema.


Qual é o número mesmo? Dos bombeiros, para que levantem o carro acidentado e salvem os atropelados? Seria 193, se não me engano. Da Polícia Militar? Esse, a maioria das pessoas conhecem: 190. Ou da Polícia Civil? Seria 147, é isso? O pronto-socorro médico é 192, mas será que são eles que despacham as ambulâncias?

O 190 responde, em tese, no primeiro ou segundo toque. Já, se você for atrás de uma ambulância, pode acontecer a situação descrita num tweet de @toledoana (em "Mdrama", SP Escola de Teatro, Gov. do Estado): "Você ligou para Godot. Por favor, aguarde na linha. Sua ligação é muito importante para nós".

A segurança pública deveria ter um número único, que respondesse obrigatoriamente com a rapidez que constatei no 190. Quem atende deveria 1) decidir qual é o socorro certo e despachá-lo (ambulância, guindaste, polícia) com a urgência adequada, 2) permanecer na linha, assistindo quem ligou até a chegada do socorro, 3) preparar, enquanto isso, o encaminhamento do socorro (encontrar e prevenir o melhor hospital de destino, por exemplo).

No atendimento, a prioridade deveria ser saber o local e a natureza da urgência (o CPF e o RG de quem chamou não são condições para escutar e assistir).

A rapidez e a competência desse atendimento unificado seriam uma piada de mau gosto se não houvesse um tempo de resposta decente entre a chamada e a chegada do socorro.

As unidades móveis de socorro (carros das polícias e dos bombeiros, ambulâncias públicas ou privadas) já dispõem (ou deveriam dispor) de GPS, de maneira que pode ser monitorada constantemente a cobertura do território do município, garantindo que nenhuma área esteja fora de um alcance rápido.

Em Nova York, o tempo médio é de quatro minutos para os bombeiros e oito minutos para a polícia (esse tempo desce drasticamente se a urgência for uma ação criminosa armada em curso).

Que tal propor uma meta -um tempo médio de resposta- até o fim do ano? Muitas vezes, de qualquer forma, os socorros chegarão tarde demais, mas 1) será possível medir, em cada caso, onde e por que se originou o atraso e, sobretudo, 2) será bom os cidadãos sentirem que, na hora em que eles pedem socorro, alguém se apressa.

Como disse, a segurança é, antes de mais nada, uma sensação.

" Uma conversa com os meninos surdos "

                                                                    DAVID COIMBRA
Vou contar algo que aconteceu comigo esta semana, quando fui dar uma palestra para crianças surdas. Eram os alunos da Frei Pacífico, uma escola para surdos que fica nos altos do bairro Santo Antônio. Como entre as minhas incontáveis ignorâncias está a de não saber a língua dos sinais, a Libras, precisei da professora, a Andréia Didó, como intérprete.

Fiquei emocionado ao conhecer os alunos. Eles leram alguns dos meus livros, ou a professora leu para eles, e fizeram trabalhos a respeito. Descobri que surdos desenham muito bem e que são observadores sagazes. Em breves minutos, eles analisam uma pessoa, tiram conclusões sobre ela e criam um sinal para designá-la. Gostei do sinal que me designava.

Há algo sobre os surdos que a maioria dos ouvintes não sabe: é terrivelmente difícil, para um surdo, aprender a ler e a escrever. Porque a nossa escrita é fonética, cada letra representa um som. Aliás, outro dia disse isso para o meu filho, e ele:

– Todas as letras são sons, papai? Todas?

– Sim. Todas. – E o agá? Sacaninha.

Mas a verdade é que as letras representam, sim, sons, mesmo que o agá seja como o arroz e só sirva para combinações. Assim, os surdos precisam atravessar obstáculos do tamanho de cordilheiras para aprender a ler, e o trabalho de professoras como a Andréia é heroico.

Tentei incentivá-los garantindo que, se aprendessem a ler e a escrever com fluência, eles desbravariam mundos novos, mas logo percebi que, ali, eu talvez tivesse mais a aprender do que a ensinar. Descobri, por exemplo, o quanto o preconceito os amassa a cada dia.

Um menino bom de bola desistiu de ser jogador de futebol porque não conseguia entender o treinador, nem ouvir o apito do juiz. Uma menina pediu para uma senhora lhe indicar as horas no relógio, na parada de ônibus, e foi enxotada como se a estivesse assaltando. Outra confessou sentir profunda vergonha quando os ouvintes ficam olhando com intensidade para os surdos que conversam por sinais.


E, finalmente, havia aquele menino. Um garotinho muito inteligente, muito vivaz, muito participativo. Estava instalado na primeira fila, fazia perguntas e, quando soube que eu ia falar de pé, fez questão de pegar a cadeira que fora reservada para mim, só porque era onde deveria sentar-me. Gostei de imediato daquele menino tão espirituoso.

No final do encontro, ao ser acompanhado pela professora pelo pátio da escola, fiz algumas perguntas sobre ele. Soube, então, que o menino é portador de uma síndrome e que está ficando cego. A missão da professora é ensinar-lhe o quanto antes a linguagem dos sinais e o alfabeto, para que ele possa reconhecê-los pelo tato.

Cego, surdo e, por consequência, mudo. Meu Deus. Pensei nas minhas aflições, e senti vergonha.

Na saída, com o coração apertado, insisti:

– Mas a cegueira é irreversível? Não tem cura? Não há nada que se possa fazer?

– Não tem... – disse a professora. – A família já tentou tudo.

Ela abriu o portão e eu o cruzei. Da calçada, fiz uma última pergunta:

– Como ele é no dia a dia?

A professora sorriu e deu a última resposta:

– É um menino muito feliz.


" Finados : Vivos elaboram o luto< morte > Novembro 02

                       Reinvenção de vivos e finados

Finados, mortes. Seria melhor nem precisar tocar nesses assuntos, nem no Dia de Finados, como, aliás, muita gente esperta, moderna e ocupada demais com tantas outras coisas já está fazendo. Esses negócios de luto, roupas pretas, sentimento de morte, pompas fúnebres e tal ficaram meio para trás nesses tempos apressados.

A galera, de repente, está mais interessada no feriado, em outros lances mais vivos e elabora o luto rapidinho. Se a única certeza com relação ao futuro é o tal encontro com a moura torta, talvez o melhor seja ficar assobiando no escuro, disfarçando o medo e pensando em assuntos mais amenos.

Mas a memória e o pensamento são inevitáveis como o olfato e, neles, as coisas acontecem muitas vezes. E as pessoas não perderam a mania chata de morrer e convidar para funerais. Fazer o quê? Nesses tempos em que a gente tenta se reinventar, como diz o outro, que tal também reinventar as memórias, a morte e os que já estão no andar de cima?

Ao menos isso, não é? Novas visões, novas lembranças e novos conceitos, que tal? Novas conversas com os falecidos. Reinventar, aliás, é umas dessas palavrinhas que andam na moda, tipo volátil, ficar, revitalizar, customizar, reengenharia, repaginar e outros res. Os velórios não têm mais velas, comida, bebida e as famosas piadas de velório e cenas mais apimentadas e/ou pitorescas andam, infelizmente, escassas.

As pessoas ficam consultando o relógio, os celulares tocam e fica muita gente falando alto, sobre tudo quanto é assunto, perto do defunto, que não pode se manifestar, pedir silêncio e descansar direito. Bom, isso de dizer que o ente querido descansou ainda se usa, quando é o caso. Falar lugar-comum segue confortável.

Pois, pensando bem, talvez nossa melhor homenagem para os saudosos que estão em outras dimensões seja pensar neles com carinho, celebrar a vida, o tempo e o mundo, que não param.
 


Se a gente pensa demais neles, eles nos chamam antes da hora. Melhor não. Como diz a canção italiana já clássica Il mondo, de Jimmy Fontana, o velho mundo segue girando no espaço infinito, com amores recém-nascidos e mortos, com alegrias e dores, com a noite seguindo o dia e com o dia sempre vindo. Não vou me despedir como certas pessoas, em certas cidades italianas, desejando uma boa morte. Menos, não é?

Me despeço desejando feliz e vivo Dia de Finados, mesmo lembrando que tristeza não tem fim, felicidade, sim, e que a vida tem sempre razão, mesmo quando ela se vai, levando gente querida.
                                                          Jaime Cimenti

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

" A Santidade do Aprendizado " ...

 



Moza Bint Nasser*

Em Tal Rifat, nas cercanias da cidade síria de Alepo, as crianças não têm escola para frequentar. O edifício, atingido duas vezes por ataques aéreos nas últimas semanas, está completamente arruinado. Os alunos de Azaz, outra cidade próxima, não estão em melhor situação: há uma base militar onde costumava ficar a escola. Fora dos limites do país de mais de 23 milhões de pessoas, nos acampamentos superlotados da Jordânia (outro país do Oriente Médio) as crianças refugiadas turcas ou libanesas têm sorte se conseguirem encontrar um professor para continuarem a ter aulas.

A educação está sendo atacada, e não só na Síria, mas em várias regiões do mundo. Do Afeganistão à Costa do Marfim, de Gaza ao Sudão do Sul, a história é a mesma. Há 28 milhões de crianças vivendo em zonas de conflito sem receber nenhuma educação e o número de ataques contra os estabelecimentos de ensino está aumentando. Apesar da proibição explícita por parte das leis internacionais, a santidade do aprendizado é violada diariamente das maneiras mais absurdas possíveis. A guerra civil deixa inúmeras crianças fora da escola. Há alguns motivos para isso. Um é que unidades estão ocupadas por refugiados. Outro é que muitos pais têm medo da violência.

Felizmente, a comunidade global está começando a notar esse problema pernicioso e, nas próximas semanas e nos próximos meses, uma série de iniciativas importantes vai falar sobre isso.

Primeiramente, precisamos amplificar as vozes das vítimas e deter a corrupção moral com a perspectiva real de punição. O Education Above All, um grupo do qual tenho a honra de ser presidente, publicou um item importante esta semana: Protecting Education in Insecurity and Armed Conflict (Como proteger a educação em tempos de insegurança e conflitos armados), um manual que reúne as leis internacionais existentes sobre a proteção da educação em zonas de conflito. Pela primeira vez os investigadores, advogados e juízes têm um livro em que basear o comportamento dos violadores da educação. É um novo e poderoso instrumento de justiça.

E enquanto os líderes mundiais se reúnem para a Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, eu me juntarei ao secretário-geral Ban Ki-moon e outras pessoas para lançar uma grande campanha que lidará com o fato vergonhoso de que 61 milhões de crianças no mundo inteiro não podem ir à escola.

Por maiores que sejam os desafios, é possível, até mesmo nas piores circunstâncias de pobreza e conflito, oferecer às crianças uma educação significativa. Durante o meu trabalho como enviada especial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e por meio dos meus projetos no Iraque, em Gaza, na Indonésia e em outros lugares, tive o privilégio de testemunhar a eficácia de intervenções relativamente simples, mas inovadoras.

Meus mandatos na Unesco e na ONU são globais e existem crianças que precisam desesperadamente da nossa proteção em todas as regiões, mas há lições importantes a serem aprendidas com a minha região natal no Oriente Médio, onde pudemos presenciar avanços importantes. As matrículas no ensino fundamental aumentaram em mais de 10% na última década, as diferenças entre os sexos diminuiu e mais crianças estão passando do ensino fundamental para o médio. Apesar disso, mais de 6 milhões de crianças ainda não vão à escola e mais de um quarto dos adultos são analfabetos. Com dois terços da população árabe com menos de 25 anos de idade (o chamado youth bulge, ou "explosão juvenil"), a maneira como os jovens enfrentarão os anos que estão por vir determinará, em grande parte, o futuro da nossa região e das nossas perspectivas comuns de paz e segurança globais.

O Iraque é um exemplo. Ele já foi um país líder em educação no mundo árabe, mas sofreu muito como resultado das três décadas de conflito. Enquanto na década de 1980 as taxas de alfabetização eram altas, hoje quase um quarto dos iraquianos é analfabeto e a taxa é ainda maior em algumas áreas rurais e entre as mulheres. Ao ver o trabalho que lá está sendo feito para incentivar a educação formal e informal, treinar professores e promover a alfabetização, fiquei convencida de que a educação é a chave para ajudar o berço da civilização a curar suas feridas e se reerguer.

Temos muito a ganhar. Sabemos que uma criança que nasce de uma mãe que sabe ler tem 50% mais chances de viver além dos 5 anos de idade. Nos países em desenvolvimento, cada ano extra de ensino fundamental pode acrescentar, no mínimo, 10% aos ganhos futuros da criança. Essa pode ser a saída do círculo vicioso e a entrada para o virtuoso. Os adultos com um grau de segurança financeira têm muito mais chances de investir na educação dos filhos.
É por isso que, apesar da quantidade e da escala dos desafios que enfrentamentos, nunca me senti tão empolgada e cheia de esperança pelas crianças esquecidas quanto me sinto hoje. O Qatar vai fazer a sua parte. Em novembro a comunidade global de educação se reunirá em Doha para o World Innovation Summit for Education (Wise) anual, que terá como tema Transformando a Educação. Um dos prêmios Wise 2012 será destinado a reconhecer o projeto que forneceu melhor financiamento inovador para a educação primária. Isso reflete o meu apoio aos Objetivos do Milênio traçados pela ONU, que inclui, entre outras metas, ter um ensino básico universal.

Este ano convidarei outras pessoas para se juntarem a mim numa nova iniciativa que oferecerá educação de qualidade e resultados verdadeiramente mensuráveis em benefício das crianças ao redor do mundo.

A educação é uma bênção. Ela nos dá oportunidades, influência e uma obrigação moral clara de usar esses dons para proteger esse direito para outras pessoas.
 
* É A ENVIADA ESPECIAL DE EDUCAÇÃO BÁSICA E SUPERIOR DA UNESCO
Fonte: Estadão on line, 31/12/2012

" Bruxas ou Bíblia ? "

 



Felipe Lemos*
Doces ou travessuras? É a pergunta tradicional feita há muitos anos por crianças em várias partes do mundo, inclusive em alguns lugares do Brasil, no tal Halloween ou Dia das Bruxas, que é lembrado no 31 de outubro. Não se sabe bem a origem da data, mas tem a ver com cultos pagãos da antiga Europa e com tradições que conduzem ao Dia dos Mortos. Pessoas, sobretudo os pequenos, saem de casa fantasiadas de bruxas ou bruxos, ou mesmo de monstros, em uma estranha honra ou reconhecimento a algo que talvez nem entendam exatamente do que se trata.

Enquanto isso, do outro lado da rua, em uma igreja cristã, a amnésia histórica tomou conta dos cristãos que, um dia, de alguma forma, estiveram ligados a um episódio emblemático ocorrido também num 31 de outubro (de 1517), no distante castelo de Wittenberg, na Alemanha. Ali, um monge questionador e sincero temente a Deus, chamado Martinho Lutero, afixou na porta do castelo o que se convencionou chamar de as 95 teses sobre justificação pela fé. Talvez não saibamos de memória o conteúdo do que Lutero escreveu, mas sabemos que ele questionava atitudes, conceitos e ensinamentos contrários à Bíblia. E mais ainda: ele exaltava a Bíblia como regra de fé para os que se dizem seguidores de Cristo.
Mas a pergunta hoje é outra. Aliás, há outras indagações. O que está sendo mais bem promovido: o Halloween ou a Reforma Protestante? O que é mais lembrado pela sociedade, especialmente a que se autodeclara cristã e conhecedora da Bíblia Sagrada?
O tempo vai passando, mas o Halloween é visto na TV, nas lojas de brinquedos, nos adereços dos supermercados, dos shoppings, nas escolas e ouso até acreditar que em algumas igrejas. A atmosfera do Dia das Bruxas é sentida em vários ambientes e trata de impregnar a todos quantos for possível. Virou moda. É produto tipo exportação para crianças e adolescentes que sabem o que devem fazer nesse dia se quiserem estar em harmonia com a data, mas não sabem, talvez, quem foi Lutero, desconhecem o que diz na Bíblia e são hesitantes ao falar do próprio Jesus Cristo.
Não adianta culpar a Europa antiga e nem a atual por seu desprezo à origem protestante. A responsabilidade é minha e é sua também, que está lendo esse texto. O cristianismo bíblico precisa estar na mente da sociedade, especialmente de crianças, adolescentes e jovens. A Bíblia, contudo, será lembrada com amor, carinho e interesse se for realidade para esse grupo. Eles precisam ver exemplos de adultos, pais, professores, líderes, que realmente consideram o livro sagrado do cristianismo como algo sagrado mesmo. Sagrado, não porque seja intocável, mas porque é a Palavra de Deus válida para hoje e para sempre. Palavra que levou um homem solitário como Lutero a escrever cartas ao líder máximo de sua igreja, à época, pedindo que se observassem os ensinos ali contidos. Que o levou a defender a fé inabalável em Jesus Cristo como suficiente para salvação sem necessidade de indulgências, obras de sacrifício físico, misticismos inventados por inescrupulosos aproveitadores do fervor sincero.
E então? A maior propaganda da Bíblia parece ser uma vida em harmonia com ela. Halloween é forte, principalmente porque o espírito de reformadores, como Lutero, hoje é fraco. Na falta de seguidores fieis e equilibrados da Bíblia, o povo prefere bruxas, doces e travessuras no 31 de outubro.
 
(Felipe Lemos é jornalista e assessor de imprensa da Igreja Adventista na América do Sul)
Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2012/10/31